Mutant World
45 Sangue e Verdade
Notas iniciais
– Venha, querida. — Bellatrix ainda estava com sua mão erguida no ar, chamando por Hermione.
A garota alada abraçava os próprios braços e tinha os ombros encolhidos, o arrepio em sua nuca aumentava a cada segundo, quando percebia que estava presa naquele porão horrível com Bellatrix Lestrange. Aquela ideia não lhe agradava nem um pouco, e Hermione temia qualquer movimento da médica. Ainda escorada sobre o corrimão de madeira da escada velha, Hermione tentava não retribuir o olhar fixo que recebia de Bellatrix; ela não sabia o que lhe causava mais terror e revolta: estar presa e incomunicável naquele lugar, ou estar na presença da mulher que fez seu mundo virar um inferno.
– Não precisa ter medo, venha. — O sorriso presente no rosto de Bellatrix era tão mórbido que causava calafrios pelo corpo de Hermione. Como aquela mulher podia ser sombria daquele jeito?
– O que fez com as meninas? — A morena abraçou mais seu próprio corpo quando Bellatrix subiu um degrau da escada, fazendo a madeira ranger, e insistindo para Hermione descer.
– Elas estão bem por enquanto, não se preocupe. — Bellatrix garantiu, sinicamente. Continuou chamando Hermione com a mão, mas era notório o extremo receio da mutante. Bellatrix fechou o sorriso e sua testa franziu, mas seu rosto não enrugou. A mulher baixou a mão e segurou em sua cintura, e então passou a analisar Hermione.
– O que vai fazer com elas? — Hermione, ríspida, exigiu saber. Viu a mulher de cabelos negros e encaracolados torcer os lábios, mas nada responder. Dando um passo para trás, Bellatrix desceu daquele pequeno degrau da escada, e a madeira rangiu mais uma vez. — Você não tem o direito de machucar ninguém. — Revoltada por Bellatrix lhe dar as costas e entrar porão a dentro, sumindo das vistas de Hermione, a garota se arriscou a descer três degraus e pôde ver uma maca no centro daquele cômodo velho, mas bem equipado.
– Eu? Eu não farei nada com elas. — A voz de Bellatrix ecoou pelo porão; Hermione pôde sentir a mentira naquela frase.
– Você tá mentindo. — A garota retrucou, permanecida no mesmo lugar. — Você quer matar todos nós, não é? É por isso que fez essa armadilha, por isso nos prendeu nesse laboratório. — Quando Bellatrix voltou a se aproximar da escada, Hermione segurou no corrimão e apertou a madeira seca.
– Eu estou realmente zangada com vocês, não posso negar. — Bellatrix coçou o queixo enquanto falava. — Mas a morte vai depender de vocês.
– Não pode me prender aqui. — Hermione rebateu no mesmo instante, nervosa. — Sabe que eu posso fugir, posso fugir voando.
¹ — Meu bem.. — Calmamente, Bellatrix entreabriu os lábios e fixou os olhos negros em Hermione. Não satisfeita com a distância entre elas e a fim de aterrorizar a mutante alada ainda mais, a médica subiu os degraus até se aproximar da garota. Quando Hermione tentou se desvencilhar, foi agarrada pelos braços e puxada para ficar frente a frente com Bellatrix. — eu coloquei essas asas em você, e se eu quiser, corto pena por pena. — O sorrisinho de Bellatrix fez Hermione fuzilá-la com o olhar.
Sem mais delongas e paciência, Lestrange desceu escada a baixo puxando Hermione pelo braço, e a madeira rangiu irritantemente com os passos fortes que a mutante deixou pelo caminho. Descendo o último degrau e sendo arrastada em um solavanco para o centro do porão, Hermione bufou e sentiu o braço ser solto por Bellatrix. Olhou para sua pele, a região tinha ficado avermelhada. A morena mordeu a boca e voltou a olhar a médica, que tinha cruzado os braços e esperava a reação de Hermione quando ela começasse a analisar o porão.
Soltando uma respiração pesada, Hermione desviou o olhar da médica quando percebeu que tinha algo errado por ali, e então, a expressão de choque fez sua feição.
O rosto de Hermione começou a se virar freneticamente para todos os lados possíveis do porão, e seu terror aumentava cada vez mais: haviam celas, assim como lá em cima no laboratório, mas não eram mutantes que estavam presos por ali, eram mães. E ela reconheceu Claire Whotsley, e em seguida pôde rever sua mãe depois de tanto tempo, assim como sua irmã, Gabriela.
– Mãe! — Desesperada, Hermione correu até a cela onde Katy estava presa.
As roupas que a mulher usava estavam rasgadas, sujas; haviam ferimentos quase cicatrizados no rosto de Katy, e ela parecia extremamente abatida e derrotada, mas quando viu a filha, ergueu-se do chão fazendo o máximo de esforço possível e agarrou a porta de vidro; Hermione tocou abruptamente o vidro e logo encontrou as mãos da mãe, mesmo não sentindo seu toque. — Mãe, você tá viva! — O choro agonizante de Hermione não podia ser ouvido por Katy, e Hermione também não entendia o que a mulher estava tentando dizer, mas sabia que a mãe tentava lhe dizer alguma coisa.
A dor dentro do peito de Hermione por ver a mãe naquele estado lastimante foi surreal, mas ao mesmo a garota sentia um alívio inexplicável por saber que Katy estava viva. Deus, Hermione achava que sua mãe tinha partido dessa vida há muito tempo, e ela nem sequer tinha tido chances de se despedir, de se desculpar. Mas sua mãe estava viva e Hermione não conseguia descrever o tamanho da sua emoção por rever o rosto dela.
Olhando para a cela do lado, Hermione pôde rever o rosto da irmã, e seu choro se tornou ainda mais intenso. Desde que foi separada da família e da civilização, Hermione se culpava todos os dias pela destinação que os policiais malditos deram à seus pais e sua irmã caçula. Ela não fazia ideia do tempo que estava presa naquela ilha, sobrevivendo com dificuldade, vivendo de quase nada. Pareciam anos. E agora, revendo a mãe e Gabriela, tendo a certeza de que sua família estava viva, Hermione sentia como se parte do seu mundo estivesse sendo reerguido do chão. Elas estavam vivas, todas elas!
– Gabi! — Com lágrimas escorrendo por seu rosto, Hermione agachou-se sobre a porta de vidro da cela onde a irmã estava.
Ao contrário da mãe, Gabriela não esboçou uma reação emocionada por rever Hermione; ela parecia estar em condições diferentes das outras presas. Não vestia fiapos e não estava machucada, a não ser por sua boca estar coberta de sangue, mas ainda assim, não parecia estar ferida. A feição extremamente séria no rosto da garota causou um arrepio pela nuca de Hermione, mas a mutante de asas não deu importância. Sua família estava viva, e ela precisava ajudá-las a sair dali. Mas, onde estaria seu pai? Será que ele também estava vivo?
– Você prendeu todas elas aqui? — Quando Hermione levantou do chão, se aproximou de Bellatrix; estava totalmente indignada.
– Eu disse que tinha uma surpresa pra você. — Bellatrix continuava de braços cruzados e com sua misteriosa feição de superioridade.
– Como você pôde? — Duas lágrimas desceram em sincronia pelo rosto de Hermione, enquanto a garota olhava para os cantos, procurando pelas outras mães enjauladas feito bichos naquelas celas especiais. Molly Weasley também estava trancafiada por ali; o peito de Hermione ardeu quando a viu. Rony ficaria tão feliz em saber que a mãe estava viva, mas se revoltaria contra o mundo inteiro por ver Molly presa e injustiçada daquele jeito. Hermione sabia que Bellatrix pagaria caro no fim do dia, de um jeito ou de outro. — Você sequestrou as nossas mães, privou elas de viver assim como fez com seus malditos mutantes.
– Eu precisava continuar minhas experiências. — Bellatrix encolheu os ombros, sem sentir sombras de culpa. Hermione cobriu o rosto com as mãos e chorou alto, quando lembrou o que tinha acontecido com Narcisa Malfoy.
– O que você fez com minha mãe? — De rosto coberto, Hermione soluçou.
– Desculpe, eu sei que isso te revolta. — A médica fingiu uma culpa repentina, mas a ironia em sua voz continuava com fervor. — Mas minha nova espécie humana precisa continuar a ser gerada, não é?
– Você é um mostro! — Hermione gritou e avançou contra Bellatrix, que agilmente segurou a mutante pelos braços e viu-a chorar, bem próxima de seu rosto. — Você não podia, não podia. — A morena voltou a soluçar, encarando Bellatrix. — Se você tiver tocado na minha irmã, eu acabo com você sua vadia! — Extremamente revoltada, Hermione tentou estapear a médica, mas seus braços continuaram firmemente presos.
– Fique tranquila, a sua irmã não foi afetada. Não dessa maneira. — Um sorriso traiçoeiro se formou nos lábios de Bellatrix, e Hermione arregalou os olhos no mesmo instante, entrando internamente em pânico.
– O que você fez com ela? — A garota berrou e voltou a estapear Bellatrix, mas a médica empurrou para longe o corpo da morena e ajeitou o jaleco em seu corpo, sem ser abalada pelo ódio de Hermione.
– Olhe para ela. — Bellatrix mandou, depois de alguns segundos de silêncio, sendo fuzilada pelo olhar avermelhado de Hermione.
A mutante alada se virou para a cela da irmã, que continuava sentada sobre o chão, e com o rosto extremamente sério. Hermione não estava sendo capaz de reconhecer aquela expressão facial, mas sabia que já tinha visto ela em alguém que conhecia. Não era como se Gabriela estivesse trocado de rosto, os traços de criança ainda eram os mesmos, mas ela estava diferente. Não parecia mais uma criança.
– Você fez alguma coisa com ela, não fez? — O olhar de Hermione ainda estava preso à irmã, mas prestava total atenção nos movimentos e nas palavras de Bellatrix Lestrange. Alguma coisa estava errada.
– Me diga você. — Bellatrix calmamente caminhou até a cela de Gabriela, passando ao lado de Hermione e ouvindo a garota bufar, totalmente revoltada.
No sensor de identificação da porta acústica, Lestrange tocou o vidro, e sua impressão digital foi lida e aceita. A porta se abriu no instante seguinte, e Gabriela imediatamente se ergueu do chão, sabendo que estava livre.
Quando a garota saiu pela cela, Hermione pôde observar cada detalhe da nova irmã. Parecia ter crescido um pouco, ficado mais adulta. Os cabelos quase ruivos de Gabriela estavam mais volumosos, jogados por sobre os ombros da garota. De longe, os olhos dela continuavam castanhos, mas quando a menina deu mais alguns passos e se aproximou de Hermione, a irmã mais velha viu que estava descrevendo-a de forma errada.
Porque não era mais a Gabriela, e Hermione entrou em pânico no momento em que percebeu. O sangue seco espalhado em volta da boca e sobre o queixo da caçula não vinha de ferimentos, mas sim, de alimento.
O olhar de Gabriela estava vermelho como o fogo.
E então Hermione pôde recordar da expressão facial da irmã, e com quem ela estava parecida: era com Gina, quando a ruiva havia se transformado em vampira.
– Olá, irmãzinha. — Gabriela saudou Hermione, e nesse meio tempo proferindo as palavras, a Granger mais velha avistou as presas na boca da mais nova. Em choque, Hermione cobriu a boca com as mãos e chorou em silêncio.
– Ela está linda, não está? — Bellatrix admirou Gabriela, e como ela havia ficado uma pré-adolescente bonita com aquela nova forma mutante.
– Você.. — Hermione estava em pânico, e não conseguia mais retribuiu ao olhar faminto e intimidante da irmã. — você transformou a minha irmã em uma vampira. — A fúria da morena voltou-se para Bellatrix, mais uma vez. — SUA VADIA, VOCÊ FEZ ELA VIRAR UMA VAMPIRA!
Os gritos de Hermione ecoaram por todo o porão, e a voz da mutante tinha um misto completo de desespero e revolta. Ela simplesmente não conseguia acreditar, muito menos aceitar. Bellatrix não podia ter mexido com sua família, ela não tinha o menor direito.
– Continue gritando, vai deixá-la ainda mais irritada. — A médica avisou quando passou por Hermione, que estava desesperada.
– Sua desgraçada, eu odeio você! — Hermione correu para atacar Bellatrix e agarrou a mulher pelo pescoço; estava completamente abalada e perturbada.
– Me solta! — Ordenou a médica, sentindo uma súbita falta de ar quando as mãos de Hermione apertaram fortemente seu pescoço, enforcando Bellatrix.
Desnorteada, era como Hermione estava. Sua irmã era uma criança e havia se transformado em um monstro, por culpa da maldita Bellatrix Lestrange. Aquela mulher era uma doente, e o ódio de Hermione por ela só crescia a cada segundo. Hermione sentia um ódio enorme por tudo, desde o começo. O sequestro da família, a fuga dos mutantes da civilização, a prisão naquela ilha infeliz, a perda de pessoas, a obrigação de matar pessoas. Bellatrix estava simplesmente transformar todos os mutantes exatamente no que ela era: um monstro.
Sem saber que apertava o pescoço de Bellatrix por tempo demais, Hermione sentiu seus braços serem agarrados abruptamente, e grunhiu de dor quando foi puxada para longe da médica; Gabriela a empurrara furiosamente, defendendo Bellatrix. Pasma, Hermione viu um novo sorriso se formando no rosto da médica: ela tinha transformado Gabriela em uma verdadeira vampira, e tudo o que os vampiros sentem é sede de morte e de vingança.
– Acho que você e sua irmã tem muito o que conversar. — Dando as costas para as irmãs Granger, Bellatrix subiu as escadas do porão e abriu a porta de madeira, dando uma última olhada para as meninas presas lá dentro. — Aproveite seu último momento viva, meu bem. Com ela você não terá a menor chance. — A médica soltou uma risadinha sarcástica para a morena, que bufava furiosamente.
E a porta do porão se fechou, trancando Hermione e Gabriela lá dentro.
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Ela sentia um gosto extremamente amargo na boca, seus lábios cortados e ensaguentados eram o motivo. Seus cabelos negros e lisos cobriam sua testa e se misturavam com o suor que corria por sua pele. A respiração ofegante escapava desesperadamente por sua boca, na tentativa de recuperar suas forças e conseguir voltar a lutar. O corpo de Clove era empurrado fortemente contra um pedestal de mármore branco que dividia o centro do laboratório em três partes, já que haviam muitas salas equipadas com os materias que Bellatrix Lestrange precisava para realizar suas pesquisas de genética. Frente a frente com Clove, estava uma garota de cabelos loiros amarrados em uma trança quase totalmente desfeita, em consequência dos golpes violentos que uma proporcionava à outra. Um mutante caído ao chão havia sido alvo de Clove, que se esforçava mais do que nunca para conseguir usar toda a força de seus poderes mentais, porque ela e Draco estavam em uma desvantagem terrível: eram os 2 contra dezenas de selvagens que escaparam das celas daquele lugar.
– Você não deveria estar aqui. — A garota loira, Glimmer, subiu uma mão sobre a testa de Clove e enfiou os dedos pelos cabelos da morena, puxando-os no instante seguinte com extrema força. Clove socou a própria cabeça contra o pedestal, repelindo seu impulso de gritar em dor. Ela já estava farta daquele monte de mutantes desgraçados que os atacavam de cinco em cinco segundos. O pior de tudo era que Cato não saía da cabeça de Clove: ele estava sozinho com a mãe, correndo perigo de vida, e se fosse atacado.. a morena nem sequer gostava de imaginar o que poderia acontecer. Ele era poderoso, claro. Todo o grupo era, um mais poderoso que o outro. Mas a injustiça que os atingia era enorme, todos os mutantes daquela ilha pareciam estar contra eles, além dos policiais e da própria maluca nomeada Bellatrix Lestrange.
O que Clove não entendia era o porquê daqueles mutantes que viviam presos feito bichos estarem do lado da criadora de todo o inferno que os queimavam vivos a cada novo segundo que surgia e batia no relógio.
² — Você também não. — Clove rangeu os dentes e cuspiu um pouco de sangue da boca contra o rosto de Glimmer. A feição da mutante sugadora de energia denunciou imediatamente sua fúria, e nesse deslize de tempo, Clove forçou uma de suas pernas contra a mármore e conseguiu se desgrudar dela, empurrando agilmente o corpo de Glimmer para longe do seu.
Clove correu até a garota e acertou-a com um chute no estômago, fazendo Glimmer perder o ar, se desequilibrar e cair de joelhos no chão. Sem pensar e sem medir compaixão, Clove segurou o rosto de Glimmer com as duas mãos, apertando a pele da garota e machucando-a. Concentrou sua mente e se sentiu aliviada por conseguir o controle rápido de suas rajadas psiquicas, que abruptamente invadiram a mente da garota já derrotada, provocando uma dor insuportável por toda a região de sua cabeça e, consequentemente, seu corpo. Glimmer gritou agoniadamente.
Clove não precisou de muito para infernizar a mente da mutante com seus poderes. Usando a força máxima do seu subconsciente, a morena ouviu por longos segundos os gritos de Glimmer, e as estremecidas que o corpo da garota dava, reagindo à intensa dor. Quando Glimmer não aguentou mais, soltou um arfar alto e se livrou das mãos de Clove, indo para o chão no mesmo momento.
Sabendo que Draco estava em apuros, Clove correu para ajudá-lo. A horda de mutantes estava ao redor do garoto, e ele já tinha derrotado muitos, mas estava visivelmente exausto e perdendo as forças para lutar.
Quando Draco colocava seus poderes na ativa, as coisas se descontrolavam um pouco. Ele era capaz de mexer no tempo, transformar o clima, absorver a energia solar, magnética, aquática, mas não conseguia evitar a revolta das forças superiores por fazer isso. A bagunça sempre acontecia quando Draco se transformava no mutante poderoso que era, e seus dons provocava uma fuga real da realidade, e atiçava todos os olhares e quaisquer audições minimamente aguçadas que estava por perto dele.
O barulho dos trovões atormentava a ilha, e as ondas eletromagnéticas que Draco conseguia emitir atravéz de seu corpo acabou entrando em contato com os auto-falantes que ainda produziam o som infernal das sirenes, e esse som estridente foi finalmente cortado.
Clove ergueu os olhos e arregalou-os no momento em que as sirenes cessaram, e só o que podia continuar ouvindo era o barulho dos raios e trovões, e dos gritos que ecoavam pelo laboratório. Era como se todos presos ali dentro estivessem vivendo um filme de terror, mas era real, e bem mais alucinante.
A morena foi despertada daquele súbito devaneio quando ouviu um berro de Draco, e ele tinha sido atingido por espinhos em toda a pele de seu rosto. Estupefata, Clove correu até a horda que o rodeava e se enfiou por entre os mutantes, chutando e empurrando quem estivesse atrapalhando-a passar. Ela sabia que estava atiçando a ira dos selvagens ainda mais, porém precisava ajudar o amigo. Sem Luna, os ferimentos que recebiam acabavam se tornando muito perigosos, já que eles não seriam curados e poderiam se machucar gravemente, piorando toda aquela situação.
– Draco! — Quando Clove ficou frente a frente com o loiro, o agarrou pelos braços e analisou o rosto pálido dele; estava bastante machucado mas os olhos não tinham sido afetados, e isso já era um milagre.
Sem muito tempo para verificar se Draco estava muito mal, já que ele começou a praguejar palavrões que escapavam em forma de gemidos dolorosos, Clove puxou impulsivamente o loiro pelos braços quando percebeu que a horda mutantes ia para cima deles, na intenção de atacá-los mais uma vez.
Daquele momento em diante os dois estariam em completa desvantagem e Clove não daria conta de enfrentar todos aqueles mutantes. Draco estava sem condições, e tudo o que eles poderiam fazer era tentar fugir. Mas se voltassem pelo corredor, provavelmente seriam barrados e encurralados, e a encrenca seria ainda maior. Poderiam tentar entrar pelo centro do laboratório, passar por entre as salas de pesquisa, e tentar achar Cato. Mas nem Clove e nem Draco conheciam o caminho, além de que, se encontrassem Cato, poderiam deixá-lo em perigo, já que corriam o risco de serem seguidos por aqueles mutantes que os atacavam.
Clove não sabia o que fazer. Ela já estava farta de se sentir daquela forma, impotente e indefesa. Foi então que seu irmão lhe veio à cabeça: ele que sempre falava de união, da importância da união daquele grupo. E estava certo. Se não tivessem se separado, talvez não estariam tão ferrados quanto naquele momento. Mas será que eles não estavam encrencados também?
Inerte por esse súbito devaneio que lhe distorceu a mente, Clove foi pega pelos braços abruptamente e reagiu estupefata; imaginou que estaria sendo atacada, mas quando recuperou o sentido da visão pôde perceber que talvez estivesse encontrado uma saída, e talvez, não morreria antes do fim do dia: Severo Snape estava em sua frente, e tentava lhe dizer algo, desesperado.
– Vamos embora, vem. — Clove finalmente conseguiu entender o que o homem disse, e se sentiu puxada pelos braços para sair dali. Arregalando os olhos, ela procurou por Draco, temendo ele ter sido deixado para trás, mas viu que o garoto estava ao lado de Snape, caminhando tão rápido quanto ele.
Eles estavam escapando.
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Rony, Harry e Scorpius conseguiram prender os mutantes que os enfrentaram dentro da primeira cela do corredor de onde escaparam. Não restaram muitos, já que parte dos selvagens foi derrotadas, alguns fugiram, raptando Hermione e Gina, e os outros mutantes dos outros corredores não chegaram a atacá-los. Mas fugiram das celas, e provavelmente estavam atrás de alguém. Bellatrix não ia deixar sua armadilha funcionar por acaso, ela tinha suas cartas na manga, com certeza.
Depois de Rose incentivar Scorpius a hipnotizar os mutantes presos na cela, para evitar que eles fugissem e tentar conseguir alguma informação de para onde as garotas teriam sido levadas e onde estaria Bellatrix, eles finalmente conseguiram alguma informação com valor.
– É melhor a gente não se separar, isso pode nos complicar mais. — Harry disse, sendo totalmente racional.
– É, você tem razão. — Rose concordou e enfiou a mão entre os cabelos, arrebentando alguns fios embaraçados, mas não dando importância pelo ocorrido. — Esse porão com certeza fica num lugar bem escondido do laboratório. — A ruiva supôs, e olhou pela porta de vidro da cela que tinha sido trancada, graças aos poderes mentais de Harry. Os mutantes lá dentro pareciam dispersos, fora de si; a hipnose ainda fazia forte efeito neles, exceto por um dos mutantes que tinha genes quiméricos, e Scorpius não tinha capacidade para hipnotizá-lo (ele então precisou ser abatido, e nenhum dos quatro hesitou em matá-lo).
– Precisamos ser rápidos, todos correm perigo. — Rony bufou e coçou o queixo, impaciente. — Pra onde será que levaram a Hermione, cara?
– Calma, nós vamos achar ela, a Gina e a Luna. — Rose tentou tranquilizar o garoto, tocando no ombro dele, mas não podia negar: estava tão nervosa quanto o ruivo.
– Esse lugar é muito grande e cheio de armadilhas, temos que ser espertos. — Scorpius começou a usar sua racionalidade, tentando controlar seus próprios impulsos e instintos. Se sentia tão revoltada, com tanto ódio, que tudo o que tinha vontade de fazer era botar aquele laboratório abaixo e matar cada infeliz que cruzasse seu caminho, e não fosse seu amigo. Eles estavam em desvantagem, perdendo tudo; Scorpius quase até perdeu Rose. O desespero já tinha se tornado um forte estado de espírito. — Todas as celas foram abertas, todos os corredores estão perigosos. Mas acredito que os outros mutantes soltos estejam atrás de outras coisas.
– O que seria? — Harry analisou Scorpius.
– Eu não sei, talvez as garotas. — Foi a melhor suposição do loiro. — Tem que ter um motivo para eles terem as levado. Primeiro a Luna, depois Hermione e Gina.. Rose escapou por pouco.
– Se eles tocarem na Gina, eu acabo com um por um. — Harry trincou os dedos e fechou os punhos.
– Nós acabamos com eles. — Rony adicionou, furioso, e Harry assentiu para o amigo, em concordância. — Temos que grudar os olhos em Rose, ela é alvo fácil. Se eles querem algo com as meninas, vão voltar para buscá-la.
– Não sai de perto de mim, tá bem? — Scorpius não negou o seu implorar, e olhou fixamente nos olhos azuis da ruiva. Rose assentiu e soltou uma respiração pesada, não controlou seu impulso de senti-lo dela, e se sentir viva mais uma vez. Os lábios se tocaram e permaneceram por poucos segundos, num ato singelo e sincero.
– Vamos recarregar as armas e vamos atrás deles. — Rony avisou-os e recebeu total concordância dos amigos. — Se puderem usar seus poderes, é ainda melhor. E lembrem-se: não hesitem em matá-los. Eles não vão hesitar em nos matar.
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Atormentada: era como Gina se sentia.
Tinha sido presa em uma cela onde não havia ninguém.
Havia restos de comida espalhados pelo chão, bandejas vazias e dois copos descartáveis jogados em um dos cantos da sala. Não era uma cela muito pequena, mas era suficiente para sufocar Gina e deixá-la completamente angustiada e nervosa. Seus poderes estavam fora de controles, pois a luz no teto do cômodo não parava de oscilar; desligava, ligava, desligava, ligava.. num ciclo sem fim. Gina sabia que a lâmpada estava prestes a queimar e explodir, já que era o que acostumava a acontecer quando ela ainda vivia no apartamento com seus pais.
A lembrança da morte de Jefferson não fazia nada bem à ruiva. Ela podia recordar do sangue em suas mãos que escorria de seu pai, podia recordar da destruição que os policiais fizeram em sua casa, podia recordar as últimas palavras que seu pai lhe deixara, e a informação do pendrive que mudou todo o seu destino.
Se Gina pudesse escolher, ainda iria querer saber o que aconteceu com sua mãe. Se ela estava viva, se também tinha sido morta pelos policiais, ou talvez quase tão pior quanto isso: se tinha sido vítima das experiências proibidas e doentias de Bellatrix. Gina se sentia tão culpada por tudo. Talvez se ela não tivesse sido tão cabeça quente e incontrolável no começo de tudo aquilo, talvez se ela tivesse agido racionalmente depois da bomba que foi o escândalo dos mutantes e a acusação de todos os pais, pudesse ter salvo Claire e Jefferson. Gina ainda achava que tudo aquilo era uma maldição.
Mas algo havia sim interrompido toda aquela terrível maldição: a união dela e dos amigos, e a paixão por Harry. Ela não tinha dúvidas: não conseguiria viver sem ele mais. Nem sem ele, e nem sem os amigos. Gina se apegou em cada um deles, nos defeitos e nas qualidades. Eles lutaram com ela, lutaram por ela, não desistiram em nenhum segundo. E ela também não desistiria.
Gina não iria desistir e acolher a morte em seus braços, e ela não deixaria seus amigos morrerem. Juntos, eles eram a união de tudo o que os rodeava.
Juntos, eles eram um só lutando pela vida, lutando pelo ar que respiravam.
Aquilo não seria o fim; no final do dia, tudo aquilo seria um recomeço.
– Oi, gracinha. — Subitamente desperta de seus devaneios, Gina recuou alguns passos quando um homem de cabelos negros que segurava uma pistola nas mãos adentrou a cela, e a ruiva sequer reparou em como ele havia passado por aquela porta de vidro. Mas quando a porta se fechou, Gina observou o homem retirar um aparelho metálico de dentro do bolso da calça, e plugá-lo numa quase invisível trinca da porta, trancando-a. Provavelmente, era com esse objeto que ela poderia se ver livre daquela prisão. Quando o homem voltou a olhar Gina, e percebeu-a de olho nos movimentos dele em relação à segurança da cela, Lewis abriu um sorriso frio. — Controle de abertura das celas. As portas leêm as impressões digitais da Bellatrix, mas como ela não pode me acompanhar sempre, ganhei esse presentinho. Tentador, não é?
A ruiva deixou de olhar para a porta e olhou o homem, fingindo desinteresse no assunto. Quando encarou o olhar de Lewis, mordeu a própria boca e sentiu aquela forte repulsa invadir e atingir seus sentidos, enquanto recordava as coisas que ele já havia feito a garota passar. Gina odiava imensamente aquele policial.
– Nos encontramos de novo. — Ele saudou, fingindo felicidade. Sua voz de malícia era notória para a ruiva.
– Por que me trouxe pra cá? — Gina indagou, voltando a ficar nervosa.
– Porque eu quero me divertir um pouquinho. — O sorriso enorme que Lewis lançou à Gina fez a garota estremecer e recuar mais vários passos, até chegar ao fim da parece. Ela não estava gostando nada daquele olhar que recebia.
Ela estava ferrada de novo. Como escaparia dali?
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