My Best Shot!
2 Todos somos esquisitos
Notas iniciais
Esses dois dias passaram extremamente rápidos, como um borrão de puro tédio cotidiano a algumas lembranças de xingamentos e resmungos de minha parte enquanto fazia as malas, e meus pais me ignorando totalmente no andar de baixo. Em seguida, o vôo que peguei saiu tão inesperadamente na hora certa, sem nenhum atraso nem no caminho até o aeroporto, que nem acreditei no quanto o universo parece querer que eu saia logo de casa. Se para um destino pior, não sei.
Mas depois que respirei o ar puro desse lugar, me senti até melhor e com boas expectativas. Contudo, depois que peguei o táxi, ele me deixou no final da rua, depois de um cruzamento e falou para eu ir andando o resto, porque ele não podia entrar nessa rua. Eu não entendi nada, mas saí do carro e peguei minhas duas bagagens gigantes, e a gaiola do meu gato, que foi bem aprovado para vir junto, fiquei feliz por já estar chegando, até perceber que estava sozinha, estava escurecendo e não tinha uma alma viva por aqui, andei tanto, olhando de um lado pro outro, cheia de peso, e cansada do longo dia que tive, que precisei me sentar na calçada um pouco para poder assimilar minha situação atual e nada comum. Não queria admitir, mas estava ficando com medo, o que acabaria total com minha reputação de garota durona e destemida.
Até que do nada, eu vi a casa. Bem em frente a mim.
Olhei o endereço no papel em minhas mãos novamente, como fiz durante toda a tarde, e depois olhei para a estranha casa do outro lado da rua, olhei para o papel, e de volta para a casa, para o papel, e para a casa. Da casa estranha para o papel amassado.
É cara, não tem jeito. O endereço está certo. O taxista não estava brincando com a minha cara, e para confirmar de vez tudo isso, tem um emblema da escola no portão da casa. Um bem grande e velho e sinistro portão, com um grande e feio emblema.
Não preciso nem olhar endereço nenhum, na verdade, aquilo já está gravado na minha mente, me assombrando há dois dias. É um losango, com uma raposa negra dentro dele, em volta de um galho de pinheiro, como se o acolhesse com seu corpo, e ela está segurando um lírio branco. Coisa mais sem lógica que isso, acho que não existe.
Mas essa não é a escola, como minha mãe bem disse antes de se despedir de mim, essa casa é o dormitório da escola, só que separado de todo o terreno da escola, é um dormitório “especial” para apenas um determinado grupo de alunos que são problemáticos, e aqui eles ficam sob constante vigília e, eu acho, longe de confusões que possam causar danos a escola.
E isso é a maior merda que já ouvi. Quem foi o idiota que inventou esse sistema? Por que separar os alunos assim? Como sabem que todos os que “causam problemas” estão aqui? E os outros alunos que ficam no dormitório dentro da escola, eles nunca fizeram merda na vida? Se ficássemos lá iríamos corromper eles, é isso?
Bem, que seja. A causa principal dessa situação aqui é: quando minha mãe foi fazer minha matrícula, eles perguntaram se causei problemas em escolas anteriores, se meu histórico de notas era baixo e se tinha talento para arte. Ai você diz: Como assim? O que tem haver uma coisa com a outra?
Porém minha mãe disse que sim, eu fiz tudo citado acima, e então fui designada para ficar nesse dormitório especial, que fica a uma quadra e um pouco mais de distância da escola, o que significa que eu teria que andar todos os dias até lá, e acordar mais cedo para não chegar atrasada, e ainda ficar com um bando de alunos malucos daqui, porque eu tenho certeza que dos problemas que causei, não chegam nem perto dos que eles fizerem, seja lá o que fizeram.
Sem falar que não tenho nada a perder, depois da despedida fria do meu pai, ele ainda disse que eu ficaria aqui o ano todo, e não sairia nem no natal. Minha mãe olhou para ele consternada, mas também não disse nada. Eu também não discuti, não conseguiria mesmo que quisesse. Fiquei cerrando os punhos, controlando minha raiva e respirando fundo para clarear a mente, na frente da casa, com os vizinhos fofoqueiros me olhando, achando que eu estava sendo despejada (e quem sabe, talvez não estivessem errados) até o táxi chegar e me levar ao aeroporto.
Prometi a mim mesma que não pensaria mais neles em nenhum momento, não ligaria e nem daria motivos para os responsáveis daqui ligassem para eles reclamando sobre mim. Se eu puder, ficarei aqui até o ano que vem também. Estou com uma vontade enorme de nunca mais olhar na cara deles. Acho que meu pai nunca me amou, ele só quer um herdeiro para sua empresa idiota. Deve estar decepcionado por eu não ser um garoto prodígio, educado e respeitável.
Levanto-me da calçada, balançando a cabeça para poder focar no momento presente. Pego minhas malas com uma careta, sorte que uma delas é apenas minha mochila, lotada de coisas e roupas e porcarias, mas posso botá-la nos ombros e isso diminui o peso consideravelmente, e a outra mala é de rodinhas, mas tão pesada que acho que logo meu braço vai se arrebentar do meu corpo e cair inútil no chão. Pego a gaiola do Florence com a mão esquerda e a levanto até meus olhos. Florence está bem, só sabe dormir e comer, e eu sei que só com minha presença ele fica calmo.
Cuido dele desde que era um filhotinho, e um veterinário, amigo antigo da minha mãe que o deu para mim, quando meu primeiro cachorro morreu atropelado. Nós o levamos na hora para o veterinário, mas o Rico, que só tinha sete meses de vida, não resistiu. Sim, Rico era o nome dele, que Deus o tenha. E quem o atropelou foi ninguém mais ninguém menos que o meu pai, ao dar a ré e nem viu que o Rico estava roendo seu osso de brinquedo atrás do carro, todo feliz e distraído. Meu pai é um assassino, eu sei. E eu lembro nunca ter chorado tanto na vida, quanto naquele dia. Eu tinha 12 anos. E ele foi meu primeiro animal de estimação. Uma verdadeira maldita droga de acontecimento na vida de uma criança.
Logo depois que ganhei Florence, o coloquei para morar no meu quarto, nada de garagem. Nunca mais. Deve ter sido amor a primeira vista, lembro de achar ele era uma mistura mágica de gato com guepardo, e eu adorei isso. Comprei tudo de que um gato de raça precisa, e até minha mãe ajudou, fazendo um monte de modificações no meu quarto. Eu o levava para dar vacina e ver como ele reagia em nosso ambiente. E acabou que Florence totalmente se apaixonou por mim. E eu por ele, já que ele é a coisa mais fofa desse universo para mim.
Sorrio para Florence e assobio baixinho, chamando sua atenção. Ele levanta a sua fofa cabeça cinzenta para mim e fica me olhando, cheio de compaixão e adoração por mim. Ou talvez seja apenas sono.
– Eu sei, meu querido amigo, desculpe te acordar do seu sono de beleza, mas já que estamos aqui, nesse novo lar ou prisão para malucos, sem ser por escolha própria, sei que se trabalharmos juntos, tenho certeza que vamos superar todas as dificuldades! – O lado bom desse dormitório separado é que permitem animais de estimação, já no dormitório interno da escola não.
Ando até o portão e fico olhando onde teria uma campainha. Mas como não vejo nada, decido empurrá-lo. E para a minha surpresa, ele abre facilmente e silenciosamente. Mesmo com sua aparência velha e gasta, deve ser bem cuidado. O que acho meio estranho é que o portão esteja destrancado. Os alunos dali não poderiam fugir? Ou eles já o deixaram aberto para mim, sem temer que os outros saiam? Bem, seja como for, é melhor entrar logo para receber meu quarto e cair na cama, estou tão exausta que poderia desabar aqui no quintal e dormir, mas não quero correr o risco de ser pega em uma pegadinha e acabar morrendo por esses supostos alunos malucos.
Okay, acho que minha imaginação já está correndo para lugares muito além de fora da realidade. Isso aqui não é um hospício, poxa.
Passo pelo quintal, que parece ser bem cuidado por sinal, e tem algumas árvores bem grandes ao redor da casa. Minha mãe costumava dizer que quanto maior a árvore, mais antiga ela é. Ao olhar para cima, vejo o quanto essa casa é enorme. Deve ter uns três andares, a varanda da frente é comprida e tem colunas de mármore. Bato na porta da frente, mas mesmo depois de esperar ninguém atende. Bato de novo, mais forte e impaciente, porém nada acontece. Coloco a gaiola de Florence no chão e decido tentar a maçaneta, mas ao contrário do portão, a porta não se abre sem maiores dificuldades. Está trancada. Olho para o chão, onde estou pisando há um tapete largo e grosso, e também de aparência bem gasta. Decido tentar a sorte e o levanto um pouco, e bem como pensei, lá está uma chave prata e pequena, que deve ser dessa porta, obviamente. Coloco-a na tranca e giro duas vezes, até que a porta faz um som de clique suave e eu a empurro. Olho pela fresta entreaberta e vejo apenas escuridão, as luzes estão desligadas, e tudo está silencioso, o que é estranho, pois são apenas umas seis da tarde, no máximo, então não poderiam estar todos dormindo, poderiam?
Solto um suspiro e decido ir em frente. Abro mais a porta e pego Florence, vou até um pouco mais a frente, num hall escuro, que logo dá para uma escadaria larga e de madeira, enquanto a porta ainda está aberta atrás de mim, me ajudando a enxergar com um pouco de luz que há na rua, tem uma janela grande ao lado da escadaria, mas está fechada. Olho de um lado pro outro ali no corredor, mas não consigo ver muita coisa. A verdade é que sou um pouco tímida em lugares desconhecidos, por isso não gritei já da porta, não gosto de incomodar pessoas que nem conheço, ainda mais se esse lugar é para alunos problemáticos, e é um completo erro eu estar matriculada aqui. O que aconteceu na casa da Sra. Gregson foi um terrível acidente, e não foi causado nem mesmo por mim.
Mas como não posso, nem tenho condições de ficar parada aqui a noite toda, chamo por alguém:
– Olá? Alguém responsável, acordado ou vivo por aqui? – Meu lema é não ser clichê o máximo que eu puder nessa vida. Já vi filmes o bastante sobre esses tipos de situação, por isso achei a chave debaixo do tapete.
Espero um momento, e mais alguns segundos, e quando decido chamar de novo, uma mão pesada toca meu ombro. Solto um grito agudo e me viro num rompante, me esbarrando numa figura baixa e carrancuda.
– Para quê gritar menina, até parece que estou te esfaqueando. – Resmunga uma voz de mulher com sotaque britânico.
– Sinto muito, mas você me deu um susto aparecendo assim do nada, oras! Devia ter avisado.
– Bem querida, eu te chamei, mas parece que é surda, então... – Olhei para ela indignada, mas a mulher me ignorou — Sou a professora responsável por essa espelunca aqui, lido com alunos do seu tipo metido o dia todo. Agora vamos, quero dormir, e todos os outros já estão em seus quartos, por isso vou mostrar qual é o seu e amanhã poderão fazer as devidas apresentações.
Ela se vira e começa a subir as escadas, e nem hesita em parar e me ajudar com minhas bagagens! Me volto para a porta atrás de mim, lembrando que tinha deixado-a aberta, mas que agora está fechada.
– Não se preocupe já a fechei e tranquei, enquanto você olhava para o nada.
– Desculpe se eu te ofender, mas a senhora está me assustando pra caramba agora, dizendo que me chamou e fechou a porta tão silenciosamente...
A professora para de subir e me olha com um sorrisinho convencido no rosto. Eu faço uma careta. Seu lábio superior treme ligeiramente e então ela cai na gargalhada.
– Não me ofendi. Gosto de parecer assim, aliás. Tenho que manter vocês sobre controle, não tenho? Mas não esquenta, eu gostei de você, novata.
Olhando bem para ela agora, percebo que não é tão baixa, eu é que sou alta mesmo, e ela está usando um roupão de banho amarelo neon, chinelos e tem um creme melequento marrom esverdeado na cara, mas pode ser daquele tipo de máscara facial para tratamento de pele, eu acho. Nossa, não tenho nem palavras para dizer sobre isso. Nunca vi uma professora vestida assim, nem mesmo dormi sobre o mesmo teto que uma. Acho que posso considerar que meu susto não foi levado à toa, levando em conta o estado dessa criaturinha na minha frente.
– A propósito, meu nome é Lauretta. Pode me chamar assim enquanto estiver aqui, mas em sala de aula é professora Roberts. Entendeu?
– Sim, senhora.
– Não sou senhora, não sou casada. Não me chame mais assim.
– Ok, já entendi.
– E também não sou velha.
– Hum...
Realmente não sei o que dizer sobre isso.
– É verdade! – Ela se virou para mim, parecendo escandalizada – Tenho apenas trinta e seis anos, está bem? Isso que estou usando no rosto agora é para hidratar a pele.
Ela voltou a subir com passos apressados e resmungando coisas incompreensíveis com seu sotaque. Soltei um suspiro de alívio e me adiantei atrás dela, peguei minha mala e Florence com cuidado, para não tropeçar nesse escuro.
– Er... Lauretta, por que está tudo apagado? Ainda é cedo, não?
– Ah! O horário de dormir aqui é opcional, apenas no dormitório da escola que todos devem se recolher às oito. Mas está escuro porque ninguém gosta de ninguém nesta casa, então eles vão para o quarto no instante em que chegam das aulas e não saem mais de lá. Nenhum deles tem muitos amigos, eu acho. Mas se não morrem de tédio lá dentro, então devem ter uns milhões deles na internet, não acha?
– Deve ser. – Murmurei, estranhando aquilo tudo. Sei que estou entrando na escola meio atrasada, mas ainda nem passou o segundo semestre, e eles devem estar aqui há muito mais tempo, não deveriam ser amigos?
Guardei esse pensamento para mim e segui Lauretta até uma porta de madeira, com um número 6 gravado em relevo nela.
– Esse é seu quarto, novata. Não esqueça, é o segundo andar, lado direito, número seis. O lado esquerdo e terceiro andar são dos garotos. – Ela ponta para uma escadaria atrás de mim.
– Isso é a divisão de dormitório? Uma escada?
– Bem, nunca tivemos problemas com privacidade, como já falei, todos se evitam aqui. Ou tentam.
Hãn?
– Ah! Esqueci de perguntar seu nome, ainda nem tive tempo de ler sua ficha, sabe. Bem, fiquei com preguiça, na verdade. Só me avisaram que estava chegando uma aluna da América em dois dias. E isso é novidade, sabe. Eu durmo cedo, tentei ficar acordada te esperando, e é por isso que não consegui te atender a tempo. Sabia, porém, que obviamente iria falhar em não dormir e deixei uma chave debaixo do tapete. E você é muito espertinha, não é?
Ri pela primeira vez naquele dia, essa professora até que é legal. É meio estranha e peculiar, e bem, bem faladeira, mas é legal.
– Meu nome é Valentine... ah, não, er... quer dizer, me chame de Taylor! Nada de Valentine. Odeio esse nome.
– Mas é um nome bonito, sabe. Enfim, a escolha é sua. – Ela coloca uma chave na minha mão e aponta para a porta do nosso lado. Meu novo quarto. — Boa noite e cuida para que esse seu rato não fuja e morda alguém.
– O que? Do que voc- Ah! O Florence não é rato nenhum! É um gato filhote e-
– Está bem, que seja. Alguns aqui têm bichos também, por isso cuidado. Até amanhã. – Lauretta se vira de costas e desce as escadas, sem mais nenhuma palavra.
Eu hein. Ela é bipolar por acaso?
Olho para a porta número seis e a destranco, mas antes que eu possa até mesmo colocar um pé dentro dele, uma voz surge atrás de mim.
– Oi, sou Charlotte.
Dessa vez eu não grito. Ponto pra mim. Mas me viro no susto, com a respiração pressa na garganta e me deparo com outra figura baixinha. Só que essa menina é mais baixa que a professora. Cara, eu me sinto uma maldita giganta aqui.
– Er... Oi. Qual é a sua altura, 1,50? – Por mais incrivelmente idiota que seja, essa é a primeira coisa que digo.
A garota ruiva faz uma careta engraçada, mas não parece com raiva.
– Ah, olha, me desculpe, er.. Charlotte, né? Foi mal mesmo, estou meio enrolada e cansada, o fuso horário diferente está acabando comigo, e... ai que droga. — deixo a chave cair depois de ficar girando ela nos dedos, como faço quando fico nervosa.
– Ei, ei! Está tudo bem. Eu entendo! E isso pode ser chato, mas já virou rotina, entende? Você também é bem notada pela altura não é? Eu tenho um metro e cinqüenta e dois.
– Tenho 1-7-5.
Charlotte sorri e concorda com a cabeça.
– Entendi. Um metro e setenta e cinco. 1-7-5. Alta e diferente e desastrada. É a primeira garota alta que não é loira que eu vejo.
– Você é estranha. – Sem falar meio irritante...
– Eu sei. Normal já está fora de moda, não acha? – Ela sorri de novo e isso já me convence o suficiente de que ela pelo menos é boa pessoa.
– Hey, Charlie, está falando com o ar de novo? – Uma voz de garoto veio das escadas a nossa esquerda. – Sabe, não é hora de assombrar o corredor, noiva do pântano.
Charlotte se vira furiosa para a escadaria e grita com quem quer que seja:
– Cala a boca, Kei! Para a sua informação, eu estou falando com a minha nova melhor amiga!
– E quem seria a doida de falar com você? – Ouço passos descendo a escada e um garoto loiro aparece. – Ora, uma novata desavisada. Saiba que para sobreviver aqui tem que ter uma boa dose de esquisitice no sangue. E melhor não chegar perto dessa aí!
– Cala a boca, seu fedelho. – Charlotte lhe dá as costas e suspira, depois olha para mim e sorri de novo. – Você ainda não me disse seu nome, desculpe.
– Hãn... é Taylor. E sabe, estou cansada e quero colocar minhas coisas no quarto logo, então...
– Ah! Tudo bem, eu te ajudo. Me dá seu gato.
– O que? – Ri debochado o garoto loiro (e aparentemente odioso) chamado Kei – Outra com essa merda de novo? E dessa vez um gato? Essa casa vai ficar cheia de bichos nojentos com pelos, não acredito nisso!
– O que você disse? – Meu olhar horrorizado cai sobre ele de novo, mas Kei não nota, ele ainda está rindo do meu melhor amigo e soltando blasfêmias sobre ele.
Sem mais paciência nenhuma com essa gente, pego a gaiola de Florence das mãos de Charlotte, que me olha assustada, e entro no quarto, batendo a porta com força em seguida.
Que gente ridícula! Ignorante e... e irritante!
Coloco Florence — ainda na gaiola — em cima da cama e busco um pouco de ração na mochila para botar no seu potinho. Tadinho, deve estar totalmente deprimido agora. Não vou perdoá-los por chamá-lo de nojento. Nada, ele não tem nada haver com nada daquilo!
Florence tem pelo cinza brilhante e macio, com manchinhas castanhas claras iguais as de um felino selvagem, e uma de suas patinhas é cor de mel, como se ele usasse uma meia. Seus olhos grandes são verdes e ele dorme todo enroladinho.
Jogo minha mochila no chão, aos pés da cama e a mala ponho do lado. Olho ao redor, com apenas a luz da lua entrando pela janela, e avaliando tudo, e toda a situação, o quarto é perfeito. No tamanho certo, tendo uma boa cama de solteiro, e sobra até espaço para esticar as pernas, há uma janela larga e de vidro e uma escrivaninha de madeira que me será bem útil. E do lado dela tem um armário, menor do que eu tenho em casa, mas grande o suficiente. Quando vou até ele para colocar minha mala dentro – deixarei para separar as roupas amanhã – a porta se abre sozinha do nada e uma figura escura pula de lá, tropeça na minha mala e cai por cima de mim.
Eu grito. A pessoa grita. Nós gritamos que nem loucas juntas. E a porta se abre num estrondo e Charlotte entra, fica nos olhando e começa a gritar também. E ela parece assustada mesmo!
– Mas que merda vocês estão fazendo?! – Kei aparece berrando atrás de Charlotte e nos encara chocado. Percebo que paramos de gritar.
– Essa garota saiu do meu armário! – Aponto para a pessoa enquanto me levanto e vejo que é uma garota mesmo. Tem cabelos pretos presos num coque frouxo e um pijama de caveirinhas todo preto também.
– Desculpe-me novata. Eu fiquei presa nesse quarto hoje de tarde e decidi dormir no armário. – Explicou-se precariamente a garota.
– É sério isso? Você me deu o maior susto!
– Você também me deu um mini ataque cardíaco. — murmurou ela.
– Essa é a Matilda. Queria o que? É uma menina de poucas palavras e muita bizarrice. – Kei deu de ombros, como se estivesse acostumado e o que ela faz é muito comum.
– E por que você gritou? — pergunto a Charlotte para ignorar o maldito ali.
– Eu não sabia o que fazer! Fiquei com medo. — ela se abraçou e olhou para o chão, uma perfeita imagem de uma criança chateada. Reviro os olhos e suspiro. Sei nem o que pensar disso.
Olho para Matilda, que já estava me encarando a um tempo também. Quieta e imóvel.
– Por que estava no quarto? – Decidi perguntar.
– Queria arrumar ele para você. Estava sujo e desorganizado. Todos eram assim antes de alguém chegar. – A voz de Matilda é baixa e grave, e meio que combina com ela. E sua altura é mediana, mais alta que a professora, pelo menos. Mas quase não chega ao meu ombro por pouco.
– Você também queria fazer da Taylor sua amiga, é? – Acusou Charlotte, olhando para a outra com uma careta de desaprovação. – Mas chegou tarde, esquisita, eu falei com ela primeiro! Ela me entende!
– Charlie, tem como você ser mais ingênua? – Resmunga Kei, revirando os olhos. Mas as duas o ignora.
– Eu fiz uma gentileza a Taylor, agora ela é obrigada a me dever o favor e assim terá que falar comigo. – Revelou Matilda sombria, e eu até estremeci com seu tom autoritário.
– Mas eu não pedi nada a voc- !
– Não importa, eu fiz. Amanhã nos falamos. Boa noite! – Ela sai do quarto acenando com a mão de um jeito roboticamente sinistro e some no corredor.
Encaro os outros dois, que apenas dão de ombros e também saem do quarto. Kei dá um sorriso torto e pisca pra mim.
– Você provavelmente irá se encaixar perfeitamente nessa grande família feliz — logo depois fecha a porta, me deixando confusa e irritada.
Em que tipo de hospício eu vim parar?!
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