My Happy Ending
8 Capítulo 8 - Café esfria, sabia?
POV Thalia
No dia seguinte, eu estava quase cometendo suicídio. Acordei já eram 8hrs34min, e minha próxima aula começaria às 9hrs. Tomei um rápido banho, coloquei a primeira roupa que encontrei na gaveta e notei que Clarisse já tinha saído. Bufei, extremamente irritada. Seria um dia daqueles. Peguei minha bolsa, pendurei-a no ombro e parti para a sala de artes. Assim que entrei no ambiente, localizei imediatamente minha melhor amiga e fui me sentar ao seu lado.
— Dia ruim? — ela perguntou ao ver minha cara.
— Vida ruim.
Ela riu, e o som de sua gargalhada foi abafado pelo sinal, indicando o início das aulas.
— Só por causa da aula? — me encarou, e vi seus belos olhos cinzentos transmitindo-me uma nova emoção. E ela não era boa — Thalia, precisamos conversar. Sobre Silena. Eu acho que ela não est... — foi interrompida pela professora que entrara na aula e me mandou um outro olhar, e este claramente avisava "Depois te conto".
POV Silena
— Bom dia, Sophia — sentei-me em frente à Sophia, que bebia café preto, tinha os cabelos trançados, e segurava uma revista da Vogue entre os dedos. Olhei ao meu redor, e constatei que o salão já estava vazio. As mesas estavam sujas, indicando que clientes já haviam tomado seu café da manhã — E então, qual é a programação de hoje? — peguei a sua caneca e tomei metade de sua bebida.
— Temos o dia cheio pela frente — ela disse, sem tirar os olhos da revista. Eu não falei nada, apenas comecei a bater os pés em uma sintonia esquisita, esperando a listagem. — O quê? — dei de ombros — Ah, claro. Vamos à escola das meninas hoje, tudo bem? — arregalei tanto os olhos que, por um minuto, temi que saíssem das órbitas — Mary, a diretora, aproveitou que estamos aqui, e pediu que fôssemos lá.
— Fazer o quê?
— Dar bons conselhos — levantei as sobrancelhas. Se eu fosse procurar uma pessoa para me dar bons conselhos, certamente não seria Silena Beauregard a minha primeira escolha. Na verdade, não estaria nem na lista esse nome. — Vamos, Silena. Vai ser legal. — pensei por um momento — Estou vendo pela sua cara que você vai recusar.
— Não é isso — eu disse, rouca.
— O que é, então? — ela perguntou, subitamente interessada. Sophia me encarou, e eu sabia que estava procurando sinais. Eu andava até achando que ela estava lendo livros de "Como Notar Sinais Em Adolescentes". — Silena, você está bem? Quer me contar algo?
— Não. — sim.
— Certeza? Absoluta? — ela não estava acreditando em mim. Também, com a minha capacidade de contar mentiras.
— Sim. — não.
— Tudo bem, então. Partimos em duas horas. — ela se levantou, deixando-me sozinha com uma caneca de café e alguns pequenos biscoitos salgados. Encarei o líquido que ainda soltava fumaça, e soltei um longo suspiro. Eu estava perdendo. Com o café ali, as nuvens surgindo no céu lá fora, finalmente concluí que aquele ditado velho e idiota era verdade. Porque, afinal, o café esfria. E os sentimentos também.
POV Raíssa
— Qual é a próxima aula? — perguntei a Melanie, sonolenta. Soltei um longo bocejo e tentei enxergar as letras miúdas no papel que ela segurava. Nossas programações eram as mesmas, então concluí que poderia me localizar com a sua ajuda. Distingui a palavra "Voz" e suspirei. Eu, definitivamente, não era boa cantando. Nem fazendo aulas de afinação, ou algo do gênero.
— Vocal — ela disse, torcendo o nariz.
— Droga. — chutei o ar e fomos andando até o estúdio, e isso levou uns 3min. Tempo suficiente para que sentássemos uma ao lado da outra enquanto o salão ficava cheio de adolescentes. O ambiente era até grande, mas tinha um vidro separando as salas. Do nosso lado, havia todos aqueles aparelhos de modificação de voz e tudo mais, e, do outro, apenas uma cadeira giratória, uma bateria e aquele microfone que eram usados em estúdios de gravação. — Imagino que as pessoas desse lado vão ouvir qualquer coisa que seja dita lá — sussurrei, assustada. Ninguém poderia me ouvir cantar.
— Ray... — ela murmurou. Balancei a cabeça em concordância. Aquilo era demais pra mim. Uma mulher entrou, e seus cachos meio loiros eram lindos. Mas o que mais me chamou atenção foram os fios de cima. Eram roxos. A coloração ia de roxo, na raiz, passava por castanho e chegava ao loiro, nas pontas. A moça se identificou como Angelica, nossa professora. Ela pegou a cadeira giratória que estava em frente aos aparelhos eletrônicos e a arrastou até chegar em nossa frente. Sorriu amavelmente e perguntou os nossos nomes.
O resto do dia foi basicamente aulas e apresentações. A cada aula, alguém diferente entrava. Dei graças a Deus por estar na mesma programação de Melanie, não aguentaria ser a caloura sem ajuda. Annabeth estavam em minha aula de piano. Alexis, na de flauta. Marina, na de pintura. E assim por diante. Na hora do intervalo, fiquei caminhando pelo campo com Mel até, no lugar do sinal soar, uma voz estridente e extremamente irritante nos chamar até o auditório. Fomos até lá, e a primeira pessoa que vi fez o meu coração parar.
POV Lorena
— Estou falando sério, não se aproxime — eu disse pela última para Josh, que andara me perseguindo o dia inteiro. Meu coração batia de forma descompassada e ficar com raiva era a única coisa que me impedia de cair no choro. Ele me encarou como costumava fazer, quando ainda namorávamos, e isso interrompeu meus batimentos por dois segundos. — Josh, me desculpe. Eu te amo, você sabe disso. Mas eu não mais sua. Não sou de ninguém.
Vê-lo ali, com as mãos pálidas dentro dos bolsos da calça jeans, os olhos azuis grudados nos meus, passeando por toda a extensão de meu corpo — indo do tênis All Star até os cabelos loiros com algumas mechas escuras —, me fez abraçá-lo. Senti as batidas de seu coração contra meu peito e suspirei. "Só vá embora da minha vida", era o que queria sussurrar em seu ouvido.
— Você precisa ir embora agora. — falei, contra minha vontade.
— Eu sei disso. — comentou, brincando com meus cachos. — Lori, você será sempre minha. Você foi a garota que eu passei fins de semanas inteiros jogando video-game, você foi a garota que eu ensinei a andar de skate, você foi a garota que se apaixonou por mim. E eu por você. Eu amo você. Amo essa risada esquisita que você tem, amo essa falha que tem na sobrancelha. Eu amo a sua ironia e também amei aquele cabelo ruivo seu, lembra? Você detestou, mas eu gostei. Combinava com a sua personalidade. Fogo. Eu não gostava de sentimentos, café preto ou andar de meia pela casa. Não suportava a ideia de tomar sorvete de flocos e até hoje ainda sinto o gosto amargo do chocolate. Mas você gosta. E eu gosto por causa de você.
— Josh... — eu comecei. Se ele continuasse aquela listagem de "Eu não gostava de", eu iria perdoá-lo. Desculpar aquele garoto só me traria problemas, isso era fato. E a minha pessoa não precisava de mais problemas. Aliás, Lorena Harris não tinha sentimentos. Ela tinha um coração, só não o usava mais. Por isso, não poderia dizer "Tudo bem. Serei sua namorada novamente", ou então todo aquele esforço — todos os dólares gastos em bebidas, as noites mal dormidas para esquecê-lo, a "quarentena" para me livrar de qualquer e todo tipo de sentimento — não valeria de nada. Então coloquei um sorriso irônico e frio nos lábios — Você não é bom para mim. Eu gostava de Guitar Hero, até ver que você era o maior craque no jogo. Eu gostava de Anna Júlia, até saber que você sabia a letra de cor. E eu gostava de pessoas, até te conhecer. Você só me faz mal, Josh. Vá embora.
Ele me lançou aquele olhar de "Eu sei que você não é assim", deu de ombros e me deu as costas. Era a pior coisa que podia acontecer. Josh era o pior tipo de cara: nojento, desprezível e cafajeste. Mas ele sabia ser um cafajeste perfeito. E o pior de tudo, é que ele sabia que havia uma parte de mim que gritava por ajuda e, mesmo assim, sorriu e foi-se. Dei o meu melhor sorriso, estufei o peito e entrei no auditório.
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