My Biology
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Franzi a testa, sentindo meus olhos reclamarem mesmo ainda estando fechados. Deixei que minhas pálpebras se afastassem por milímetros, e a forte luz do sol atingiu em cheio minhas retinas, fazendo-me gemer baixinho e fechar os olhos novamente. Eu devia ter fechado as cortinas em algum momento da noite anterior; não que elas fossem impedir os raios solares de me perturbarem, mas pelo menos ajudariam um pouco.
Provavelmente, eu estava ocupada demais para pensar em detalhes como esse.
Tomei coragem e abri novamente os olhos, bem devagar e piscando algumas vezes para adaptar minhas pupilas. Me senti um pouco mais confortável dessa vez; respirei fundo, espreguiçando-me e recebendo a resposta preguiçosa de meus músculos. Eles haviam trabalhado bastante nas últimas horas e não queriam se mover, mas eu os forcei a se esticarem por alguns segundos, numa tentativa falha de me trazer disposição. Eu estava morta, exausta, esgotada, e a culpada por isso dormia feito pedra ao meu lado.
Assim que a vi, escorada sobre o travesseiro, um sorriso sapeca surgiu em meu rosto. Eu nunca a havia visto dormindo, e imediatamente me senti injustiçada. Ela já havia me visto dormir uma vez, e posso garantir que a visão não fora das mais agradáveis. Já ela… Parecia uma escultura de um anjo que havia ganhado vida, e ressonava tranquilamente, com o rosto calmo a poucos centímetros do meu. Tive a leve impressão de que seria capaz de observá-la pelo resto da vida.
Seu nariz por pouco tocava o meu, e seu cabelo, por mais bagunçado que eu o tivesse deixado, parecia ter sido arrumado durante o sono, voltando ao seu estado despojado e lindo de sempre. Seus lábios estavam fechados numa linha reta e fina, e seu peito nu subia e descia conforme sua respiração calma. Sua mão ainda repousava em minha cintura, como estava desde que caí no sono, e nossas pernas estavam novamente entrelaçadas, permitindo-me tentar esquentar seus pés gelados. Meu coração batia acelerado a cada detalhe que eu observava, e o sorriso insistia em permanecer, me fazendo sentir uma idiota.
Uma idiota apaixonada.
Engoli em seco ao notar o sentimento proibido lutar para se expandir ainda mais dentro de mim, sem conseguir encontrar espaço. Mas, de alguma forma, eu sabia que ele crescia a cada segundo, silenciosamente como sempre, e enrolava uma corda invisível ao redor de meu pescoço, pronto para me enforcar quando eu menos esperasse, e assim me render por completo. Suspirei profundamente, sentindo o sorriso se esvair de meu rosto, e encarei seus cílios, desejando encontrar os olhos dela me encarando de volta. Quem sabe assim eu conseguisse afastar todos aqueles conflitos de minha mente e simplesmente me perder no brilho de suas íris… Me esconder em meu refúgio mais que perfeito.
Não sei por quanto tempo apenas observei os traços tranquilos de seu rosto, sem conseguir sorrir. As inúmeras vozes dentro de minha cabeça, falando incessantemente sobre todos os recentes acontecimentos, me deixavam confusa demais para realmente sentir alguma coisa e manifestar esse sentimento. Somente quando um barulho familiar rompeu o silêncio do quarto, eu acordei de minhas reflexões, e subitamente fiquei alerta.
O som se parecia com chaves balançando num molho, e tinha vindo do andar de baixo. Mais especificamente da porta de entrada.
E foi então que eu finalmente entendi o que ele significava.
Mamãe havia chegado.
Meus olhos se arregalaram instantaneamente, ainda fixos no rosto de Alison, quase imóvel ao meu lado. Na mesma hora, a imagem de mamãe flagrando-nos me veio à mente, e minha garganta se fechou em pânico. Olhei para a porta entreaberta de meu quarto e graças a Deus meu impulso apavorado foi mais rápido que minha consciência.
Me levantei com certo esforço, já que Vilu resistia inconscientemente às minhas tentativas de me libertar de seu abraço, e corri silenciosamente até a porta, trancando-a com cuidado para não fazer barulho.
Soltei todo o ar preso em meus pulmões assim que estava segura, fechando os olhos por alguns segundos e tentando pensar com clareza. Como eu conseguiria tirar ela dali sem mamãe perceber? Ela com certeza viria pelo menos me dar um beijo, ou seja, eu precisava acordá-la, e logo. Encarei seu corpo adormecido sobre a cama, encostada à porta, e só então percebi que, apesar do vidro fechado da janela, estava frio dentro do quarto. E opa. Eu estava nua.
Corri até meu armário, e numa velocidade recorde, vesti uma calcinha e uma camisola qualquer. Virei-me de volta para a cama, prendendo depressa meu cabelo cheio de nós num coque desengonçado, e o som dos passos de mamãe subindo a escada acelerou meu coração. Droga, ela estava chegando e Violetta mal havia acordado! Pelo menos a porta estava trancada; isso serviria para nos render algum tempo extras.
Me esgueirei até ela, cutucando-a com força, mas ela nem se moveu. Bufei, revirando os olhos, e segurei firme em seu braço, chacoalhando-a sem sutileza alguma. Ela franziu a testa, ainda de olhos fechados, e começou a reclamar baixinho numa língua provavelmente extinta há alguns séculos. Se eu não estivesse tão nervosa, teria rido, mas tudo que fiz foi trincar os dentes e balançá-la com mais força, sem perceber que ela estava muito próxima da beira da cama. Umas três chacoalhadas depois, seu corpo não ofereceu resistência a minhas mãos, e tombou para o chão com um barulho doloroso. Maldita cama de solteiro.
Levei as mãos à boca, preocupada, enquanto a ouvia resmungar uns sete palavrões seguidos. Dessa vez, não consegui conter um risinho nervoso, até que ela se levantou, com a mão cobrindo parte de seu rosto e uma careta de dor.
– Desculpa. – sussurrei, sem ter muita certeza de que ela estava realmente acordada, mas logo tive minha confirmação: a maçaneta da porta do quarto girou, indicando a chegada e mamãe, e imediatamente os olhos dela se arregalaram, assim como os meus fizeram antes. Seus olhos foram da porta até mim rapidamente, e eu levei o indicador à boca, pedindo silêncio.
– Vou me esconder debaixo da cama. – ela cochichou, ainda hesitante, e seu rosto demonstrava um misto de sono, dor, preguiça e medo.
– Não seja idiota! – falei no mesmo volume, atirando suas roupas espalhadas pelo chão em sua direção sem nem ver onde elas a atingiam. – Vista-se e pule pela janela!
– O quê? – Vilu disse, num sussurro mais alto, e eu me virei no mesmo instante, repreendendo-a com o olhar. – Pela janela? Você quer que eu morra?
– Se não parar de enrolar, vou querer sim! – briguei, atirando sua calcinha em seu rosto sem querer. – Anda logo!
Ela pegou a calcinha, revelando sua expressão ranzinza, e a vestiu rapidamente, bocejando enquanto o fazia. Olhei ao redor, analisando toda a bagunça que havíamos feito sobre minha escrivaninha (digamos que eu e Alison quase a quebramos também, junto com boa parte da mobília do quarto, mas finja que não ficou sabendo disso), e rapidamente a ajeitei, ouvindo mamãe insistir na maçaneta mais algumas vezes antes de parar. Ou pelo menos eu achei que tivesse parado.
– Querida? – ela chamou cuidadosamente, batendo à porta alguns segundos depois, e eu olhei para Violetta, com medo até de respirar. Ela devolveu meu olhar por um momento, terminando de ajeitar a lingerie, e seus olhos pairaram sobre a porta, tensos. Eu examinava seu rosto, tentando achar algum jeito de despistá-la, mas nada me vinha à cabeça.
– Fale com ela. – eu li seus lábios dizerem, enquanto ela voltava a me encarar e mamãe voltava a me chamar. – Diga que já vai.
– Não! – respondi, apavorada, e ela me lançou um olhar insistente enquanto vestia o vestido. – Vou fingir que estou dormindo!
– Quem está aí? – ela perguntou, e eu cobri minha boca com as mãos. – Francesca, com quem você está falando?
– Hm… Erm… Hã? – eu disse, em voz alta, e Vilu manteve seus olhos fixos em mim conforme eu a respondia. – Ahn, oi, mãe… Já chegou, é?
– Filha? Por que a porta está trancada? – mamãe questionou, parecendo um pouco mais tranquila ao ouvir minha voz.
– É que… – comecei, olhando para Vilu sem saber direito o que responder, e vi que ela me incentivava a continuar enquanto vestia a jaqueta. – Fiquei com medo por ter dormido sozinha em casa e resolvi me trancar.
Ela assentiu, me encorajando, e eu fiz uma careta diante de minha desculpa esfarrapada.
– Ah.. – ela falou, compreensiva. – Me desculpa por ter dormido fora, mas é que a festa realmente estava boa e… Por que você ainda não abriu a porta pra mim?
Nossos olhos se arregalaram mais ainda com o tom ofendido de sua voz, e eu imediatamente corri até Violetta, puxando-a com força até a janela e abrindo-a, tentando fazer o menor barulho possível.
– Só um minuto, eu já estou indo! – falei, enquanto ela pulava num pé só para colocar os saltos, e voltei a cochichar para ela. – Vai!
– Calma, calma, tô indo! – ela reclamou, apoiando-se na parede sob a janela para colocar um dos sapatos, e eu fiz menção de correr até a porta, mas ela me segurou primeiro.
– O que foi? – rosnei, ansiosa, e ela cerrou os olhos, sorrindo de um jeito meio emburrado.
– Vou me jogar da sua janela e não mereço nem um beijo? – ela reclamou, fazendo beicinho, e eu não consegui não sorrir, por mais nervosa que estivesse. – E se eu não sobreviver à queda?
– Vaso ruim não quebra. – retruquei, erguendo as sobrancelhas em tom de superioridade, e ela notou o humor em minhas palavras, sorrindo mais. – Tchau, Castilio.
– Você vai me pagar por isso, Cauviglia. Esse vestido foi uma fortuna! – Violetta disse, apenas movendo os lábios enquanto eu me afastava, e logo em seguida fez cara de cãozinho sem dono, fazendo biquinho e apontando para os próprios lábios com o indicador. – Só um beijinho, vai!
– Beija isso! – sussurrei, rindo, e mandei dedo pra ela, vendo sua boca se escancarar pela ofensa, porém ainda sorrindo. Ela terminou de calçar seus sapatos, olhando de cara feia pra mim, e me mostrou a língua antes de se virar para o parapeito e agilmente colocar-se para fora da janela. Paralisei quando a vi pendurada, e apesar de saber que a queda não a machucaria devido à baixa altura, fiquei com um pouco de medo. Observei Vilu se preparar para pular, e alguns segundos depois ouvi ela xingar baixinho e sumir completamente, com um baque surdo e um barulho alto de folhas se mexendo e gravetos se quebrando. Prendi um gemido de pavor, e corri até a janela.
– Francesca, que barulho foi esse? Abra essa porta agora! – mamãe chamou mais uma vez, parecendo impaciente, e eu mal consegui ouvi-la. Vi Violetta se levantando no jardim, com as mãos nas costas e os cabelos repletos de pequenas folhas, e mordi o lábio inferior, com pena. Ela lançou um breve olhar para cima, e seu rosto demonstrou um pouco de dor, deixando-me ainda mais amolecida .Mandei-lhe um beijinho de desculpas, e seu rosto pareceu desobedecer a suas ordens, rapidamente mudando de expressão. Ela sorriu pra mim, daquele jeito estonteante que me fazia sorrir junto, e correu até seu carro, mancando um pouco, porém bastante saudável para quem havia saltado uma janela. Respirei fundo, rindo baixinho, e mamãe voltou a bater à porta, arrancando-me do momento divertido.
– Calma, já vou! – exclamei, irritada, e corri até ela, destrancando a porta e abrindo-a com pressa. – O que foi?
– Por que essa demora toda? Quem estava aí com você? Que barulho foi esse? – ela disparou, de braços cruzados e com uma expressão não muito amistosa.
– Eu demorei porque estava com muito sono, não sou obrigada a acordar tão cedo em pleno fim de semana só porque você chegou em casa. – respondi, sendo um pouco mais grossa que o aconselhável pela despedida apressada de Violetta. – Eu estava falando sozinha, xingando esse frio maldito, e os barulhos que você ouviu vieram lá da rua, não tenho nada a ver com isso. Satisfeita?
Mamãe esticou o pescoço enquanto eu falava, bisbilhotando o quarto agora vazio, e ficou me encarando por alguns segundos antes de responder. Meu coração batia em minha garganta, acelerado devido às minhas mentiras muito mal formuladas, e apostei todas as minhas esperanças na enorme confiança que mamãe tinha em mim.
– Sim, me desculpa. – ela suspirou, parecendo realmente convencida, e o alívio me dominou. – Pode voltar a dormir se quiser. Eu só queria saber se você estava bem, não quis interromper seu sono. Também vou me deitar, preciso descansar um pouco.
– Hm… Tudo bem. – assenti, arrependida pela forma um tanto rude pela qual a tratei, porém sem baixar a guarda. Se era pra mentir, que eu fosse convincente até o fim, certo?
Ela me deu um beijinho na testa antes de caminhar até seu quarto e eu fechei a porta novamente, me encostando nela e rindo baixinho. Pode parecer idiota, mas foi inevitável me perguntar se Vilu estaria rindo naquele momento também, dirigindo sua Ferrari a caminho de casa. Após alguns segundos distraída com aquele pensamento, deduzi que estava sendo imbecil demais e me contentei em rir sozinha, aliviada e feliz por tudo ter dado mais do que certo. Me afastei da porta, observando calmamente o quarto enquanto me aproximava da cama, e todos os momentos daquela noite voltaram à minha mente, como um filme acelerado. Me deixei cair sobre o colchão, suspirando, e abracei forte o travesseiro com o perfume dela, afundando meu rosto ali e respirando fundo.
– Boa noite, Vilu! – sussurrei contra a fronha perfumada, e puxei os cobertores para meu corpo antes de voltar a dormir profunda e quase que instantaneamente.
Já havia escurecido quando voltei a abrir os olhos, bem menos cansada que antes e com uma fome estratosférica. O silêncio ainda predominava em casa, exceto pelo barulho da TV no andar de baixo, provavelmente responsabilidade de mamãe. Dessa vez, foi muito fácil levantar e fazer uma visita ao banheiro, mais especificamente ao chuveiro.
Entrei de cabeça sob a cachoeira quente, e me lavei sem muitas delongas. Logo em seguida, escovei os dentes, e assim que havia acabado, me encarei no espelho. Meus lábios pareciam constantemente curvados num sorriso, sem que eu sequer me desse conta disso, meus olhos brilhavam mais que o normal, minhas bochechas estavam coradas e quentes, meu coração parecia forte, batendo num ritmo mais acelerado que o habitual… Eu estava diferente. Eu estava bem.
Deixei o banheiro cantarolando uma música qualquer, e assim que minhas mãos se dirigiram à toalha enrolada em meu corpo, me lembrei de Violetta arrancando-a na noite anterior. Um leve arrepio percorreu meu corpo instantaneamente; com certeza, eu levaria algum tempo para me recuperar daquela noite. Tive que respirar fundo antes de prosseguir, mas parecia que alguém não queria que eu o fizesse.
Meu celular tocou assim que minhas mãos se dirigiram à toalha, e eu corri para atendê-lo, olhando o visor antes. Um nó dolorido se formou em minha garganta e todo o clima agradável desapareceu quando li o nome escrito na tela.
– Alô? – murmurei ao atender, sentando-me na cama e levando a mão livre ao pescoço numa tentativa idiota de fazer minha voz fluir melhor, e também de conter o enjôo forte que se apoderou de meu estômago, extinguindo minha fome por completo num segundo.
– Oi, meu amor! – Cami sorriu, parecendo extremamente aliviada, e meus olhos se fecharam quando senti a alegria em sua voz. – Acabei de chegar de viagem!
– Que bom. – respondi com a maior empolgação forjada que consegui, mordendo meu lábio inferior logo em seguida e sentindo meus olhos ficarem úmidos numa velocidade alucinante.
– Como você tá? – ela perguntou, animada. — Aproveitou bastante seu fim de semana sem mim, aposto!
Levei alguns segundos para fingir um risinho e encontrar minha voz para respondê-la. Se ela soubesse o impacto que essas brincadeiras tinham em mim, não as faria. Ou talvez, fizesse pior, para me dar exatamente o que eu merecia receber: dor.
– Tô bem. – falei simplesmente, e ao abrir os olhos, vi boa parte de meu quarto em borrões devido à água que se acumulava neles. – E você? Como foi a viagem?
– Confesso que eu tô um pouco triste, porque faz um tempão que eu não te vejo, e isso me deprime! – Camila respondeu, fingindo um desânimo fúnebre na voz, assim como eu fingia o contrário na minha. –Mas a viagem foi ótima. Matei a saudade da família, descansei bastante, segui todas as suas recomendações… Digamos que estou fisicamente saudável. Meu emocional anda meio doente sem você pra cuidar dele.
Uma lágrima caiu por meu rosto, e eu prendi um soluço com esforço.
– Me desculpe por isso. – falei baixinho, tentando fazer com que minha voz estrangulada soasse proposital. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, me deixando um pouco preocupada, e quando voltou a falar, sua voz parecia séria.
– Fran… Tá tudo bem mesmo? Você me parece… Preocupada com alguma coisa. O que foi?
– Eu estou bem, Cami,juro. – sorri, esforçando-me ao máximo para disfarçar minhas lágrimas. – Não se preocupe comigo.
Ficamos em silêncio por mais alguns segundos, enquanto ela provavelmente decidia se acreditava em mim ou não.
– Hm… Então tá. – ela finalmente disse, agora com seu tom natural, e eu respirei fundo, aliviada. –Vou desfazer as malas agora e dormir… Quero estar totalmente disposta pra voltar à rotina amanhã, e o mais importante, pra voltar pra você.
– Vai lá. – murmurei, ainda sorrindo tristemente, enquanto as lágrimas continuavam transbordando. – Boa noite.
– Boa noite, meu amor, até amanhã. –Camila sussurrou, e eu tive certeza de que estava sorrindo. – Te amo muito!
– Eu também. – falei, e desliguei logo em seguida. Apoiei meus pés sobre o colchão e abracei meus joelhos, enterrando meu rosto neles e deixando que a dor e o choro me engolissem.
Meu coração parecia rodeado de agulhas, porque a cada batimento, inúmeras fisgadas o dominavam. Ela me amava tanto… E eu, mesmo sabendo que não merecia todo aquele amor tão puro, era incapaz de dizer a verdade e afastá-la de mim… Afastá-la do monstro egoísta e inescrupuloso que eu era. Porque eu também a amava, e não conseguia me imaginar sem ela ao meu lado.
Mas havia outra pessoa ocupando o mesmo espaço em meu coração. E por mais que eu tentasse, escolher uma só me parecia inaceitável. Ambas eram tudo o que eu sempre quis, e tudo que eu jamais teria. Era extremamente errado e impossível ter as duas… Meu coração não suportaria a culpa.
Poucos segundos depois, ergui meu rosto, enxugando as lágrimas e tentando contê-las em vão. Não adiantava chorar diante de meu dilema, de que adiantariam lágrimas? Por mais que aquela dúvida me corroesse, não fazia sentido algum ficar chorando ao invés de tentar ser o mais objetiva possível e pesar minhas opções. Fiquei de pé, fungando baixinho, e assim que dei um passo na direção do armário para me vestir, meu celular voltou a tocar.
Fechei os olhos com força, hesitante, com medo de que fosse Spencer novamente. Não sei se conseguiria fingir outra vez. Após alguns toques, engoli o choro com esforço, peguei o aparelho sem coragem de ver o número e atendi.
– Alô? – falei, tentando parecer firme, e a voz do outro lado da linha fez minhas pernas tremerem tanto que por pouco caí no chão, ao invés de sentar na cama outra vez.
– Por favor, diga que acordou há pouco tempo pra que eu me sinta menos preguiçosa por só ter acordado agora. – Violetta sorriu, com a voz levemente sonolenta, e meus olhos se arregalaram ao ouvi-la.
– O que exatamente há de errado com você? – murmurei, sem conseguir esconder meu espanto. – Primeiro você invade minha casa, depois descobre meu telefone… O que vai ser da próxima vez?
– Acha que nunca fiquei sozinha com o celular da Camila por alguns minutos? – ela riu, parecendo se divertir com minha reação. – E quanto à invasão da sua casa, prefiro não revelar meu segredo. Vou deixar você se descabelar pelo resto da vida.
– Vai sonhando. – bufei, revirando os olhos. Mentira, eu sabia que passaria um bom tempo tentando descobrir como ela havia feito aquilo.
– Já sonhei. – ela retrucou, esperta. – Não houve um segundo do meu sono sem você em meus sonhos hoje.
Respirei fundo, ignorando suas provocações sem precisar de muito esforço. A conversa com Camila ainda estava surtindo efeito em mim, e eu preferi não incentivá-la.
– Vilu,por que você ligou? – perguntei com firmeza, sem querer estender muito aquela conversa. – Se foi pra me provocar, fique sabendo que…
– Que o quê, Francesca? – ela me interrompeu, igualmente firme. – Qual é a mentira que você vai me contar dessa vez? Que me odeia, quando eu sei que você está se envolvendo comigo? Que não é certo nós ficarmos juntas, quando eu sei que não existe nada mais certo que você e eu?
– Para com isso! – pedi, fechando os olhos, e antes que eu pudesse me conter, já estava chorando de novo. – Não me pressione mais por hoje, por favor.
Ouvi ela respirar fundo do outro lado da linha, e logo em seguida, voltar a falar, com a voz grave.
– Ela te ligou, não foi?
Não consegui responder, apenas continuei chorando. Me sentindo extremamente suja por querer que Vilu estivesse ao meu lado para me abraçar e me fazer acreditar que tudo estava bem, como ela havia feito na noite passada. Não precisei responder para que ela soubesse o que havia perguntado.
– Me desculpa, eu… Devia ter imaginado que ela ligaria quando chegasse. – Violetta falou, séria e parecendo um tanto desapontada. — Vou desligar.
– Não! – murmurei impulsivamente, sem querer ficar sozinha com minha angústia nem deixá-la chateada com meu choro idiota. – Não precisa desligar… Continue conversando comigo, por favor.
Ela não disse nada por alguns segundos, processando meu pedido inesperado, e eu não conseguia impedir as lágrimas de rolarem livremente por meu rosto. Pode parecer mentira, mas eu me sentia extremamente carente, e uma certa saudade de Violetta me atingiu ao ouvir sua voz, fazendo-me apoiar meu queixo em meus joelhos e imaginar por um segundo que era em seu ombro que minha cabeça repousava.
– Claro… Eu só não sei se sou muito boa nisso. – ela gaguejou, recuperando a firmeza aos poucos. -Mas prometo dar o meu melhor.
– Obrigada – sorri fraco, grata, e me deitei lentamente na cama, encolhida. Querendo ainda mais que pudéssemos conversar pessoalmente, e que seu hálito de canela pudesse bater em meu rosto a cada palavra, e que suas mãos pudessem fazer carinho em minha cintura enquanto sua voz me fazia viajar para um lugar bom.
– Hm… Sobre o que você quer conversar? – ela perguntou, sem saber bem por onde começar. Pensei por alguns segundos, e uma pergunta me veio à mente.
– Por que não foi ao baile?
– Eu fui. – Ela respondeu, e eu franzi a testa, confusa. – Mas é claro que você não estava lá, e eu não tive motivos pra ficar. Além do mais, eu esqueci o Diego, e tive que sair correndo pra buscá-lo…
– Espera um pouco. – falei, interrompendo-a, sem saber se tinha ouvido direito. – Você esqueceu o Diego?
– Por que a surpresa? Eu faço isso com mais frequência do que você imagina. – ela sorriu, e eu não pude deixar de rir nem que fosse um pouco, imaginando a cena de Diego chegando atrasado ao baile, sem acompanhante e completamente enfurecido. – Ele deve ter me entupido de magia negra, mas eu não me importo. Não se surpreenda se eu me cortar raspando a perna e sangrar até morrer, a culpa é toda dele.
– Credo! – eu a repreendi, ainda rindo de leve, e assim que voltamos a ficar sérias, um longo silêncio predominou.
– Fran? – ela chamou, quando eu já estava começando a achar que a ligação havia caído.
– Hm?
– Nada… Só quis me certificar de que não estava segurando o telefone à toa.
Sorri fraco, perguntando-me se existia algum tipo de conexão entre nossas mentes para que pensássemos a mesma coisa no mesmo momento. Ficamos mais algum tempo em silêncio, apenas ouvindo as respirações uma da outra, até que eu o quebrei, sem saber direito se me arrependeria por isso.
– Vilu?
– Hm?
– Eu não consigo… Escolher.
Meus olhos vagavam pelas cortinas ondulantes, ainda levemente úmidos, e parte de minha mente imaginava que expressão seu rosto havia adotado. Ela com certeza sabia do que eu estava falando; não eram necessárias mais palavras para que ela me entendesse.
– Você sabe que não posso te ajudar nisso. – ela suspirou, após digerir minha frase. – Não conseguiria ser imparcial num assunto como esse. — fiquei em silêncio novamente, sem saber o que responder, e Violetta continuou a falar após algum tempo. — Eu quero que Camila seja feliz, de verdade, e quero muito que você também seja. Mas, sinceramente, eu não vejo como ela pode te fazer verdadeiramente feliz… Sendo que você tem a mim.
Agradeci mentalmente o fato de estar deitada. Se estivesse em pé, teria desmontado feito um castelinho de cartas cuja base foi desfalcada após ouvi-la falar aquilo.
– Ela me faz feliz. – murmurei, franzindo levemente a testa ao pensar na alegria que sentia quando estava com Camila. – O problema é que… Você também.
– Me desculpa por isso. – ela pediu, um tanto irônica, interpretando minha frase de uma maneira um tanto errada. – Vou tentar te magoar mais frequentemente de hoje em diante. Quem sabe assim eu te ajude a tomar a decisão certa que você tanto deseja.
– Não seja idiota. – falei, sentindo a acidez de seu tom de voz destruir o pouco de estabilidade que começara a se reconstruir em mim. Por que ela estava sendo tão estúpida? Era compreensível que ela se sentisse apreensiva sobre aquele assunto, mas eu estava no olho do furacão e não estava distribuindo patadas!
– Não seja idiota você. – ela retrucou, e respirou fundo logo em seguida, provavelmente guardando para si as palavras que realmente desejava dizer. – Só me avise quando decidir, está bem? Eu odiaria estar mal informada sobre esse assunto.
– Você provavelmente vai descobrir isso sozinha. – eu disse, sem emoção. – Procure nos jornais pela notícia de uma garota que morreu ao se atirar de um prédio e vai ter sua resposta.
– Se você sequer pensar numa coisa dessas, eu te mato com minhas próprias mãos antes que possa se suicidar. – ela rosnou, furiosa diante de minha hipótese.
– Obrigada, vai adiantar meu trabalho. – rebati, seca. Eu estava totalmente desmotivada a continuar naquela luta, já que sabia que não poderia vencê-la sem uma perda que eu não sabia se suportaria ou sem um arrependimento irreversível. Ela respirou fundo outra vez, provavelmente tentando não gritar comigo, e sua voz soou controlada ao emanar do telefone de novo.
– Não precisa se sacrificar assim, Francesca. Se não consegue se decidir agora, deixe que o tempo decida por você. Deixe que as coisas se encaminhem sozinhas. Confie em mim, e quando menos esperar, vai tomar sua decisão espontaneamente.
Conforme falava pausadamente, Vilu ia adotando um tom de voz mais calmo e até um pouco otimista, e eu percebi que meu coração seguia pelo mesmo caminho. Talvez eu devesse conversar mais vezes com ela; além de suas palavras serem quase sempre interessantes, sua voz me ajudava a pensar e a me acalmar. Pelo menos por telefone. Suas habilidades vocais ao pé de meu ouvido eram outro caso.
– Espero que você esteja certa. – suspirei, sentindo menos vontade de me suicidar. O que não significa que a sugestão tivesse sido totalmente descartada.
– Eu também. – ela murmurou, como se falasse consigo mesma, e eu desejei poder ler seus olhos e seu rosto naquele momento.
– Acho melhor desligarmos. – sussurrei, depois que o silêncio voltou por alguns minutos, apesar de estar gostando do suave som de sua respiração. – Eu preciso colocar um pijama e tentar comer alguma coisa.
– Não me diga que está nua! –Violetta sorriu, e o clima da conversa subitamente voltou a ser tolerável. – Ou melhor, diga sim!
– Desculpa desapontá-la, mas não, eu não estou nua. – falei, rindo um pouco, surpresa por seu interesse erótico incessante. – A toalha estragou seus planos.
– Ah, não me fale uma coisa dessas! – ela gemeu, torturada, e eu ri mais. – Me dá vontade de repetir as seis vezes da noite passada só de pensar! E só não chegamos a dez porque sua mãe chegou, e a propósito, vou mandar a conta de outro vestido Armani pra sua casa muito em breve!
– Ah, vai sim, e eu te mando a conta da minha cama nova. – retruquei, tentando disfarçar meu sorriso divertido e anulando qualquer tipo de reclamação dela. — Boa noite, Vilu.
– Sua cama está em perfeitas condições, assim como o meu vestido. – ela confessou, fazendo-me sorrir, vitoriosa. — Boa noite, Fran.
– Ah, antes que eu me esqueça. – murmurei, tímida. – Obrigada por… Hm, você sabe. Ter conversado comigo.
– Eu que agradeço. – ela sorriu, com sua voz derrete-gelo. – Fique à vontade pra me ligar quando quiser… Exercitar as palavras é algo que eu deveria fazer com mais frequência.
– Até que suas palavras são… Legais. – falei, ouvindo-a rir logo em seguida (e com razão, afinal, eu disse que as palavras dela eram legais). – Quer dizer, eu meio que… Gosto delas. Mas não espere que eu te ligue.
– Hm, deixe-me adivinhar… Vergonha, talvez? – Violetta chutou, e eu ri baixinho numa resposta afirmativa. – Eu juro que tento entender você, mas quanto mais perto de conseguir eu chego, mais confusa eu fico. Alguém por acaso já te disse isso?
– Não. – respondi, ainda sorrindo debilmente. – Ninguém nunca me disse a maioria das coisas que você me diz.
Fiquei séria subitamente ao ouvir minhas próprias palavras impensadas. Elas eram a pura verdade, mas talvez eu não devesse tê-las dito. Não queria demonstrar nenhum tipo de sentimentalismo exagerado, ainda mais estando na situação de indecisão em que eu estava. Ela pareceu entender o significado de meu silêncio, e murmurou alguns segundos depois:
– Eu disse pra você confiar em mim… Não disse?
Imediatamente, as palavras que ela me dissera há pouco tempo voltaram a ecoar em meus ouvidos.
"Confie em mim, e quando menos esperar, vai tomar sua decisão espontaneamente."
– Boa noite, Vilu.– repeti, e desliguei logo em seguida, sem nem querer ouvir sua resposta e de repente deixar que ela me confundisse mais ainda. Fiquei encarando o teto por um tempo, desembaralhando minha mente, e sem conseguir o menor sucesso, me levantei, fiz o que tinha que fazer e voltei a me jogar na cama, dessa vez demorando um bom tempo para cair no sono.
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– Você vai me contar tudo! – exclamei, assim que pus meus olhos em Natalia na manhã de segunda-feira. Seu sorriso de orelha a orelha denunciava que as coisas com Maxi excederam expectativas, o que só me rasgava meu rosto num sorriso igual ou até maior que o dela.
– Claro que vou, você acha que eu aguento guardar tudo só pra mim? – ela riu, me abraçando quando cheguei perto dela. – Acho que nunca estive tão feliz!
– Como é bom ouvir isso! – sorri sincera, retribuindo seu abraço. – Eu sei bem o quão chateados vocês dois ficaram quando tiveram que se separar.
– O que não vai acontecer de novo tão cedo! – ela disse, desfazendo o abraço e me olhando com uma animação enorme. – Ele me disse que a família vai voltar pra Miami, parece que precisam mais do pai dele na filial daqui, por ser bem maior que a de NY e tudo o mais… Resumindo, tudo vai voltar a ser como era antes!
– Então vocês voltaram, é isso? – perguntei, antes de comemorar de verdade, e ela assentiu, mal conseguindo sustentar o tamanho de seu sorriso.
– Ele até vai passar aqui hoje na saída pra me levar pra conhecer seu apartamento novo! – Naty guinchou, quando eu a abracei outra vez. – E disse que tá morrendo de saudade de você também.
– Ah, que bom que aquele viadinho não se esqueceu de mim! – eu ri, me afastando e recebendo um beliscão dela, mas logo meu sorriso se desfez quando meus olhos encontraram um casaco verde musgo chegando à escola. Meu coração revirou dentro do peito, meu estômago se contorceu de nervoso, minha respiração falhou, tudo ao mesmo tempo. Além de todos aqueles sentimentos que sua ligação me causara na noite passada voltarem com o triplo de intensidade, havia outro pulsando com eles. Saudade. Muita saudade.
– Pelo visto, ela já voltou ao normal. – Hanna comentou, acompanhando-a com o olhar também conforme ela se aproximava cada vez mais. – Quer dizer, pelo menos ela não está mais rosa.
– É. – respondi vagamente, sorrindo assim que os olhos castanhos dela encontraram os meus, e me segurei muito pra não correr até ela e me enterrar em seu abraço. Provavelmente, para chorar até desidratar, se eu pudesse.
– Muito bom dia, meninas! – Camila disse, passando por nós e estendendo ainda mais seu sorriso ao se aproximar. – Te vejo no intervalo, Cauviglia?
– Claro. – murmurei, sorrindo fraco, e ela assentiu discretamente antes de entrar no prédio.
– Suas pervertidas. – Naty riu, e eu só não lhe dei um soquinho no braço porque estava perturbada demais. – Ficam combinando suas rapidinhas na minha frente, eca.
Suspirei, lutando para voltar ao meu estado controlado, e engoli toda a maré de sentimentos que havia me preenchido.
– Cala a boca. – falei, fingindo indiferença e pensando em qualquer meio de mudar de assunto. – Quer mesmo que eu mencione o dia em que ajudei o Maxi a escolher sua fantasia de Beyoncé para comemorar os dois anos de namoro?
Ela sempre ficava roxa de vergonha e desistia imediatamente de caçoar de mim toda vez que eu citava esse fato. E foi exatamente por isso que eu o citei.
– Sua idiota! – uma voz esganiçada gritou, vinda da sala dos professores, e nós nos viramos rapidamente, assim como o resto dos alunos no pátio, para ver o que estava acontecendo. Não sei por que me surpreendi ao ver Diego Hernandez batendo com sua mochila em Violetta, e seguindo-a conforme ela caminhava tranquilamente até a entrada do bloco, parecendo alheia a qualquer agressão.
– Você vai me pagar por isso, ouviu bem? – ele esbravejava, vermelho de raiva e com os olhos prestes a saltar de suas órbitas. — Eu ainda vou fazer você se arrepender de ter nascido, sua imbecíl! Eu te odeio! Odeio!
– Oi, Cauviglia. – Vilu disse calmamente ao passar por mim, como se fosse absolutamente normal ela me cumprimentar, e ainda por cima, com um babaca nervosinho em seu encalço.
– O… Oi. – gaguejei, completamente surpresa e atordoada, pelo fato dela ter falado comigo tão espontaneamente, e porque seu casaco de moletom azul, sua calça jeans justa e seu coturno, ambos pretos, me deixaram um pouco desnorteada. Seus olhos estavam cobertos por um Ray Ban que parecia ter sido meticulosamente desenhado para estar em seu rosto (provavelmente para disfarçar suas olheiras, as quais eu também ocultei com um pouco de maquiagem), e ela fazia umas caretas de vez em quando, como se o Hernandez estivesse atirando sua mochila bem nos locais doloridos devido à sua queda de minha janela.
Ao ouvi-la me cumprimentar, Diego paralisou na minha frente, enquanto ela continuou seu trajeto, e me encarou com indignação, voltando a correr atrás dela e a espancá-la com sua mochila. Digamos que o alvo de sua ira havia mudado um pouco, passando a envolver "a piranha da Cauviglia" em seus argumentos.
– OK, vamos ver se eu entendi. – Naty falou, observando-a se afastar e levar a gritaria ambulante consigo. – Violetta Castilio acabou de te cumprimentar ou eu estou ficando louca? Quer dizer… O que exatamente eu perdi?
– Nada, oras. – dei de ombros, como se não a tivesse visto há cerca de vinte e quatro horas (nua). – Você sabe que ela é doida, deve ter cheirado gatinhos demais e decidiu me dar oi assim, do nada.
Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada, e eu mantive minha expressão inocente, até que ela se deu por convencida.
– Tô de olho em você, viu, Cauviglia? – ela avisou, e o sinal tocou logo em seguida, abafando meu riso um pouco tenso. Ter Natalia Vidal, a reencarnação de Sherlock Holmes, na minha cola não era exatamente um fator tranquilizante.
As três primeiras aulas passaram mais rápido que o esperado, e quando me dei conta disso, já estava caminhando rumo ao pátio para o intervalo. Meu coração começou a bater descompassado ao me lembrar do que havia combinado para aquele momento, e meus olhos procuravam por Camila no meio da bagunça de gente, apreensivos e temerosos. Eu queria muito vê-la, mas ao mesmo tempo, desejava poder me manter trancada no banheiro até o sinal tocar e eu ter que retornar à classe.
– Lá vai ela tirar o atraso. – Naty murmurou ao notar meu jeito tenso, e eu mostrei a língua, forjando um bom humor muito fajuto. Mal sabia ela que atraso sexual era a última coisa da qual eu sofreria enquanto Violetta existisse, mas eu preferia me manter bem longe de pensamentos como esse.
Descemos as escadas com o fluxo de alunos, e assim que chegamos ao primeiro andar, vi Cami parada ao lado do bebedouro, cumprimentando alguns idiotas do segundo ano que passaram. Ela sorriu assim que me viu, e eu não pude evitar fazer o mesmo. Olhei rapidamente para Naty, recebendo um sorriso de incentivo dela, e fui até o banheiro feminino, que ficava ao lado do bebedouro, só para despistar o resto dos alunos. Fiquei me olhando no espelho por algum tempo, mal conseguindo disfarçar meu nervosismo ao forjar uma arrumada no cabelo, enquanto ela fingia amarrar os tênis demoradamente.
Em poucos segundos, o corredor e as escadas ficaram praticamente desertos, e ela assentiu para mim. Caminhamos depressa (aliás, ela me arrastou corredor abaixo porque minhas pernas estavam um pouco bambas e lentas em relação às dela) em direção à sala que sempre ficava vazia naquele andar àquele horário, e assim que nos trancamos dentro dela, senti Camila envolver minha cintura com força num abraço apertado. Atirei meus braços ao redor de seu pescoço devagar, e fechei os olhos, torturada. Como um abraço podia ser tão bom e doloroso ao mesmo tempo?
– Oi! – ela murmurou, erguendo-me do chão e beijando a curva de meu pescoço demoradamente.
– Oi. – repeti, respirando fundo para encher meus pulmões com seu perfume e sentindo meu coração quase explodir de alegria, e ao mesmo tempo, de tristeza, por finalmente poder abraçá-la.
– Como é bom estar de volta. – Cami sorriu, colocando-me no chão e pela primeira vez olhando em meus olhos sem ter que disfarçar seus verdadeiros sentimentos. – E é melhor ainda poder encostar em você de novo!
– Eu que o diga. – sorri o mais intensamente possível, segurando seu rosto com minhas mãos, e logo em seguida, nossos lábios colidiram com avidez, dando espaço para que nossas línguas se unissem, cheias de saudade. Não havia como definir aquele beijo; era um equilíbrio entre delicadeza e brutalidade, pressa e calma, amor e tesão, mas ao mesmo tempo, conseguia ser tudo isso junto. Preferi deixar o peso alucinante da culpa e do remorso de fora dessa definição; já não é novidade alguma que eu sou uma garota dividida entre o paraíso e o inferno.
Ela colocou as mãos por baixo de minha blusa, provocando arrepios em minha pele, e eu agarrei os cabelos de sua nuca instintivamente. Ficamos nos engolindo por uns bons minutos, repletos de mãos bobas, gemidos abafados e mordidinhas nos lábios, que após algum tempo, me fizeram esquecer parcialmente o mundo ao meu redor. Uma semana sem sentir os lábios de Camila nos meus me fez realmente mal; minha mente, antes enevoada e escura, tornou-se menos densa e sombria, me permitindo sentir seu toque e suas carícias com um pouco mais de conforto. Quando tive que decidir entre respirar e sobreviver ou continuar beijando-a e morrer sufocada, me afastei dela, e apenas ficamos nos encarando, ofegantes demais para falar.
– Eu… Gostei disso. – ela disse alguns segundos depois, ainda sem fôlego e com uma expressão meio sonhadora, o que me fez sorrir fraco. – Podemos repetir de vez em quando?
– Claro. – falei, ofegante e ainda envolta naquela sensação levemente anestesiante, prensando seu corpo contra a parede com o meu e sentindo-a realmente empolgada com a sessão de amassos. – Só não precisa repetir a parte de ficarmos sem nos ver por mais de uma semana.
– Concordo plenamente. – Camila riu, me roubando um selinho logo em seguida. – Se bem que estou começando a achar que essa distância me rendeu bons momentos. E se depender de mim, vai render muitos outros.
– Não pense que vai ser sempre assim… Se você sumir de novo, não vai me encontrar tão disposta quando voltar. – ameacei, cerrando os olhos e me sentindo mais leve e involuntariamente contagiada pela maldita atmosfera feliz que a rondava. – A quantidade de beijos que eu vou te dar não vai conseguir superar a de tapas.
Ela riu mais uma vez, jogando a cabeça pra trás por um momento, e eu não pude evitar rir junto, mesmo que a dor recomeçasse a surgir em meu peito, intensificando-se a cada segundo. Era sempre assim quando eu estava com ela, ficava difícil não sorrir por qualquer coisa, mesmo que por pouco tempo. Mesmo que eu tivesse todos os motivos do mundo para estar cortando os pulsos naquele exato momento.
– Eu não ligo de apanhar de você. – ela sorriu, erguendo as sobrancelhas num tom de superioridade. – Honestamente, seus tapas fazem cócegas.
Suas palavras foram seguidas de um estalo alto vindo da colisão entre a palma de minha mão e seu braço, e Camila gemeu de dor, rindo ao mesmo tempo.
– Retire o que disse se não quiser que eu bata em outro lugar. – rosnei, ultrajada.
– Tá, tá, eu retiro! – ela riu, erguendo as mãos em sinal de rendição. – Seus tapas me massageiam… Melhorou?
– Vou ignorar essa adaptação. – falei com a voz grave, fuzilando-a com o olhar, e ela prendeu o riso, voltando a me abraçar pela cintura. – Olha que eu te castro, hein, Camila Tiro todos os seus dedos.
– Ah, não faça isso, meu amor. – Cami murmurou, sorrindo novamente, só que agora de um jeito carinhoso. – Você vai sentir falta. E eu também.
Engoli em seco ao ouvir suas palavras. A breve ausência da dor em meu coração praticamente já não existia mais, deixando-me frágil demais para aguentar aquele tipo de golpe. Meus olhos ameaçaram queimar, anunciando a produção de lágrimas, mas eu os contive, dando um sorriso fraco para Camila.
– Tudo bem, eu te perdoo. – murmurei, desviando meus olhos dos dela para encarar a gola de sua blusa, com a qual meus dedos brincavam nervosamente. – Você mereceu.
– Não, eu não mereci. – ela disse, no mesmo tom que eu, acariciando meu rosto com as costas de sua mão, e sua voz soou tão profunda que eu tive que encará-la para entender o motivo daquilo. – Nada que eu tenha feito me daria merecimento suficiente para poder ver suas bochechas ficando vermelhinhas, exatamente como estão agora, e poder chamá-las de minhas… Assim como você inteira é.
Senti minha pele mais quente que a dela com seu toque suave em meu rosto, e a diferença de temperatura só aumentou depois de ouvi-la. Parecia que todos os meus órgãos estavam desmoronando, numa enxurrada veloz e nauseante até atingirem o chão, arrastando consigo todo e qualquer vestígio de força e autocontrole ao qual eu pudesse me prender. Seus olhos castanhos tão límpidos, transbordando sinceridade, logo ganharam um toque de preocupação, e de repente eu não conseguia enxergá-los mais. De repente, seus olhos eram apenas dois borrões coloridos em meio ao resto das manchas que eu via.
– Fran, o que foi? – sua voz sussurrou, num misto de surpresa e pânico exagerados, e logo em seguida, senti meu rosto molhado, assim como um soluço escapou por entre meus lábios. – Por que está chorando?
Então era isso. Era assim que uma pessoa podre se sentia. Era isso, e só isso, o que uma pessoa podre como eu conseguia fazer diante de toda a sujeira que guardava dentro de si. Ela chorava. Chorava como se não houvesse mais razão para respirar; agonizava diante de toda a pureza e bondade que existia naquele mundo no qual ela não conseguia mais se encaixar, humilhada por todo aquele amor que um dia lhe pertenceu por pura sorte. E que agora lhe parecia tudo, menos seu. Bastaria que meus dedos o tocassem para que aquele sentimento tão lindo se transformasse em cinzas. Bastaria que eu estendesse minhas mãos para alcançar seu maravilhoso brilho… Para imergi-lo em trevas.
– Por favor, Fran, não faz isso comigo! O que foi? Não se sente bem? – Camila disparou, ficando absolutamente séria e segurando meu rosto com firmeza, enxugando minhas lágrimas com seus polegares. – O que tá acontecendo? Fala pra mim!
Me mantive por alguns segundos paralisada, somente chorando desesperadamente e deixando que pelo menos algumas gotas do oceano de dor e culpa que eu guardava dentro de mim escapassem por meus olhos. Sim, eu estava sendo fraca, e bem na frente de Spencer, mas eu não tinha mais forças para me conter. Ela me abraçou fortemente, prensando-me contra seu corpo, e eu involuntariamente a envolvi com meus braços, apertando-a como se nunca mais fosse poder fazer isso. E eu não deveria mesmo poder.
– Eu… Eu… Senti tanto a sua falta. – solucei, com o rosto enterrado em seu peito. Era uma mentira, mais uma, mas eu não era capaz de dizer o que minha consciência implorava para dizer. Vá embora, me machuque, me deixe para trás, eu não mereço você. Vá procurar alguém que seja digno de seu coração. Não, eu não conseguiria dizer aquilo. Minha mente me dizia que isso era o certo a fazer, repeli-la, mesmo que sem dizer toda a verdade. Ela não podia continuar sendo enganada, apunhalada pelas costas, e eu concordava plenamente com isso.
Mas meu coração parecia arder em chamas quando tais pensamentos me dominavam. Ele pulsava fortemente contra meus pulmões, ameaçando explodir diante de tamanho absurdo. Cada músculo de meu corpo doía ao imaginá-la longe de mim, sem poder tocá-la, abraçá-la, sentir a atmosfera contagiante de alegria que a cercava, sem poder enxergar através de suas íris sempre tão radiantes… Eu já não conseguia mais me lembrar de como era minha vida antes dela, do que eu fazia antes dela, em que eu pensava antes dela. Provavelmente, pensava nela, só que de maneira muito menos íntima que agora. O que só ajuda a comprovar o fato de que antes mesmo de ocupar um espaço tão grande na minha vida, ela já era parte de mim.
Como eu nunca fui boa em ouvir minha consciência, meu coração sempre acabava vencendo, falando mais alto e abafando os murmúrios de minha mente. E era por esse motivo que eu continuava abraçando-a com força, chorando contra seu peito e molhando sua camiseta. Eu precisava dela ao meu lado. Eu era egoísta, inescrupulosa demais para fazer a coisa certa e abrir mão dela. Eu a amava. Mesmo que houvesse outro amor crescendo a cada segundo dentro de mim, numa velocidade que eu jamais poderia imaginar ser possível.
– Awn, Fran. – Camila suspirou ruidosamente, parecendo bastante aliviada, e eu pude sentir seus músculos relaxarem um pouco. – Eu também estava com saudade, mas… Não precisava me assustar desse jeito! Quer me matar do coração, é, tampinha?
Sua voz não era de repreensão, e sim, de alívio. Com esforço, contive o choro, enxugando minhas lágrimas rapidamente, e voltei a encará-la, sentindo-me trêmula e tonta.
– Me desculpa. – soprei, tentando secar as manchas de minhas lágrimas em sua blusa, sem o menor sucesso, para evitar contato visual. – Eu acho que estou um pouco… Sensível demais.
– Tudo bem, amor, eu entendo. – ela sorriu docemente, enxugando uma última lágrima teimosa de minha bochecha. – Não se preocupe com isso.
O sinal tocou, indicando o fim do intervalo, e meu estômago revirou de leve em alívio. Camila fez uma careta mal educada, me fazendo sorrir fraco, e murmurou:
– Droga. Temos que ir.
– É. – funguei baixinho, fazendo a melhor cara de resignação que foi possível. – Mas tudo bem. Pelo menos matamos um pouco da saudade.
– Um pouco? Isso aqui não deu pra quase nada! – ela resmungou, emburrada. – Aliás, vinte minutos não são absolutamente nada… Vou propor intervalos de uma hora na próxima reunião de professores.
– Boa sorte. – sorri quase tristemente, achando sua carinha muito fofa. – Mas enquanto ela não chega, temos que nos conformar com vinte minutos.
– É, acho que temos. – Camila murmurou, fazendo beicinho. — Posso pedir só mais um beijinho antes de irmos?
Ergui meus olhos ainda bastante úmidos e secretamente cheios de dor até os dela, e Cami olhou fundo neles, como se tentasse ultrapassar a barreira misteriosa que eu havia construído para ocultar meus erros. Não sei o que ela viu em minhas íris; só sei que um sorriso lindo e discreto surgiu em seu rosto, e sem esperar resposta, ela venceu a distância restante entre nossos lábios, me levando para seu mundo feliz, que agora, me parecia simplesmente vazio.
E foi naquele mundo deserto e sem vida que minha mente finalmente foi capaz de enxergar todas as dúvidas que me preenchiam pela perspectiva certa, e tomou o controle sobre meu coração, impedindo-a de gritar por mais que a dor o dilacerasse.
Foi naquele momento, com os lábios de Camila grudados aos meus, envolta em todo o seu carinho e amor, que eu finalmente tomei minha decisão.
Fui a primeira a cruzar a porta de minha classe, assim que o sinal indicou o fim da última aula, matemática, da qual eu não entendi absolutamente nada. Assim como não entendi nada de nenhuma outra aula, ou de qualquer outro acontecimento ao meu redor. Se eu dissesse que, durante o resto da manhã, escapei por pelo menos dois segundos do domínio extremamente possessivo de minha mente, onde estive mergulhada em seu ponto mais fundo, estaria mentindo. E nem precisei me forçar a fazer isso; meu inconsciente sabia muito bem que se permitisse um único instante de distração de meu foco, meu coração voltaria a me comandar, retomando o controle que agora era de minha razão. E eu não podia mais me permitir o direito da dúvida.
Desci rapidamente as escadas do prédio, aproveitando-me do fluxo ainda praticamente inexistente de pessoas por ali, e caminhei o mais rápido que pude até meus pés encontrarem os degraus que minha sanidade tanto temia. Subi-os com toda a agilidade que pude, já que minhas pernas se recusavam a colaborar e meu coração insistia em bater tão forte que parecia querer se libertar de meu peito, declarando sua irritação por ser ignorado. Andei com passos trêmulos até meu objetivo, sentindo meus pulmões expelirem todo o ar existente neles e trancarem suas portas para que mais oxigênio entrasse. Minha mente podia estar no controle, mas meu coração tinha suas formas de tentar me impedir de segui-la. E mesmo que parte de mim concordasse com ele e não quisesse fazer aquilo, a pouca sensatez que ainda me restava admitia que eu não podia mais adiar essa atitude se quisesse ter um pouco de paz.
Envolvi a gélida maçaneta de ferro com minha mão, apertando-a e tentando me manter calma e consciente. Respirei fundo, conseguindo fazer com que o mínimo de ar inflasse meus pulmões, e entrei no laboratório, sem nem me dar ao trabalho de pensar se ainda havia alguma turma tendo aula. Eu sabia que o único dia no qual o laboratório de biologia era usado durante o último tempo era no dia da aula de minha classe. Só me restava saber se quem eu procurava ainda estava lá.
O que não demorei a descobrir.
Meus olhos encontraram a forma dos ombros de Violetta assim que pisei no laboratório, e por um segundo, as ideias e palavras se perderam em minha mente, como pequenas gotas de chuva em um vendaval: insignificantes e ridiculamente fracas. Graças à minha entrada não exatamente silenciosa na sala, ela não hesitou em virar-se até seus olhos focalizarem os meus, e quando suas íris se conectaram às minhas, eu desejei poder ignorar por completo tudo que havia me levado até ali e apenas seguir o que meus sentimentos mandavam. Mas eu me contive, sentindo meu estômago revirar-se nervosamente em agonia, e evitei mergulhar demais em seus olhos. Perder meu foco, justamente agora que eu o tinha tão firmemente, naqueles buracos negros de suas pupilas era algo que definitivamente não deveria acontecer, mesmo que eu não estivesse completamente certa disso. Estava doendo demais para sequer pensar.
Sim, já estava doendo, mais do que eu imaginei que doeria. E eu sabia que a partir dali, por mais impossível que isso pudesse parecer, a dor só ficaria pior. Mas eu precisava dar um jeito na minha vida. Chega de desistir, chega de fraquezas. Era hora de agir feito gente grande.
Violetta analisou meu rosto rapidamente, recuperando-se da surpresa que havia moldado seus traços numa expressão discretamente feliz, e assim que viu os indícios de más notícias em meus olhos agoniados, suas sobrancelhas se franziram em desconfiança.
Seu olhar praticamente falava com o meu, mesmo que estivéssemos em absoluto silêncio. Ela havia entendido que eu não estava ali pra brincadeira; sabia que não precisava de palavras para me incentivar a falar.
E assim eu o fiz. Por mais que eu não o quisesse, eu falei as pequenas e breves palavras que partiriam meu coração ao meio num piscar de olhos.
– Vou ficar com Camila… Não me procure mais.
Cada palavra parecia uma grande bola de espinhos saindo de minha garganta, lenta e dolorosamente, por mais depressa que eu as tivesse pronunciado. Lágrimas encheram meus olhos, impedindo-me de ver com clareza a expressão em seu rosto, e antes que uma delas pudesse cair, dei meia volta e corri para longe do laboratório, sentindo meu coração doer como se estivesse se autodestruindo.
Eu sabia que seria difícil fazê-lo sobreviver após perder uma de suas metades.
Só não imaginei que seria mais difícil ainda querer que ele sobrevivesse.
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