My Happy Ending
9 Capítulo 9 - Duas coisas
POV Annabeth
Não consegui falar com Thalia nos próximos tempos, já que a maioria de nossas aulas eram separadas. Então, foi preciso esperar até o horário do intervalo para que eu conversasse com ela. Eu a encontrei comendo uma maçã, sentada em baixo de uma árvore e lendo algo em seu caderno com algumas partituras. Ela me encarou, e eu soube imediatamente que minha melhor amiga já sabia que havia algo errado. Algo inteiramente errado.
— Preciso falar com você — repeti. Ela deu de ombros e continuou a mastigar a maçã. Tomei isso como um convite e sentei-me ao seu lado, escorando-me na árvore. Meus cabelos estavam presos naquele dia, e aquilo estava fazendo minha cabeça doer muito mais, então eu os soltei. Os longos fios tingidos de azul balançaram no ar, e isso só fez o aperto em meu coração aumentar — Lembra de ontem? Silena está um pouco estranha. — pausa rápida. — Thalia, é sério. Pare de comer essa maçã e me escute, por um minuto.
— O que é, Annabeth? — ela perguntou, depois de abaixar a maçã antes de dar uma outra dentada. Então notei lágrimas em seus olhos extremamente elétricos — Annie, eu sei. Sei disso. Estou preocupada, também. Não é de ontem, nem hoje, que Silena está estranha daquele jeito. Eu lembro de quando ela foi para Paris. Lembro da voz dela nas ligações. Era o pior tipo de voz, Annie. Era aquele tipo de voz que indicava claramente que estava tudo indo de mal a pior, e que ela estava quebrada, mas não podia demonstrar isso, mesmo que eu notasse. E eu não podia fazer nada, porque você sabe como ela é. Quando Silena quer uma coisa, ela consegue. Se ela queria que eu não percebesse, é porque tem um motivo.
Ficamos em silêncio durante um tempo, e isso quase me enlouqueceu. Organizei as ideias na mente, e abri um sorriso cansado para o nada. Observei uma Lorena e um garoto moreno passarem e meu coração apertou. Ficaria um longo tempo sem ver Percy. No fim de semana seguinte, meus pais iriam me visitar e ficariam hospedados em um hotel perto da escola e eu não podia simplesmente sair para ver meu namorado. E no próximo, teria a apresentação dos "escolhidos". Ignorei esses pensamentos e me concentrei em Silena.
— Eu não quero perdê-la, Thalia — sussurrei.
— Você não vai — prometeu a morena — Temos dois minutos antes do sinal tocar, quero beber água. — bufei. — Ei, o que vai fazer no próximo fim de semana? Estava pensando em dar uma passada na casa de minha tia Blythe, que mora no centro. Bastaria pegarmos um trem e, em quarenta e cinco minutos, estaríamos na estação. Ela poderia nos apresentar a cidade, ou sei lá. O que acha? — revirei os olhos. Blythe era uma tia-avó de Thalia completamente maluca. Eu já passara um verão em sua casa meio que abandonada em New Orleans, e fora o mais louco de minha vida.
— Não, tenho encontro de família — levantei-me, seguida por Thalia, e andei até o bebedouro mais próximo. Assim que terminei de beber a água que deixou meus dentes dormentes por alguns segundos, o sinal tocou. Ouvi reclamações da punk, dizendo que a professora de flauta parecia um babuíno, e que ela nunca mais queria ouvir sua voz novamente. Assim que começamos a subir as escadas, a voz de uma mulher soou dizendo que fôssemos até o auditório.
— Droga — ouvi Thalia resmungar. Ela andara meio revoltada depois que tínhamos sido escolhidas para participar do campeonato e desenvolvera um certo sentimento negativo contra auditórios e palcos. — Aposto que deve ser outro concurso. E nós seremos escolhidas, afinal, só existe uma Annabeth na lista, e eles escolhem esse nome por ser único. E o meu, bem, ele é completamente feio e normal. Ou seja, eles dizem "temos quarenta Thalias? Hum, então a número vinte e três é a escolhida". Eu! — eu ri.
— Thalia, cale a boca.
— Estou falando sério. — continuou a reclamação. — Droga, por qu... Annie, aqueles garotos estão vindo pra cá. Acho que o nome do mais alto é Tyler. Ele ficou a aula inteira de artes olhando pro meu decote. Idiota. Meu namorado te mete a porrada, garoto idiota. — eu ri ainda mais. — Escuta, se um dia eu terminar com Luke, ele é meu e você fica com o nerdzinho do lado dele. Acho que seu nome é... merda, como é o nome dele? Ah, claro. É Matt.
— Thalia, por que eu ficaria com o nerdzinho se quem vai terminar é você? — perguntei, arqueando as sobrancelhas. Ela deu de ombros, como se fosse algo perfeitamente normal. Depois que entramos no auditório, escolhemos um lugar bem no fundo. De acordo com a morena, as chances de ser escolhida quando se está no fundão são bem pequenas. Eu discordo. Mas Thalia sempre será Thalia, e com ela não se discute. Maryane, uma senhora com roupas esquisitas, com um corte de cabelo esquisito, e com óculos esquisitos, subiu no palco e ficou meia hora falando de como a escola era importante. Depois, ela disse que algumas garotas transferidas iriam nos ajudar para a apresentação no campeonato, e eu nunca imaginaria a coincidência que aconteceu a seguir.
O nome de Silena Beauregard foi dito e, no momento seguinte, a loura imediatamente se destacou entre as outras garotas. Ela soltou um sorriso deslumbrante e rodopiou no centro do palco. Seus olhos azuis passaram entre a multidão, e eu soube que estava nos procurando. Os lábios carnudos tão vermelhos como se fossem sangue, a pele tão branca quanto a neve e os olhos azuis e destacados. Quanto mais eu a observava, mais sabia que estava mudando. Os fios loiros agora tinham uma coloração diferente. Não eram tão ondulados — quero dizer, eram completamente lisos — e, nas pontas, a cor preta dominava tudo. Usava o colar que eu dera à ela uns anos antes: uma coruja. Minha mãe adorava esse animal e, por algum motivo, eu também.
Depois de alguns minutos, fomos dispensados. Meus dois tempos haviam sido ocupados, então eu tinha apenas mais um. Violão. Entrei na sala e, depois de algumas apresentações, o professor pediu que tocássemos o que sabíamos. Dei o meu melhor com o violão que a garota meu lado me emprestara e ele me encarou por alguns segundos antes de se virar para o aluno seguinte. Engoli em seco e fingi prestar atenção em sua aula pelos próximos 45min, até que o sinal batesse. Eram 17hrs50min quando isso aconteceu. Fui diretamente ao dormitório de Thalia, onde havíamos combinado de nos encontrar para procurar Silena. A morena estava jogando Fruit Ninja em seu tablet quando bati na porta, então arranquei o aparelho de sua mão e a arrastei até o lado de fora.
— Precisamos achar Silena — eu disse.
— Sei disso. — revirei os olhos.
Encontrei Alex tocando clarinete — pra quem não sabe, é o que o Lula Molusco, de Bob Esponja, toca. Não, aquilo não é uma flauta. É um clarinete — e perguntei se ela sabia de algo. Disse que era provável que nós a achássemos no "camarim" dos atores. Dito e feito. Silena estava sentada em frente à um espelho, os olhos indicando sinal de cansaço.
— Silena? — Thalia foi a primeira a se pronunciar. — Oi. — a loira se virou para nós e, por um minuto, achei ter visto um lampejo de dor passar entre seus olhos. Tão rápido quanto veio, não consegui identificar o sentimento que estava lá. Parecia que eu tinha olhos, mas não conseguia ver. Silena me observou por uns segundos e então analisou a garota ao meu lado da mesma maneira.
— Oi — ela disse.
— Oi? — perguntei, cabisbaixa — Só oi?
— É. Só oi. — troquei um olhar com Thalia. — O que há de errado com vocês? Parece que viram um fantasma. Por que estão tão pálidas?
— Você... está bem? — ouvi a indagação de Thalia.
— Claro que sim, nunca estive melhor — mas houvera hesitação. Silena não sabia mentir e tentar fazer isso para sua melhor amiga era a mesma coisa que tentar enganar sua mãe. Impossível. — Vou passar duas semanas com minhas melhores amigas, isso é bom. Por que a pergunta? — senti a insegurança. E depois o... — O.K., estão me deixando assustada — comentário para deixar o clima mais leve. Algo estava muito errado ali.
— Eu estou bem — eu a analisei por alguns segundos antes de soltar um longo suspiro — Já conheceu a escola? — ela negou com a cabeça, e foi trocar de roupa para que fizéssemos o tour. Mandei alguns olhares para Thalia, mexendo os lábios e dizendo que conversaríamos mais tarde. Depois que Silena saiu do banheiro, ela sorriu para nós e guardou o vestido que usava em uma mala vermelha no canto do cômodo. A levamos para andar pela escola, até que o sinal soou indicando o jantar, e isso me surpreendeu, já eram 20hrs15min.
Andei até lá acompanhada de minhas duas melhores amigas, coloquei uma comida qualquer no prato sobre a bandeja e escolhi uma mesa afastada das pessoas, na janela. Comemos rapidamente conversando sobre o que Silena e suas modelos iriam fazer ali, até que o último sinal tocou. Nosso toque de recolher. Olhei para o meu relógio e fiquei surpresa ao constatar as horas: 22hrs. Andamos rapidamente pela escola, então deixei Silena em seu quarto, e segui para meu dormitório acompanhada de Thalia. Parei em frente à porta que continha o número de meu quarto e olhei para minha melhor amiga, suspirando.
— Ela não está no normal dela. — falei, baixinho.
— Sei disso. — ela me encarou por dois segundos e desviou o olhar. — Annie, eu tenho aula amanhã cedo. Preciso ir. Te vejo depois? — confirmei com a cabeça e vi a punk se afastar, indo até o seu quarto. Mentira. Thalia não se importava com as horas. Ela estava mal, eu sabia disso. Mas também sabia que ela não queria demonstrar fraqueza. Ao observá-la entrar no dormitório, notei duas coisas: primeira, Thalia Grace estava magoada. Segunda, ela estava irritada ao extremo.
Fale com o autor