Mutantes
2 Capítulo 1 - Alguma coisa velha, alguma mesmice.
Notas iniciais
Aí o primeiro capítulo. :)
Boa leitura.
Sempre vivi minha vida como se já tivesse vivido, os mesmos lugares, as mesmas pessoas, a mesma conversa sem conteúdo e uma escola monótona. Sentia-me num eterno déjà-vu. Um déjà-vu enfenado de patrícios e burguesinhos. Enjoava-me o estomago. Para mim os dias que seguiam não passavam, repetiam-se.
Fevereiro. O verão nos aquecia em torno dos 29ºC. Mesmo em um dia lindo daqueles, eu insistia em ficar no infortúnio que minha casa oferecia.
Em Florianópolis, a cidade onde nasci e moro, não existi muitos lugares legais, pelo menos não para mim. Talvez eu tenha dificuldade para impressionar-me com as coisas. Moro com meus pais Sr. Leonardo e Sra. Carmem Versaly e mais meus três irmãos Isaac de 18, Matheus de 14 e Aline de 8 anos. Chamo-me Eduardo Versaly e tenho 17 anos. Moramos desde sempre em Florianópolis a principal cidade do estado de Santa Catarina – no meu conceito é a cidade onde tem um dos piores invernos do Brasil.
Era o final das férias. Todos eufóricos para o início das aulas, para eles aquilo parecia ser um motivo de felicidade, mas pra mim não, pra mim aquilo era uma senzala de escravos, levando-me junto acorrentado para o cafezal. Eu não queria que as aulas começassem, não queria fazer parte daquilo, não queria que aquela tortura se repetisse por mais um ano.
Isaac, Matheus e eu sempre estudamos na mesma escola, Isaac tem temperamento diferente e opiniões diferentes de mim e Matheus. Uma aparência mais adulta, os ombros largos e o abdômen duro feito pedra de mármore, me lembro de uma discussão minha e dele, levei o punho cerrado para dar um soco em sua barriga e foi mesmo que bater em pedra, naquele dia pensei que tinha fraturado o braço. Isaac ainda continuava frustrado por conta de ter cortado o cabelo mais curto que o necessário para o alistamento militar.
Eu e Matheus sempre fomos um pouco mais parecidos. Quando éramos menores costumávamos brigar pela mesma coisa. Agora na adolescência somos mais próximos um do outro. Mas em questão de forma física somos totalmente diferentes. Matheus e pardo como Isaac, cabelos cacheados, seus olhos são azul como os do nosso pai, uma a aparência ainda meio infantil, e a atitude birrenta ele mesmo constituiu.
Aline era branca na cor pálida herdada do nosso pai, os cabelos iguais aos do Matheus o olhos parcialmente claros e, irritante como toda garota de 08 anos deve ser.
Eu tinha uma aparência um pouco diferente dos meus irmãos, eu era branco como minha mãe que tinha os cabelos castanhos naturais, mas tingidos de um louro queimado, meu cabelo era liso feito os dela. Os ombros largos feitos os do Isaac me permitiam abraçar um obeso. Na turma de educação física no colégio, eu era o que tinha a envergadura maior.
Nos últimos tempos eu e Matheus tínhamos nos aproximados mais, talvez por causa da adolescência ou talvez por outra coisa, mas eu e ele não brigávamos mais, na verdade minha rincha tinha se virado contra o Isaac, por algum motivo eu e ele não se dávamos bem.
...
– Eduardo... Eduardo, Eduardo... acorda Eduardo – Matheus falava cada vez mais alto.
– O que é Matheus? – Rebati.
– Temos que ir à livraria, lembra?
Esperei que alguns minutos se passassem, meu cérebro começava a funcionar aos poucos. Lembrei que tínhamos que comprar livros, cadernos e todas aquelas baboseiras que se precisa em sala de aula.
Ainda de olhos fechados resmunguei.
– Não dava pra gente ir mais tarde? – fiz uma pausa – eu quero dormi.
– Hoje é domingo as lojas fecham mais cedo – ele puxou o coberto de cima de mim – e já é tarde, levanta dessa cama.
– Argh – rosnei entre dentes.
A pior coisa que dividir o quarto com o seu irmão e perde toda e qualquer privacidade sua, é esse irmão ser o Matheus.
Ele começou a abrir cortinas na tentativa de me tirar da cama.
Os céus cinzentos e a luz fraca do sol sufocada por algumas nuvens me fizeram fechar os olhos novamente. Senti minhas pupilas se encolherem com toda a luz forte. Meus olhos estavam em chamas.
– Caramba Matheus! – grunhi – fecha isso.
– Eu não vou aliviar sua dor.
Então ele bateu a porta atrás de si.
Levantei meio sonolento e peguei a toalha, fui cambaleando até o banheiro. Meu cérebro estava tão desnorteado que mesmo de olhos abertos ou entre abertos, pareciam que estavam fechados. Tropecei umas cinco vezes até chegar ao banheiro e poder me apoiar na maçaneta da porta. Mas até lá eu já tinha conseguido uns três hematomas nos dedos dos pés. Depois que tomei banho vesti uma muda de roupa – bermuda e blusa branca – desci para tomar café.
Matheus estava na sala assistindo a algum seriado na tv. Depois de demorar algum tempo na cozinha preparando alguma coisa para eu comer, comecei a ouvir meu estomago roncar. Olhei o relógio de ponteiro antigo e querido de mais pela minha mãe para que ela jogasse fora. 09h.: 00min.
Tirei o pão da torradeira com o queijo ainda derretendo pelas beiradas, tentei ignora a queimadura de leve que aquilo causou na minha língua e nas pontas dos dedos, o suco gelado aliviara um pouco, por enquanto.
Percebi que estava tudo muito quieto, geralmente em casa não é assim.
– Cadê todo mundo Matheus? – Perguntei levantando da mesa. Joguei a louça na pia. Atravessei o corredor que ligava a cozinha e a sala-de-estar, minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, quase retumbante.
– A mãe e o pai foram fazer feira e levaram a Line – ele pegou o controle e desligou a TV – Isaac saiu com uns amigos.
Eu fiz uma careta quando ele disse Isaac.
– Amigos... uns babacas.
– Babacas – repetiu ele.
Saímos porta a fora, o sol já tinha dominado a situação com as nuvens. Ele se distanciava cada vez mais e mais delas. Não iria haver sombra por um longo tempo.
Fomos procurar a livraria mais próxima.
Aquele era o tipo de compra que eu e Matheus não tínhamos o menor interesse em fazer. Meti a mão no bolso e tirei duas lista, uma com o meu nome e a outra com o nome do Matheus, as duas feitas a mano-escrito pela letra do nosso pai, a baixo uma coluna de livros e vários outros apêndices. A livraria ficava a umas três quadras de casa.
Ela era extremamente espaçosa, perdi muito tempo tirando alguns livros e cadernos até tomar a decisão de chamar um vendedor da loja. Sem muitos entusiasmos vagamos pelos corredores da feitos por prateleiras e revestidos em livros. O cheiro de mofo que exalava dos deles deu-me vontade de pôr pra fora tudo que havia comido mais cedo. Prendi o folego quando passamos por umas prateleiras onde havia livros em promoção. Alguns velhos com as páginas amareladas e as beiras esfarrapadas, nas capas o título mal era visível.
Quando a lista chegou ao fim minha paciência também tinha chego, fomos para o caixa. A fila parecia que se arrestava ao invés de andar, enquanto a lesma da atendente se prolongava em cada cliente, aproveitei para reconferir a lista.
Notei que estavam faltando duas coisas: borrachas e grafites. Disse ao Matheus que esperasse na fila enquanto eu iria buscar as borrachas e as grafites.
Demorei mais que o necessário para encontrar o corredor que ficava as canetas, grafites e borrachas. Pensei em desistir e voltar para fila. Em um dos corredores havia uma garota esfolheando um livro que tinha nas mãos. Automaticamente parei na entrada do corredor e fiquei observando-a, por um minuto não conseguia mais me movimentar, a garota era incrivelmente linda. A pele marfim uniforme, os cabelos negros puxados num rabo de cavalo, ela usava um vestido bege curto marcando cuidadosamente suas curvas.
Da outra ponta do corredor surgiu um moreno alto que aparentava ter uns 17 a 18 anos. Ele a chamou numa voz rouca que ecoou por entre os livros:
– Alice, vamos.
Ela assentiu devolvendo o livro a prateleira.
Eu ainda continuava ali, parado sem mover um músculo.
– Eduardo! – a voz do Matheus me despertou.
Virei-me e parecia que ele já estava parado ali a um bom tempo.
– O que deu em você? Por que estar parado feito uma múmia?
Eu ignorei suas palavras.
– O que faz aqui? Por que não estar na fila?
– Bom você estava demorando. Então eu vim ver.
– Volta pra fila.
Em poucos minutos eu regressei ao caixa. Aparentemente ele era a única coisa fácil de encontrar naquela livraria. Talvez por que os guinches tinham placas tão altas que se não fosse pelas paredes feitas de livros seria quase impossível não enxerga-lo. Percebi que a fila tinha diminuído, até mais do que eu esperava, e então agradeci por isso.
Dei uma olhada repentina no caixa. Agora era dois funcionando.
– Quem era a garota no corredor agora pouco? – perguntou Matheus num tom despreocupado – a que você olhava.
Dei de ombros.
– Pelas roupas deve ser alguma patricinha.
Meei a cabeça confirmando as especulações dele. Na verdade estava ansioso demais para ter aquele tipo de conversa com Matheus. Então limitei que minha boca emitisse qualquer som. Queria logo sair da livraria, podia sentir um vomito preso nas minhas entranhas com o cheiro do mofo, expelindo-se a qualquer momento.
...
Quando chegamos em casa, nossos pais ainda não avião chegado e nem o Isaac.
Depois de pôr as compras no quarto – jogado em cima da cama – desabei no sofá da sala-de-estar e liguei a TV. Ainda passava o seriado que o Matheus assistira hoje mais cedo. Tentei concentrar-me no que se passava na minha frente, até meus pensamentos pairarem na garoa no corredor. Sua delicadeza, postura, o jeito como se movimentava.
Como ela podia ser tão linda. Até me sentir inundado por uma avalanche de sono.
Notas finais
Nesse capítulo quase não acontece nada, mas é no segundo que a história realmente começa.
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