My Cruel Winter
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Esta história seria iniciada com um "era uma vez" se fosse um conto de fadas.
Mas não há princesa, nem príncipe, e muito menos um felizes para sempre.
Também não é uma vez. Nem primeira. Nem segunda.
É a vez. E a vez das primeiras vezes.
Porque, ao fim, não é sempre que se acaba algo.
Às vezes ele apenas se estende e se dissolve com o tempo, se esticando como um elástico.
No entanto, esse amor nunca foi tão forte.
E se arrebentou com o arrastar do tiquetaquear de um relógio, que o testava cruelmente.
•••
— No que você estava pensando quando disse isso a ele?
Ela riu, e eu senti meu interior estremecer como se ele risse junto dela.
— Honestamente? Nada. Assim como ele não pensou em nada quando me desafiou. — a voz dela era sincera e quase cômica, e quando olhei para seus olhos eles estavam quase fechados pois ela estava olhando para baixo, para onde pisava, e os cabelos cor de caramelo estavam ligeiramente desgrenhados, os cílios, ainda mais claros e fluorescentes por conta da luz solar. Quando sorriu, as maçãs de seu rosto se levantaram levemente, uma mais do que a outra pois sorrira de lado, dando um de seus típicos sorrisos travessos.
O vestido que usava era tão claro quanto a grama que era iluminada pelo sol, tornando-se amarelada e luminosa. A luz refletida nele a tornava o próprio sol pois ele era de um tecido fino, amarelo e muito claro, e era coberto por toda a sua extensão por pássaros marrons, pequenos e delicados. A sensação era de algo retro, e algo que pareceria leve como o vento que o levantava e o fazia dançar sem maiores dificuldades. Marcava-lhe a cintura, lhe conferindo um ar delicado, e havia babados nas mangas, tornando seu semblante mais frágil.
Era nosso último dia de aula. Nos encontramos no fim da rua. Adentramos a mata. Seguimos para a cachoeira.
Toda vez que nós nos aproximávamos dela, encontrávamos alguma flor, e ela a colocava em sua orelha esquerda. E naquele instante tudo parecia colorido como o reflexo de um prisma.
Sua pele parecia macia como camurça, e eu notava alguns pequenos pelinhos finíssimos e claros sobre sua superfície, assim como a vermelhidão causada pelos dias ensolarados da cidade onde morávamos. Perto da praia, dos lagos, das cachoeiras, dos animais, das flores, da vida, mas longe do mundo e longe de tudo.
Seus olhos castanhos subiram do chão para mim, com um ar familiar. Era a essência dela. A essência de quem continua a sorrir diante das piores coisas e que deixa o sarcasmo pingar de sua língua ou descer como a corrente de um rio.
Algumas coisas ela só fazia caso você merecesse. E eu adorava o senso de justiça dela.
— Sabe, eu fico pensando como você seria caso tivesse uma irmã.
Eu, sempre surpreendido por ela, me pusera a pensar.
— Olha, eu não faria nada do que seu irmão faz. — eu sorri levemente, e era um sorriso amarelo. As pedrinhas arredondadas ao redor da cachoeira faziam cócegas em nossos pés e por um instante, olhei para os dela, pálidos e de aparência doente e louçã, como um peixe ou um pássaro morrendo sobre as pedras numa tarde de inverno. Sua pele soa como um finíssimo embrulho, que era transparente, ocultando nada de suas veias. — Mas acho que eu a protegeria. E tentaria fazê-la feliz até isto estar fora de meu alcance.
Um par de pássaros cruzou nossa vista. Eles cantavam uma doce melodia, quase melancólica, e o dia de tons pastéis e detalhado em tragicidade foi notado mais uma vez quando o vento passou e fez as árvores mais fracas dançarem, como um músico faz com as cordas de violão, os galhos enegrecidos balançaram levemente em certos casos, mais violentamente em outros, não deixando folha alguma cair apenas porque estávamos no inverno.
E invernos são cruéis com a beleza do que é vivo.
Os raios de sol foram ocultados, e tudo pareceu vividamente mais escuro naquele instante.
— Mas e uma namorada? O que você faria por ela? — ela parou, se abaixou, pegou algo entre as pedras, e se aproximou mais da água, fazendo-a molhar as pernas. Afundou-se nela, as bordas de seu vestido molharam e se tornaram pesadas, e soou como se seu ser magro tivesse sido aprisionado por elas. As águas eram como lupa, e as pedras, ao fundo, pareciam mais próximas assim como sua fala tornava-se mais alta pois o barulho da água gritava, e era egoísta, não admitia sons além dele. Dizia que devíamos gritar em pensamento.
Sempre fomos rebeldes.
Olhava para os nuances de cor pontilhados aos pés, de cinza a bege, de pedras manchadas às mais pigmentadas.
— Tudo. Eu faria tudo por ela. — olhei-a, procurando e a encontrando. Sempre foi fácil achá-la quando sua pele revelava cada parte que dizia tanto dela.
— Então pode fazer algo por mim? — seus olhos sinceros me fitaram. Não eram justiceiros, eram apenas tristes, e eu sabia que ela tentava ser apática, mesmo não conseguindo.
Nunca foi fã da dor. Por esse motivo, não gostava que ninguém a enxergasse nela.
— Mas você não... não é minha namorada. — minha voz foi baixa, e o som da cachoeira pareceu mais distante.
Ela não era fã da dor, mas às vezes pensar nela fazia esta se impregnar em minha pele como uma doença sem cura.
Queria tanto que se limitasse apenas à epiderme. Queria tanto não poder dizer que meu coração doente já era incurável.
Não queria passar o resto da vida mergulhando numa doença terminal. Por mais trágica que fosse minha dor.
Mas existiam instantes que me faziam parar. Como se meus batimentos parassem, meu sangue parasse de fluir e meus outros órgãos desistissem como sabia que fazia nesses momentos.
Eu só queria parar de sentir. Parar de sentir como se sentisse tudo.
Porque sentir tudo dói. De uma forma que me fazia desejar que fosse mentira.
— Mas queria ser. — a voz dela foi determinada e triste de uma forma seca.
— Eu também queria que você fosse. — confessei, trazendo mais uma vez um fato doloroso a tona.
— Mas não posso ser. — ela, mais uma vez, deixou claro.
— E ainda assim eu faria tudo por você. — a nascente da cachoeira me ameaçou entre as pedras, fluindo com mais força como um rugido entre as árvores.
Um instante de silêncio e ela me jogou contra a água.
Caiu sobre mim e nosso pequeno esconderijo pareceu do nosso tamanho.
Puxou-me pela gola.
— Se pode fazer tudo por mim, prometa que vai guardar esta pedra. — senti algo contra meu peito, algo arredondado.
— Prometeria qualquer coisa que pedisse. — meu tom era sincero e eu sei que ela enxergou dor em mim, mas ela não parece me odiar tanto quanto a odeia. A água gélida nos envolveu e seu cabelo estava sendo molhado em várias partes, tornando-se escuro onde esta tocou.
— Cala a boca. — os olhos dela lacrimejaram como se quisessem se tornar a cachoeira que havia perto de nós. — Promete que não vai se esquecer de mim? — sua voz tentou se manter firme, mas era quase um fiapo.
— Prometo.
— Promete que vai guardar esta pedra? Que vai guardar mesmo? E que não vai perdê-la? — ela parecia quase raivosa, mas eu sabia que era tudo fachada de uma garota mandona que sabia do poder que tinha sobre seu destino.
Nenhum.
— Prometo. — minha voz soava distante para mim. Meus olhos se perderam na curva de seu cabelo em sua orelha, envolvendo uma margarida, e voltaram para a curva de seu nariz pequeno e delicado, arredondado na ponta.
— Promete que vai me beijar agora? — suas orbes castanhas e desenhadas eram dúvida.
— Eu disse que prometeria qualquer coisa. Mas não preciso de promessas sobre o agora quando ele é a única certeza de que tenho. — seus olhos relaxaram por um instante antes de tomar seus lábios nos meus.
À noite, observei a luz da lua pelo quarto.
Observava o reflexo da luminosidade lunar sobre ela.
Soube que o frio seria ainda mais vigoroso neste ano.
E que o inverno também seria cruel com ela.
•••
— Sendo um objeto raro, acredito que o valor estimado seja esse. Conheço lugares que ofereceriam esse preço, que é considerado o justo por mim, mas...
— E quanto a este? Ele parece... caro. — o homem pondera, segurando minha pedra, que cintila, tão querida e antiga em sua mão esquerda.
O antiquário de minha família sempre fora famoso em minha cidade, tanto pelas mais inimagináveis quinquilharias quanto pelos negócios feitos em nome da conservação da história.
Tarde de terça-feira, o clima é quente e o terno subitamente parece pequeno demais, o tecido parece esquentar mais que o apropriado. O relógio de pêndulo faz um barulho agradável e familiar aos meus ouvidos e ajeito meus óculos.
A barriga de anos de cerveja e má alimentação se anuncia quando me recosto na cadeira e ela cede, proporcionando conforto.
O sol aparece em feixes, entrando entre as brechas da persiana e aparecendo no lado oposto do cômodo, e iluminando não só em pequenos feixes amarelos na tinta branca das fileiras de gesso como os olhos azuis e curiosos do comprador de vinte e poucos anos.
— Não está à venda. — meu tom é de dispensa.
— Você é um homem de negócios, então por que manteria algo tão caro enjaulado? — sua pergunta é perspicaz e intrujona como sua voz masculina e clássica ao dizê-lo.
— Não trata-se de algo caro, pois esta pedra de fato não o é. Trata-se de algo de valor e peso, mas nada financeiro. — desta vez, me afasto do encosto da cadeira, meus cotovelos se encontram com a superfície de madeira da escrivaninha e meus mocassins marrons sentem mais uma vez a textura do carpete verde-escuro. O bege de minhas roupas e o amarelo claríssimo de minha gravata parecem-se com alguns dos detalhes de meu escritório, como meu bloco de notas e a madeira que se sobressai em algumas partes do recinto. — Algo que daria a alguém. Talvez até mesmo a você, mas com uma condição. — levanta um dedo e ergo uma sobrancelha.
— E qual seria esta? — interessado, o homem se debruça sobre a mesa, e sua camisa branca e listrada por linhas finas de azul na vertical se amassa levemente.
— Há duas maneiras de iniciarmos: um romance e uma tragédia. Qual você escolhe?
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