My Butterfly
1 Prólogo - Salvação
Não sei exatamente o dia, a hora ou em que ano isso tudo aconteceu, mas sei que foi real. Talvez eu não saiba nem exatamente em que dimensão essa história começa, mas sei que eu estava lá. E ele também.
Em uma dimensão perdida, onde apenas mundos se encontram de tempos em tempos, onde há um de nós para cada situação em uma vida diferente, me vi em colisão com uma pessoa que estava entre vários mundos e em dimensões diferentes. Levanto-me da grama em que me encontro caída e olho ao meu redor, não reconheço esse lugar. Um pequeno parque, com muitos pássaros e uma grande árvore que me abriga da chuva. Meus lindos cabelos tampam minha visão e eu o retiro rapidamente. Novamente, olho em volta de mim e vejo que estou suja de sangue. O que acabei de fazer? Olho para o lado, e dormindo entre as madeixas de meu vestido negro há um rapaz. Não sei ao certo se é um, já que seu cabelo comprido e verde parece feminino demais. O observo por apenas alguns segundos, antes de um raio cair perto e o fazer despertar. Ele também está sujo de sangue, mas parece que o ferimento é dele. Passo a mão em uma mecha de seus cabelos e ele me olha. Sorri decepcionado consigo mesmo e volta a fechar os olhos. Tiro meu casaco marrom e cubro seu corpo, suspiro e não tenho a mínima ideia do que fazer com ele.
Lembro-me do que acabei de passar, assim que olho aquela casa em chamas a alguns quilômetros a minha frente. É mesmo, eu o salvei da morte.
–Qual é o seu nome? -pergunto falando calmamente ao pé do ouvido.
–Ukyo... -ele responde quase sem fôlego para dar continuação a seu sobrenome.
–Tudo bem. Você vai ficar bem.
Me levanto e olho pro céu, a chuva parece não parar nunca. Olho para trás e vejo um pequeno celeiro vermelho, lugar de animais, mas que nos trará um pouco de proteção. Me ajoelho e chego o rosto perto de Ukyo, passo a mão em suas bochechas e sorrio.
–Está com frio, não está? -pergunto.
Ele sinaliza positivamente com a cabeça e eu torço o rosto.
–Vai ser um pouco difícil te carregar, será que consegue andar mais um pouco?
Ele se esforça para se apoiar em seus dois braços e levantar seu tronco, ele me olha como quem pede apelo e eu seguro um de seus braços com força. Ele quase cai, mas se mantem. Então, ele levanta com dificuldade e coloca um de seus braços em torno de meu pescoço. O guio até o celeiro com dificuldades e nós estamos ficando encharcados por conta da chuva. O sangue dele não para de escorrer.
Assim que entramos, ajudo Ukyo a sentar-se no monte de feno que estava bem na entrada. Ando pelo celeiro inteiro a procura de algo que possa aquecer ele e acho um pequeno manto negro que estava cobrindo uma das máquinas usadas para recolher o pasto. O cubro e me sento do lado dele, no chão. Olho para fora e o tempo parece piorar cada vez mais... Algo está estranho no dia. Ele está ardendo em febre e não sei o que fazer. Rasgo um pedaço do vestido e faço um torniquete em seu peito... Sento-me novamente e olho para ele.
Ukyo abre os olhos, que já estavam fechados desde que ele se deitou ali, e me olha diretamente. Como um agradecimento. Eu sorrio e coloco para trás da orelha uma mecha de meus cabelos. Arrepio-me, está realmente muito frio. Deve ser o começo do inverno.
Ukyo sorri pra mim e eu retribuo. Ele abre uma pequena brecha em seu manto e sinaliza para que eu me encaixe junto a ele para me aquecer. Não hesito em aceitar a proposta, me levanto e me deito junto a ele que joga um de seus braços em volta de mim.
Fecho os olhos e me sinto confortável. Estávamos molhados, ele estava ferido e eu não fazia a mínima ideia de como eu havia parado dentro daquela casa, e eu tinha salvado aquele homem de cabelos longos e verdes.
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