Must Be The One
4 Sir Psycho Sexy
Parecia que a cada degrau eu ficava mais vermelha. Cheguei a um nível de vermelhice que eu nem sabia que existia. Passei por John e ele nem olhou pra mim, encarava o chão. "Melhor o chão do que eu". Flea chegou comigo e meu deu um abraço e perguntou qual era meu nome. Resolvi mentir. Fiquei com vergonha — mais do que já estava — e não falei meu nome verdadeiro para ninguém ali me reconhecer, se isso fosse possível. Falei que meu nome era Kim. Flea me olhou com uma cara surpresa, como se soubesse de alguma coisa.
Então, Anthony me levou junto ao microfone e falou:
– Por que você não canta Breaking the girl para a galera?
Logo a minha música preferida. Logo na frente de muita gente. Logo eu, que nem sou tímida. Logo eu.
– Eu te acompanho — completou Anthony, vendo minha cara de medo.
A multidão gritou, assobiou. Estava desconfiando que eles gritavam por qualquer coisa mas aquilo me incentivou a cantar. Surgiu de não sei onde um cara da produção que me deu um microfone. Peguei e o Flea gritou: "Um dois trê e vai"
"I am a man cut from the know. Rarely do friends, come and then go" Anthony começou e fez sinal para eu continuar.
"She was a girl, soft but strange. We were the two, our lives rearranged" Comecei a ficar menos nervosa, minha voz já saia normalmente. Anthony me abraçava e cantávamos juntos. A platéia tava curtindo. Sorri com aquilo tudo. Quando chegou no solo de guitarra, olhei para John e ele estava me encarando. "Ótimo, logo agora que minha vergonha tinha passado." Mas agora ele me encarava de um jeito que parecia que ele estava vendo alguma coisa além de mim. Enquanto tocava, se mexia, virava e chegava cada vez mais perto de mim. A minha cara devia ser de ridiculamente assustada porque quando acabou o solo ele piscou para mim e voltou para o canto dele. Fingi que nada aconteceu e continuei a cantar, dessa vez já estava animada e andava um pouco no palco.
A música terminou e todo mundo nos aplaudiu. Não pude esconder meu sorriso e acenei para a platéia. A banda se reuniu no centro do palco e se curvou diante da galera. Já era o fim do show e eles estavam se despendindo. Anthony, Flea e Chad fizeram um high-five comigo e me elogiaram. Estava saíndo dali quando John disse:
– Heey. Kim, certo?
– É — demorei um pouco para responder já que tinha esquecido da minha nova identidade.
Ele se aproximou mais e me deu um abraço. Enquanto ele me abraçava, devo ter ficado com uma cara de wtf extrema porque Chad olhou e riu.
– Você canta muito bem! — e apertou minha mão, deixando algum papel ali.
Olhei e vi que era uma daquelas pulseirinhas que permitem você entrar no camarim. Fiquei sem-graça e falei:
– Er.. Você também! Quer dizer, você toca muito bem. E também faz um ótimo trabalho no back vocal.
Ele sorriu e disse "É". Seria paranóia demais pensar que ele respondeu a mesma coisa que eu respondi anos atrás quando a banda perguntou se nós tocávamos. Esqueci isso quando ele piscou novamente e disse "Te vejo por aí". Como se ele não tivesse nada "planejado".
Eu era tímida demais, saí dali e fui a procura do Josh. A galera já tinha se dispersado um pouco então não foi difícil de o achar.
– Nem acredito que você cantou com eles!
– Nem eu.
– E por que você mentiu seu nome?
– Fiquei com vergonha por causa daquilo que aconteceu antes e tal..
Ele riu e me abraçou.
– Melhor show que eu já fui! E você deve ter gostado também, eu vi como o John olhou pra você no final do show. Acho que ele ficou a fim de você.
Minha garganta ficou seca.
– John? A fim de mim? Tsc, bebeu ou fumou?
– Aaah, qual é! Não engana ninguém. Eu vi ele olhando pra ti. E parecia que ele tinha te entregado alguma coisa.
Não tinha como mentir pro Josh. Aliás, eu já tinha visto aquele olhar do John nas ruas. Era aquele olhar de gente tarada. Pedófilo, como eu prefiro. Apesar de ter 13 anos, dava para eu passar por 17 fácil fácil.
– Tá, ele olhou pra mim. Grande coisa. Ele faz qualquer isso com qualquer uma.
– E o que ele te entregou? — Josh só podia ser vidente. Como ele viu a km de distância?
– Me entregou uma dessas pulseiras para ir para o camarim depois do show, mas eu não vou.
– POR QUE NÃO?!?!?
– Não quero.
Ele me olhou com uma cara de reprovação, e ficou um bom tempo assim até desistir de fazer com que eu mudasse de ideia. Melhor assim. Sou muito tímida. Não ia conseguir mentir na frente deles de novo. E não ia aguentar o John me olhando daquele jeito.
Estava cansada de procurar minha irmã até que achei ela no chão agarrada ao beijos com um carinha qualquer. Aquilo era mais do que costume. Jack havia terminado com Sophie e ela agora ficava com qualquer um. Cheguei perto e pigarriei. O cara que estava com a língua enfiada na boca da minha irmã, abriu a boca para falar: "Uhh, quem é a novinha? Vem cá para o papai!"
Senti um nojo extremo dele e ainda mais da minha irmã por estar o beijando. Sophie nem ligou, e saiu de lá na boa, como se nada tivesse acontecido. Era melhor ela pegar qualquer um do que se enfiar no mundo das drogas. Fomos pro carro, e fiquei lembrando de tudo que havia acontecido. Tudo surreal.
– Sei que vocês não estão com sono — falou Sophie — e se vocês estiverem eu pago um café mas vamos a um novo pub que inaugurou semana passada? Todo mundo só tá falando nele!
Minha irmã não ligava se eu tinha 13 ou 31 anos. Ela queria curtir a vida dela e não cuidar de uma adolescente. E eu podia ser tímida, mas era muito curiosa. Eu e Josh nunca tínhamos ido ao um pub na vida e ficamos animados com a ideia. Chegamos rápido no lugar. Era grande e simples, mas a iluminação que tinha no lugar atraía qualquer tipo de gente. Não demorou muito para perdermos Sophie de vista. Josh pegou minha mão e entramos. Estava lotado e havia muita gente dançando.
Acho que estava com uma energia inesgotável naquele dia porque de manhã fui para a escola, de tarde fui ao show dos peppers e de noite estava ali sem nenhum sono. Chegamos no bar e ninguém notou que éramos menor. Rimos e fizemos o nosso toque. Toda vez que fazemos esse toque, aprontamos alguma coisa.
– Me vê uma geladinha pra mim! — pedi ao barman.
– Me vê o mesmo que ela!
Tínhamos razão. Ele logo chegou com duas cervejas pra gente, brindamos e bebemos. Tentei beber como bebo água mas engasguei e Josh começou a rir. Não gostei muito do gosto mas continuei bebendo e pedindo mais. Já estava no ponto em que se ria de tudo. Josh provavelmente estava mais bêbado. Ele pegou minha mão e me convidou para dançar. Estava tocando uma música do Frank Sinatra, então o clima esfriou e os poucos que ainda estavam ali começaram a dançar em dupla.
Minha mão quase que automaticamente parou em seu ombro enquanto a dele ficava na minha cintura. Ele não parava de sorrir para mim e foi aí que reparei nos seus olhos cor de mel.
"Yes. There were times, I'm sure you knew, when I bit off more than I could chew" A voz de Frank Sinatra ocupava o lugar trazendo um clima perfeito.
Sorri e abaixei meu olhar. Ele ajeitou uma mecha do meu cabelo castanho e olhei pra ele. Estava mais próximo. Não sabia o que fazer. Não sabia se tinha aquele sentimento por Josh e acho que nem ele sabia já que nós dois estávamos — um pouco — bêbados.
Só havia centímetros de espaço entre minha boca e a dele, acho que ele estava um pouco consciente daquilo porque se aproximou mais de mim com o mesmo olhar de quando perguntei se ele tinha visto pra onde minha irmã tinha ido. Um olhar de desejo.
Estávamos quase lá quando um dos garçons pega o microfone e anuncia: "Com vocês, RED HOT CHILI PEPPERS!" Não acreditei naquilo e tive que virar para olhar. Não sei se Josh ficou decepcionado ou se virou também. Me deparei com os 4 tocando bem perto de mim já que estava perto do palco.
Nunca esperei eles ali. Aliás, sucesso é sucesso. Quando se tem, você não vai cantar num pub qualquer — ainda mais aquele que não tinha praticamente mais ninguém — mas sim para uma multidão. Já estava tonta para tanto acontecimento e sentei num sofá no fundo do pub. Percebi o lugar encher mais um pouco. Josh me acompanhou e sentou do meu lado. Já estávamos com sono, e acabamos dormindo ali mesmo.
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