TOMAZ
“Não vai vir? Como assim não vai vir? Eu estou aqui na droga da rodoviária te esperando!”
Envia o garoto como resposta para a mensagem anterior do namorado. Ficou aguardando a resposta do namorado. Mas ela não vinha. O garoto passou a mão pelos cabelos lisos e os retirou do rosto. Estava começando a ficar vermelho. Não era possível que o namorado tivesse feito àquela brincadeira estúpida. – Você não vai responder minha mensagem, Rafael? – Ele enviou novamente pelo whatsapp, mais uma vez sem resposta. Ele estava mesmo puto agora, saiu da plataforma e empurrou um cara que estava passando com uma mala.
— Ei, olha por onde anda! — Diz o rapaz com a mala gigante.
— Ah vai tomar no cu, você vive em São Paulo. Aqui todo mundo esbarra em todo mundo, seu babaca. — O garoto diz realmente bravo. Estava espantado consigo mesmo, nunca foi de tratar as pessoas de forma rude.
O garoto pressiona o botão de áudio enquanto senta num banco próximo.
— Estou falando sério, Rafael. Eu não quero receber mensagens suas nunca mais na minha vida. Acabou pra mim, eu nunca vou perdoar essa mancada, falou? Você foi muito babaca, muito babaca mesmo. Estou te bloqueando aproveite sua vida aproveite bem o motivo que te impediu de vir até mim. — Ele diz bravo e solta o botão como se sua vida dependesse daquilo. Deixa a mensagem enviar e logo que a mesma envia ele bloqueia o ex-namorado.
Estava quase jogando o celular no bolso quando viu uma mensagem de um número desconhecido chegar. Será que é o Rafael?
Ele abre a mensagem.
— Oi se lembra de mim? Pode falar agora? Preciso de uma ajudinha.— Diz o texto da mensagem do desconhecido. Ele lê e rele, não faz sentindo algum pra ele, então digita rapidamente — Não me recordo, quem é?— Envia a resposta logo depois da outra ter chegado. Ele abre a foto do desconhecido. É bonito, pensa Tomaz. Mas não faço ideia de quem seja. O garoto que Tomaz vê na foto é um garoto magro com cabelos cacheados e tratados, o sorriso é o que mais chama a atenção, os dentes branquinhos e um sorriso que demonstra felicidade plena. A pele cor de caramelo queimado deixava o garoto com uma presença diferente. Ele logo volta para a conversa quando sente o celular vibrar. – Eu sou o Murilo, aquele carinha com que você trocou os livros das desventuras em série pela coleção do Dan Brown. Estou precisando de um grande favor. Estou aqui em São Paulo e preciso de ajuda, estou sozinho e precisando de um lugar pra ficar, será que tem como me ajudar? Pelo menos por hoje, não sei a quem recorrer, eu sei que apenas trocamos livros, mas você é o que tenho de mais perto de um conhecido. – Ele não sabe o que responder. Lembrava-se do moleque, tinha sido simpático na troca dos livros e tinha até lhe dado um livro bônus, mas não sabia se era certo se encontrar com um estranho. Espera, pensa ele. Eu estava indo conhecer um estranho que me deixou na mão, então foda-se.— Você está onde? – Ele envia a mensagem.
Tomaz esta sentado em um banco na rodoviária e levanta-se iria precisar pegar o carro para ir buscar o menino onde quer que o mesmo estivesse.
Então a mensagem chega. – estou na rodoviária do tietê. – O garoto ri enquanto lê a mensagem, aquilo só poderia ser um trote do namorado. Era isso. Ele estava brincando a cara dele. Não, não é não, pois o Rafael não sabia dessa troca de livros. Sente vontade de chorar novamente e respira fundo. – Estou aqui no terminal também, me diz onde você está e eu vou te buscar e damos um jeito na sua situação. – Ele envia a nova mensagem. – Na entrada do metrô, linha azul o nome. – O garoto havia enviado sua resposta.
Tomaz caminha devagar até onde o garoto disse que estaria não esta com pressa alguma de conhecer esse estranho. O que ele faria? Levaria o garoto pra casa? Ele caminha mais devagar, mas não esta muito longe da entrada do metrô. Então logo chega ao portão de entrada, esta procurando o moleque. Onde está? Pensa ele, até que vê um moleque sentado no chão abraçado a uma grande mochila.
Lá foi Tomaz.
— Ei, oi. Murilo? — Pergunta Tomaz para o desconhecido.
O desconhecido levanta a cabeça e os dois se encaram, Tomaz toma um choque. Pessoalmente o moleque se parece bastante com Rafael. É um pouco mais claro, porém ainda assim os dois se parecem. Os mesmos olhos grandes. A boca bem desenhada.
— Você é Tomaz? — Pergunta o menino no chão fazendo esforço para se levantar.
— Aqui! — Diz Tomaz esticando a mão. Os garotos seguram a mão um do outro, e Tomaz puxa o menino magro ajudando o mesmo a se levantar. Ele não consegue não encarar o garoto nos olhos. A semelhança com seu ex-namorado era realmente muito grande. Resolve então parar de pensar nisso. — O que fazia aí sentado nesse chão sujo?
— Apenas chorando. — Murilo responde, e Tomaz percebe que o garoto esta falando a verdade. Os olhos estão vermelhos.
— Que tal a gente ir tomar um café e você me conta o que aconteceu? — Ele sugere, quer conhecer o garoto um pouco mais antes de leva-lo para sua casa. Mesmo que o garoto fosse ficar só por uma noite ele precisava conhecê-lo melhor.
O Murilo apenas balançou a cabeça.
— Então vamos para o estacionamento. Eu deixei meu carro lá. — Ele diz olhando o garoto. — E deixa que eu leve a sua mochila, ela está parecendo pesada.
— Não precisa, mesmo, é sério. Eu consigo carrega-la. — Responde Murilo.
Tomaz não dá ouvido para o que o garoto diz e puxa a mochila dele jogando no braço esquerdo.
— Vem é por aqui. — Ele diz começando a caminhar.
Percebe que Murilo esta caminhando ao lado dele, mas o garoto está calado, talvez constrangido pensando no momento em que tivesse que contar porque estava naquele chão sozinho. Tomaz não conhecia o garoto muito bem, mas se lembrava de que ele era de alguma cidade do interior. Ele estava em silêncio também, subiam a escada rolante em silêncio.
Tomaz fez uma cara feia quando sentiu o sol forte na cara quando saiu da rodoviária. Caminhava pelo estacionamento. Não havia muitos carros já que a rodoviária estava bem vazia naquele horário do diz e em uma segunda feira. Chegando a seu carro ele destravou o mesmo.
— Pode entrar. — Sugere para Murilo. Ele caminha até o porta malas do seu carro e abre jogando a mochila lá dentro com cuidado.
Ele dá a volta no carro e entra no banco do motorista. Observa que Murilo já está com o cinto e sorri sem jeito. Qualquer outro garoto com quem ele ficou ele tinha que reclamar para que usasse o cinto. “Ei, não estou ficando com esse cara.” Ele se reprende. Liga o carro e dá partida no carro. Não iria ter que pagar o estacionamento novamente já que não tinha ficado lá dentro nem uma hora.
Depois de dirigir por um tempo Tomaz entra no estacionamento do Starbucks da Paulista. Os garotos descem do carro e vão até o café. O local está cheio como sempre, observa Tomaz. Nunca encontrou o lugar vazio. Eles procuram uma mesa vaga e então sentam.
— O que você vai querer? — Ele pergunta para o garoto sentado em sua frente. Não consegue desviar o olhar. Ele se parece mesmo com o ex-namorado.
Ele observa enquanto Murilo pensa.
— Um frappuccino de chocolate branco. — Responde o menino em sua frente.
— Só isso? Ou vai querer algo pra comer? — Ele pergunta para menino que nega com a cabeça. — Eu já volto.
Ele levanta e sai para fazer seu pedido. Enquanto esta no caixa, Tomaz não consegue parar de olhar para o menino lá sentado. Logo depois de efetuar o pagamento e pegar suas bebidas ele volta. Senta-se à mesa e dá um dos copos para o menino. Ele pediu a mesma coisa e já toma um gole de sua bebida.
— Então me conte o que aconteceu. O que você estava fazendo sozinho na rodoviária e com uma mochila tão grande quanto aquela? — Ele pergunta.
— É uma história maluca e você vai me achar muito doido! — Tomaz ouve o garoto dizer.
— Eu garanto que não vou não. — Diz Tomaz enquanto pensa na sua própria história maluca.
— Eu estava namorando pela internet há um ano já. Mas como sou do interior meu namorado e eu nunca tínhamos nos visto além do Skype. E como eu acabei de me formar no ensino médio, o meu pai me deu essa viajem de presente. — Murilo diz baixo e olha para o outro. — Então eu vim, era a viagem dos meus sonhos, eu iria ver o amor da minha vida. Nós dois estávamos muito apaixonados.
Tomaz não consegue deixar de ver sua própria história nas palavras do rapaz.
— Nós dois estávamos mega apaixonados. Ontem conversamos e marcamos tudo direitinho pra hoje. Estávamos esperando por hoje a um ano, sabe? Então quando eu cheguei, ele me olhou de uma forma estranha. Não fez nada do que disse que faria não me beijou nem abraçou e disse que não dava. Que nós simplesmente não iriamos ficar juntos. E foi embora, me deixou sozinho. — Murilo completa segurando o choro.
— Ei não precisa chorar, estou aqui agora. — Tomaz se sente surpreso demais, não consegue acreditar no que escuta. Que cara filho da puta! Pensou ele. — Vocês estavam juntos há um ano e ele faz isso com você? Sem consideração alguma?
Murilo apenas balança a cabeça. Mas então resolve falar.
— Então eu fiquei lá, tentando pensar no que fazer. Não quero ter de voltar pra casa hoje mesmo e olhar pra minha família como uma cara de bosta e dizer que não deu certo. Que o sonho que eu esperei um ano inteirinho pra realizar não deu certo. — Ele suspira. — Você entende?
Tomaz balança a cabeça afirmativamente. Ele realmente entende como o outro está se sentindo, porque ele próprio está assim. A mãe está agora mesmo preparando um almoço para o genro.
— Mas o que você estava fazendo lá? Foi embarcar alguém? — Murilo pergunta.
Tomaz ri. Ele ri de verdade.
Murilo não entende e se sente constrangido.
— Não, desculpa... É que eu passei pela mesma coisa que você hoje. Não igualzinho, mas muito parecido sabe? — Ele diz e vê a reação surpresa do garoto em sua frente. — Meu namorado estava vindo pra São Paulo hoje. Ele é do Rio. E bem, quando eu já estava lá ele diz não poderia ir e não responde mais nada. Eu bloquei ele no whatsapp e quero esquecer o que ele fez comigo. Sério não consigo nem acreditar na humilhação que vai ser quando eu chegar sozinho em casa. Minha família está em festa porque é a primeira vez que me apaixono de verdade. Eles não irão perder a chance de me zoar pra sempre por no meu primeiro amor já ter me ferrado.
Murilo toma um gole grande da sua bebida, talvez por não ter o que que dizer sobre a história de Tomaz.
Tomaz também toma um gole grande da bebida enquanto pensa no que acaba acontecer. Os dois passando pela mesma coisa naquela rodoviária. Seria o destino? Ele sente vontade de rir ao pensar nisso.
— Eu vou poder ficar na sua casa? Pelo menos hoje e amanhã. Assim quando eu voltar pra casa eu invento uma história de que não deu certo. — Murilo diz baixinho, quase implorando pra que o outro concorde.
Inventar uma história. Pensa Tomaz. É isso, nós só precisamos inventar uma história. Ele pensa colocando um sorriso na boca enquanto maquina o plano inteiro.
— Eu tenho uma proposta pra te fazer, Murilo. E eu acho que na situação que estamos ela é quase irrecusável pra você. — Tomaz diz com um sorriso perverso nos lábios. — Eu não sei, talvez tenha sido o destino, ou deus. Ou quem sabe uma força até maior, porém algo nos uniu. Nós dois temos quase a mesma história e nós dois estamos com vergonha de voltar pra casa sozinhos. — Ele engole em seco. — Então o que eu tenho pra te propor é que você finja ser meu namorado, você finge ser o Rafael. Fica lá em casa pelo mês que você precisar e depois volta pra sua casa e essa história fica enterrada pra sempre no passado. O que você me diz? É uma solução pra nós dois, e só depende de você... — Ele completa.
Murilo fica congelado no lugar encarando Tomaz nos olhos. Tomaz por sua vez só sorri tentando convencer o outro a aceitar sua ideia maluca.
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