Notas iniciais
Muito melancólico esse capítulo ):

Mandy's POV

Quando saí do estúdio fui direto para o pub. Eu e Josh já havíamos ido lá – e quase se beijado em meio a bebedeira – e Anthony me disse que ele era amigo do dono então o cara devia ser gente boa. Cheguei e lá e como era uma segunda-feira e ainda estava no horário de almoço, não tinha ninguém a não ser alguns garçons e ainda estava super escuro só com algumas lâmpadas em lugares estratégicos. Aliás, acho que não havia mais luzes ali porque de noite aquele lugar ficava com a mesma aparência. Perguntei a um dos garçons se o dono estava lá. Ele mal me olhou na cara e disse que o dono não estava. Ok. Só porque eu tenho 15 anos e quase 16 não significa que eu devo ser ignorada e tratada daquele jeito. Resolvi abusar da minha confiança.

– É que eu sou amiga de Anthony Kiedis... – foi como pronunciar palavras mágicas.

Ele não deixou nem eu terminar a frase e foi logo me servindo algo para beber e disse que chamaria o gerente. Achei aquilo tão legal que estava pensando em frequentar mais vezes aquele local. O gerente, diferente do garçom, já foi super atencioso comigo – já desconfiava que o garçom havia contado sobre o meu amigo – então fui direto ao assunto.

– É assim... Estava pensando em tocar aqui à noite, semana que vem, pode ser?

– Semana que vem, na segunda? — ele me olhou confuso.

– É, isso.

– Acho que não tem problemas, mas saiba que poucas pessoas vem aqui numa segunda a noite.

– Ah tá, claro. Eu só quero fazer uma apresentação simples, nada demais.

– Então tá. — ele ainda me olhava confuso – Vou disponibilizar o palco para você semana que vem.

– Fechado! — apertei a mão dele.

Agora sim, estava tudo pronto. Aproveitando que eu estava ali, que estava morrendo de fome, que não tinha mais ninguém naquele pub e que eles sabiam de quem eu era amiga – amigo esse que não via há anos, mas ok – pedi um x-burguer. Um outro garçom anotou meu pedido e ainda colocou uma musiquinha ambiente agradável. Fiquei ali curtindo a música até que ouço aquele típico barulho de luz piscando/ falhando. Olhei para a lâmpada e consegui avistar um ser num sofázinho. Ele estava esparramado nele e não dava para ver se ele estava dormindo ou acordado mas com certeza ele tinha conseguido aquele porre no dia anterior. Tinha mais chances dele estar dormindo então fiquei o encarando por mais uns tempos. Ele tinha um corpo muito esquelético, provavelmente não tinha uma reserva energética naquele corpo. Seus cabelos eram longos, iam um pouco a baixo dos ombros. Quando meu pedido chegou, parei de encará-lo e foquei na minha comida.

– Heey – falou uma voz rouca.

Fiquei assustada mas fingi não ouvi. De acordo com Sophie, esse era um dos melhores jeitos da mulher se defender: ficar calada e fingir que não foi com você – dependendo da situação, lógico. Continuei saboreando meu x-burguer, até que percebi o sujeito medonho se levantar e sentar num banco próximo ao meu. Na verdade não era próximo: ele estava sentado na minha frente, só que havia um balcão enorme que nos separava. E ele ainda sentou embaixo de outra lâmpada fraca o que não ajudou em nada para eu lhe ver melhor. Continuei fingindo que não vi nem ouvi nada até que ele falou:

– Eu lembro de você.

Tinha assistido um filme de terror ontem e aquela situação não tava ajudando muito. Cadê os garçons?

– Você... é... — não sabia se ele hesitava ou se ele não conseguia falar por causa de sua rouquidão – Você esteve em um show meu.

Parei de comer e analisei o cara. Não tinha ido a muitos shows na minha vida mas com certeza não fui a um dos shows dele. Aliás, nem sabia quem ele era. Resolvi respondê-lo antes que ele se aproximasse de mim.

– Acho que você está enganado.

– Não, não estou! — agora sua voz tinha um tom firme.

– Me desculpe, mas eu nunca vi você na vida.

– Eu tocava em uma banda... — ele abaixou sua cabeça – Não lembro o seu nome mas lembro que você cantou uma música com a gente, em um dos meus últimos shows.

Aquele cara é doido, maluco, psicopata e pedófilo. Nunca o vi na …. pera, ele disse “tocava em uma banda”?

– Em que banda especificamente? — fiz cara de quem não suspeitava de nada.

– Red Hot.

Não pude evitar que meus olhos se arregalassem. O único ex-integrante que eu conhecia era o John e aquele ali não tinha nada a ver com ele. Poderia ser um impostor.

– Sinto muito, mas não.. — continuava na defensiva.

– E eu me lembro de você de outro lugar... — dessa vez ele mesmo se calou.

Resolvi não comentar nada e terminar logo meu x-burguer e tratar de sair dali o mais rápido possível.

– Pode parecer loucura eu perguntar isso..

– Acredite, já tá sendo uma loucura tudo o que você vem falando – interrompi-o.

– Ok. Eu sou um estranho. Mas.. — ele mordeu um pouco os lábios e olhou para mim – você frenquentava o Felix's Dinner?

Não. Podia. Ser. Ele. Esperei um pouco antes de falar. Não sabia ao certo se devia falar a verdade mas que se foda, ele só iria calar a boca se eu falasse que frenquentava – o que não era mentira.

– Sim. Eu frenquentava. Por quê?

– Sou eu. O John.

– Acho que não hein.. — dei uma risadinha falsa – O John que eu conheço não tem essa aparência que você tem..

– Mas as pessoas crescem e mudam de aparência – aquilo era uma desculpa para as drogas?

Naquele momento, todos os acontecimentos passaram pela minha cabeça. A imagem dele tocando o solo de Breaking the girl me olhando, a imagem dele me encarando no Felix's, a imagem dele se drogando, a imagem dele me falando aquelas coisas quando o encontrei no Peter...

– É, mas você não cresceu. — falei num tom sério.

Ele abaixou a cabeça. Bendita era aquela luz que não deixava eu ver seu rosto direito para confirmar aquela identidade.

– Você não sabe pelo que eu passei. As drogas era o único jeito de me livrar daquele inferno.

– Você tem razão. Eu não sei pelo que você passou e nem quero saber mas não diga que as drogas eram a solução – respirei fundo – Minha irmã passou pela mesma coisa, a diferença é que ela admitiu que precisava de ajuda. Ela sim cresceu.

– Quem você pensa que é? — agora ele me olhava com o queixo levantado.

– E quem você pensa que é? Um drogado metido a guitarrista? Um moleque metido a gente grande?

Ele saiu do banco em que sentava bufando, arrastou-o e foi caminhando em minha direção. Meu x-burguer já estava terminando então não foi problemas em deixar ele ali e sair correndo dali. Antes que eu pudesse sair do pub, ele puxou minha mão e me olhou nos olhos. Era hoje que eu morria.

– Olha aqui.. Você não tem direito de falar assim da minha vida!

Devia estar com a coragem no nível máximo porque eu ainda respondi.

– Ah é? Você não tem o direito de me pegar assim pelo braço mas está fazendo isso – ele afrouxou a sua mão no meu braço, mas continuava me segurando – e já que estamos “quebrando direitos” por aqui eu vou te dizer uma coisa. Você – apontava para ele com meu dedo indicador – vai perder a sua vida nas drogas. Está desperdiçando o talento que você tem em drogas! Você já perdeu os seus amigos. Quer perder a vida também por quê?

Ele me olhava fixo e não respondia nada. Empurrei-o um pouco perguntando a resposta da minha pergunta e logo depois me arrenpedi de ter feito isso. Já estava a beira da morte então quando eu me virava para fugir ele falou:

– Mandy, eu.. — ele olhou para baixo e agora parecia arrependido – eu.. não..

- Como diabos você sabe meu nome? — perguntei incrédula.

Aliás, aquele nem era meu nome, era apelido! Pior ainda! Ele deu meio passo atrás e a luz o iluminou. Avistei aquela tatuagem de polvo no seu ombro e lágrimas vieram aos meus olhos.

– Eu lembro de você – ele ainda falava com uma voz rouca.

Já sentia uma lágrima teimosa deslizando nas minhas bochechas. Era insuportável vê-lo naquele estado.

– John, o que você está fazendo?

– Eu não sei.. Não consigo me controlar.

– Eu sei de uma clínica … — ia me aproximando para o consolar.

– Eu não quero ir para uma clínica – falou meio com raiva.

Minhas lágrimas pararam naquele momento. Fiquei o encarando com um desprezo que Deus me perdoe. Uma hora ele tava supostamente arrependido e outra ele não tava. Foda-se.

– Morre logo então. Volte para seu sofázinho e injeta tudo que você tiver de heroína nesse seu braço.

Ele me olhava questionando se eu estava falando sério.

– Vai logo – continuei – Pessoas como você no mundo... — não consegui completar — Você particularmente me dá nojo.

Me virei, deixei dinheiro suficiente em cima do balcão para pagar o sanduíche e saí do pub. Nem me virei para ver sua reação. Provavelmente iria se drogar mais. Idiota. Cretino.


Notas finais
Me digam o que acharam ;D