My Heart is Not Cold
2 My story
Notas iniciais
O interior do castelo era ainda mais impressionante do que Jack imaginara. As escadas que eles usaram para descer tinham corrimões delicados e os corredores, mesmo exibindo poucas portas para quartos, possuíam desenhos maravilhosos no teto abobadado. Ele flutuava alguns centímetros acima do chão de gelo, acompanhando Elsa pelo castelo.
– Você quer comer alguma coisa? – ela perguntou – Eu trouxe comida de Arendelle, já que aqui não tem praticamente nada.
Jack não ia explicar que não sentia real necessidade de se alimentar, então aceitou. Seguiu a rainha até um salão azul impressionante, com uma mesa de jantar longa e cadeiras surpreendentemente confortáveis. Em uma das cabeceiras da mesa, havia uma cesta cheia de mirtilosfrescos, os quais Elsa imediatamente atacou, para depois parar e olhar para Jack, corada.
– Desculpa... servido?
Jack Frost riu e pegou um mirtilo.
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A única coisa que Elsa conseguia pensar naquele momento era em como Jack Frost era o rapaz mais lindo que ela já vira na vida dela. Claro, Kristoff, alguns homens do reino e até mesmo Hans eram bem bonitos, mas aquele adolescente de cabelos brancos e olhos tão frios quanto o inverno era tão... digamos que ela não conseguia tirar seus olhos dele. Seu moletom azul tinha lindos padrões de flocos de neve, coisa que ela certamente poderia reproduzir se quisesse, e sua calça marrom e puída parecia, de alguma maneira, combinar com ele. Seus pés descalços eram tão brancos quanto seus cabelos e, se ela não soubesse que ele era um espírito da neve, teria ficado preocupada com ele sentindo frio.
– Então, Elsa, rainha de Arendelle – Jack sorriu de lado, fazendo Elsa se arrepiar – Conte-me, o que a fez fugir do seu reino e vir para cá da primeira vez?
– Eu... fui descoberta – ela baixou os olhos – Sempre escondi meus poderes de tudo e todos, mas no dia da minha coroação, me descontrolei.
– Como? – ele perguntou suavemente.
– Anna, minha irmã... ela apareceu com um príncipe visitante dizendo que... eles estavam apaixonados– ela revirou os olhos – e iam se casar.
– E qual é o problema com isso? – Jack quis saber.
– Eles tinham se conhecido naquele dia.
– Opa, opa, opa; sua irmã é meio apressadinha, né?
Elsa deu uma risadinha.
– Às vezes, sim. Enfim, é uma longa história, mas no dia da minha coroação eu me descontrolei e eles ficaram com medo. Então eu fugi.
– Deve ter sido difícil.
Elsa achava que ele estava só preenchendo o silêncio com palavras compreensivas, mas sentia que ele estava sendo sincero.
– Foi. Eu vim até as montanhas e criei isso – ela fez um gesto abrangente para indicar o castelo – Era e ainda é meu refúgio seguro, meu lugar especial. Onde eu me sinto segura, sabe?
– Eu entendo – Jack a olhava como se estivesse fascinado, mas desviou o olhar por um momento para olhar ao redor – Realmente é um lugar muito bonito.
Elsa sorriu e contou a história inteira: como ela tinha permanecido no castelo com medo de si mesma até que Anna viesse buscá-la na companhia de Kristoff e Olaf (Jack adorou o fato dela ter criado um boneco de neve vivo), quando ela congelou o coração da irmã e os expulsou do castelo, fazendo um monstro de neve para guardar o castelo. Ela contou sobre Hans e os outros homens de Arendelle terem vindo e os dois capangas de Weselton atacando-a, e o modo como ela se defendera, quase matando ambos, para depois ser capturada e levada para uma cela em seu próprio castelo. Como descobrira o verdadeiro Hans, egoísta, ganancioso e cruel, que estava disposto a matá-la naquele calabouço, do qual ela se libertara.
Ela lhe contou da nevasca colossal que provocara para fugir e o que aconteceu quando Hans disse que Anna estava morta, e que a culpa era dela. Era doloroso falar sobre o que acontecera, mas Elsa sentia que podia confiar em Jack e, mesmo tendo acabado de conhecê-lo, parecia que eram amigos íntimos. Para terminar a narrativa, ela contou sobre o congelamento de Anna e seu gesto de amor verdadeiro que a salvou, revelando o modo de acabar com o inverno. Ela não pôde deixar de acrescentar o soco que Anna deu em Hans, algo que tirou alguns risos de Jack.
– Conte-me a sua história – ela pediu, apoiando a cabeça nas mãos.
Jack Frost contou-lhe, um pouco triste, sobre sua vida antes de ser escolhido para se tornar Guardião, na qual tinha uma irmã que amava muito, mas que já morrera fazia muito tempo, por não ser imortal que nem ele. Falou sobre seu despertar e sobre o Homem da Lua, que o conferiu seus poderes e o indicou aos Guardiões para se juntar a eles. Falou sobre toda sua jornada e suas aventuras, a batalha contra Breu, o Bicho-Papão e como ele recuperou suas memórias, além do apoio e amizade das crianças humanas que acreditaram nele. Mais para o fim da narrativa, Elsa já estava com os olhos marejados, e uma lágrima se congelou no canto do olho dela. Jack estendeu a mão para tirar a gota de gelo, mas Elsa recuou, quase como se acordando de um transe.
Ele encarou-a, parecendo um pouco surpreso, mas afastou a mão e pegou mais um mirtilo.
– Desculpe – ela murmurou – Não estou acostumada a contato humano.
– Bem – ele sorriu e tocou na mão dela, que não recuou desta vez – eu não sou o que se pode chamar de humano.
Elsa não pôde evitar de sentir um calafrio. Olhando para Jack, era quase absurdo que não fosse humano e, para algumas pessoas, até invisível. Ele era a coisa mais real que já lhe acontecera. Ela esboçou um sorriso e disse:
– Pelo menos você não é um monstro.
Ele recolheu a mão.
– Você também não.
– Eu sei. Anna me mostrou isso; mostrou o amor que tenho dentro de mim. Mas durante minha vida inteira eu fui excluída do mundo, escondia e era escondida. É difícil me acostumar à liberdade.
– Se isolar em um castelo de gelo não ajuda muito.
– Na verdade, acho que ajuda. Eu posso me soltar aqui; fazer qualquer coisa com meus poderes. Na cidade não posso, pois ainda não é inverno e quando for, a nevasca não vai ser minha e ninguém vai precisar de ainda mais neve.
Jack sorriu de orelha a orelha.
– Todo mundo precisa de neve às vezes. Neve é diversão.
Neve é diversão? De onde será que ele tirara aquilo? Para Elsa, neve sempre fora proibido, mas, para as outras pessoas, neve era frio, desolação e brancura. O verão é que era uma alegria: grama verdinha para se deitar, árvores prontas para se sentar embaixo e observar o céu, sol de um calor aconchegante e brisa morna que ainda refrescava. O povo de Arendelle nunca foi muito fã do inverno.
– Se você diz – Elsa deu de ombros e sorriu – Podemos construir um boneco de neve algum dia. Não precisa viver que nem o Olaf – ela riu, antes que Jack dissesse algo. Ele sorriu e assentiu – Bem, acho que por hoje já chega de neve. Vou dormir agora; se você quiser posso te levar a algum quarto.
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Jack agradeceu e seguiu-a, flutuando em uma brisa gelada pelos corredores enquanto trocava palavras simpáticas e sorrisos tímidos com a rainha de Arendelle. No momento em que fechou a porta atrás dele, Jack criou uma bola de neve na mão e ficou jogando-a para cima e pegando de volta, como se fazendo malabarismo, e deitou-se no ar, sorrindo.
Elsa era doce e inteligente, além de ter poderes gelados como ele. Ela era extraordinária e, involuntariamente, Jack pensou “Ela é exatamente o tipo de pessoa que eu preciso ao meu lado”. “Espere, o quê? Calma aí, Jack! Você acabou de conhecê-la”, seu consciente repreendeu a si mesmo. “É, mas posso conhecê-la melhor”. Ele resolveu deixar para lá. Deixou a bola de neve cair no chão e adormeceu.
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