My Dilemma
1 See You Again
Notas iniciais
A noite caía quando Louis chegou ao ponto de encontro com Mariana. A estufa da casa dos Williams tinha vários tipos de plantas, e o cheiro das flores era forte demais para Mariana, que tinha alergia. Mas uma vez ao mês ela acabava tomando finalmente seu anti-alérgico e ia até lá, simplesmente porque era o lugar que Louis mais gostava quando foi embora de casa e Theo, o pai de Mariana, o criara. Ele podia passar horas sentado na cadeira na estufa, só pela paz que o lugar tinha, e quando ele foi embora da casa, eles tinham um dia marcado apenas para isso. A estufa acabou sendo o lugar favorito de Mariana com o tempo, mas o santuário ainda pertencia à ele.
— Você demorou. — Mariana reclamou. Estava usando uma legging metalizada que não exatamente usaria no inverno. Um casaco de lã lhe caía sobre os ombros, e seus cabelos agora de uma cor branca estavam soltos.
— Sendo que eu estava em Rhode Island, e tive que atravessar metade do país porque você pediu, não deveria reclamar. — Louis rolou os olhos, mas por dentro estava feliz por vê-la.
— Octavia me disse que você estava em Paris. — Mariana franziu o cenho.
— Octavia não sabe onde eu ando 24 horas por dia, Mari. — Ele desconversou. Mas Mariana era esperta e apertou os olhos.
— Tem sangue na sua jaqueta. — Ela observou. Andou até ele e abriu sua jaqueta. — Você levou um tiro! Onde?
— Há mais ou menos duas horas atrás. — Ele respondeu com uma careta. — Titânio não é fácil de se curar.
— Catherine daria risada de você. — Mariana contou, rasgando a camiseta dele com as unhas. Ela cortou um pedaço e amarrou no braço dele.
— Acho que eu teria morrido sem você.
— Você sabe se virar. — Mariana terminou de amarrar o pano no braço dele e olhou para ele, preocupada e desconfiada. — Mas, me conte, porque Octavia disse que você estava em Paris, sendo que você estava em Rhode Island e por que levou um tiro no ombro?
— Mariana, faz dois meses que nós terminamos, porque você ainda acha que tem que cuidar de mim?
— Porque é meu dever. — Mariana respondeu. — A amizade colorida foi um bônus. E além do mais, devo a você a minha vida. Agora responda.
Louis teimou antes de responder. Mariana não estava mentindo, mas Louis não podia contar fácil assim.
— Nicholas Peters. — Ele respondeu.
— Esse cara de novo? — Mariana arregalou os olhos. — A última vez que ele andou por aqui ele matou toda a divisão dos Blackbirds.
— Faz 11 anos, Mari.
— Não importa! Não se confia num cara que matou a irmã. Na verdade, não se confia em um Peters. — Mariana deu um tapa no braço dele. — Os Peters sempre são bonzinhos demais ou assassinos psicóticos que tem uma tara por matar os irmãos.
— Mariana, você quer ou não quer que eu te conte o que aconteceu? — Louis perguntou.
— Conta. — Ela cruzou os braços.
— Xavier Smith tem um plano, e se aliou com o meu pai e Nicholas. — Ele respondeu. — Você sabe que eu fui pra acabar com os aliados do meu pai. Mas… Xavier não é louco e antes que eu fosse atrás dele ele rompeu as ligações com Uriah, e Nicholas pulou fora. Eles não são idiotas.
— Nicholas manda e desmanda na máfia russa e Xavier é praticamente o cara que manda no narcotráfico Americano. Você acha que alguém como eles chega ao topo sendo idiota? — Ela apertou os olhos. — Ah, claro, tem você, desculpa.
— Mari. — Louis chamou a atenção dela com um tom de reclamação. — Xavier tem um plano.
— Quando a frase começa com “Xavier tem um plano” é porque nunca tem coisa boa. — Mariana mordeu o lábio, nervosa. Louis parecia distante, não o mesmo. Parecia mais como o pai.
— É um bom plano, ouça. — Louis sorriu. — Tudo começou quando meu pai emprestou alguns chips para Xavier.
— O QUÊ? — Mariana berrou.
— Deixa eu terminar! — Louis fez ela se calar. — Xavier está planejando criar modificados.
— Louis…
— Vai ser bom, Mari. — Louis a interrompeu. — Xavier é esperto. Ele quer criar novos modificados e poder inserir em adultos, não apenas crianças. Vamos ficar bilionários nesse negócio.
— Em adultos? — Mariana repetiu, furiosa. — É um plano de idiota. Você sabe o que acontece se colocar um chip em um adulto.
— Olha, é por uma boa causa. — Louis arregalou os olhos, se irritando. — Só tem um pequeno problema.
— Será que eu quero ouvir? — Mariana rolou os olhos.
— Os chips deram erro. — Louis contou. — Ainda não descobrimos como fazer o processo em adultos, e o chip precisa ser instalado em uma área específica, e só o meu pai sabia qual era.
— Louis, por favor, não diga que…
— Vamos ter que recomeçar a pesquisa. — Ele respondeu. — Mas precisamos dos Modificados que já temos para serem estudados.
— Os que já temos? — Mariana arregalou os olhos. Por dentro estava se xingando por ser tão idiota. Maior do que a amizade dela com Louis era o que acontecia quando ele enfiava algo na cabeça. Ele era capaz de passar por cima de quem gostava apenas para ver seus planos se realizando.
— Desculpe, Mari.
Mariana iria fazer alguma coisa. Se transformar em alguma coisa, mas tão rápido quanto ela, foi a pessoa atrás dela. Mariana podia ser uma incrível espiã, mas quando apertaram o ponto atrás do seu pescoço que poderia nocauteá-la, tudo escureceu. A última coisa que viu foi o rosto de Louis, pálido, preocupado com ela, mas não o Louis que ela conhecia. De jeito nenhum o Louis que ela conhecia.
A sala onde estava era escura. Silenciosa e escura. As piores combinações. Não tinha coisa pior do que acordar de manhã com uma dor de cabeça sem fim e sem saber onde está, mas acordar sem saber a hora, onde está e com quem era pior ainda.
— Olá? — Ela perguntou. Seus olhos eram adaptados a escuridão quando ela se transformava em felinos principalmente, mas humana, era normal. Nunca teve problemas de visão, mas também não era super especial, e ela não conseguia ver nada. E nem se transformar em nada, o que foi bem pavoroso. Não se lembrava de algum dia em que não pôde se transformar em algo e sair por aí, e finalmente ela sabia como era ser normal. Não ter poder algum. Era horrível. — Tem alguém aí?
Quando foi mover a cabeça, sentiu algo. Um tipo de capacete, ou algo assim. Sua cabeça estava amarrada em uma superfície de metal oval, e ela se sentia apavorada agora. Com certeza aquilo estava anulando seu chip. Ela ouvira falar que Uriah tinha uma cela dessas, com esse tipo de metal, e que havia torturado Charlie e Oliver ali, mas de certo modo um capacete era pior. Mariana tinha claustrofobia, e estar presa no escuro com um capacete que a impossibilitava de fugir estava sendo o estopim para começar a berrar.
Mas ela não o fez. Tinha que relaxar, e seu corpo a ouviu. Suas mãos se abriram e seu peito se moveu normalmente, sem o sobe e desce de pavor. Sentiu os ombros relaxando e começou a pensar. Suas mãos estavam livres, mas não era fácil assim. Já vira um amigo tentar tirar um capacete da cabeça e receber um choque assim que colocou as mãos sobre o material, e outro que tirou um capacete e levou uma saraivada de tiros. Ser modificada não a impediu de ver mortes horríveis e de presenciar gente completamente louca. Era parte do seu trabalho, e ela aceitava isso. Quando tinha nove anos, teve que ver Louis ser enterrado vivo e depois o tirar de lá cavando sua cova com suas patas ágeis de lobo. Ela era Mariana Williams. Não desistia tão fácil, e não tomava decisões tão precipitadamente.
— Ok, se vai ser assim, assim será, Louis. — Ela murmurou. Rápida, começou a tocar na cadeira que estava com as mãos, procurando algo. Precisava de um botão, ou algo que a garantisse que não levaria um choque fatal assim que tentasse tirar o capacete. Não achando nada do tipo, resolveu tirá-lo de qualquer jeito. Seria complicado, já que não queria arriscar as mãos. Teria que tentar tirar a tira de outro jeito. Felizmente ela era esperta o suficiente para lembrar da existência do queixo. Fazendo algumas caretas, ela conseguiu se libertar das tiras, e o capacete afrouxou. Com uma cabeçada, ela jogou o capacete ao chão e fez a transformação que veio primeiro na cabeça.
A forma de gato era tão conhecida que ela conseguiu até ignorar a dor que sofria toda a vez que se transformava. Quando descobrira os poderes, aos sete anos, a dor a nocauteou na hora, mas agora, nove anos depois, ela havia dominado as técnicas. Ainda havia algumas formas que raramente tomava, apenas quando realmente necessário, como aves. A dor dos ossos dos braços se estendendo e os ossos das pernas ficando menores era terrível. Fora isso, transformação era uma habilidade maravilhosa. Ela aprendera a esconder a dor, principalmente porque é mais fácil temer uma inimiga que parece muito a vontade com seu poder do que uma que grita toda a vez que usa. Mas a transformação para mamíferos era mais fácil. Claro, ter a pele rasgada para algo surgir debaixo era lancinante, mas melhor que os ossos se estenderem.
Quando se transformava em felinos, o que mais gostava com certeza era a visão. As formas na escuridão ficavam tão claras, tão óbvias, que ela lamentava não poder viver para sempre assim. Foi por causa disso que viu que a sala que estava não tinha nada além de um quadrado perfeito e vazio. Além da maca que estava, não tinha nada, nem portas, nem janelas.
— Louis! — Mariana gritou, voltando a sua forma humana. Ele sabia que ela tinha pavor de ficar trancada. — Louis seu filho da mãe!
Não houve resposta. Não houve nada além de silêncio, silêncio absoluto. Mariana controlou a respiração. Tinha que ter algum jeito de sair daquele lugar. Alguma coisa precisava acontecer, algo tinha que ser feito. Ela se sentia verdadeiramente perdida e sozinha, não porque estava literalmente em uma sala escura sem uma alma viva pra falar, mas sim porque Louis, Louis, o garoto que a ensinou basicamente tudo o que ela sabia, havia armado para ela ser pega. Se havia alguém em quem ela podia confiar de olhos fechados teria sido ele. Claro, ultimamente, mais duas pessoas tinham sido acrescentadas à lista, mas ela sempre poderia contar com Louis, não importasse quantas coisas acontecessem. Ela sempre pensou que quando estivesse morrendo, ele estaria ao lado dela, não que ele estaria segurando a arma do crime. Essa cena nunca, nunca mesmo, tinha passado pela cabeça dela.
— Mariana.
Assim que foi chamada, as luzes foram acesas tão rapidamente que Mariana sentiu os olhos queimarem. Ela colocou as mãos sobre os olhos e tentou aguentar. Começou a piscar, e lágrimas desceram pelo seu rosto.
— Mariana. — Ela ouviu novamente.
Ela ergueu a cabeça. Estava com os olhos apertados, temendo ficar cega permanentemente, mas ela ergueu a cabeça. Se fosse morta, queria morrer de cabeça erguida.
A pessoa do outro lado do auto-falante tinha um sotaque específico, britânico. Mariana não quis, mas pensou se Louis estava assistindo a isso. A vendo exausta e com os olhos ardendo, e ela se perguntou por que ele não arrombava uma parede para tirá-la de lá. Não seria a primeira vez, e ela desejava que não fosse a última.
— Mariana Elizabeth Williams. — A voz disse, como se estivesse lendo um papel. — Filha adotiva de Theo Williams, órfã, tipo sanguíneo O, 18 anos.
Se era para lhe impressionar com o quanto sabiam sobre ela não conseguiram, porque ela já encontrara gente que sabia mais, e se Louis estava do lado deles — fosse qual lado fosse -, eles saberiam tudo mesmo sobre ela. Sendo que ele era a única pessoa que a conhecia de verdade em toda a sua vida, ele tinha uma excelente uma vantagem.
— Não espere que eu vá te aplaudir por saber tudo isso. — Ela disse. Pensou que soaria patético dizendo isso naquela pose, mas por algum motivo, dizer isso a fez sentir ela novamente.
— Não esperei aplausos. — Dessa vez a voz era de Louis.
— Você me cegou, seu idiota. — Ela reclamou.
— Você vai ficar bem, não lembra de Londres? — Ele rebateu, com um tom de riso. É claro que ela lembrava de Londres. Foi quando ela havia feito a primeira tatuagem. E outras coisas.
— Eu não estou aqui pra batermos um papo agradável sobre nossa visita a Londres, então pode ir abrindo a boca. — Ela o cortou. — Por que eu estou aqui?
— Eu te disse, precisamos de todos os Modificados que conseguirmos, e querendo ou não, você e uma. — Louis respondeu.
— Como se você não fosse um também. — Mariana bufou. — Louis Campbell, o menino de ouro. Quando seu pai pensou que Allec morreria a incisão do chip, você foi a outra opção. Ele pensou que havia falhado, mas você desenvolveu seus poderes de regeneração tardiamente. Quando Allec pensou que tivesse te matado e sua família te enterrou, fui eu que cavei a sua cova e te tirei de lá. Eu sei de você tanto quanto você sabe de mim, Lou.
— Não espere que eu vá te aplaudir tampouco.
— Eu não espero aplausos, espero que você caia na real e perceba que está me mantendo enjaulada como um bicho.
— É estranho perceber que você no final é um animal, Mari. Você se transforma tanto neles que nem percebe as características que acaba tomando. — Louis disse, como se estivesse conversando com uma criança. — Você é um camaleão.
— Ah, cala a boca. — Mariana mandou. — Para de falar como o seu pai, você virou um doente psicótico.
— Eu preciso de você, Mariana. Você está aqui por causa disso. — Louis a interrompeu, ignorando os insultos. — Quando eu vencer, vou manter você ao meu lado. Estaremos no topo juntos, como sempre.
— Definitivamente você perdeu um parafuso se acha que eu vou me aliar a você. — Mariana tirou as mãos dos olhos, ainda com as pálpebras fechadas, mas finalmente se acostumando a luz. — Eu não me rendo a idiotas, acho que você sabe disso.
— Você recusou a proposta do meu pai, eu sei. — Louis continuou. — Mas a minha é irrecusável porque eu tenho tudo preparado. Enquanto estamos nos falando, meus sócios estão preparando tudo. Vamos fazer um novo chip, e dessa vez, ele poderá ser usado em adultos também, sem efeito colateral. Pense em quanto vamos ganhar com isso.
— Você tanto quanto eu viu o que acontece quando se coloca um chip em alguém com cérebro desenvolvido! — Ela gritou. — Você viu os horrores que Xavier planejava, você viu! Nós não o afastamos dessa ideia ridícula pra você se jogar de boca.
— Vamos corrigir o erro, você vai ver. — Louis soava tão certo do que dizia que era difícil se manter contra ele. Mas Mariana havia feito com os próprios olhos.
Quando fugiu de Uriah depois de recusar a proposta dele, ela saiu de cena. Estava ferida, seu pai estava morto, descobrira que tinha um irmão… Ela havia fugido. Não que se orgulhasse de ter fugido e deixado os amigos se virarem sozinhos, mas além disso tudo, ela havia fugido porque Louis havia pedido ajuda. Quando Catherine invadiu o hospital dizendo as notícias de que Theo havia sido sequestrado e todos os outros também, Mariana estava no banheiro, recebendo uma ligação de Louis. Ele estava ferido e precisando de ajuda com a missão dele. Toda as divisões de segurança do governo haviam sido chamadas para diferentes missões, mas todas sobre Uriah e seu plano. Louis havia sido designado para ir atrás de Xavier com sua equipe, mas ele implorara para Mariana ir atrás do irmão dele. Mariana o atendeu, mas ela realmente gostaria que não tivesse feito isso. Enquanto estava fora, Louis confrontou Xavier Smith sozinho, toda a sua equipe morta. Xavier contou que era sócio de Uriah em um negócio, e que Nicholas Peters estava financiando algo escuso por fora das leis. Louis acabou caindo na armadilha de Xavier, e quando seu pai morreu, ele virou o pivô dos novos negócios. Além disso, Xavier estava fazendo um novo tipo de narcótico e Nicholas estava atrás dos sobrinhos, mas Louis continuou pensando no plano. Com ajuda de outra pessoa, ele acabou descobrindo que a chave de tudo eram os Modificados e seus chips, o que o fez pensar automaticamente em Mariana. Era por isso que ele havia chamado ela ali agora. Precisava do chip dela, mas pra isso, ela teria que passar por uma cirurgia muito complicada.
— Você não entende. — Louis parecia implorar agora. — Eu só preciso do seu chip. Se eu mexesse com os outros, Eva seria alertada, mas você… Você é a pessoa que eu mais me importo, Mari. Se você se sacrificasse pelo bem da população…
— Meu deus, cale a boca! — Mariana berrou. — Você tem alguma ideia do que está me pedindo? Que eu ceda meu corpo, meu cérebro, pra você brincar de cirurgião e acabar me matando só porque quer o meu chip? Vá se foder, Louis.
— Se você não fizer por bem, será por mal. — Louis suspirou. — Eu tentei, Mari.
Mariana endireitou a coluna e respirou fundo. Se Louis queria seu chip, precisaria lutar contra ela antes, e ela apostava tudo na ideia de que se morresse, seu chip seria completamente sem valor para ele. Então se a quisesse, precisaria vir pegar. E cega temporariamente ou não, Mariana ainda era a melhor no que fazia.
— Vem pegar, Louis.
Ela sempre ouvira falar que quando um dos sentidos são perdidos ou afetados, os outros redobram a força, e finalmente comprovava isso. Quase impossível de se escutar, mesmo assim ela ouviu um botão ser apertado pelo auto-falante. Não muito depois ouviu algo ser aberto no alto, e ela sentiu um cheiro de queimado. Gás paralisante. Esperto, mas não quando você pode ter os pulmões de um golfinho, que consegue prender a respiração por sete minutos. Quando sua transformação começou, rápida mas silenciosa, ela quase não impediu um grito, mas era por uma boa causa. Ela sentiu seus órgãos virarem geleia e se refazerem, mais fortes e mais aptos. Seus pulmões tiveram o dobra da força. Felizmente fora inteligente o bastante para não se transformar inteiramente. Apenas os pulmões e seu corpo também cresceu alguns centímetros, mas ela ainda era humana, e melhor ainda: ela ainda podia fingir. Se jogando no chão, ela fingiu desmaiar por causa do gás e esperou.
Mariana segurou a respiração por exatos três minutos. Não sabia como o pavor não a dominava, mas o instinto selvagem de sobrevivência a mantinha inerte no chão gelado. Seus olhos haviam melhorado também, então ela conseguiu ver um pouco das luzes por trás das pálpebras. Quando três homens entraram na sala por uma parede que simplesmente se abriu e a pegaram no colo, ela esperou por mais dois minutos, deixando a transformação passar. Seus órgãos novamente se refizeram, e as guelras se fecharam, e ela pôde respirar. Por mais que estivesse exausta, agora que descobrira que o senso de sobrevivência era o melhor tipo de energético que existia, ela não iria desistir. Ela começou a se transformar em lobo, suas unhas se curvando e crescendo, seu olfato e audição ainda melhores.
Com um grito, ela se debateu forte o suficiente para os três homens a derrubarem no chão, e se levantou com o dobra de rapidez que teria. Ela cortou a garganta de um tão rápido que suas garras mal se sujaram, e o outro acabou tendo o estômago aberto. Mas no terceiro ela não tocou.
— Onde estamos? — Perguntou, meio rosnando. Tinha noção dos dentes enormes que agora exibia, mas ignorou.
— Forte Huachuca, Arizona! — O homem berrou, ao meio de lágrimas. Meio óbvio que ficasse na área onde havia mais estações subterrâneas de todo os Estados Unidos. Sabendo disso era bem fácil tomar o lugar onde estava por algum tipo de bunker. Para os cidadãos, era apenas uma área militar do governo. Pra quem sabia, uma das áreas de segurança máxima e vários testes.
— Onde fica a saída? — Ela rosnou novamente, segurando a camisa dele com as garras.
— Siga reto e verá um estacionamento, tem uma saída lá! — Ele respondeu, se encolhendo. — Por favor, não me mate.
— Não vou. — Mariana deu um soco no homem, que desmaiou. Ela se virou e correu para a frente, querendo que o homem não tivesse mentido pra ela sobre a localização da saída.
O lugar era comprido e tinha muitas portas, algumas onde ecoavam um barulho horrível de gritos torturados. Mariana queria parar e arrombar uma delas, ver se os amigos estavam atrás daquelas portas, mas se obrigou a continuar correndo. Não ajudaria ninguém na posição que estava agora, a primeira tarefa era chegar ao lado de fora primeiro, então ela continuou correndo na direção indicada.
Não muito depois, foi agraciada pela visão de um estacionamento. Não era um estacionamento comum, era mais pra pavilhão. Diversos carros blindados, motos, caminhonetes e caminhões contrastavam com a visão de helicópteros. Além dos veículos, inúmeras armas também estavam ali, dispostas em uma mesa de metal. Mariana agradeceu a qualquer deus que a estivesse ouvindo e pegou algumas das armas da mesa. A primeira foi uma pistola, pequena o bastante para ser escondida na calça, mas grande o bastante para fazer um estrago suficiente. Também pegou algumas facas e colocou da melhor forma que podia no cinto, mesmo que tivesse garras quando quisesse, ter lâminas era sempre melhor. E por último, pegou uma arma maior.
Colocando tudo de um jeito que não caísse nos cintos e nos bolsos já que estava sem o casaco e sem suas botas, ela decidiu que pegaria uma moto o mais rápido possível. O portão estava aberto, mas sair a pé era suicídio, e ir de carro poderia ser facilmente seria perseguida e ela nunca se dera ao trabalho de aprender a pilotar um helicóptero. Motos poderiam ter GPS, mas eram rápidas e ela se livraria fácil dela.
Tão silenciosa quanto podia, ela foi até as motos, que felizmente tinham a chave já na ignição.
— Valeu otários. — Ela murmurou, se preparando para correr pra fora de lá.
— Não faça isso.
Ela ergueu os olhos e o viu. Louis, com as mesmas roupas que ela lembrava do último encontro, mas de algum jeito mais parecido com o seu pai. Ele parecia cansado, e ela se perguntou como sabia disso apenas olhando para os olhos dele. Com certeza ele não dormia há algumas noites. Mas ela apenas ergueu a arma e mirou no coração dele. Ele poderia se regenerar, mas não tão rápido quanto uma bala perfuraria seu coração. Ele acabaria morto de qualquer jeito.
— Mariana, por favor, não faça isso. — Ele pediu. Parecia tão idiota, ela segurando uma arma contra ele. Contra Louis. Louis, o menino que a levou para o McDonald’s pela primeira vez quando ela tinha oito anos; que havia a salvado diversas vezes durante anos; que a implorou para ir sozinha para a missão dos Modificados e cuidar do irmão dele. Ela devia a ele a chance de ter conhecido os amigos. — Mariana… Mari, pare.
— Eu não vou te matar ainda, Louis. — Ela anunciou. O “ainda” soou horrivelmente falso. Nem que quisesse conseguiria matá-lo. — Mas eu juro, se tocar nos meus amigos… Se tocar no Allec… Só um fio de cabelo, eu juro, eu juro por qualquer coisa, eu vou atrás de você, e vou enfiar uma bala na tua cabeça.
Ele não disse nada, o que facilitou tudo. No fundo ela desejava que tudo isso não tivesse passado de um pesadelo, mas ela sabia que era real. Era real e estava batendo na cara dela, apontando uma faca para ela.
— Você não precisa fazer isso. — Louis disse.
— Não, e eu não vou. Mas sinceramente, você me conhece. Toque quem eu protejo e eu vou até o inferno querendo sua cabeça. — Mariana rebateu, com a voz tão decepcionada, tão triste, que chegou a doer os ouvidos de Louis. — Mesmo se for a sua cabeça. Está me ouvindo? Não toque nos Modificados, Louis. E se fizer… Se tiver a audácia de ir atrás do seu irmão, do Pietro ou do Allec, eu estarei lá. Eu estarei lá, está me entendendo?
— Eu entendi. — Louis assentiu. — Eu só quero que saiba, que esteja lá ou não, eu vou achá-los, Mari. Não tem como eles saírem dessa. Dessa vez, sua missão já começou fracassada.
— Foi você que me ensinou a lutar até o último suspiro, Lou. — Mariana deu alguns passos para trás, querendo sair daquele lugar. — Não se assuste se eu morrer nos seus braços tentando proteger meus amigos.
Ele olhou para ela com muita, muita dor. Amigos podem se distanciar, podem brigar, mas nada, nada doeria mais do que ameaçar um ao outro de morte, sabendo que era verdade. Porque quando você ganha a vida fazendo esse tipo de coisa, você não tem tempo pra mentir. Não tem tempo pra inventar uma vida nova, porque você sabe que o que tem nunca vai mudar.
— Até logo, Louis.
Mariana atirou no peito dele. Não era nem perto do coração, mas teria fazer uma cirurgia rápida se quisessem que ele sobrevivesse. Quando ele caiu, gritando de dor, ela subiu e deu a partida, atravessando o pavilhão e saindo pelo portão. Quando alcançou uma rodovia, se sentiu tão aliviada que pensou que iria vomitar. Mariana continuou dirigindo, com o vento batendo com força no rosto dela.
Ela precisava falar com Eva, precisava ver se Louis não tinha ido atrás dos amigos, precisava de um plano. Nunca admitiria, mas se iria lutar contra Louis, precisava de ajuda urgentemente.
Notas finais
Ah, vcs saberão. Aliás, Xavier Smith vai dar uma passadinha em Blackbirds, Uriah Campbell será citado, e no final algo será revelado.
Eu nunca deixaria de fazer um crossover entre minhas fics, deixaria? Confiem, vcs ainda verão a droga que vai ser misturar todos esses retardados contra nosso Louis.
Bye, contem o que acharam.
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