Murilo beija garotos
13 XIII
MURILO
“Acho que deveria te agradecer pelos 'eu te odeio' e as tatuagens. Ah querido, fique sabendo, eu estou de boa, eu nem sei se realmente te amava, vá em frente, querido, eu vou viver minha vida. Um salve para o meu ex-namorado que é um machão não é mesmo? Você partiu o meu coração e isso me tornou em quem eu sou. Essa vai para o meu ex, ei, olhe para minha agora, bem, eu estou aqui no topo e eu juro que você nunca, nunca vai me derrubar. Eu apaguei todas as suas fotos e aí, bloqueei seu número do meu telefone. Sim, você pegou tudo o que conseguiu, mas você não vai mais pegar o meu amor, pois agora estou vivendo a vida ao máximo, mesmo que você tenha partido meu coração ao meio, querido, mas eu superei rápido, estou nova em folha, e sabe garoto, leia meus lábios, eu te superei.”
Ele caminhou pelo quarto, estava entediado. Fazia pouco tempo que o outro tinha saído, porém ele já se sentia sozinho. Resolveu sair, poderia tomar um ar, quem sabe um sol, estava mesmo precisando de vitamina d. Então sentou na varanda do quarto do amigo em que esteve hospedado nos últimos dias. Era um dia quente e ensolarado, típico de uma manhã de dezembro, o sol da manhã não era tão forte, então aproveitou para ficar ali sozinho por um tempo. O seu amigo tinha saído com o pai para resolver coisas da empresa, e até o chamou para ir com eles, porém ele achou que era mil vezes melhor ficar em casa. Não estava a fim de ficar numa empresa seguindo o outro a todos os lugares que o mesmo fosse, e como não entendia sobre nada de arquitetura e urbanismo, não seria de grande ajuda. Porém ele não queria ficar junto à mãe do outro naquela casa. Esteve tentando evitar a mulher ao máximo que podia desde o episódio em que ela pediu, sugeriu e insinuou, ou melhor, quase ordenou para que ele manipulasse o namorado. “Que estranho pensar assim. Estamos fingindo isso, porém será que no fim de tudo seremos namorados?” Ele se perguntou e riu sozinho.
Na noite passada Tomaz havia lhe dado à senha do wifi do seu quarto. “Chitãozinho e Xororó”! Essa era a senha mais bizarra que ele já tinha visto na vida inteira, mas não ligou muito para isso, quando foi isso que tinha facilitado a sua vida. Não precisa mais ficar se matando para usar a conexão 4G. Que não estava tão boa nos últimos dias.
Ele se deitou numa grande poltrona confortável e conectou-se ao facebook. Várias mensagens, algumas ainda do ex-namorado, ele não se deu o trabalho de ler. Não queria ler aquelas declarações de amor, sendo que seu príncipe encantado havia virado um sapo nos últimos minutos do primeiro tempo. Então apagou a conversa e não se sentiu culpado, talvez um pouco. Fez uma carinha triste, mas logo mudou suas feições quando a bolinha do Messenger subiu na tela do celular.
“Oi, meu amor. Cadê as fotos da viagem? Estamos todos esperando!” Era sua mãe. A mulher subia na foto redonda do aplicativo.
Era só o que faltava. O garoto tinha esquecendo-se desse detalhe. Sua família iria querer fotos, e diferente da família de Tomaz, os seus pais conheciam bem o Daniel. Mordeu a língua, precisa ser rápido na desculpa. Pensou e pensou.
“Eu não tirei fotos ainda, estou aproveitando cada segundo, mas prometo que vou tirar algumas e postar, assim vocês veem.” Ele enviou, não era uma mentira. Esteve mesmo se divertindo, nem pensou em fotos.
“Está tudo bem com você?” A mulher enviou e continuou digitando. “Sua avó insiste em dizer que tem algo errado toda vez que joga os búzios.”
“Está sim, mãe! Estou me divertindo muito aqui!” Ele enviou.
“O que está fazendo agora?” Ela perguntou e mandou um emoji curioso.
“Estou esperando o mor, voltar. Ele saiu com o pai para resolver umas coisas!” Ele enviou tomando cuidado de não dizer nomes.
“Entendi, e o que vocês têm preparado para hoje?” Perguntou a mãe.
Ele odiava toda essa curiosidade de sua madrasta. Então só suspirou e começou a digitar.
“Eu acho que vamos sair ir ao parque com uns amigos dele. Nada demais, está todo mundo bem por aí?”
— Ei, cheguei, cadê você? — Ele ouviu a voz de Tomaz o chamar.
Sentou-se rapidamente sobre a poltrona e digitou com pressa. Sentiu o coração palpitar mais forte, odiava aquela sensação, ou adorava.
“Mãe, ele chegou. Eu preciso ir falamos mais tarde, beijão.”
— Estou aqui fora! — Ele respondeu levantando e caminhando de volta para dentro do quarto. Chocou o corpo no corpo forte e sem camiseta que começava a sair do quarto. Riu e sentiu os braços fortes do outro lhe segurar. — Não achei que fosse voltar tão rápido.
— Eu também não, mas acho que meu pai ficou irritado porque eu não consegui fazer o que ele queria então... Me mandou de volta pra casa dele. — Tomaz falou rindo e tocando o rosto de Murilo.
— Eu acho isso ótimo! — Ele disse sincero, então se arrependeu. — Quer dizer, não que eu ligue muito...
O outro o calou com um beijo carinhoso nos lábios. Eles sorriram e se encararam depois do contato.
— E então que você quer fazer hoje? — Tomaz perguntou baixinho.
Murilo tocou os lábios do outro com as pontas dos dedos e sorriu bobo.
— Não sei o que você sugere? — Ele perguntou sorrindo de orelha a orelha. A cada dia que ficava ao lado do outro, sentia-se mais intimo. Estava adorando isso.
— Acho melhor você esc... — O outro começou a falar, porém foi interrompido pela mãe que entrou como um furacão no quarto.
“Que sem educação, parece que dinheiro deixa as pessoas ainda mais estúpidas!” Ele pensou encarando a mulher.
Estava bonita como sempre. O vestido longo era num estilo mais fresco, uma roupa que se poderia usar na praia sem problema algum, porém totalmente elegante, custaria provavelmente o triplo da sua mesada mais três. Ele não ia com a cara dela, mas precisava admitir que ela era realmente bonita e elegante.
— Eu preciso que faça algo pra mim, meu amor! — Ela disse sorrindo de uma forma até muito simpática. Se Murilo não já a conhecesse até acreditaria que a mãe simpática do primeiro dia havia voltado. — Preciso ir ao shopping, mas não quero ir sozinha, acho que vocês podem me acompanhar, tudo bem pra vocês?
“Ela está mesmo dando uma opção?” Ele suspirou, já tinha a resposta “O que? Não! Sair com você não!” Pensou querendo morrer, mas com um sorriso sem graça no rosto. Olhou rápido para Tomaz. Aquela situação estava ficando cada vez pior. Estava óbvio que aquela mulher não gostava dele. E estava ainda mais óbvio que ele a odiava. A mulher simpática que ela tinha sido nas primeiras horas que passaram juntos deveria ter ido para as montanhas e deixado essa megera no local.
— Eu não aceito não como resposta! — Ela disse já saindo do quarto. — Espero vocês dois lá embaixo, não demorem.
Ela bateu a porta quando saiu e Murilo sentou-se na cama. Não queria sair com aquela mulher. Ele sorriu para Tomaz para disfarçar.
— Não fica assim, vai ser divertido! — Ele falou tocando em sua cabeça e fazendo um leve cafuné. — Pode até parecer que não, mas vai ser.
— É... — Foi tudo que ele disse.
Os dois desceram as escadas, e ele não estava nada contente. Não iria conseguir manter a farsa por muito tempo. Respirou fundo e chegou à sala grande, a mulher não estava lá. Ele olhou para os lados.
— Mãe? — Gritou Tomaz com sua voz forte e sentou-se no sofá.
— Aqui fora, no jardim! — Ela gritou de volta.
Murilo se deu conta do quanto estava odiando aquela mulher. Até a voz dela o irritava. Talvez estivesse sendo infantil, talvez estivesse bancando o bobo com raiva dela, mas não conseguia controlar. Ele viu o outro levantar e caminhar pra fora, ele o seguiu.
— Mãe o que você está fazendo aí? A senhora não queria ir ao shopping? — Tomaz perguntou começando a se irritar.
Ele caminhou para o jardim e Murilo o seguiu. “Ela deve estar ficando louca.” Ele pensou segurando o riso. No fundo estava aliviado, se ela estava ali de joelhos no chão cuidando das rosas é porque tinha desistido de sair.
— Eu resolvi cuidar das minhas rosas antes, até porque elas estão horríveis, você não acha Rafael? — Perguntou a mulher.
— Eu as acho bonitas, dona Marta! — Ele respondeu de forma sincera, não entendia nada sobre rosas, sobre plantas. Ela só queria o constranger provavelmente. Ele sorriu.
Ela ficou o fitando. Ele encarou sorrindo.
— Eu não vou mais ao shopping. — Ele mudou o assunto. — Mas vocês podem sair se quiser, eu vi que vestiram outras roupas, você está... — Ele o fitou de cima a baixo. — Bonito Rafael! Muito bonito.
“Vaca, Vacona!” Pensou ele sorrindo. “Que vontade de poder meter a mão na sua cara!” Ele sempre odiou chamar alguém de vaca, era um desrespeito para ele que sempre defendeu o feminismo, mas essa mulher passava dos limites sempre. Ele sabia que não estava nada bonito, e ela sabia que ele sabia. Ele sorriu de novo. Estava com uma roupa básica e baratinha que comprou na C&A. Para aquela mulher rica essas roupas não serviam nem para secar seu sanitário.
Tomaz pareceu perceber o desconforto e pigarreou antes de começar a falar.
— Sim, nós vamos sair! Eu vou levar o Rafael pra dar uma volta! — Ele disse segurando a mão de Murilo que não reclamou.
Os dois saíram caminhando devagar para a garagem, o sol já incomodava. Murilo podia sentir sua pele queimar.
— Eu estou assim, tão horrível? — Ele perguntou quando chegaram ao carro. Ele se encostou ao capô. — É que sua mãe falou de uma forma como se eu estivesse totalmente mal vestido.
— É claro que não. Você está lindo. A minha mãe só... — Ele pausou, parecia pensar na melhor resposta. — Ela só tem mania de grandeza e sempre costumou classificar as pessoas pelo que elas vestem.
— Então eu estou na classe inferior só porque visto roupa de marca popular? — Ele disse. — É assim que vocês ricos costumam chamar, não é?
Ele estava a ponto de gritar. Como poderia mesmo ter pensado que poderia fazer parte daquela família? Sentiu vontade de bufar. Não iria chorar.
— Ei, ei, eu não tenho nada a ver com isso. Eu sequer ligo para o que a minha mãe fala. Ela sempre implicou com meus amigos, mas eu não ligo. Eu estou foda-se pra isso. Eu sei as pessoas maravilhosas que eles são, ou que você é! E não é a porra de uma roupa que diz isso. — Tomaz falou caminhando até ele e tocando seu rosto.
Ele continuou sério e tentou evitar o olhar do garoto mais alto. Porém Tomaz segurou em seu queixo e o fez olhar pra cima.
— Me dá um sorriso, dá? — Pediu sorrindo o outro.
Murilo sorriu, contra a vontade. Mas sorriu.
— Então vamos, né? Aonde você vai me levar? — Ele perguntou tentando mudar o foco daquela conversa chata.
— É segredo, mas você vai gostar. — Disse o outro. Eles riram e entraram no carro. A viagem foi longa e Murilo já estava começando a se sentir entediado quando eles chegaram.
— Você me trouxe a um parque de diversões? — Ele perguntou rindo.
— É! Gostou? — Respondeu o outro sorrindo.
— Eu adorei. É simplesmente fantástico. — Ele falou olhando o grande parque em que estavam. Não sabia onde era, porém não se importava com isso. Ele só queria aproveitar. Adorava coisas de criança. — Então vamos?
— É vamos sim! — Tomaz disse sorrindo. E segurou a mão do amigo. Eles se olharam.
Entraram no parque. Havia uma música alta que Murilo logo reconheceu, era a música que estava tocando sempre no reapet em sua playlist. Shout Out To My Ex das Little Mix. Ele adorava aquela música, sorriu e caminhou pelo parque. O lugar era grande e várias pessoas se divertiam e gritavam nos brinquedos. Ele olhou para o amigo ao seu lado e sorriu. Eles iriam se divertir, sabia que iria se divertir. Estava ao lado dele. Tudo ficava melhor ali.
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