Music In The Dark
28 Agora você sabe
Notas iniciais
–Lui está trazendo comida, e você vai comer tudo o que ele trouxer. – Antoinette falou, sentando-se na cama ao lado de Anna. –Você está anêmica. Bem anêmica, pelo que Dr. Pierrau me contou. Tem que se alimentar e ficar em repouso, poupando suas energias. Mas Lui, Meg e eu podemos nos revezar para ficar com você, é improvável que você queira ficar sozinha por mais tempo do que já ficou nesses últimos dias.
–Eu não ligo de ficar sozinha. – Anna murmurou, obviamente de mau humor.
–Bem, vamos ficar com você mesmo assim, para ter certeza de que vai se alimentar direito. Espero que você não se importe.
Três batidinhas na porta anunciaram que Lui havia voltado, e dessa vez ele tinha trazido consigo uma bandeja com o jantar preparado por uma das exímias cozinheiras do teatro especialmente para Anna.
–Aqui, coma, minha criança. – Mme. Giry pegou a bandeja de Lui e colocou no colo da menina.
Três dias haviam se passado, e Mme. Giry ainda não havia tomado coragem de contar a Anna sobre a própria gravidez. A menina ainda estava muito fraca e corria sérios riscos de perder o bebê ou, até mesmo, de morrer numa tentativa de parto. Até que estivesse plenamente recuperada e não houvessem riscos, Antoinette não diria uma palavra sequer a Anna. A Erik, por outro lado, sentia-se na obrigação de contar. O filho poderia ser dele, assim como poderia ser de Lui. Se encaminhou para os túneis subterrâneos do Teatro, andando pelo escuro sem titubear — conhecia o caminho como se fosse a palma de sua mão.
–Erik? – ela chamou, cegamente, ao chegar a seu destino. Se aproximou do salão principal e meia dúzia de velas acesas lhe clarearam a visão. Erik estava no sofá, aparentemente adormecido, Mme. Giry se aproximou e deu-lhe alguns leves tapinhas nas costas. –Erik? – depois de mais alguns cutucões ele começou a se mover.
–Antoinette? – ele murmurou, a voz rouca de sono.
–Sim, Erik, sou eu. Por que você está dormindo no sofá?
–Christine não quer ir embora e eu me recuso a dormir na mesma cama que ela.
–Christine? Ela ainda está aqui? – Mme. Giry arregalou os olhos, surpresa.
–Sim, e não vai embora tão cedo, pelo jeito. Mas, na situação dela, quem sou eu pra obriga-la? –Erik se lamentou, passando a mão pelo rosto e pelo cabelo desgrenhado. Como forçaria uma mulher grávida a sair de casa? Raoul não a aceitaria de volta, ela não teria onde ficar.
Giry estranhou. A que Erik se referia ao dizer, “na situação dela˜? Ela não sabia, e resolveu ir direto ao assunto.
–Erik, eu tenho que te dar uma notícia importante.
–Pode dizer.
Ela respirou fundo e abaixou-se para sentar-se ao lado dele.
–Anna está grávida. – Mme. Giry anunciou com tanta calma quanto pode contere observou os olhos de Erik se arregalando lentamente e a boca se escancarando.
–Anna também? – ele sussurrou, sem saber o que imaginar. Ele teria dois filhos? Mas, não, talvez ele não fosse pai de nenhuma das crianças. Anna, infelizmente, poderia estar grávida de Lui... E até onde Erik sabia, o bebê que Christine carregava no ventre podia ser de Raoul. O fantasma pigarreou, aumentando o tom de voz. –Lui está contente?
–Sim, ele está contente.. Mas só porque está convencido de que a criança é dele. Óbvio que o pai pode ser você, o que é bem mais provável. –Antoinette comentou e se lembrou do que Erik havia sussurrado primeiramente. –O que você quis dizer com “Anna também”?
Erik não sabia como responder à pergunta sem assustar Madame Giry, então optou por ser bastante direto.
–Christine também está grávida. –ele falou, baixinho.
–E o filho é seu? – Antoinette perguntou, aflita e surpresa.
–Acho que poderia ser de Raoul também, mas... Sim, presumo que eu seja o pai.
–Anna sabe?
–Sabe. Ela teve o infortúnio de estar aqui quando Christine anunciou sua gravidez... Aliás, como Anna está lidando com a gravidez? – ele quis saber. Talvez ela o aceitasse de volta, nem que fosse só para ajudá-la com a gravidez e, mais tarde, o bebê.
–Ela não sabe. –Mme. Giry murmurou, envergonhada.
–Como assim, ela não sabe? –o fantasma se ultrajou.
–O médico a examinou e veio falar diretamente comigo, deixando nas minhas mãos a decisão de contar ou não contar a ela. Eu optei por não contar.
–Mas, Antoinette, tem um feto crescendo no corpo dela! Ela tem o direito de saber!
–Ela saberá quando for a hora. Acontece que Anna, além de grávida, está anêmica e depressiva, o que são condições que podem trazer sérios riscos a gravidez. Não pretendo contar nada até ela se recuperar de seu estado atual e ficar plenamente saudável.
O rosto de Erik se contorceu numa careta de desagrado. Ele não concordava em nada com Mme. Giry, não era justo que Anna não soubesse sobre sua própria gravidez. Além do mais, ele não fazia ideia de que Anna estava nesse estado.
–Como ela ficou tão doente? – ele questionou.
–Não tenho certeza. Imagino que a depressão tenha sido desencadeada por causa das ações do rapaz, Lui. Ela se trancou no quarto por semanas, presumo que mal tenha saído pra se alimentar... Daí a anemia. Ela está esquálida, Erik, quase não a reconheci. Talvez você pudesse tentar convencê-la a se alimentar direito, tenho certeza de que ela vai ouvi-lo.
–Não, Antoinette, não adianta. Anna está furiosa comigo, e tem todo o direito de estar... Ela não vai ouvir nada do que eu tenho para dizer.
–Ora, não custa nada tentar. Vamos, Erik.
Ele suspirou. Ser rejeitado novamente por Anna seria dolorido demais... Mas se fosse para o bem dela e do bebê, valeria a pena tentar. Erik assentiu com a cabeça, levantando-se do sofá. Pegou o colete e o sobretudo que estavam dobrados sobre o braço do sofá e os vestiu. Endireitou a máscara sobre o rosto, ajeitou o cabelo.
–Então vamos logo – ele pediu -, antes que eu mude de ideia.
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