My Inspiration
2 Garoto Esperto!
Notas iniciais
Não queria ter dito apenas um “Oi” sem sal nem açúcar, mas era a única expressão automática na minha mente. Além disso, como se respirava, mesmo? Depois de sentir o perfume daquela mulher, deixei que a canela perturbasse meus sentidos por completo.
Certeza eu não tinha, mas acredito que ela corou em vários tons de rosa quando percebeu o meu desconcerto com aquele abraço forte. Bom, não foi necessariamente pelo ato, mas sim por ser ELA.
– Desculpe. — estendeu a mão — Sou Emma.
Eu aceitei o cumprimento rapidamente, e aproveitei aquele meio segundo enquanto nos tocamos. Em seguida, passei as mãos pelo meu cabelo — os fios estavam revoltados -, mas aquilo foi uma “capa” para encobrir meu nervosismo.
Uma “Mills” jamais agiria daquela forma infantil, porém, naquela hora eu estava sendo apenas Regina, já que meu sobrenome não seria dito.
– Ela é linda, não é mãe? — Henry quebrou o silêncio, achando que eu não ouviria aquele sussurro.
– Tenho que concordar. — a loira disse no mesmo tom de voz.
Aquilo era verdade? Emma tinha dito que eu era linda ou apenas quis deixar Henry feliz? Meu lado Regina torcia para que ela tivesse falado por conta própria. E o Mills, para que ela comprasse óculos de grau.
– E aí? — o garoto estava falando comigo, mas não prestei atenção em uma palavra.
– O quê?
– Você quer ver minha coleção de super heróis? — estava esperançoso — Me deve uma, já que quase matou o Wolverine.
Ir até o apartamento deles significava aprofundar conversas, aceitar uma xícara de café, rir de coisas inusitadas, e formar amizades. Definitivamente eu não ia. Quanto mais sozinha eu ficasse, melhor.
– Quem sabe outro dia? — olhei para Emma novamente, e seus lábios estavam comprimidos — Preciso ir.
– Por quê? — ele fez biquinho, constatei que era um pouco mimado.
– Regina está cansada, Henry. — a loira agachou-se na altura dele — Qualquer hora ela volta... Não é? — ela esperava que eu dissesse algo.
– É. — apenas concordei.
Não adiantou nada. Ele correu até mim, agarrou-me pela cintura com toda a força que conseguia — e não era muita. Jamais esperei tal reação, até porque eu era uma desconhecida. O garoto tinha mexido comigo, e de uma coisa eu sabia: Não iria embora brigada com ele.
– E se eu for até lá por uns cinco minutinhos? — perguntei sorrindo, e ele rapidamente se desprendeu de mim.
– Vou ficar feliz.
– Nós ficaremos. — a mãe dele o corrigiu, justo quando eu estava tentando não ficar tão boba perto dela...
– Então vem comigo! — ele correu até a porta do prédio e entrou saltitando.
– Muito obrigada. — ela deu um leve aperto no meu ombro — Por sermos reservados, quase não temos amigos.
Aquilo era estranho, não fazia sentido contar algo pessoal sem ao menos me questionar. Afinal, eu poderia ser uma psicopata ou... um palhaço disfarçado, o que era ainda pior.
Por fim, deixei que meus pensamentos desaparecessem e a segui rumo ao prédio.
– Acho que agora vocês têm uma amiga. — eu disse com convicção, indo contra meus métodos de sobrevivência antissocial.
– Hum... suspeito que seja a linda morena que o Henry falou. — minhas pernas bambearam, impedindo qualquer fuga, mas tinha sido apenas uma brincadeira, né?
– Essa eu não conheço, mas tem a Regina. — me fiz de esquecida — Ela serve?
– Melhor ainda. — a loira sorriu ao me responder.
Será que alguém por ali possuía uma bombinha pra asma? Eu tinha esquecido a minha em casa.
...SQ...
Nos primeiros três lances de escada eu já estava implorando pra Emma parar de subir, não da forma verbal, mas sim da física — me escorando nas paredes para que não tombasse. Não praticar exercícios era um ponto negativo da carga de trabalho. Aquilo era uma vergonha.
– Você tem quantos anos? 90? — a loira debochou, mas lancei meu pior olhar, fazendo-a me obedecer — Faltam uns... 20 degraus.
Ouvimos passos, e logo Henry surgiu no topo da escada com um pedaço de brownie nas mãos, e acho que o resto do bolinho estava na boca dele, totalmente cheia, e o pobre garoto tentava engolir.
– Achei que tinha desistido, Gina. — ele disse com naturalidade enquanto os farelos saltavam.
Ninguém tinha me chamado daquele jeito antes. Gostei.
– A velhinha precisou descansar — Emma imitou a voz de uma senhora caquética, provocando risos no filho.
– HA HA HA. — eu ironizei — Só não estou acostumada a subir escadas tão rápido.
– Estamos nessa há 10 minutos! — ela sussurrou.
Sentei-me em um dos degraus, ficando de costas para ambos. Minhas pernas latejavam, e eu suspeitava se já não tinha nove décadas de vida.
– Mãe, ajuda ela da mesma forma que me ajuda. — Henry ria com o que vinha a seguir.
– Hum... Ok. — não entendi aquilo — Regina, qual seu peso e altura?
Oras, que inconveniente!
– Tenho 54 quilos e 1.64m... — respondi contra minha vontade — Por que quer saber?
– Por isso.
Antes mesmo que eu protestasse, a loira desceu alguns degraus, me pegando no colo, apoiando minhas costas para que eu não caísse... Que ridículo agir daquela maneira estúpida, Emma não prezava por sua vida!
– Solte-me! — esbravejei, e ainda pude ouvir Henry gargalhar.
– Sim, Vossa Majestade — ela fez menção de me soltar escada abaixo se eu não ficasse quieta, e foi nesse momento em que entrelacei meus braços ao redor do pescoço dela.
Não pense que foi de propósito, eu só estava tentando evitar um traumatismo craniano.
Só depois eu notei o que havia feito, mas guardei a vergonha para mais tarde. Nós estávamos tão grudadas que eu gostaria de sentir o perfume dela um pouco mais de perto. Mas não fiz isso.
Quando consegui voltar a ser a Regina “sensata”, percebi que os olhos de Emma me fitavam, mas logo se voltaram para algo além de mim.
– Chegamos. — Henry abriu a porta do apartamento.
A loira me colocou no chão, mas havia um problema: Quem disse que eu queria ficar longe?
– Acho que já pode me soltar agora.
Desfiz o gesto e murmurei um “Desculpe”.
...SQ...
Não que eu queira me gabar, mas sempre tive um olfato apurado, e sei quando uma panela foi esquecida no fogo por um longo tempo. Assim que entrei no apartamento, senti cheiro de frango tostado.
– Ai meu Deus! — Emma correu até a suposta cozinha e eu prendi o sorriso.
– Pelo visto hoje tem pizza. — Henry tentou parecer triste e sussurrou — É que a comida da minha mãe é meio ruim, sabe?
Torci para que ela não o tivesse escutado.
– Gina, quer ver minha coleção? — ele perguntou animado.
– Já estou indo. — falei — Vou ver se a sua cozinha ainda está inteira.
Henry concordou e seguiu para seu quarto enquanto eu fui até onde Emma estava. Mas antes que eu desse mais um passo, vi várias molduras ao longo do corredor — dessas que se compram em lojinhas baratas -, e as admirei.
Lá estava Henry bebê, com o sorriso mais adorável de todos, e algumas outras fotos de mãe e filho no Natal e até no Halloween. Notei também que não havia nenhum homem. O que será que havia acontecido com o pai de Henry? Ou... com o companheiro de Emma?
Continuei a observar e me deparei com uma bailarina — por volta dos seis anos — na fotografia gasta. Seus cabelos loiros caiam perfeitamente sobre os ombros, sem contar o vestido azul que lembrava alguma personagem dos filmes da Disney... Você já ouviu falar naquela história do Chapeleiro Maluco e do Coelho Branco? Pois é, o nome da garota me fugiu da memória, mas sei que você conhece.
Ah, por favor, não me julgue. Minha infância não foi uma das melhores.
– Quem é ela? — perguntei em voz alta.
– Os antigos moradores deixaram a foto aqui. — Emma surgiu ao meu lado — Não tive coragem de jogar fora.
Quando me virei para encará-la, a garota engraçada desapareceu, e no lugar dela havia uma mulher com o semblante fechado e frio. Eu sabia que aquilo era uma mentira, mas resolvi não opinar. Toquei no assunto proibido pra ela: a dança.
– Desculpe, eu devia estar com Henry. — falei.
– Concordo. — ela definitivamente estava incomodada.
– REGINA! — o garoto gritou de seu quarto, e eu não tinha como agradecê-lo.
Dei meia-volta e fui até ele. Pensei em inventar uma mentira qualquer e ir embora dali o mais rápido possível.
– Você demorou. — ele sorriu enquanto me puxava para perto de sua cama repleta de bonecos — Esse é o Capitão América, esse outro é o Lanterna Verde... — perdi a conta dos nomes — Mas a Viúva Negra foi raptada pela minha mãe.
Emma era uma criança mesmo.
Falando nela, percebi que a mesma me observava da soleira da porta com uma expressão nada amigável. Isso significava uma coisa: Hora de ir embora e nunca mais dar as caras.
– Bem, é melhor eu ir — me levantei da cama. — Devem estar preocupados comigo.
E aquela foi a melhor mentira do século XXI, afinal, quem estaria aguardando por mim? A louça na pia da cozinha? Ah, me lembrei que Granny — minha amiga e empregada — cuidava disso pra mim.
– Sei que você vai voltar logo. — Henry disse convicto.
– A partir de amanhã o trabalho vai me ocupar o dia todo, mas vou tentar. — me despedi sem dizer “adeus”.
– Tudo bem, sua família precisa de você. — ele sorriu fraco.
Não pude dizer nada, já que Emma nos interrompeu:
– O metrô passará daqui a quinze minutos.
Era a minha deixa. Dei um rápido abraço em Henry e segui rumo à porta de entrada/saída do apartamento.
– Emma, me desculpe. — ao girar a maçaneta, senti a presença dela — Não sei o que está acontecendo, e se eu puder ajudar...
– Regina, eu acho melhor você não voltar mais aqui. — ela ainda não tinha me perdoado — Vai ser melhor pra todos.
Naquele momento eu senti raiva sobre aquela atitude! Eu nem sabia o que se passava.
– Mas... — ela fechou a porta na minha cara.
Bem feito! Ninguém mandou ir até a casa de uma estranha só porque um garoto pediu. E eu sentia um vazio tão grande que queria gritar. Já tinha tido aquilo uma vez, mas fazia tanto tempo...
...SQ...
Segundo os filmes de terror, eu não deveria me levantar da cama às três da madrugada, muito menos acordar nesse horário. Mas eu ignorei esses alertas porque queria pintar um pouco, já que minha cabeça estava maluca de tantas novidades.
Fui até meu estúdio — no cômodo ao lado do meu quarto -, e optei pelas tintas de cor mais clara do que as convencionais. Geralmente meus quadros traziam certo pesar.
A cada pincelada eu me lembrava de um sorriso de Henry, no contorno eu imaginava Emma sendo a mulher mais engraçada que conheci, sem contar a maldita escada que ficaria pra sempre na minha memória. Pelo visto eu passaria o restante da noite explorando a minha criatividade e frustração.
– Menina, acorda. — Granny me chacoalhou, mas resmunguei ainda olhos fechados — Olha, um palhaço!!!
– Onde??? — eu acordei imediatamente, e percebi que não passava de uma brincadeirinha dela pra me despertar — Muito engraçada você.
– Desculpe. — ela reprimiu o riso enquanto limpava minhas bochechas com prováveis marcas de tinta — Você esta parecida com um palhaço hoje.
– Está de bom humor hoje, Granny. — tentei parecer chateada, mas não consegui. — Que horas são?
– Estou vendo que encontrou inspiração... Conheceu alguém em especial? Estava suspirando pelos cantos ontem. — ela tinha um sorriso malicioso — A propósito, são quase oito horas.
Ela estava vendo coisas, só podia! E pela primeira vez eu não estava atrasada.
Fui até meu quarto e cerca de trinta minutos depois eu estava pronta para mais um dia de trabalho na Galeria Baelfire, só que agora eu tinha uma obra-prima em mãos.
Não quis tomar café da manhã, estava muito agitada para colocar alguma coisa no estômago, só queria ir até Neal Cassidy e mostrar que tinha talento suficiente.
– Boa sorte, menina. — Granny disse antes que eu tirasse meu carro da garagem. — Ah, preciso fazer compras no supermercado.
Abri minha bolsa procurando um cartão de crédito para entregar e eis que me aparece o Thor versão boneco. O que estava fazendo ali? Ok, eu banquei a idiota agora.
Henry sabia que eu não voltaria a vê-lo, a menos que ele interferisse. E eu não estava nem um pouco triste com aquilo.
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