Mutant World
56 "A Delicadeza do Nosso Amor"
Notas iniciais
21 de Fevereiro de 2004
6 meses depois.
Ela estava encantadora. Mais encantadora do que sempre fora, se é que aquilo fosse possível. Seu cabelo de longos fios loiros levemente encaracolados caía sobre sua costas, e batia contra sua cintura, na velocidade em que ela corria. Seu rosto freneticamente girava para trás, e a cada vez que isso acontecia, um novo e mais intenso sorriso decorava seus lábios, tornando mágica aquela cena.
Os pés de Luna tocavam a grama verde do chão do campo florido onde ela estava. Ela corria sem rumo por entre as rosas e as gardênias, enquanto segurava a barra do vestido longo que cobria seus pés. Era um vestido de cor pérola, rodado na barra, e de mangas caídas nos ombros da mutante. Draco a seguia, mas ele sequer percebia onde estava. Estava vidrado em cada movimento de Luna. A boca dele se abria em um sorriso incessante, ele se sentia completamente inebriado pela visão que tinha dela. Os dois não se comunicavam, e aquele detalhe parecia relevante naquele momento; eles não precisavam de palavras para demonstrar o quão transbordante era a felicidade que sentiam juntos.
Quando Draco se aproximava de Luna, ela apressava um pouco mais os passos e se desvencilhava dos braços dele, que tentavam agarrá-la a todo custo. Ela fugia e sorria, e ele sorria e insistia em tê-la perto.
— Desiste, Malfoy. — Ela se pronunciou, depois de muito tempo sorrindo ao vento. Draco estava por perto, Luna sentia, mas ela continuava a correr e dessa vez não olhava para trás. Fios do cabelo dela cabelo voavam frente ao seu rosto.
— Não pode fugir pra sempre. — Ele respondeu, rindo e pisando descalço sobre a grama. Luna também estava descalça.
— Você não vai me pegar. — A loira riu alto quando sentiu os dedos dele tocarem-na a cintura. Luna desviou seu corpo e tentou mudar a direção de seus passos, mas Draco entrou em sua frente e a agarrou pelos braços. Ele abriu um sorriso vitorioso nos lábios.
— Já te peguei. — Provocou o loiro, vendo-a sorrir junto. Ela era ainda mais linda de perto, Draco sempre ficava extasiado quando ela estava perto demais. Ele soltou os braços dela e a envolveu pela cintura, puxando-a e colando o corpo dela no dele.
— Ah, é? — Luna sorriu quando os lábios de Draco tocaram os dela. A loira suspirou e sua respiração quente se misturou com a do loiro. Os corações sempre se aceleravam quando ficavam próximos demais, era inevitável. — Não cante vitória antes da hora, Draco. — Ela sussurrou para ele; as bocas ainda estavam encostadas uma sobre a outra. Draco olhou-a nos olhos e percebeu que ela sorriu por ali também. É, ela estava tão feliz quanto ele. Luna então aproveitou a deixa para se soltar e voltar a correr, fingindo fugir de Draco. Tudo que ela queria era que ele fosse atrás e provasse que ele sempre estaria ali, assim como ela sempre estaria ali pra ele.
Draco bagunçou seu cabelo enquanto a observava correr para longe, mas não para tão longe. Não tão longe dele. Ele sorriu, e naquele momento teve a certeza de que ela não deixaria a vida dele nunca.
— Não adianta correr. — Draco tentou impor ameaça, mas a voz dele saiu falha demais por seu sorriso ser grande demais em sua boca. Ele estava simplesmente embriagado com a beleza daquela garota. Quando ele voltou a correr, viu-a girar o rosto para trás e lançá-lo um riso contagiante.
Draco insistiu em alcançá-la, mas algo começou a ficar estranho. Era como se os passos dele não estivessem rápidos o suficiente mais, era como se ela estivesse ficando distante. Draco passou a ver o rosto de Luna girar para alcançar o olhar dele, mas ela já não sorria, e em seu rosto reinava uma feição de angústia. Draco começou a se assustar no momento em que ouviu um grito. Era dela, mas não vinha dela. Ecoava dentro da cabeça dele, e a imagem de Luna se tornava completamente distante. As flores do campo começaram a sumir e a grama esverdeada passou a ficar cinza. A luz do dia foi se apagando aos poucos, e, distante, Luna continuava a correr. As imagens começaram a se inverter, como uma ilusão de ótica, e tudo começou a ter sentido contrário. Luna agora não corria de Draco, ela tentava chegar até ele, mas era como se a gravidade impedisse. Quando Draco tentou correr, viu um súbito alguém agarrar o corpo de Luna e a levar para longe da vista do loiro.
Aconteceu tudo tão rápido quanto o despertar de Draco.
Ele sentou-se na cama de supetão. A respiração do garoto estava um pouco acelerada, o cabelo loiro-platinado estava bagunçado. Do outro lado do quarto dormia Cato, já que os irmãos dividiam o mesmo cômodo desde que se mudaram para Manchester.
Draco segurou a barra de sua bermuda e começou a pensar no sonho que teve. Era sim um sonho, mas completamente estranho. As imagens voltaram a rodar a cabeça dele e ele entranhou ainda mais. No começo estava tudo bem, entretanto, tudo ficou sem sentido no final. No começo, Luna estava junto dele, estava feliz. No final, eles foram separados, e tudo perdeu o sentido. Não era assim que as coisas aconteceriam na realidade, né? Era para tudo dar certo agora que eles estavam vivendo longe da ilha, longe das loucuras de Bellatrix, e longe de tanto perigo. Era pra tudo dar certo.
De fato, Draco ainda tinha alguns pesadelos. Não era só ele, ele sabia disso. Seus amigos também tinham. O tempo estava passando, as coisas tinham mudado e agora faziam mais sentido, mas ainda assim, nem tudo podia ser esquecido.
O que fazia tudo dar certo era o sentimento que eles agora possuíam e podiam desfrutar sem medo ou impedimento. E aquele sentimento não iria acabar, só iria se fortalecer com o tempo.
Com alguns passos apressados e barulhentos pela casa, Draco chegou ao quarto onde Luna dormia. Provavelmente todos na casa ainda estavam dormindo, era bem cedo. O relógio na parede da sala marcavam 7:13. Mas ele não se importou de levantar da cama e sair de seu quarto àquela hora da manhã, pelo contrário, no instante em que Draco acordou daquele sonho, tudo o que teve vontade de fazer era de sair de onde estava e procurar pelo motivo da aceleração em seu coração. Esse motivo tinha nome, sobrenome, e dormia como um anjo.
Draco respirou fundo quando abriu a porta do quarto de Luna e a viu dormindo tranquila. Os fios do cabelo dela estavam esparsos sobre o lençol da cama, que era de frente para a porta. Cautelosamente, o loiro adentrou o quarto e fechou a porta de madeira, evitando provocar algum ruído que a acordasse. Ele parou no meio do cômodo e começou a observá-la dormir. Algo forte havia mexido com os pensamentos de Draco ao sonhar que estava se separando dela, ele realmente sentiu como se estivesse perdendo-a. Como se Luna estivesse subitamente deixando a vida dele, e aquilo causou medo em Draco. Mas, vendo que ela estava ali, dormindo serenamente, ainda debaixo do mesmo teto que o dele, sem demonstrar quaisquer sinais de que iria deixá-lo, Draco se aliviou.
Ele se aproximou da cama e agachou no chão, ficando de frente para o rosto dela. Luna possuía uma feição tão tranquila e isso causou um sorriso em Draco. Ele soube naquele momento que ela não desapareceria, e tudo que o loiro mais queria era que ela ficasse por um tempo incontável e indeterminado. Um tempo que, na verdade, Draco queria que não existisse. Ele só queria Luna e nada mais. O mutante tocou a pele branca do braço da loira, e os dedos dele começaram a carinha-la. Existia uma pequena cicatriz um pouco abaixo do ombro dela; ele alisou suavemente aquela região.
Injustamente, Luna não era capaz de usar seus dons de cura em benefício próprio, e em decorrência das lutas e dos problemas que ela e os amigos mutantes enfrentaram na ilha, a garota acabou adquirindo algumas cicatrizes pelo corpo. O metabolismo dela, por ser especial, cuidou da maioria dos ferimentos mais graves que ela tinha, mas alguns deles não foram capazes de cicatrizar totalmente. Draco não gostava de lembrar do sufoco que eles vivenciaram na ilha, mas, enquanto ele tocava a cicatriz no braço dela, pensava em como ela foi forte naquele tempo difícil. Não só ela, todos do grupo foram. Eles realmente suportaram demais, e aquela vida que estavam tendo a chance de viver agora, em paz, era boa o suficiente para ficar marcada por muitas gerações.
Os dedos de Draco subiram pela pele de Luna e tocaram o pescoço dela. O loiro deslizou lentamente sua mão por ali, e pôde perceber ela se arrepiar. Ele sorriu de novo. Tocou com o polegar o queixo da garota e alisou fracamente a região. Ele novamente percebeu ela reagir, respirando mais fundo. Aqueles pequenos detalhes faziam tanta diferença agora. A respiração quente, os olhos fechados e o corpo quieto em um sono tranquilo, a pele sem estar coberta de sangue ou ferimentos, a capacidade de poder ficar junto sem medo do que acontece ao redor... tudo agora tinha muito mais valor. Draco dava valor a cada detalhe daquele.
— Tô feliz por ter você comigo. — Ele confessou em um sussurro para não acordá-la. A verdade era que Draco sentia-se privilegiado de ter uma garota tão especial ao lado dele, sentindo exatamente o mesmo por ele, querendo estar perto tanto quanto ele.
Há um ano atrás, Draco era outra pessoa; ele não ligava pra esses detalhes mínimos. Ele não conhecia o amor (pelo menos não da forma que ele conhecia agora), ele não conhecia o sentimento de paz. O que era mais importante para Draco, era a força de seus poderes e como ele usaria suas habilidades em benefício próprio. Mas tudo mudou drasticamente e ele foi forçado a ver o mundo com outros olhos. Sua vida girou de cabeça para baixo, e Draco passou a observar os detalhes da vida.
Talvez aquele fosse o sentido do sonho que Draco teve enquanto dormia. Em seu sonho, tudo passou a acontecer de forma contrária, tudo girou e passou a ter novo sentido. Foi exatamente o que aconteceu na vida dele e de seus amigos. Talvez aquele sonho foi uma comprovação de que o que aconteceu fez sentido, e que ele não deveria deixar de enxergar o mundo da forma que ele enxergava agora. Draco não deveria deixar a oportunidade que ele estava tendo de ser feliz passar. Ele não deveria deixar seu mundo girar de cabeça para baixo de novo. E ele não deveria deixar Luna.
— Eu tô feliz por ter você comigo também. — Luna sussurrou de volta, ainda de olhos fechados, e Draco percebeu tê-la acordado. Ele continuou acariciando o queixo dela, e a loira lentamente abriu seus olhos azuis. As íris estavam tão brilhantes...
— Não queria ter acordado você. — Draco torceu os lábios e Luna apenas sorriu quando visualizou o rosto dele. Era extremamente boa a sensação de poder acordar em um novo dia, olhando para ele; ela achava.
— Não tem problema. — A loira balançou levemente a cabeça, surrando a orelha no travesseiro branco. Draco olhava fixo em direção aos olhos dela. Impulsivamente, ele a envolveu em um abraço. Luna se ajeitou na cama para retrubuir o abraço, porém, estranhou. Ainda assim, ela tinha um leve sorriso nos lábios. — Aconteceu alguma coisa?
— Não. — Ele envolvia seus braços na cintura dela, calorosamente e escondia parte de seu rosto no pescoço da garota. Luna começou a mexer levemente com os fios do cabelo dele; estavam bagunçados também, Draco provavelmente havia acabado de se levantar.
— Tem certeza? — Ela insistiu. Não que estava reclamando daquele momento, mas Draco parecia estranho. Pensativo, talvez.
— Você tá feliz mesmo? — Ainda abraçado com Luna, Draco quis saber. Ela franziu a testa quando recebeu a pergunta.
— Por que tá perguntando isso? — Ela realmente estranhou a pergunta.
— Você tá feliz? — Draco lentamente desfez o abraço e voltou a olhar nos olhos dela. Eles agora estavam sentados sobre a cama, de frente um para o outro. — Aqui, comigo?
— Eu tô feliz. — Luna assentiu, entreabrindo um poucos os lábios, sem deixar seu sorriso se desfazer. — Eu tenho você, e agora tenho uma família também. Sua mãe é tão boa comigo, e eu me divirto com as brincadeiras do Cato. A gente vive em paz e podemos aproveitar cada segundo. O que mais eu poderia querer? — Ela foi completamente sincera e fez Draco sorrir. Ela sentiu um certo tipo de alívio na respiração que ele soltou. — Mas por que perguntou isso de uma hora pra outra? Aconteceu alguma coisa? Você acordou mais cedo e... você não tá feliz?
— Claro que eu tô. — Draco respondeu de imediato. Ele arrastou seu corpo na cama e aproximou de Luna, mantendo o mínimo de distância que podia. Luna também estava vidrada nos olhos dele.
— Você dividiu sua família comigo, me deu um lugar pra ficar... me deu esperança de voltar a ser feliz. Você me deu tantas coisas e tudo que eu posso te dar em troca sou eu. — A loira baixou repentinamente a cabeça. — Isso é o suficiente?
— O que mais eu poderia querer? — Ele repetiu a frase dela, com um sorriso no rosto. Luna ergueu os olhos e instantaneamente sorriu de volta. Ela sabia que ele estava sendo sincero com ela.
— Então por que você pareceu estranho? — A loira sentiu uma mão dele segurá-la no pescoço, envolventemente.
— Eu só tive uma sensação... — Draco alisou o pescoço dela, olhando-a nos olhos. — só queria ter certeza de que você vai ficar comigo por mais tempo.
— Eu vou ficar com você até você enjoar de mim. — Luna garantiu, e ele sorriu mais.
— Então loirinha... — O loiro aproximou seu rosto do dela. — eu sinto te informar que você vai ficar comigo por muito, muito tempo.
— É mesmo, senhor Malfoy? — A loira sorriu de forma radiante. A boca dela já praticamente roçava na dele, isso fazia os corações se acelerarem mais. — Então quer dizer que você não pretende enjoar de mim?
— É a última coisa que eu vou fazer no mundo, Luna. — Foi a vez dele garantir, respirando junto dela. As respirações literalmente se misturavam. — Mas tem algo que eu quero fazer agora.
— E o que é? — A voz de Luna saiu em um sussurro, e os olhos dela já se fecharam em automático. As bocas também se encontraram automaticamente, e os dois se beijaram intensamente.
....................
Alguns dias depois.
Era uma manhã de domingo. Narcisa havia levantado cedo da cama para preparar um café da manhã para os filhos e Luna, que já era considerada da família. A matriarca Malfoy gostava de observar os primeiros raios solares do dia, gostava de se sentir viva. Depois de tantos perigos, depois de meses tão turbulentos e de tantos riscos de vida que cada mutante e cada pai de mutante teve de enfrentar, acordar cedinho e poder desfrutar das horas do dia já era algo com enorme valor.
Narcisa sabia que Cato e Draco dormiriam por mais algumas horas, afinal, o fato deles serem extremamente preguiçosos pela manhã não havia mudado. Luna era quem costumava a levantar mais cedo que os garotos, mas nem tão cedo assim. Narcisa não se importava, pelo contrário, gostava de deixar a família descançar tranquilamente, sem ter preocupações ou medo. Eles mereciam viver em paz.
— Acho que esse bolo ficou bom. — A mulher apreciou o cheiro que exalou para fora do forno do fogão quando ela abriu a porta e retirou uma forma com bolo de cenoura de lá de dentro.
— Tá com uma cara ótima. — A voz de Luna despertou a atenção de Narcisa, que girou o tronco e observou a mutante parada frente à entrada da cozinha. Luna prendia seu cabelo em um coque frouxo enquanto sorria para Narcisa; a sogra sorria de volta.
— Achei que você fosse acordar mais tarde. — Comentou Narcisa, fechando a porta do forno do fogão e colocando a forma de bolo sob a pia ao lado.
— Eu fiquei sem sono. — Explicou a loira, colocando uma madeixa de cabelo que soltara do coque para trás de sua orelha. — Acordei há umas meia hora e fiquei remexendo na cama. Achei melhor levantar.
— Tá tudo bem? — A matriarca franziu a testa. — Teve algum pesadelo ou...
— Não, não. — Luna sorriu e negou com a cabeça, tranquilizando Narcisa. — Eu só não tava com sono mesmo. Antigamente eu costumava a levantar bem cedo.
— Diferente das minhas crias, né? — Narcisa brincou e fez a mutante rir. — O Draco até que não exagera, mas o Cato... ah, aquele ali hiberna.
— É muito sono pro tamanho dele. — Foi a vez de Narcisa rir. Luna se aproximou da mesa da cozinha e observou Narcisa pegar um garfo e fincar no bolo, para se certificar de que ele estava realmente pronto.
— Droga. — A mulher praguejou quando encostou as costas da mão direita na forma quente, sem querer. Imediatamente a pele de Narcisa ficou avermelhada e começou a arder.
— O que foi? — Luna se dirigiu até a matriarca e viu ela fechar a mão e torcer os lábios.
— Eu sou muito desastrada mesmo. — Narcisa reclamava enquanto Luna abria os dedos da mulher e observava a queimadura na pele da mão dela. Estava bastante avermelhado.
— Tudo bem. — Luna sorriu fracamente e tocou levemente o ferimento com seus dedos. A temperatura do corpo da mutante automaticamente aumentou e, sem esforço algum, Luna conseguiu regenerar a pele de Narcisa. Era notório que Luna atualmente tinha muito mais força em seus poderes, assim como Cato, Draco, e todos os outros mutantes. As habilidades especiais deles haviam evoluído de forma intrigante. — Eu posso dar um jeito pra você. — A loira comentou já depois de curar a queimadura. Narcisa sorria meio abobadada. Era sempre uma novidade para ela, na verdade, seria sempre uma novidade. Aqueles mutantes eram incríveis.
— Luna, você é muito especial. — Narcisa deixou de olhar para a própria mão e passou a fitar Luna. — O Draco tem muita sorte, sabia? E nós também.
— Bondade sua. — A loira sorriu amigavelmente.
— Cunhadinha, acordada à essa hora? — Cato subitamente apareceu na cozinha e virou atenção da mãe e de Luna.
— Eu te pergunto o mesmo, Cato. — Luna cruzou os braços e franziu as sobrancelhas. Os dois sorriam.
— O quê que tá acontecendo? — Narcisa caminhou por entre Luna e se aproximou do filho mais velho. — Caiu da cama, foi?
— O idiota do Draco já tinha me acordado há um tempão. — Cato reclamou e deu de ombros. Ele caminhou até a pia onde se localizava a forma com o bolo de cenoura, e sem cerimônias cortou um pedaço para comer.
— Você pode esperar o Draco pra comer, menino? — A matriarca Malfoy torceu os lábios observando a cena. Luna ria, mas tinha a testa franzida, como se estivesse pensativa em relação a algo.
— O Draco também já acordou? — A loira expôs sua surpresa.
— É verdade, o Draco já acordou? — Narcisa voltou a se aproximar de Cato, e estapeou o braço do garoto quando ele levou novamente a faquinha dentro da forma para retirar mais um pedaço, sendo que com a outra mão ele já segurava um pedaço do bolo.
— Ei, não seja mão de vaca. — Cato reclamou e Narcisa fechou a cara, fingindo irritação. — Tô em fase de crescimento, pô.
— Tá andando muito com a Clove, né? — Luna implicou e Cato fez careta, mastigando o bolo.
— E você tá andando muito com o Draco, cunhadinha. — O Malfoy mais velho implicou de volta.
— Menino, responde. Por que você e seu irmão acordaram cedo assim? — Narcisa foi direta.
— O Draquinho eu não sei. — Cato jogou os farelos do bolo em sua boca e caminhou pela cozinha, logo chegando na geladeira. — Eu vou sair com a Clove.
— Tá explicado. — A mulher riu pelo nariz. — Só a Clove pra te fazer pular da cama cedo assim.
— Eu vou lá no quarto ver o Draco, tá bom? — Luna avisou, mas quando se virou para sair da cozinha, Cato se pronunciou:
— Ele não tá lá não. — O loiro avisou, tirando de dentro da geladeira uma garrafa de vidro com leite. — Ele saiu.
— Ele saiu de casa? — Narcisa arregalou os olhos.
— É, não falou onde ia não. Mas falou que ia resolver um negócio. Ele tava bem animadinho pro meu gosto. — Cato provocou e viu a feição de Luna mudar imediatamente. Ela ficou encucada.
— Onde será que o Draco se meteu? — Narcisa coçou o queixo e olhou para Luna, que desfez seu cabelo do coque e suspirou. A garota também desejou saber, afinal, ele não comentou nada... O jeito era esperar o loiro voltar.
Foi o que Luna fez.
Quase duas horas se passaram.
Narcisa decidiu servir o café da manhã sem esperar Draco, já que ele sequer tinha avisado para onde ia. Surgiram algumas especulações pela mesa quando a matriarca, Luna e Cato estavam comendo. Surgiram também algumas provocações de Cato para Luna, deixando a garota notoriamente enciumada, apesar dela não admitir que estava. Mas por que Draco iria sair tão cedo em pleno domingo? Se Cato pretendia sair com Clove, Draco poderia ter as mesmas intenções, certo? Mas a namorada dele era Luna...
A loira não gostava de se sentir enciumada, nem queria demonstrar preocupação. Mas claro que ela não conseguia controlar seus sentimentos. Desde que se apaixonou por Draco, nunca mais conseguiu fazer tal proeza.
Ela só queria que ele aparecesse logo.
Era engraçado como as coisas aconteciam no mundo, ela acabou parando para pensar nisso. Há alguns meses atrás tudo era completamente diferente. Luna vivia com seu pai (ela sentia uma imensa falta dele), vivia com seu gatinho, morava em um casinha simples e tinha uma vida tranquila. Mas tudo mudou da noite pro dia. Ela perdeu tudo, tudo mesmo. Perdeu seu pai, seu gato de estimação, sua casa, suas noites tranquilas de sono e sua paz. Ela foi forçada a enfrentar tantos medos e passar por absurdos. Entretanto, o mais inacreditável de toda essa reviravolta é que Luna descobriu ser capaz de fazer coisas que ela jamais imaginou poder fazer. Ela descobriu uma força surreal dentro dela, e essa força toda era decorrente da sua vontade de continuar vivendo. A reviravolta que atingiu a vida de Luna a fez perder tudo, mas a fez ganhar tudo de novo. Ela criou laços de amizades que agora não podia se imaginar vivendo sem.
Cada uma daquelas pessoas que enfrentaram coisas horríveis na ilha ao lado de Luna, se tornara extreamemente especial para a garota. Ela se lembrava que Harry, Rose e Clove foram quem ela conheceu primeiro. Ela se lembrava que Rose e Scorpius viviam em pé de guerra, e eles eram quem mais a fazia rir aleatoriamente por causa de suas implicâncias amorosas. Ela se lembrava que Harry e Clove eram completamente apegados um com o outro, só não admitiam, por motivos de meras provocações de irmãos. Ela se lembrava que Cato e Draco ficavam mais fortes juntos. Ela se lembrava de como Rony olhava para Hermione; era inegável a força do sentimento que o ruivo tinha pela mutante de asas, e dela por ele também. Ela se lembrava que Gina e Harry se apaixonaram na mesma intensidade, e eles com certeza teriam um futuro juntos. E ela se lembrava do quanto queria ter um futuro com Draco. Ele era especial demais para Luna. E agora ela já não podia imaginar sua vida longe daquele garoto mais.
Aqueles pensamentos profundos sempre faziam Luna sorrir sem perceber. Ela estava sentada no sofá da sala, eram quase 10 horas da manhã, e um sorriso frouxo decorava os lábios da garota, enquanto ela brincava com uma madeixa do seu cabelo. Luna percebia que passar poucas horas longe de Draco já fazia a garota suspirar de saudade. Era estranho o tamanho daquele sentimento, porque ela sabia que era grande demais o que sentia por Draco. Mas sequer reclamava; Luna adorava os braços dele, a voz dele, e adorava aqueles olhos azuis sempre fitando-a intensamente.
Ela soltou um suspiro e não percebeu a aproximação de Cato, quem apareceu na sala de repente.
— Calma, cunhadinha. — Cato provocou e despertou a atenção de Luna. A garota o olhou, ele estava pronto para sair. — Seu amorzinho já deve estar voltando.
— Olha Cato, almofada não machuca... — A loira olhou para o lado e analisou duas almofadas jogadas no braço do sofá. — mas aquele vaso ali em cima da mesa machuca, viu?
— Tá agressiva, é? — O loiro mais velho continuou implicando; Luna riu e revirou os olhos. — Eu sempre achei que você fosse da paz.
— A Clove deve estar te esperando. — Luna cruzou os braços, ainda rindo. As implicâncias entre os dois causava certo tipo de diversão nos mesmos. — É ela quem é a agressiva do grupo, lembra?
— Pois é, mas minha morena não é agressiva comigo, só pra constar. — Cato deu uma piscadela e Luna riu, desviando o olhar.
— Ela vai ficar se você se atrasar pro encontro. — Replicou a loira.
— Tá tentando uma forma de me tirar de casa e te deixar em paz? Acha que eu vou perder a oportunidade de implicar com a minha cunhadinha, que tá morrendo de preocupação com o Draquinho nosso-de-todo-dia? — Cato agilmente desviou de uma almofada que Luna disparou contra ele. A gargalhada dele fez ela rir também. — Lovegood, você esqueceu que eu sou super rápido?
— E super chato. A Clove realmente tinha razão quando ficava estressada com você. — Luna provocou de volta.
— Aquilo não era estresse. Era vontade de me beijar. — Cato piscou novamente e Luna gargalhou. — Olha, não pense que eu estou indo só porque você tá querendo. Vou nessa porque ela tá me esperando. Mas ó... — O loiro caminhou até a porta e segurou na maçaneta, mas girou o pescoço para olhar Luna. — cuidado pra não infartar, tá? Ele já deve estar voltando.
— Vai embora, Cato. — Luna bufou e riu ao mesmo tempo. Quando Cato abriu a porta, se surpreendeu com a presença de Draco em sua frente. Luna automaticamente ergueu-se do sofá.
— Draquinho... que milagre você por aqui. — Cato fez Draco rir, e o mais novo estapeou a orelha do mais velho. Cato desviou e passou pelo irmão, logo saindo de casa. Draco entrou mas não fechou a porta, apenas a encostou. Luna o olhava meio sem jeito. Ela não queria demonstrar preocupação ou ciúme ou chateação por ele ter saído sem avisar. Mas é claro que ele percebeu.
— Ei. — Draco abriu um sorriso. Luna mexeu as sobrancelhas.
— Ei. — Ela respirou fundo e Draco sorriu ainda mais.
— Eu sei que você tá querendo me bater. — Ele evitou fazer rodeios. Luna deu de ombros.
— Não tô não. — A loira fingiu displicência. O sorriso nos lábios de Draco aumentava a cada segundo.
— Ah, é? — Ele entrou no jogo dela.
— É. — A loira deu de ombros novamente. — Eu só acho que você deveria ter avisado que ia sair. Sua mãe ficou preocupada.
— Só a minha mãe? — Draco deu alguns passos a frente e se aproximou de Luna, que virou o rosto.
— Ela é sua mãe, né? Você tem que avisar as coisas. — Luna continuou sem olhá-lo, mas sabia que ele sorria de canto a canto.
— E você? Não acha que eu tenho que te avisar não? — O loiro se aproximou ainda mais dela, e a distância entre os corpos foi praticamente quebrada. Luna deixou de olhar a parede e direcionou seus olhos azuis para o rosto de Draco.
— Você que tem que me responder isso. — A loira sentiu uma súbita vontade de bater nele enquanto recebia aquele sorriso avassalador. — Você não acha?
— É, eu acho que eu tenho mesmo que avisar as coisas pra minha namorada. — Luna sempre se arrepiava quando ele sussurrava para ela. Ela segurou fortemente um sorriso que tentou brotar em sua boca. Draco continuou a sorrir maravilhosamente. — Mas eu queria fazer uma surpresa pra ela.
— É, você tem mesmo que me avi... — A loira quase se revoltou, mas o intrometido do sorriso que ela tentou conter acabou surgindo em seus lábios. — surpresa?
— Surpresa. — Draco sussurrou de volta. — Você quer ver? Ou quer me bater antes?
— Eu posso te bater depois de ver a surpresa? — Luna brincou e Draco riu; ele sabia que ela era curiosa. Uma curiosa maravilhosa, diga-se de passagem. Céus, como ela ficava linda com aquele sorriso...
Draco pediu para que Luna permanecesse no mesmo lugar, enquanto ele ia até a porta e saía de casa mais uma vez. Ele demorou apenas alguns segundos, e quando voltou, segurava uma cesta nas mãos. A cesta estava coberta com um pano marrom fino, impedindo Luna de desvendar o que tinha dentro, mas ela não precisou de muito. Um miado escapou pela cesta e Luna conseguiu traduzir mentalmente o que aquele miado significava, afinal, ela tinha a habilidade conversar e entender os animais. Um sorriso imenso brotou nos lábios dela no mesmo instante.
— Draco, é um... — A loira cobriu o rosto com as mãos, sua felicidade exalou pela sala. Draco agachou-se e repousou a cesta no chão, então tirou o pano da cesta e um gato rajado pulou de lá de dentro. Luna impulsivamente correu para pegar o animal, e este sequer ousou fugir dela. O felino pareceu gostar dos braços da nova dona.
— Um gatinho. — Draco viu os olhos de Luna rutilarem enquanto ela apreciava a fofura do animal. — Você já me disse que teve um, e a gente voltou na sua casa pra ver se ele ainda tava lá... você ficou triste porque ele tinha sumido, então eu resolvi arrumar um novo pra você. Sei que não é o mesmo, mas eu queria te ver sorrindo assim.
— Ele é muito lindo. — Luna erguia o bichano no ar e brincava com ele. — Eu amei. — Ela repousou o gato em seus braços e olhou para Draco. A gratidão nos olhos dela já era significativamente suficiente para o loiro. Ele havia ganhado aquele dia. — Você comprou ele?
— Não, eu fui numa casa de adoção de animais. — Draco tratou de tranquilizá-la, ele sabia o quanto ela achava injusto a compra de animais de raça ser maior do que a adoção de animais abandonados. Todos eram iguais e tinham os mesmos direitos.
— Eu nem sei como agradecer. — A loira confessou, se aproximando de Draco. — É sério. Eu me dou muito bem com eles.
— Eu sei. — Draco sorriu. — Você é incrível.
— Você é incrível. — Luna aceitou o selinho dele, e retribuiu com intensidade. — Desculpa por ter ficado meio bolada por você ter saído sem falar e...
— Tá tudo bem, eu também ficaria. — Draco admitiu, fazendo-a sorrir mais. — Se você ainda quiser me bater eu deixo.
— Eu não quero te bater. — Os olhos dela brilhavam.
— Então vem comigo. — Draco pediu. — Ele já tá alimentado, e parece que gostou daqui de casa. Não vai fugir. Não quer deixar ele ai um pouquinho e vir comigo?
— Pra onde? — Luna ficou curiosa novamente. Draco deslizou um dedo pelos lábios macios da boca dela. A loira observou o ato e respirou fundo. O coração dela sempre se acelerava com esses pequenos toques.
* — Me encontra ali no quintal, em dois minutos. — Pediu Draco, se afastando e caminhando até a porta. Luna, alisando o pelo da gato em seu colo, assentiu para o loiro. Quando Draco saiu da casa, ela suspirou. Agora a garota já nem queria controlar sorrisos mais.
Luna esperou por aqueles 2 minutos brincando com gato. Ele tinha um pelo macio e avantajado, era rajado e possuía olhos grandes e verdes; era um felino encantador. A mutante já estava apaixonada pelo animal, mas tinha a certeza de que, por Draco, sua paixão só crescia. Luna realmente queria tê-lo pra sempre.
A loira soltou mais um sorriso involuntário e colocou o gatinho no chão. Ela sabia que ele não iria fugir, ele tinha gostado dela. Pedindo para que ele a esperasse, e tendo o consentimento do felino, Luna deixou a casa e se dirigiu para o quintal, onde Draco a esperava.
Quando ela entrou pelo portãozinho de ferro, foi recebida com um jato de água de mangueira que bateu contra o corpo da loira. Ela começou a rir e cobriu o rosto para protegê-lo da água, no momento em que Draco começou a dirigir a mangueira por todo o corpo dela. Ele já estava completamente molhado, sua camiseta branca agora estava transparente e seu peitoral podia ser visto claramente pelos olhos de Luna, já que ela espiava pela gretinha de seus dedos. O loiro bagunçou o cabelo e ficou ainda mais sedutor para a garota.
— Agora eu vou te bater. — Ela brincou, já completamente encharcada de água. Draco jogou a mangueira no chão e desligou o registro; o som da risada dele ecoou pelo quintal. Luna descobriu o rosto e tirou o cabelo molhado de sua testa. Logo o loiro já caminhava em direção à ela de volta.
— Achei que você gostasse dos nossos banhos de mangueira. — Draco provocou, sorrindo descaradamente. Luna mordeu a boca.
— Você me pegou de surpresa. — Ela replicou, sorrindo junto. Ele se aproximou dela e a agarrou pela cintura, colando os dois corpos molhados com precisão. — Tá cheio de surpresas hoje, né?
— Confessa que você gostou. — Draco subiu uma das mãos pelas costas de Luna e segurou-a pelo pescoço. Os olhos azuis dela estavam vidrados nos olhos azuis dele. As respirações quentes se misturaram.
— Você sabe que eu gostei. — Ela sussurrou para ele, fazendo-o sorrir intensamente. — Eu gosto da gente.
— Ah, é? Da gente? Eu e você? Juntos, assim? — Draco alisou a cintura dela e Luna segurou o pescoço dele com as duas mãos. Os rostos ficaram bem próximos. — Gosta dos nossos momentos? Do que a gente vive? — A voz dele soava baixa.
— Gosto de tudo. — A voz dela continuava em forma de sussurro. — Gosto tanto de você...
— Eu sou apaixonado por você. — Draco sussurrou próximo aos lábios dela. — Completamente.
— Eu também sou por você. — Luna tocou a boca dele com a sua. Draco mordicou os lábios dela devagar. — Eu queria agradecer você... por tudo.
— Não tem que me agradecer por nada. — Draco intensificou seu olhar no dela. — Você é a garota que eu quero na minha vida, sempre. E eu quero te fazer feliz, quero te fazer esquecer das coisas ruins que você viveu.
— Você já me faz feliz. E eu não preciso lembrar de nada ruim que eu vivi... que nós vivemos... porque agora eu tô aqui junto com você. — Luna alisou a nuca dele. — Tô olhando nos seus olhos e te garantindo que nunca vou te deixar. Mas você também tem que me garantir que vai ficar na minha vida.
— Eu nunca pensei em sair dela. — Draco abriu um novo sorriso e Luna automaticamente sorriu junto. — Eu tô aqui, loirinha. E você tá aqui também. A gente pertence um ao outro. Ninguém muda isso.
Luna sabia que ele estava certo. Ela não tinha nenhum plano de deixar a vida dele, pelo contrário, ela permaneceria com sua bagagem por um tempo que não existiria. Não existiria porque ela não iria embora, e a bagagem que ela possuía era apenas ela com seus sentimentos verdadeiros em relação a ele.
E Luna sabia que ele também permaneceria com a bagagem dele. Com os sentimentos, com o corpo, a alma, o cabeça bagunçado mais charmoso que ela já vira, e aqueles olhos azuis que indicavam para ela uma direção: a direção do futuro com ele.
Eles se beijaram e os corpos se acenderam.
Os corações se aceleraram juntos e a necessidade de respirar surgiu junto também, junto com a necessidade eterna de permanecerem juntos.
Fale com o autor