Must be love
5 Pain twice
Notas iniciais
Ed Sheeran — Cold coffee
Capítulo 5 — Pain twice
Eu posso?
Eu posso?
Eu posso?
As palavras fazem coro na minha cabeça quando o dia clareia.
Eu não choro mais. Talvez seja porque não tenha mais água suficiente no meu corpo.
Minha boca está seca e meus olhos ardem. Daqui á alguns minutos minha mãe virá me acordar para o colégio e eu direi que não quero ir, ou por vergonha de ver Tobias no colégio ou por sono de ficar a noite adentro acordada. Ou pelos dois; Porém, dificilmente ela deixará eu faltar.
Levanto-me e olho as horas: seis horas e quarenta minutos. Ainda tenho vinte minutos até meus pais acordarem. Vinte minutos para colocar meu plano em ação.
Vou em direção a cozinha descendo correndo as escadas, mas ao mesmo tempo, sendo silenciosa.
Como rapidamente uma barra de cereal e bebo um copo de suco, depois volto ao meu quarto.
Dez minutos se passaram.
Vamos, Tris, ou você faz isso ou vai para o colégio.Penso, enquanto enfio os dois dedos na garganta.
***
Minha boca ainda está amarga, mas seria arriscado me levantar para beber água faltando dois minutos para meus pais acordarem.
Espero alguns segundos e ouço o despertador tocar no outro quarto, logo sendo desligado.
Espero mais alguns segundos e ouço os passos leves da minha mãe no outro lado da porta que logo foi aberta.
– Tris, vamos, acorde. — ela chama-me enquanto me balança carinhosamente.
Grunho e abro meus olhos.
Agora.
– Mãe, eu acho que eu não estou bem. — digo, apontando para a lixeira ao lado da minha cama.
Ela se senta ao meu lado e começa á apertar meu rosto, como se esperasse sentir ele quente.
– Beatrice! Por que você não me chamou?
Dei de ombros e voltei á me cobrir.
– Posso faltar o colégio hoje? — pergunto.
– Não só pode, como deve. Eu vou ligar para seu colégio e avisar para eles que você está passando mal. Você quer que eu fique em casa?
Minha mãe não trabalha e costuma ficar o dia em casa, para onde ela estava saindo?
– Para onde a senhora está indo? — pergunto sentindo o sono chegar.
– Eu consegui um emprego naquele restaurante que fomos no natal! Não é incrível? — ela respondeu sorrindo animadamente — Eu iria te contar, mas ontem você estava tão mal.
Assenti a cabeça sentindo-me feliz pela minha mãe, de verdade.
Ela me deu um beijo entre as sobrancelhas e saiu levando a lixeira com ela.
– Melhoras. Qualquer coisa me liga, o.k?
Assinto com a cabeça novamente e fecho meus olhos satisfeita e aliviada por não ter que ir ao colégio.
Mas não consigo dormir.
O sono que antes me assolava, agora se dissipou.
Espero meia hora até ouvir a porta de casa sendo fechada e levanto-me.
Abro as cortinas do meu quarto e vejo o de Tobias, vazio.
Tento olhar para a frente de sua casa esperando ver seu carro que não está lá. Sinto-me um fardo.
Será que ele está pensando em mim enquanto dirigi em direção ao colégio com Caleb ao seu lado? Será que Caleb ao menos foi com ele?
Vou ao banheiro e lavo meu rosto. Meus olhos que antes estavam vermelhos, agora estão normais, sem nenhum vestígio de lágrimas, apenas o sofrimento estampado nele.
Volto para a cama e fico deitada, apenas deitada. Apenas pensando.
Pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo.
E enquanto meu pensamento vai se fechando, o sono vai se abrindo, e aos poucos, adormeço.
Tobias [POV]
Eu me sinto vazio.
Um nada.
E não há motivos para isso.
Em Nova Iorque, eu era o cara, mas aqui, sou apenas um cara.
Pelo menos é assim que eu acho que Tris pensa.
Eu nunca havia pedido permissão para beijar alguém, apenas beijava, simples assim.
Mas com Tris é diferente.
Com ela tudo é diferente.
E eu não sei porquê.
Eu não sei o porquê porque nunca me apaixonei. Nunca estive tão afim de alguém como estou por Beatrice Prior. E eu não posso estar. É impossível.
Quando eu bato a porta do quarto, consigo ver sua reação de choque. Consigo disfarçar a minha raiva quando passo pelos meus amigos e invento qualquer desculpa para ir embora, e eles, acreditam.
Durmo mal a noite toda. Não consigo pregar os olhos, no máximo durante cinco ou dez minutos, depois acordo. Mas mesmo estando com o sono que eu estou, vou para o colégio.
A minha raiva por Tris passa rápido. Eu não sei dizer, se era raiva o que eu estava sentindo. Acho, que na verdade, era decepção. Decepção por eu não ter o que eu queria.
Será que eu realmente amo Beatrice Prior? A filha dos vizinhos do meu pai? Será que eu fui tão estupido á ponto de me apaixonar por uma garota em quatro dias? Não, não fui, não posso ter sido.
Encontro Caleb no portão de casa, ele está sozinho.
Tris não teve coragem de ir para o colégio. Seria culpa minha? Acho que sim.
Balanço minha cabeça para me livrar dos pensamentos e o cumprimento.
– Bom dia, Caleb.
– Dia, Tobias.
Ele se senta no banco do passageiro como sempre. Devo dizer que isso me causa uma certa raiva, eu gostaria que ela se sentasse ao meu lado.
Não ligo a rádio, porque é com Tris que sempre ouço.
Chegamos no colégio em pouco tempo e vou para debaixo d'árvore junto com o grupo de Tris, que aos poucos se tornou também o meu grupo.
Eles me cumprimentam e logo Christina pergunta algo que eu gostaria que ela não perguntasse:
– Por que a Tris não veio hoje?
Penso um pouco para responder, não posso dizer que ela não veio á aula porque não quer me ver — eu, sinceramente, nem sei se essa é a real razão.
– Eu não sei.
Ela responde com um "Hum" e volta á conversar com Cara.
Todos tentam puxar assunto comigo, mas me limito á conversar. Ah, como eu gostaria estar em casa, sozinho.
O sinal bate e entramos em nossas aulas. Minha primeira aula é de física, junto de Christina, a última pessoa que eu gostaria que tivesse aula comigo.
Sentamo-no juntos nas carteiras da frente e logo o professor começa a aula.
Não ouço nada, não presto atenção em nada.
– Tobias, sim? — o professor me chamou.
Levantei a cabeça e percebi que sem querer, levantei a mão enquanto cochilava.
Olhei assustado para Christina que ria.
– Ahn... posso ir ao banheiro?
Ele assente com a cabeça e eu dirijo-me ao corredor, que está vazio.
Ando em direção ao banheiro aliviado por poder sair daquela aula. Lavo meu rosto e olho meu reflexo no espelho, estou bem, tirando minha aparência desgastada.
É, o amor realmente pode matar.
Entro em um dos boxes e sento em uma privada fechada, encosto minha cabeça na divisória de mármore e meus olhos se fecham, logo durmo.
***
O sinal bate anunciando a troca de horários e eu dou um pulo me levantando.
Saio do boxe e lavo meu rosto novamente, enxugando-o com minha camisa. O banheiro tem alguns meninos do ensino fundamental, que me encaram como se eles fossem superiores á mim.
– Algum problema? — pergunto cruzando meus braços e os encarando.
Eles dividem os olhares entre mim e entre eles, depois saem correndo.
Dou uma risada fraca e saio também.
Quando chego na sala para pegar meus materiais, encontro Christina na frente da sala com a minha mochila na mão e a sua mão no ombro. Quando vi sua feição, minha vontade foi virar as costas e sair correndo. Mas eu sou homem.
– Onde você foi Tobias Eaton?! — ela gritou assim que cheguei á uma distância razoável dela.
As pessoas no corredor olharam para nós. Não sinto meu rosto esquentar, o que é bom, fecho a cara.
– Você não grita comigo. — digo firme, retirando minha mochila de sua mão.
Acho que Christina costuma ser o tipo de pessoa que manda em tudo e todos, e não aceita ser contrariada, pois ela me olhou atônita, como se não acreditasse no que eu disse. Talvez seja por isso que Tris pareça tão insegura de si mesma.
Ando para a próxima aula: inglês, e quando ela começa, presto mais atenção nos farelos de borracha sob minha mesa do que na aula.
E assim as aulas passam até o horário de almoço. Tive aula com Zeke, mas é mesma coisa; me limito á conversar.
Quando sento com Will, Zeke e Al no almoço, eles estranham meu jeito calado, mas quando digo que estou com dor de cabeça eles engolem. E não é mentira.
Eu não aguentaria mais nem uma aula, não hoje.
Quando o sinal toca anunciando o fim do horário do almoço, pego minha mochila e aviso Caleb que vou embora porque estou com dor de cabeça. Ele diz que tudo bem, que pega algum ônibus, mas eu fico receoso e dou as chaves do meu carro para ele e decido pegar ônibus.
Ando para o ponto de ônibus, á duas quadras do colégio, que á esse horário está cheio. Sento-me em um banco livre e percebo um grupo de garotas olhando para mim, fecho a cara mais do que antes, o que não adianta de nada — apenas que elas deem umas risadinhas que me tiram a paciência que eu não tenho.
Depois de vinte quinze minutos meu ônibus chega — pelo menos, eu espero que seja ele já que eu não sei me locomover em Chicago -, sento no último banco e coloco meus fones de ouvido.
Ligo na rádio favorita minha e de Tris que no momento está passando alguma música do Mumford & Sons.
Permito-me cochilar, e me arrependo disso.
Acordo quatro paradas depois da minha, e praguejando desço do ônibus na quinta parada — já que o motorista filho da mãe não quis parar antes.
Xingando, palavrões que eu me surpreendo de saber, ando para casa. Eu poderia pegar outro ônibus, qualquer pessoa em perfeito juízo faria exatamente isso, mas o problema é que eu não estou no meu perfeito juízo.
Enquanto caminho de volta compro uma lata de refrigerante e paro em frente á um prédio no centro. O centro de Chicago ao meio-dia é apinhado de pessoas de todo tipo: adolescentes saindo — ou fugindo, como eu — do colégio, adultos ocupados falando no telefone, vendedores de cachorro-quente, etc.
Demoro-me por ali durante alguns minutos e volto á caminhada de volta ao meu bairro, que deve ficar á cinco quadras daqui, ou mais.
Arrependo-me de ter dado a chave do carro á Caleb, ele, pelo menos, não teria cochilado no ônibus e ser obrigado á voltar de pé para casa.
E quando os xingamentos e as maldições acabam, não penso em mais nada.
Penso em Tris.
Penso em seus olhos azuis, grandes e inocentes, em seus cabelos loiros que lhe caiam até a metade das costas, em seu corpo miúdo, mas com curvas. Penso em quanto eu estou com saudade dela, e eu não a vejo á apenas um dia. O pior dia da minha vida.
Sacudo a cabeça para me livrar dos tais pensamentos, mas eles apenas voltam com mais intensidade.
Seu sorriso. Seu abraço de urso. Como ela colocava a mecha do cabelo atrás da orelha. O jeito delicado de beber chá — já que ela não gosta de café — para não queimar os lábios. Seus lábios.
Ela.
Sorrio quado sua música favorita começa á passar na rádio.
Será que ela está em casa agora ouvindo a mesma estação que eu? Pensar nisso me faz sorrir mais.
Chego em casa depois de vários pensamentos sobre ela e meu pai não está casa.
Entro no chuveiro ainda de roupa e deixo a água em cima de mim, molhando minhas roupas que grudam-se no meu corpo.
Quanto tempo eu fiquei ali? Não sei.
Talvez tenha sido minutos, horas, ou segundos. Não reparei no tempo. Ultimamente, o tempo é o que menos me interessa.
Retiro minhas roupas ficando nu. Visto apenas uma cueca box e uma calça tactel, deitando ainda molhado na cama.
Levanto-me um pouco para ver a janela de Tris do outro lado, a cortina do seu quarto está totalmente aberta, mas ela não está lá, pergunto-me o que ela está fazendo.
Fico um tempo observando, até eu ver a porta ser aberta e Tris entrar.
Ela está abatida, consigo ver pelo jeito como ela se move enquanto dobra as cobertas.
Tris de repente de dobrar as cobertas e se agacha no chão. Percebo pelos seus ombros que ela está soluçando, provavelmente chorando.
Sento-me na cama e um impulso de abraçá-la percorre meu corpo.
Resisto á isso e a vejo levantar-se limpando seus olhos. Minhas suspeitas estavam certas: Tris estava chorando.
O impulso veio novamente á tona e eu me imaginei indo á sua casa, abrindo a porta e a abraçando. Depois beijando-a.
Observo-a sair do quarto e fechar a porta, depois desisto de ver ela.
Vou á cozinha e pego uma maça. Ligo a TV e o ar condicionado, mas não presto atenção no filme que está passando, as imagens de Tris chorando invadem minha mente e me retiram de todo resto ao meu redor.
Acabo dormindo no sofá com a maça pela metade e um filme passando na TV.
Tris [POV]
Choro.
Choro ao relembrar de Tobias. De relembrar ele me pedindo permissão para beijar-me.
Agacho-me no chão do meu quarto e choro, soluço, esperneio, grito.
Eu pensava que já havia superado, mas não.
Ver ele chegar em casa me quebrou. Minhas defesas caíram.
Vejo-o no seu quarto jogando a mochila no chão e entrando no banheiro. Imagino-o dizendo-o oi para mim detrás da janela, mas ele não me vê.
Eu não aguento mais isso. Eu não aguento mais isso!
Tobias me deixa fraca, me deixa frágil, como uma boneca de porcelana. E eu não gosto disso. Ou gosto? Não, não gosto.
Ligo a TV e um filme idiota passa na TV. Nem presto atenção, penso em Tobias.
Olho para seu quarto na esperança de vê-lo ali, sorrindo para mim, mas eu me iludo.
Ele não está ali, não está em lugar algum.
Eu procuro-o, procuro-o em todas as fendas em que ele pode ter se escondido durante esse tempo mas não o acho.
Não o acho. Não o acho. Não o acho.
Lágrimas brotam nos meus olhos e soluços enchem minha boca. Tento gritar, mas não consigo.
Estou desesperada.
Desesperada por Tobias.
Desesperada para encontrá-lo.
Desesperada para tê-lo.
Estou desesperada.
Não consigo sufocar minhas emoções e as lágrimas brotam com mais força nos meus olhos. Os soluços tapam minha garganta. Eu estou morrendo. Aos poucos, mas estou morrendo.
Meus lábios estão molhados pelo desespero, meus olhos, encharcados.
Minha cabeça doí. Minha garganta doí. Meus olhos doem. Tudo doí. Meu coração doí.
Cadê o Tobias? Onde eu posso encontrá-lo? É a pergunta que eu me faço enquanto as lágrimas param de sair com tanta violência e os soluços cessam.
Eu não sei onde ele está.
Eu não sei.
Eu preciso encontrá-lo.
Eu preciso.
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