My Invisible Love
2 Accident
Notas iniciais
Um grupo de adolescentes andava pela avenida principal, na rua da praça a qual eu estava a alguns metros, encostada em uma das árvores, abraçando as próprias pernas. Que já não bastassem serem pálidas por minha mania de estar sempre de calça comprida, agora pareciam quase transparentes, fantasmagóricas.
Dei um leve suspiro ao ver o grupo de quatro garotos e três garotas se aproximando, os braços uns nos ombros dos outros, sorrindo e rindo, xingando amigavelmente uns aos outros, tirando fotos com seus celulares caros e não notando a minha diminuta presença.
Eu ainda não havia superado totalmente o fato de ninguém poder me ver e apenas arrepiarem-se quando ficavam próximos, como uma das garotas do grupo que se sentou ao meu lado, encostando-se na árvore e apenas tremendo de leve com minha presença, que logo foi ignorada com uma jogada de seu longo e escovado cabelo loiro para o meu lado.
Levantei-me deixando o grupo tomar o espaço onde eu estava. Andei pela praça e por seus longos gramados, desviando de toalhas de piquenique, pessoas correndo e observando frisbees atravessando meu corpo sem parar nele e apenas tremeluzindo levemente minha forma.
Eu costumo passar muito tempo por aqui, não lembro o porquê exatamente, mas tenho quase certeza de que passei muito de meus dias enquanto era viva por aqui, além disso, o lugar me traz uma sensação de paz, mesmo que eu tenha que ficar observando as pessoas irem e virem, com seus corpos cheios de calor, vida e sonhos. Às vezes tenho até a sensação de estar me alimentando desses atributos.
Quando me dei conta, eu estava parada no meio da avenida. Isso acontece frequentemente, eu saio andando e quando dou conta de mim mesma estou parada em lugares inusitados como dentro do chafariz da praça, em cima de uma árvore ou no meio de uma rua como estava agora.
O problema é que isso sempre me causa pânico, não por medo de ser atropelada, até porque não há mais como isso ocorrer comigo, mas como se uma sensação de medo subisse na ponta dos dedos de meus pés até os fios de cabelo. Eu sei o motivo de tanto pânico, porém eu fiquei tanto tempo enterrando essas memórias em minha consciência que agora me parecem lembranças ofuscas e embaçadas.
Corri de volta para a calçada antes de um carro tentar “me atropelar” e continuei seguindo por ela, olhando as pessoas que passavam apressadas demais para perceberem algo de anormal andando no meio delas.
O som de pneus freando chiou no asfalto alto o bastante para toda a praça virar-se para o cruzamento principal da avenida e ver um homem atingido pelo capô de um carro, sendo lançado a metros de distância, caindo no chão com um baque surdo e rolando no asfalto áspero algumas vezes antes de parar de barriga para cima, imóvel.
Pisquei os olhos e me encontrei ao lado do homem, novamente me perguntando como aquilo acontecia. O som de seu coração ecoava em meus ouvidos, as batidas cada vez mais fracas e falhas. Entrei em pânico pela vida do homem, tentei acordá-lo, mas eu não conseguiria mexe-lo e nem tentar resuscitá-lo através de respiração boca a boca ou pressionando seu peito, como eu, debilmente, estava tentando fazer no momento.
–Resista! – gritei sem esperanças de que ele fosse me ouvir.
Afinal, onde estavam as pessoas para socorrê-lo? Por que estavam demorando tanto? Será que o tempo estava passando de forma diferente para eles? Ou simplesmente estavam estáticos a ponto de não conseguirem se mover?
Por um momento, a cabeça dele moveu-se singelamente e um par de olhos castanhos marcantes se fixou em mim.
–Um anjo? – murmurou fracamente, caindo novamente na inconsciência.
Logo depois seu coração parou.
–Não! – gritei desesperada.
Pessoas começaram a cercá-lo por todos os lados até os paramédicos chegarem poucos minutos depois do acidente, o que me pareceram horas, enquanto eu ficava ali, uma forma fantasmagórica ao lado de um corpo sem vida, cercados por corpos que se moviam freneticamente tentando salvá-lo.
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