1

Seria possível uma pintura criar vida? Carlos descobrirá. E isso será sua ruína. Ele terminava sua mais nova criação, o retrato de uma mulher linda, ela tinha cabelos ruivos, olhos azuis tão claros quanto os mares do caribe, usava um vestido preto como a própria madrugada sem estrelas. Ela estava de costas, olhando para trás por cima dos ombros, sorrindo. Carlos ficou encantado por sua mais nova criação, sua Monalisa, sua obra prima. Por um minuto ele esqueceu que ela não era real, pelo menos, ainda não. Quando se lembrou disso, o sentimento de tristeza e decepção tomaram conta. Ele tinha se apaixonado por sua própria obra.

Ele nunca foi uma pessoa de muitos amigos, na verdade, não tinha nenhum. Carlos havia se apaixonado pela arte quando tinha sete anos, quando seus pais o levaram até o museu de arte, que mesmo não sendo grande o encantou com todos aqueles quadros. Desde então, ele dedicou sua vida a arte, não tinha tempo para ter amigos, ele sempre estava querendo melhorar. Quando seus pais morreram, ele herdou uma herança que mesmo sendo pequena, serviu para comprar uma cabana na floresta, que era tudo que ele queria, longe de tudo e todos.

Cansado e agora decepcionado, Carlos resolve ir dormir, não era noite mas ele havia ficado acordado por dois dias seguidos, terminando o futuro motivo de sua ruina. Ele volta para seu quarto e se deita, e dois minutos depois dorme. Tendo um pesadelo.

Nesse pesadelo, uma mulher com o rosto coberto por algo que parecia ser um véu de congregação preto o olhava sorrindo. Era sua pintura. Mas o que antes o fazia sentir amor, orgulho e um pouco de tristeza, agora trazia apenas um sentimento, medo.

— Tudo que você quiser. – Disse a mulher.

Após ela terminar de falar, Carlos nota que seu corpo começa aos poucos desaparecer e uma tremenda dor começa a passar por seus membros, como se estivessem sendo arrancados. A mulher vendo aquilo começa a rir, se divertindo com o sofrimento dele. Quando Carlos grita por socorro, ele acorda e ouve um barulho vindo de seu estúdio.

2

Ao escutar o barulho, Carlos corre para lá com medo de alguma coisa acontecer com sua pintura, e quando chega, se depara com uma imagem que a princípio não conseguiu acreditar. A tela que ficava sua obra estava branca como no dia que a comprara e ao seu lado estava uma mulher usando um vestido preto, sorrindo. Sua obra prima está viva!

—Oi– Disse ela

— Isso não pode ser real. – Falava ele com a respiração rápida, dando passos lentos para trás –Vo...você não é real, é apenas...

— Uma pintura. Bem, as coisas mudam. Eu sou real, e a propósito, meu nome é Eva.

Carlos aos poucos vai parando de andar e sua respiração volta ao normal, ele se senta no chão de madeira e coloca as mão na cabeça como se fosse arrancar os cabelos.

— Como é possível? Mais cedo, você Eva, não passava de uma pintura.

—Eu não sei e não me importo. Não está feliz por agora ter uma pessoa como eu, bem na sua frente.

— Eu não sei. Estou com medo, isso é impossível, será que é possível ou estou louco.

— Eu sou real. – Disse ela tocando o rosto de Carlos, que quase começa a chorar com aquele simples ato– Percebe, sou real. Não está feliz.

— Claro que sim, você é minha melhor criação, como não poderia estar.

— Nunca mais diga essa frase. –Diz ela com um tom de raiva na voz.

— Que frase? A que você é minha melhor obra.

— Isso mesmo, por favor nunca mais fale isso.

—Por que? – pergunta Carlos sentido o tom de raiva na voz de Eva.

— Apenas não fale mais isso. Não gosto de pensar que sou uma simples pintura, você me entende. Por favor não fale essa frase.

— Está bem. Quer que eu te mostre a casa? Mesmo sendo pequena, acho que você vai gostar.

—Claro. Por que não.

3

A casa dele era pequena, sua sala tinha apenas um sofá velho e uma estante que tinha livros e alguns cd’s do Pink Floyd– que era sua banda favorita. Um quarto que tinha uma cama casal e um banheiro, Uma cozinha com um fogão elétrico, geladeira e uma mesa para refeição. E seu lugar favorito, o estúdio, onde o fazia ter o poder da criação, com todos os seus equipamentos, desde telas e cavaletes até pinceis e palhetas.

Quando voltaram para o estúdio, Eva demonstrou uma cara de desgosto profundo. Mesmo tendo sido criada a partir de uma pintura ela não gostava de arte. Isso não fazia sentido na cabeça de Carlos, é como um filho odiar uma mãe carinhosa. Ele também mostra a floresta que rodeava sua casa. As arvores gigantes e a grama verde muitas vezes serviram-lhe de inspiração. O som... não havia, apenas o mais profundo silencio e ele adorava aquilo. Carlos amava aquele pequeno pedaço do Éden.

—Você gastou todo o dinheiro que seus pais deixaram com uma cabana no meio do mato, você é realmente um merda. – Murmura Eva

—Você falou alguma coisa?

— Não. Vamos voltar para dentro, parece que vai chover e eu não quero me molhar.

Carlos olha para cima e vê o céu tampado por nuvens escuras e depois volta a olhar para Eva, sorrindo.

— Não quer brincar na chuva?

— Talvez outro dia.

— Que pena.

— Não se preocupe, nesse dia vai ser apenas nós, brincando, pelados na chuva. Tenho certeza que você aguenta esperar. – Falou Eva rindo ao mesmo tempo que passava pela porta.

Carlos fica alguns minutos de fora, pensando em como é possível algo que antes era apenas tinta estar andado, falando e respirando como um humano. Era possível aquilo ser real, ou era apenas uma criação de sua mente que queria muito que ela fosse de verdade. Ele não sabia e não ligava, o importante era que Eva, sendo ilusão ou não, estava com ele.

4

Eva pensava de frente para o espelho do banheiro. Ela sabia que não podia voltar atrás, aquela seria a noite, tudo já havia sido feito. Ele estava cego, e tudo que precisava fazer agora era esperar toda a magia acontecer. Ela sorri para o espelho e sussurra:

—Finalmente ficarei livre desse Idiota.

Ela começa a tirar o vestido preto, exibindo sua lingerie da mesma cor, naquela noite Eva iria dormir cedo.

5

Mais uma vez quando Carlos foi dormir ele teve um pesadelo. Ele estava na floresta, era noite e as arvores tampavam o céu. Eva estava a sua frente, sorrindo como na última vez, o vestido que ela usava se misturava ao cenário escuro de uma maneira que parecia que os dois eram apenas um.

—Carlos acorde e me dê o que mereço – Fala Eva– Minha recompensa.

Sentindo um pouco de medo da resposta que receberia Carlos pergunta:

—Que recompensa? Não lembro de ter pedido nada.

—Eu sou seu pedido. Lembra o que você mais desejou, que “sua” melhor obra criasse vida, então, aconteceu. Mas todo desejo tem uma consequência.

—Você ainda não me respondeu! Que consequência é essa Eva!

— É claro que é sua vida.

Antes de poder falar qualquer coisa, ele acorda tossindo e quando coloca a mão em sua boca percebe que de lá sai sangue. Carlos corre até a privada e vomita, sangue misturado com restos comida saem. Eva que dormia ao seu lado acorda, e percebe que a hora chegara, ela também vai até o banheiro, e sorri ao ver Carlos vomitando.

—Vejo que está acontecendo. – Diz ela, sorrindo.

—Por que o sorriso na sua cara? O que é tão engraçado? – voltando a vomitar em seguida.

— O próprio fato de você não saber o que está acontecendo. – Diz Eva, ao mesmo tempo em que ia para o estúdio.

—Espera! Eva! Espera!

Carlos tenta seguir Eva mas suas pernas perdem a força, ele começa se arrastar até o estúdio. O único barulho que dava para escutar era a risada da Eva, que depois de poucos minutos volta a falar:

—O que mais me diverte, é saber que você ainda acha que eu sou sua obra. Isso me diverte e ao mesmo tempo irrita. Eu, uma pessoa tão bonita, criada por uma pessoa patética como você, alguém tão desprezível, que se sente especial ao ponto de gastar toda a herança de seus pais comprando uma casa no meio do nada apenas para poder fazer “sua” arte em paz.

— Como você sabe sobre isso? eu não te contei nada. – Pergunta Carlos quando chega ao estúdio.

—Eu sempre estive com você, por isso eu sei sobre tudo! Sei que você não tem amigos por sempre ter se dedicado a pintura. Achava que amigos iriam apenas atrapalhar.

—Quem é você?

—Você ainda não sabe? Carlos, você realmente é um grande estupido. Eu sou aquilo que todo artista tem. Eu sou a musa. Aquela que traz a inspiração. Como você acha que me “criou”?

— Eu não sei, eu apenas acordei uma noite e comecei a pintar. Você apenas surgiu.

— Vamos dizer, que você é o pincel. Mas eu sou a artista.

— Como assim? – perguntou Carlos, que tenta se levantar mas não consegue, ele estava muito fraco.

— A musa é aquela que traz a inspiração. Eu sou minha criadora. Entendeu, você apenas acordou naquela noite e começou pintar porque eu te inspirei! Tudo que um dia você já criou foi porque eu te trouxe inspiração. Entende agora? Por falar nisso, você já olhou para suas pernas?

Carlos então observa suas pernas e se assusta com a visão. Elas estavam desparecendo, como se estivessem sendo apagadas por uma borracha, mas o pior vem depois. Uma dor enorme, como a de seu pesadelo, à medida que seus membros desapareciam a dor ficava maior.

—Por favor! me ajude Eva! Me ajude! Pelo amor de Deus!

— Minha nossa... cala essa boca–disse Eva, com um sorriso de vitória em seu rosto– Mesmo se eu quisesse te ajudar não teria como, já foi feito. A única coisa que você pode fazer é tornar tudo menos humilhante. De maneira mais simples, cala a boca!

Eva se aproxima de Carlos. Mais da metade de seu corpo já tinha desaparecido, apenas seu pescoço e cabeça sobravam, era como se eles tivessem sido decepados. Ela se excita vendo aquela cena. Então começa a chutar a cabeça dele, rindo como uma louca. Lagrimas começam a escorrer pelo rosto de Carlos, é claro, a única mulher que ele amou, mesmo por apenas um dia, o odiava tanto quanto Hitler odiava os judeus. As dores ficavam pior, e quando Carlos desapareceu por completo, Eva olhou para o quadro falando:

— O que mais me diverte é saber que esse é apenas o começo de seu sofrimento. Ainda vai ficar muito pior. Pelo menos você agora é o que mais gosta, uma pintura.

Carlos agora estava no lugar que antes pertencia a Eva. Ele era uma pintura de um homem se contorcendo de dor, gritando, mesmo no fundo sabendo que ninguém podia ouvir. Traído pela única mulher que ele amou. Eva joga um pano velho em cima da nova casa de Carlos e volta para a cama. Naquela noite ela teve doces sonhos, porque não teria, agora ela tinha uma vida. Antes uma musa da mitologia, agora uma mulher de carne e osso. Mesmo aquele sendo o primeiro dia sua vida, foi glorioso. E assim aconteceu a ruina de Carlos, um pintor que se apaixonou por sua obra e desejou que ela fosse real, e no final seu desejo foi realizado, mesmo que com um enorme preço.

Fim

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