My Best Shot!
3 Começando o Dia ilogicamente incorreto
Notas iniciais
Antes de tudo, quero dizer que passar a noite aqui foi a experiência mais maluca e perturbadora que já me aconteceu. Se eu fosse medrosa e assustadiça, estaria convulsionando de tanto medo até agora.
A casa, em sua maior parte, é feita de madeira, então sempre que alguém andava pelo corredor, as tábuas rangiam, alguma coisa estalava, as portas abertas batiam com qualquer brisa que entrava e o silencio era a tal nível que eu poderia ouvir um grilo lá fora, quem dirá as portas se abrindo e fechando ou sons de outros animais a distância. Estou acostumada com o barulho da cidade e carros buzinando e festas acontecendo ao lado de casa, mas essa vizinhança é silenciosa demais, calma demais e vazia demais.
Bem, a coisa é, demorei a cair no sono, mesmo estando muito cansada e frustrada com tudo isso, minha mente não deixava meu corpo descansar. Ficava repassando os acontecimentos desse dia e remoendo o rancor por meus pais e meus antigos amigos, que me traíram de um modo terrível e nunca se importaram comigo. Na verdade, olhando agora, acho que ninguém nunca se importou.
Achei uma papelada que estava em cima da escrivaninha e a li para ver se meus pensamentos focassem em outra coisa.
Acabou que eram uns documentos da escola, falando do horário, as disciplinas que terei, a minha turma e que deveria receber o uniforme na secretaria, o que significa que teria de vestir roupa normal no meu primeiro dia, que é amanhã, ou hoje, no caso. Tinha esquecido depois de tudo que era domingo, mas que fim de semana de merda hein!
Olhei as horas no meu celular. Já passava da meia-noite, portanto, estou com o fuso horário mental completamente atrasado. Ou eu durmo agora de uma vez ou acordarei com cara de defunto de manhã.
E ao abrir os olhos num sobressalto mais tarde, nem acreditei que era o sol entrando pela minha janela e a causa de ter me acordado por estar batendo bem no meu rosto. Como um mega holofote daqueles de presidiários. Precisava de uma cortina urgente. E daquelas muito escuras. Parece até que dormi apenas uns míseros segundos, sinto meus olhos pesados e minha coluna moída por ter dormido de mau jeito. Nem lembro quando peguei no sono, mas já foi. Preciso tomar banho antes que os outros acordem. Porque, sabe, não temos banheiro no quarto. Aparentemente vamos dividi-lo até que nossas formaturas nos separem. Que beleza.
Pego umas roupas da mala, sem nem ver direito o estilo, só sei que peguei uma calça jeans azul clara desbotada e desfiada. E pegar essa calça já é automático para mim, a uso sempre para pintar ou sair, porque é confortável e me define bem. Também foi a única calça que comprei com meu dinheiro.
O banheiro fica no final do corredor, e é bem espaçoso e feminino para minha surpresa, com alguns perfumes em cima da bancada e escovas de cabelo também, o que significa que deve ter um banheiro para cada andar, e numa casa enorme dessas, pelo menos isso!
Tomo um banho rápido, mas demorei a lavar a cabeça, não queria usar o shampoo das meninas, por isso usei meu sabonete mesmo, que tinha cheiro de jasmim e frutas cítricas, no fim usei bastante creme de pentear, pois só me lembrei de trazer isso.
Me arrumei em segundos e prendi meu cabelo na toalha, percebi que peguei umas das minhas blusas babylook preta, tenho várias dessa com frases de Keep Calm, tipo a que uso agora: Keep Calm and We Will Rock You, algumas são frases populares, de música ou série ou de livros. Gosto mais desse tipo de roupa que qualquer marca famosa. E sempre compro tamanho G, sou alta mesmo, então nem parece tão grande em mim, mas fica bem larga.
Quando estou voltando para o quarto, do nada ouço um monte de alarmes tocando vindo dos quartos, cada um com sons diferentes, mas do tipo para acordar mesmo. Devo ter acordado cedo demais, mas pelo menos me adiantei bastante, já eles vão ter que disputar o banheiro.
Dentro do quarto coloco minha toalha na janela para secar e escovo o cabelo. Fico feliz de ver que minhas mechas roxas ainda são bem visíveis, fiz elas na sexta, para o horror dos meus pais, mas não fiz para irritá-los, apesar de saber que não iriam gostar, fiz por mim mesma. Queria que pelo menos alguma coisa fosse escolha minha, porque gosto e quero. E como tinha o tubo de tinta fazia tempos escondido no armário, finalmente achei o momento perfeito para usá-lo, tanto porque amo a cor roxa e sempre quis fazer mechas coloridas. Não descolori meu cabelo, pois já tinha as pontas loiras naturais descoloridas por causa do sol, mas fiz apenas duas mechas, e o efeito ficou bem legal no meu cabelo castanho claro. Eu sou tão comum, tirando minha altura, não sei como não herdei os olhos azuis do meu pai, ou os verdes cinzentos da minha mãe. Eu tenho os olhos mel acinzentados da minha avó. O que é uma cor muito tosca. Opaca.
Sou tão diferente dos meus pais, sempre tão sérios, organizados, postura reta, rígidos e frios, pelo menos minha mãe é menos que meu pai, mas ela faz tudo o que ele quer, nunca se opondo a suas escolhas.
Parece até que sou adotada! Já tive a cara de pau de perguntar isso a meu pai, pois com ele só funciona se você for direto ao ponto, e acabou que ele me olhou como se eu fosse um alien de duas cabeças falando grego e me mandou parar de perguntar idiotices e fazer o que presta.
Perceba que ele não respondeu minha pergunta.
Sorrio involuntariamente com a lembrança, não sei por que, mas estou tão acostumada com o jeito insensível do meu pai que agora só o que posso fazer é rir. E ajuda estando bem longe dele. Mas prometi que não pensaria nisso e calo minha mente.
Arrumo o essencial em minha mochila, depois coloco água e comida para Florence, o deixando na sombra e em cima da escrivaninha. Sua gaiola é grande o suficiente para ele se movimentar e limpar suas necessidades é fácil, pois boto papel em baixo, mais tarde arrumo sua caixa de areia. Jogo tudo no lixo do quarto e me despeço dele. Pego a mochila e desço as escadas.
Lauretta está tomando café da manhã numa mesa grande e redonda que fica na cozinha, é fácil andar por aqui quando está iluminado, já no final da escadaria, há um corredor cruzado, um que leva a porta da frente, o vestíbulo, e a esquerda leva para a sala de estar, que só tem um sofá tamanho família e uma TV das boas, mas apenas isso. E o da direita fica a cozinha, que é muito maior que a sala, e com mais personalidade, digamos assim, com espaço de sobra para caber tudo o que uma cozinha tem, mais a mesa de jantar, onde Lauretta está. Aliás, ela está me encarando agora com uma expressão de surpresa genuína, como se não acreditasse que eu estivesse ali. Ela está mais apresentável hoje, o cabelo preto preso num coque alto, mas bem estiloso, por deixar algumas mechas da franja soltas, terninho azul marinho e saltos apenas um pouco altos, mas meio que combina com tudo nela. Ah, e agora eu vejo que Lauretta é asiática, com seus olhos castanhos levemente puxados e pele bronzeada, parecendo mel.
– Bom dia, Lauretta! Por que essa cara? – Me sento numa cadeira ao lado dela e coloco minha mochila aos meus pés.
– Ah! Bom dia, querida! – Ela solta uma risada constrangida e balança a mão para mim, como se dissesse para ignorar suas esquisitices. – Desculpe-me, é que geralmente ninguém vem tomar café tão cedo, na verdade, a maioria sai direto pela porta, acordam atrasados, ou cedo demais, só para não se verem ou chegar junto.
– Poxa, e você fica aqui sozinha? Faz esse café da manhã todo para nada?
– Bem, Matilda e Nathan são os únicos que ficam, mas só às vezes, sei que é por causa do que passam, sabe? Todos nós temos uma história e seus dias ruins. Eu entendo e respeito isso.
Achei melhor mudar de assunto, não sou boa com conversas pessoais nem em dar conselhos. Sou uma droga até mesmo para confiar em mim.
– Ah... posso comer com você? Não irei acordar de verdade sem minha dose diária de café.
– Claro, fique a vontade, Taylor. – Sorriu agradecida para mim e vi covinhas surgirem em suas bochechas, nem tinha percebido antes, não tinha olhado realmente para seu rosto até então, mas elas não são fundas, aparecem quando ela sorri de verdade, e Lauretta aparenta ser bem mais jovem assim.
Enquanto tomávamos nosso café num silêncio agradável e confortável, percebo que havia tempos que não fazia alguma coisa desse tipo com alguém, lá em casa eu estava sozinha vinte e quatro horas, com exceção da empregada e da governanta que fazia o jantar para mim e ficava até as seis. No entanto, eu nunca jantava com meus pais. E raramente os via de manhã, mas mesmo assim os encontrava correndo para lá e para cá com papeis na mão e celulares no ombro, prontos para ir ao trabalho, e nem notando que a filha deles de 12 anos estava na escada olhando-os ir embora.
E fiz isso até dois anos atrás. E nunca mais.
Alguém entra na cozinha como um vulto e vai direto para a geladeira, pega uma garrafa de água e depois sai sem dizer nenhuma palavra a ninguém, era uma garota com cabelos loiros platinados e alta, talvez com uns 1,70 m. e parecia bem metida a besta, usava um perfume forte e muito doce que ficou no ar até depois de sua saída, e fazia meu nariz coçar desesperadamente.
– Essa mal educada que saiu é a Kimberly, seu quarto fica a duas portas do seu, e ela é a única que nunca nem mesmo cumprimenta alguém daqui. Sei que todos pelo menos são educados, mas essa mimada é o terror dos alunos como você.
– Como eu? Você quer dizer com personalidade e simpática?
– Quero dizer diferente e sozinha. Mas isso também.
– Bom dia aluna nova! – Charlotte apareceu atrás de mim e sem nenhum aviso me abraçou, não estava preparada para isso e me assustei, fazendo o café na minha mão quase pular fora da xícara. Não sou acostumada a abraços.
– O-oi Charlotte. – Dou um tapinha leve em seu braço e forço um sorriso, ela ri toda alegre e me aperta mais forte. Acho que somente eu estando sentada mesmo para ela alcançar meus ombros. Então faço uma nota metal para nunca mais fazer isso perto dela.
– Charlie sai de cima da Taylor. Já disse que ela é minha amiga. – Matilda senta ao meu lado e acena com a cabeça para mim, acho que é sua versão de bom dia. – Você está mais bonita hoje, e adorei sua blusa.
Estranho. Muito estranho. Estou com medo de seu tom desinteressado agora. Não consigo saber quando ela é sincera ou não. Ela fala baixo e sem expressão, e nunca vi isso em alguém antes.
– Sério? Você gosta dessa música? – Indaguei, tentando tirar alguma emoção dela.
– Sim, e todos conhecem. E como sabe, eu gosto de usar preto. – Matilda levanta suas mãos e me mostra suas luvas de renda preta sem dedos, e tenho que admitir que são lindas.
– Olá. – Um garoto entra e senta ao lado de Lauretta, que sorri alegre para ele. Esse é calado, e foca totalmente apenas em seu café da manhã. Não retribui o sorriso da professora.
Todos estão vestindo o uniforme da escola. Azul, branco e preto.
O blazer azul escuro com o emblema da escola, a blusa de mangas compridas branca com gravata azul celeste e a saia ou calça preta.
– Esse é o Nathan. Ele é mais na dele, sabe? – Apresentou-me Charlotte e isso chama a atenção dele, que olha para nós enquanto mastiga sua torrada.
Seu cabelo lavado é castanho escuro e seus olhos, até onde posso ver, são azuis, eu acho. Mas puta merda, como ele é lindo. O cabelo meio comprido e bagunçado tampa um pouco seus olhos e delineia bem seu rosto pálido e de maxilar quadrado. Suas sobrancelhas estão escondidas atrás da franja, mas dá para ver que são perfeitas para esses olhos claros de cílios longos, que estão me fitando agora com uma curiosidade travessa.
– Qual é seu nome? – Pergunta para mim com uma voz levemente rouca, grave e suave ao mesmo tempo, provocando arrepios na minha nuca, mas antes que eu possa até mesmo abrir a boca, Charlotte responde por mim:
– Seu nome é Valentine Taylor, mas ela prefere que a chame de Taylor, apenas.
– Quem foi que te falou meu primeiro nome?
– Ah, ouvi antes sua conversa ontem com Lauretta. Mas queria que você me dissesse como deveria te chamar também.
– Se você deixar ela vai falar esquisitices o dia todo, é melhor cortar de já.
– Cala a boca, Matilda! Você é uma emo sem graça, e ai?
– E Taylor é rockeira, não tá vendo o cabelo irado dela? Nós combinamos mais que você.
Não me considero rockeira, mas eu realmente gosto dos clássicos. Estou mais para eclética mesmo.
– Calma gente, não precisa ficar forçando amizade pra cima de mim assim não. Nem conheço vocês direito, e não sou o tipo que fica com determinado grupo, faço amizade com quem gostar de mim e vice versa.
– Eu gostei de você, afinal, é bem claro que você definitivamente é diferente da Kim, e isso é muito bom. É ótimo, na verdade.
– Sim, não ser metida a superior e arrogante é algo que valorizo numa pessoa.
– Eu também! E você não é uma idiota cabeça de vento como o Kai. Ponto!
– Hum.. valeu?
Um silencio súbito se estabelece na mesa, e então voltamos a comer. Lauretta pigarreia e aponta para o relógio:
– Vocês, crianças, não deveriam já estar a caminho da escola?
– Caramba, é mesmo! Vamos Taylor! – Charlie se levanta num pulo e puxa minha mão, tenho apenas um segundo para pegar a mochila ao mesmo tempo que tento não cair e saímos correndo porta afora com Matilda logo atrás.
Que maneira estranha para se começar um dia novo na escola. Completamente sem nexo. E estranho, diferente e bom. Acho que em alguns lugares fazer amizade é fácil assim, mesmo que sejamos diferentes em personalidade vou dar uma chance a isso.
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