Muse
7 Capítulo VII - Colosso
Notas iniciais
Muse
“Apoiada, a coragem nasce até mesmo naqueles que são muito covardes”
Homero
Capítulo VII:
Colosso
Turno: Sakura Haruno
Assim, os lânguidos raios de sol já desabrocham num horizonte mais distante. Deixei a porta janela aberta noite passada; permitindo que o quarto ficasse um pouco mais arejado e confortável. Meus ataques de asma estavam começando a se manifestar com toda aquela poeira. Era até possível ver pequenas partículas da mesma, sobrevoando o quarto e sendo descobertas pela luz do sol.
Hoje tudo recomeçara; mais declarado, mais solene. Arranjei um emprego no centro da cidade; um outlet de sapatos femininos. Como se fosse um verdadeiro shopping inteiro de calçados. O sonho de qualquer mulher.
– Bom dia.- Preparava um café da manhã básico, quando Naruto se anuncia adentrando a cozinha. Recebo um beijo na bochecha do loiro e lhe entrego uma xícara de café.
– Bom dia.- Digo, sentando-me no banco de arco. Enlaço os dedos pela xícara morna, me deliciando com o gostinho amargo da manhã.
– Como vai ser hoje de tarde?- Naruto calçava os sapatos.
– Saímos da escola, você pega o caminho de volta para casa e eu parto para o ponto de ônibus mais próximo. Simples.- Lhe explico, tomando um curto gole de café e mordendo meu sanduíche de queijo branco.
– Acho que vou arrumar um emprego no centro também.- Naruto fungou o nariz, esfregando os olhos sonolentos. Permaneci calada, tomando o último gole de café que restava; caminhando até a pia e depositando a xícara dentro da mesma.
– Vou me aprontar.- Com os assoalhos rangendo bem debaixo dos meus pés, direciono-me para o quarto, retirando a roupa sem medo de alguém me ver. Pego uma blusa do cantor pós-dubstep, James Blake, recostando ao meu corpo desnudo frente ao espelho. Visto-a sentindo-me agradável. Meus shorts jeans rasgado e para completar, o all star de cano alto vermelho que eu ainda guardava na mala. Fui ao banheiro, desembaraçando meus cabelos e desfazendo todos os nós que formaram-se pela madrugada. Minhas madeixas já estavam compridas; até a metade do ombro mais ou menos. O rosa estava começando a desbotar, misturando-se com um loiro quase branco. Deixo eles soltos, apenas fazendo uma fina trança com alguns fios de cabelo.
Quando ia sair do quarto, deparo-me com Naruto ainda com a cara sonolenta. Entrou sem dizer nada, retirando a blusa de pijama e trajando uma camisa simples branca. Enquanto isso, caminhei pelo corredor e afastei um pouco a porta do quarto de Tsunade. Ela ainda dormia, com um semblante sério, formando rugas por todo o seu rosto. Engraçado, até dormindo ela me dá medo.
Descendo até a sala que era bem espaçosa, toda em azul marinho e um verde escuro com quadros de bordas pardas, castanhas. Aberta, que só separava a cozinha da mesma por um balcão onde Tsunade provavelmente papeava com suas amigas bebendo muita cachaça. Pelos andares superiores, haviam várias estantes de livros. Todas abarrotadas com antiguidades que só de pensar minha bronquite, rinite e asma já atacavam tudo ao mesmo tempo.
– Ilíada, Sonho de Uma Noite de Verão, Crime e Castigo...- Deslizei meu dedo indicador pelos livros empoeirados naquela mini pedaço de biblioteca, quando Tsunade chega com uma manta que a cobria.
– Dom Quixote, Guerra e Paz, Viagem ao Centro da Terra... etc.- Continuou com uma voz meio fanhosa. Parecia resfriada.
– Gosta de Júlio Verne?- Perguntei, interessando-me.
– Eu leio de tudo.- Fungou o nariz, aproximando-se de mim com um sorriso gentil. A loira encostou delicadamente as mãos sobre os meus cabelos, entrelaçando a fina trança que fiz em seus dedos.- O que eu mais gosto em você é seu cabelo... Combina tanto.- Soltou umas risadinhas abafadas, quando Naruto apareceu ao pé da escada.- Hoje não irei ao colégio. Estou gripada...- Antes de se recolher, parou bruscamente passando Naruto e girando os calcanhares.- Vocês podem levar o carro se quiserem.- Naruto estava de costas á ela, sorrindo igual uma criança que acabou de ganhar um pirulito de chocolate. Eu suspirei, aceitando a oferta e então partimos para o colégio com a Ferrari da Tsunade.
Por poucos segundos, agradeci aos deuses por estar atrasada. Não queria sentir os olhares alvoroçados por eu estar com o carro da Tsunade; mas acho que os rumores já circulam a escola de eu ser sobrinha dela. Só que esse sentimento passou rápido como uma correria. A primeira aula era Química com o Orochimaru; e ele não supera atrasos.
Depois que me despeço de Naruto correndo, desço as escadas até o subsolo onde encontrava-se o laboratório de Orochimaru. Atravesso o comprido corredor onde, havia também, a grande sala de artes, um banheiro unissex e o salão de música. E graças as minhas pernas ágeis, que hoje com muita sorte não estavam cobertas inteiramente por jeans, consigo chegar a tempo sem o professor na sala e me sentar. 15s depois o mesmo já entrava na sala de aula com uma caixa de luvas de látex, daquelas descartáveis que se usa muito em hospitais.
– Bom dia, classe.- Tirou agilmente um par de luvas da caixa, as colocando.- Hoje vamos dissecar.- Retirou debaixo da mesa uma bandeja de metal, onde havia duas lulas mortas.
Cada par pegou duas bandejas. Eu estava com Hinata e pedi que ela me ajudasse com isso. Meu estômago não era muito forte para esse tipo de coisa e eu nunca havia feito nada do tipo. Sabe, eu não mato nem uma mosca.
– Não é tão difícil...- Hinata, com as duas mãos, me ajudou a fincar o bisturi na parte da lula que fora marcada.- É só cortar aqui...- Enunciou com sua voz neutra, fazendo pressão com suas mãos sobre a minha e finalizando a primeira parte.
– Obrigada Hina!- Agradeci a garota. Ela não era de falar muito mesmo; parecia sempre cabisbaixa no entanto, era incrível a áurea doce e singela que a rondava.
– Agora turma, ajudarei vocês a concluir esta parte.- Orochimaru, que havia desenhado a lula na lousa, aponta para uma espécie de “bolsa” que havia na lula. Voltei meus olhos para o pobre animalzinho e encontrei aquela parte.
– Ah, eu achei!- Disse toda feliz e orgulhosa de mim mesma.
– Espere que faremos isso jun- Nem metade da aula se passou e eu já fiz merda. Se alguém tivesse me avisado de que aquela “bolsa” era uma bolsa de tinta, eu não teria furado certeiramente com o bisturi. Aquela tinta voou no meu rosto, impedindo-me de enxergar. Permaneci de olhos fechados com medo de abri-los.
– Droga, isso sempre acontece.- Ouvi Orochimaru mais a frente e então umas risadinhas começaram a surgir.- Não abra os olhos. Sasuke, faça-me favor de levar a senhorita Haruno ao banheiro.- Franzi o cenho não gostando da idéia, no entanto tive que aceitar.
– Claro.- Foi tudo o que eu ouvi, antes de sentir as mãos quentes de Sasuke tocando as minhas. Levantei-me do banco, sendo guiada pelo moreno. E então saímos da sala, logo entrando no banheiro unissex que ficava no fim do corredor.
– Você pelo visto é daquelas que não escuta.- Ao entrarmos no banheiro, ouço um barulho de água escorrendo e Sasuke enunciando essas palavras. Confesso que me senti um pouco ofendida, no entanto, não poderia abrir a boca, senão aquela tinta nojenta invadiria minha boca. Aquela era infeccioso?- E que agora nem fala.- O barulho de água parou e o moreno soltou algumas gargalhadas baixas, tocando a minha pele com algo molhado. Uma pressão gelada sobre meus olhos e já me sinto confiante em abri-los, porém, continuei com eles fechados, sentindo o moreno limpar meu rosto com aquele pedaço de papel molhado que eu consegui captar. E então, minha pele parecia renovada novamente. Até sentir a mesma pressão gelada molhar meus lábios. O papel umedecido contornava minha boca, limpando-a. A entre abri, inspirando o ar pelos lábios e soltando pelas narinas. Senti as mãos de Sasuke no meu rosto, passando levemente os polegares em meus olhos.
– Pode abrir.- Assim o fiz; enxergando tudo ao meu redor meio embaçado. Apenas conseguia ver nitidamente os ônix de Sasuke e seus cabelos arrepiados. Pisquei freneticamente, encostando-me na parede e os esfregando.- Espere, ainda tem tinta no canto de seus lábios...- Não pude deixar de acanhar, ao sentir o corpo do moreno tão próximo ao meu. Ele segurou meu queixo, prensando o indicador contra meu lábios inferior. Meus orbes verdes subiram ao seus tão profundos, tão fúnebres e que pareciam velar segredos que fariam qualquer pessoa temer. E neste tenso momento, o sinal toca indicando o término da aula. Sasuke se afastou com seu olhar derriço, girando os calcanhares e permitindo que eu aprecia-se suas costas largas... quer dizer, sua jaqueta de couro. Uma jaqueta de couro muito interessante para falar a verdade. Com um pequeno e discreto símbolo desenhado na mesma e bem abaixo, o sobrenome: “Uchiha”. Deixando-me curiosa e perguntando a mim mesma: “Quem são os Uchihas?”
[...]
Fora a minha grande furada, literalmente, da primeira aula, nada mais desastroso aconteceu no decorrer do dia. Almocei sozinha, nos corredores da escola pois, não encontrei Naruto e Hinata desapareceu de minha vista. Conheci novos professores; Iruka, um adulto humilde e gentil, que lesionava Geografia; do qual eu não era muito fã, no entanto, acho que acabaria curtindo. Gai-sensei, que dava Educação Física. Não era uma corredora muito boa, nem boa em esportes, tirando queimada, claro. Fui campeã de queimada no primeiro ano. Lembro-me que ganhei uma medalha de ouro e no outro dia perdi ela. Depois de um tempo, ouve alguns problemas nos encanamentos de casa e descobrimos a minha medalha em um dos canos. Provavelmente deixei cair no vaso enquanto ia no banheiro, e nem percebi. Demos altas risadas aquele dia.
– Não se preocupe, mãe. Estou bem.- Conversava ao telefone com mamãe, enquanto esperava o ônibus no ponto, já que deixei o Naruto com o carro de Tsunade.- Certo, te amo. Beijos.- Encerro a chamada, fechando o celular e botando as mãos no casaco que eu havia colocado na mochila. Não havia ninguém no ponto. Era umas 19h mais ou menos e era possível ver o último resquício de luz, esconder-se envergonhado no horizonte. Então a rua tornou-se escura, com apenas os faróis dos carros que iam e vinham iluminando por poucos instantes a paisagem. Distraída, rondo os olhos pelo lugar, fixando-me na floresta do outro lado da rua. Quando de repente, rubis resplandecentes reluzem em meio as coníferas. Levantei-me num ímpeto, recordando da madrugada passada. Rugas formaram-se em meu rosto após o levantar; o bicho havia sumido como antes. Mordi o interior da bochecha, censurando um xingamento.
[...]
O ônibus me deixou um quarteirão antes do outlet; então, sem folga caminho a passos apressados. Chegando no lugar, fico uns minutos parada em frente a escadaria que dava acesso ao mesmo. Parecia bem freqüentado. Era todo decorado, com iluminações extravagantes e letras garrafais com o nome do outlet: Étapes à Roses.
– Francês. Fantástico.- Solto uma risada abafada, imaginando o tipo de belezura riquinha que trabalha ou que freqüenta esse lugar.
Adentrei aquele ambiente. Era cheiroso, tinha cheiro de flores igual ao nome mesmo. Algumas mulheres de saltos passavam por mim papeando pela saída. Meu expediente iria até as 22h. Ou seja, iria ter que correr para chegar em casa e não burlar o toque de recolher. Diabos, eles devem estar mesmo desesperados por um atendente noturno nesta loja, não?
– Olá?- Adentrei a loja na qual eu trabalharia, Bloom. As luzes estavam acessas, iluminando os calçados finos de todas as cores que você pode imaginar. Então subi as escadas que dava ao armazém da loja e nada. Estranhei, pulando para os corredores do outlet. As luzes estavam falhando, dando um ar mais medonho ao lugar. E acompanhado á uma corrente de ar, uma sensação estranha dominou o meu corpo. Continuei ao pé da loja, rondando meus olhos ao extenso e grosso corredor. Parecia um pressentimento; daqueles que eu tinha a todo o momento quando era criança. Apertei os lábios, trazendo-os para dentro e os molhando; olhando para meus próprios pés. Quando, uma sombra avultada é nítida no fim do corredor ao canto de meus olhos. Viro meu rosto e meu corpo estremece como nunca, criando um calafrio que percorreu desde a ponta do meus pés, sendo transportado pela espinha e chegando aos meus fios de cabelo arrepiados. Suas características era indescritíveis; do qual se eu caracteriza-se ninguém poderia acreditar. Um monstro. Uma criatura nunca vista pelos olhos, de acredito, ser humano algum. Pelos orbes redondos e negros de tubarão, refletia-se fúria e uma voracidade devoradora. Fiquei paralisada de medo após suas grandiosas asas serem abertas. Suas asas poderiam ser maiores que o próprio corpo; elas eram cobertas por uma fina camada de pele incolor, dando destaques e forte contraste aos ossos mórbidos. Pelo seu focinho bicudo entre aberto, era possível ver pequenos dentes, porém pareciam bem afiados. E no momento em que meus olhos subiram aos seus, os mesmos tornaram-se vermelhos e mais horripilantes ainda. Conclui que era aquela criatura pavorosa que me seguia desde a madrugada, até aquele ponto de ônibus. Seus orbes reluzentes fixaram-se em mim e um bramido ensurdecedor encobriu o lugar ao levantar de cabeça da criatura. Não pensei em outra escolha se não correr no momento em que aquele monstro balançou as asas, criando uma forte corrente de vento. Percorri os corredores ás pressas com os passos destruidores da criatura atrás de mim. O porta principal estava fechada e por mais que eu tentasse, ela não abria. Então me recostei amedrontada a mesma, encontrando aquele monstro prestes a me abocanhar. Fecho meus olhos desesperadamente, esperando seu ato final. Porém, uns curtos instantes se passam e nada ocorre. Ao voltar a olhar, reparo na criatura num estado inacreditável. Virara pedra simplesmente, com seu focinho bicudo aberto escancarado. Giro rapidamente os calcanhares deparando-me com uma mulher. Uma mulher de madeixas loiras presas num rabo de cavalo alto. Ela era esbelta e tinha um olhar feroz, como o da criatura. Tinha uma espécie de arma na mão, o que fez eu me afastar uns bons passos da mesma.
– É isso que eu ganho depois de um jantar estressante?- Bufou a loira, apertando uma mão na cintura.
* * *
Paranoia is in bloom
Muse – Trecho de Uprising
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