Muro Soturno
1 Dentro dos muros
Nunca pensei que chegaria a um estágio da minha vida em que estaria sozinho. Hoje, aos 25 anos, não tenho ninguém ao meu lado e tudo por minha opção. Em mais uma noite fria de julho, sentado em uma cadeira atrás de uma pilastra de um barzinho qualquer em uma avenida movimentada, tomo meu terceiro copo de cerveja. Apesar do horrível gosto da bebida, após o terceiro já nem sinto mais aquele gosto amargo na minha boca. Observo cada pessoa entrar, nunca sozinhas, sempre acompanhadas de duas ou mais pessoas. Finjo para eu mesmo que nem me importo com isso, mas não adianta, lá no fundo o vazio dói e me arrependo de durante anos não ter me importado se estava ou não sozinho. O tempo passa para todos, é algo que não posso mudar, muito menos prever como será o futuro, e nada mais tem graça para mim, não mais como antes. Pago 100, 200 reais para comer uma prostituta qualquer e apenas gasto dinheiro, pois aquela diversão já não existe mais. Escutar os gemidos das putas e xingá-las já não me diverte mais; transo apenas por transar. Os meus beques de cada dia foram deixados de lado, a brisa de sete por dia já não trazia o resultado de antes. Na minha carteira, um pequeno sache com maconha está intocado há mais de três dias e isso é mais do que eu já consegui ficar desde meus 15 anos. Eu não poderia prever meu futuro, nunca imaginaria que estaria sozinho com essa idade, meus pais separados moram em bairros diferentes, eu em uma pequena casa de aluguel no centro da cidade.
— Tem isqueiro? — Uma voz rouca de mulher interrompeu minhas divagações.
Tirei o pequeno objeto da minha jaqueta de couro e entreguei à bela loira, que muito me parecia familiar. Há mais ou menos dois meses havia entrado em uma casa de prostituição e pagado para duas gêmeas loiras por 3 horas.
— Obrigado. — Respondeu sorrindo e dando uma tragada no cigarro preto.
Fumar em local fechado? Esse era um bar um tanto incomum, por isso gostava dele. Abri a boca para dizer uma besteira qualquer, mas ela já havia desaparecido e se entrelaçado com um cara de 2 metros de altura. Mais uma vez tive a certeza que passaria o resto da minha vida sozinho e isso é meu maior medo. Mas como disse antes, não posso prever o futuro.
As mudanças talvez sejam necessárias, para começo de conversa. Retirei o sachê com a maconha e deixei sobre o balcão em cima do pagamento da cerveja. Sai do bar e tomei uma rota diferente, como já havia feito algumas vezes e na última vez que fiz isso quase injetei heroína na minha veia, mas um mendigo, que estava arrumando suas tralhas para dormir, conversou comigo e me convenceu a jogar a seringa fora. Quem sabe eu encontre alguém parecido com ele para uma conversa, porque é isso que eu mais preciso no momento.
O barulho dos poucos carros me acompanhava durante minha jornada pelas ruas iluminadas com a fraca luz laranja dos postes. Acendi um cigarro e dei uma, duas, três tragadas até minha ansiedade amenizar um pouco. Apesar de ter praticamente largado a maconha, ainda tenho a necessidade do meu cigarro, o engraçado é que de uns tempos para cá comecei a comprar esse com sabor de canela e eu simplesmente odeio.
Próximo do fim do cigarro, soprei a fumaça em direção a luz do poste e fiquei parado vendo ela se dissipar no ar frio da noite, lembrei de todas as pessoas que passaram por minha vida e que eu acreditava que ficariam do meu lado por muito tempo. Mas fui muito machucado por elas, demorei para me desapegar e crescer um pouco. Entenda que de tanto ser machucado, eu descobri um certo “Mimetismo Empático” dentro de mim. Sim, eu meio que aprendi a machucar as pessoas que me machucaram uma vez. E sabe, senti um certo prazer ao fazer isso. Fui considerado um monstro por muitos, mas eles nem ao menos sabiam dos motivos e me julgavam pelas atitudes. Atitudes essas das quais não me arrependo.
É até estranho alguém com minha idade ficar pensando sobre essas coisas, mas não consigo simplesmente esquecer do que aconteceu há anos atrás. Bola pra frente era o que eu deveria fazer, eu faço, mas nesses momentos eu simplesmente acabo lembrando do que aconteceu há anos atrás e o que me tornou o que sou hoje, esse homem sozinho, frio e amargurado.
Eu mudei, e isso é claro. Deve ter sido com meus 16 anos, após algumas decepções, que eu li algo que lembro até hoje: “A imaginação fez com que ele se tornasse um grande cavaleiro que enfrentou criaturas mitológicas, voou em cima de um dragão, resgatou a princesa de um calabouço, salvou uma cidade inteira das mãos dos guerreiros das trevas, viajou pelos sete mares ao lado dos maiores piratas, rasgou os céus com sua espada e destruiu estrelas. Crescendo, a realidade desgastou sua armadura e no primeiro vento da decepção, ele foi derrotado”. Todo dia eu relia até que consegui decorar. E foi com essas palavras que eu mudei, larguei tudo para trás e me tornei o que sou hoje. Não sei se sou depressivo, acho que estou longe de ser isso. Mas por meio das minhas reflexões sinto que estou próximo de ser considerado assim.
Como é estranho não ver tantas estrelas como via alguns anos. Elas estão se apagando, constelações estão sumindo e algumas ficam sozinhas na escuridão. Sinto como se eu fosse uma estrela que aos poucos foi ficando sozinha e que um dia também irá se apagar.
Olhei para o relógio e era como se o tempo tivesse parado. Nem percebi, mas continuei a caminhada e não fazia ideia de onde estou. É uma rua totalmente típica de um subúrbio, casas baixas e feias. Os muros pichados com ofensas ao governo e desenhos totalmente aleatórios de caricaturas. Uma caçamba cheia de lixo que se movimenta com prováveis ratos e ratazanas. Cruzo a rua toda com aquele cheiro estranho de mijo e coisa apodrecendo. Foram várias as vezes que olhei para trás e para os lados, tive a sensação de que não estava sozinho na rua. Acelerei o passo e novamente olhei para o relógio em meu pulso, e de novo senti como se a hora não passasse. Resisti em tirar o celular do meu bolso, pois a sensação de estar sendo seguido continuava a me incomodar, apesar de olhar repetidas vezes para trás e não ver ninguém.
Ao virar a esquina, senti algo estranho e vomitei ali na calçada. Tentei afastar o corpo para não me sujar. Senti gosto de metal em minha boca, passei as costas das mãos para limpar meu queixo e com a fraca iluminação vi um rastro vermelho nela. Sangue.
Entrei em desespero. Olhei para o chão e não vi um simples vômito, não vi resquícios de comida. Usei a luz da tela do celular e o pouco que consegui enxergar foi o vermelho que inundou a guia da calçada. Isso nunca havia acontecido antes. Tentei me recompor, mas pareceu que minha cabeça estava prestes a explodir.
Consegui dar um passo. Dois. Três. E no quarto já estava correndo e um zumbido entrou em meus ouvidos. Virei outra esquina e o mais estranho aconteceu: voltei para o início da rua da caçamba. Pelo o que lembro, essa não era a entrada dela. Virei para voltar e dei de cara para um muro alto. Uma rua sem saída? Mas o que está acontecendo?
Olhei ao redor e todas as saídas da rua estavam fechadas pelo mesmo muro.
— Alguém me ajuda? – Gritei. Mas as casas permanecerem do mesmo jeito, ninguém se atreveu aparecer nas janelas e nem acenderam uma luz se quer.
A sensação de ser observado voltou e era como se os muros se aproximassem cada vez mais. Fechei e apertei bem os olhos, quando abri vi que não sai do lugar. Eu não estava sonhando.
As lâmpadas dos postes se apagaram. A pouca iluminação de algumas casas já não existia mais. A luz do luar sumiu junto com as poucas estrelas do céu poluído da cidade.
Meu campo de visão ficou limitado com o que já estava acostumado. Fui até uma das paredes do muro e toquei. Sua superfície era quente e parecia não ser totalmente sólida, forcei então a mão, mas ela foi repelida e senti um choque perpassando por todo meu corpo.
Fiquei paralisado por um tempo. E quando tentei mover o braço esquerdo, para meu espanto, o que se moveu foi meu joelho. Mandei comando para o movimento das pernas, mas o que se moveram foram meu ombro e pé direitos. Os sinais elétricos do meu sistema nervoso foram cortados e perturbou toda a minha movimentação. Lembro que estudei isso nos primeiros semestres da faculdade de Biomedicina, mas faz tanto tempo que nem me recordo direito.
Demorei um pouco para compreender como funcionava os novos movimentos, mas ainda errava um pouco pela falta de costume. Andei meio desengonçado batendo nas portas das casas e gritando, mas não obtive respostas. Tentei abrir algumas portas e janelas, algumas quase arrombei, mas estavam tão duras quanto concreto. Evitei tocar no muro com medo de levar outro choque.
Então meu maior medo se tornou realidade, eu enfim estava sozinho e sem ninguém. Depois de tanto tempo, não havia mais ninguém ao meu lado, nem colegas, conhecidos, desconhecidos.
Sentei e senti uma imensa vontade de chorar. Na verdade até alguns anos atrás eu era muito chorão, qualquer coisa que mexia com minha emoção fazia meus olhos se encherem de lágrimas. Soltei um longo suspiro e lembrei do celular, quando fui pegá-lo no bolso senti que havia um pacotinho dentro dele. Era um sache com um pó branco. Não tinha cocaína em meu bolso antes e disso eu tinha certeza. Peguei o celular, mas ele não ligava.
Joguei então o pó na calçada, ajoelhei e aspirei como já havia feito uma vez com um desconhecido em uma boate. Senti um arrepio percorrer por todo meu corpo e continuei aspirando. Meu coração acelerou e senti vontade de quebrar tudo ao meu redor. Levantei de um pulo, peguei distância e corri em direção ao grande muro negro. Dei um grande salto e chutei, mas novamente fui repelido e cai com grande impacto no chão. O choque voltou e com menos impacto que antes.
Uma sombra negra ficou a cima da minha cabeça e em um baque caiu sobre mim. Tudo escureceu. Meus olhos continuavam abertos, mas não enxergava nada; tinha total controle sobre os dedos, mas não conseguia mover os membros. Minha cabeça estava prestes a explodir e senti mil agulhas sendo cravadas em meu crânio, fazendo-me lembrar de todas as tristezas vividas durante meus 25 anos.
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