My Angel...

1 Divinum Corporis


Notas iniciais
Esse é o meu segundo texto já escrito no gênero homo, então paciência quando acharam algum erro gritante. Esse texto também foi criado a pedido de uma amiga... então os créditos também são dela, ao menos pela inspiração.

Eu não sabia exatamente o que fazer. Estava a sua porta, tão somente. Sem coragem de tocar a campainha, pedir pra entrar. Tudo parecia ser diferente... era diferente... eu estava confuso.

Tudo acontecera sem qualquer planejamento. Simplesmente acontecera. Não que já não estivesse óbvio, a tensão no ar, como gás de cozinha comprimindo os pulmões, esperando o ligar de um interruptor... uma fagulha... para mandar tudo pelos ares. E a menos de vinte e quatro horas, ele riscou o fósforo, acendeu o isqueiro, apertou o interruptor. Ele me beijou... e consumiu a minha mente em chamas.

Por isso eu estava ali, sem coragem de bater a porta, de tocar a campainha... mas também, sem coragem, ou vontade, alguma de ir embora. Por mais estranho que fosse... por mais difícil e assustador que realmente fosse admitir, eu queria provar novamente o seu beijo. Eu o desejava.

Lentamente ergui a mão, pousei o dedo sob a campainha, e antes mesmo de tocá-la já sabia que não havia mais volta. A minha alma fora roubada naquele beijo.

O som soou estridente no interior do apartamento. Meu corpo estremeceu com aquele barulho... era como as trombetas que convocavam os soldados à danação. E eu marcharia, sem mais hesitar, rumo a perdição... e minha perdição seria aquele corpo.

Os segundos custavam a passar. Mas, de supetão, eu vi a porta se escancarar. Rodeado pela luz do apartamento, seu corpo brilhou.

O teu corpo ainda estava molhado: gotículas de água a delinear o corpo esbelto e forte, envolto numa toalha vinho. A pele dourada e praieira parecia ainda mais bonita e assustadora, e seu rosto de maxilar forte exibia um sorriso triunfante. Ele me esperava.

Olhamo-nos por algum tempo, sem nada dizer. Seu sorriso se ampliava. Ele dissera, horas atrás, ao meu ouvido, que eu iria querer mais... e eu queria. Eu estava ali. Ele sempre estivera certo.

–- Dia quente, esse, não é mesmo? -- Sua voz soou límpida, mas baixa. Não saberia dizer se fora minha mente indecente, mas parecia haver uma flexibilidade e ênfase óbvia na forma como seu lábios pronunciaram "quente". Realmente, começava a ficar "quente".

Sacudindo o cabelo castanho alourado, ele me pediu para que entrasse. Meus pés me levaram com uma ânsia aparente demais ao seu território. Eu estava em seu campo de ação, eu estava à sua mercê.

Ele me guiou até o seu sofá, e num sussurro baixo pediu para me sentar. Como eu não mexera um músculo, ele me surpreendera com um empurrão sutil. Sentei-me pesadamente no sofá macio, grande demais para um apartamento de solteiro. Ele me sorrira. Mas eu não olhava seu rosto... observava, tão somente, o limiar de sua toalha, perigosamente baixa. Realmente, baixa demais...

–- Não demorarei. Só irei vestir algo menos indecente... -- E novamente senti a flexão em sua voz, na forma como parecia acariciar a palavra "indecente". Eu tremi.

Meu Deus, o que eu fazia ali? Era realmente uma loucura. Ele não podia me dominar assim. Simplesmente não podia.

Nos conhecíamos a uma semana, apenas. Porém, uma semana arrebatadora. À seis dias eu era um bissexual que fingia, para todos e às vezes, até pra mim, ser hétero; tinha até um relacionamento estável, uma garota que me amava. Até o início da semana. Então o conheci... e tão logo me encontrava ali, em sua casa, em seu poder. Não havia nada agora do qual eu tivesse certeza, a não ser do desejo que me afligia à alma desde que ele me tocara pela primeira vez, e que só se agravara depois que nossos lábios se tocaram. Já não importava a opinião alheia, o que me importunava agora, tão somente, era a distância entre nossos corpos. Deus, como o desejava!

Como que em transe, quase sem me dar conta, levantei do sofá e, com pés leves e céleres, me dirigi ao corredor. Não poderia parar para medir as consequências, ou para compreender completamente o que se passava em minha mente, a grandeza da atitude que tão imprudentemente eu tomava. Simplesmente não me importava. Eu o queria pra mim.

Abri lentamente a porta do quarto. Ele se encontrava de costas, frente a cama, completamente nu. Olhei o esplendor do seu corpo dourado, e como que magneticamente atraído, adentrei o quarto.

Ele virou-se ao 'clic' da porta se fechando, os seus olhos surpresos reteram-me ali, envergonhado. Sua expressão suavizava-se a medida que se aproximava, o seu corpo reluzindo à luz que fluía das persianas. Era pôr do sol.

Sem pudores, vagava em minha direção, completamente nu.

Ele sorria.

–- Eu não tinha a menor dúvida. Sabia que viria. -- Seu tom triunfante me assustara. Eu realmente estava em suas mãos.

–- Por que me beijou? -- Perguntei com a voz vacilante. Minha garganta ardia, eu tinha a boca seca. Molhei os lábios ao mesmo tempo em que secava as mãos no jeans. Por que meu corpo reagia assim a sua presença? Eu já não conseguia me controlar. Avancei um passo em sua direção.

–- Pelo mesmo motivo que você está aqui -- Disse, me avaliando: o meu movimento não passara despercebido aos seus olhos. Mordi os lábios, envergonhado... e isso também não escapou ao teu olhar. Novamente, ele sorriu. -- Por que é impossível negar a atração entre nós.

Um silêncio leve pousava sobre nós dois. Ele esperava que eu o desmentisse. Mas como o fazer? Eu estava ali, não estava? Estampado na minha face, um desejo abrasador gritava por aquele corpo dourado.

Sem conseguir me refrear, avancei mais um passo.

–- Por que? -- Questionei vagamente, nem eu sabia exatamente o quê. Talvez fosse o por quê de tanto desejo; o por quê dele ter entrado na minha vida; o por quê de não conseguir me controlar...

–- No seu âmago você sabe que não há um 'por que'... e na verdade, não importa. A real pergunta que você deveria fazer é... --começou ele, se aproximando de mim. Então, nossos a centímetros corpos a centímetros, sussurrou: -- ...O quanto?

Ele estava ali. Resplandecente. A minha frente. Completamente nu. O seu corpo, assim como o meu, pulsando de tesão e calor. Sorriu-me. Eu lhe sorri também. Já não havi como ou por que lutar contra aquela atração. Já nos pertencíamos antes mesmo de nos beijar.

Ele me atacou com afã, seu lábios pressionando os meus com fervor. Sua língua acariciava a minha boca, sobrepujando a minha, tímida. Sua mão se fechou sob a minha nuca, mantendo-me refém do teu beijo intenso, que fazia vibrar calor e energia por todo o meu ser.

Reverberava em mim a sua potência. Eu sentia-o rijo, pressionando o seu quadril contra mim. Seu corpo era meu. O abracei.

Éramos propriedade um do outro. Éramos vítima e carrasco, ao mesmo tempo. Éramos senhores e capachos daquele furor. Criadores e criaturas daquele desejo infame. Éramos amantes.

Tinha-o finalmente em minhas mãos. Tinha-o pra mim. O seu beijo me acalmava, afastava de mim qualquer preocupação com um depois. O seu beijo me entorpecia os sentidos e me agitava, ao mesmo tempo, o âmago. Vivíamos aquela paixão a cada segundo. Cada fibra do meu corpo se agitava, vibrava e gritava o seu nome. Em minha mente, gravado a ferro, sua alcunha angélica e poderosa reluzia, como o teu corpo em minhas mãos. Seu beijo escravizava a minha mente, devorava a minha alma. Por toda a eternidade eu seria seu. Meu anjo, reluzente e dourado. Gabriel.

Notas finais
Espero que tenham gostado! ^^)
Adoraria saber o que acharam, então comente. Mesmo que seja pra me xingar. =]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!