Mundos Transcendentais
1 Capítulo 1 - Enzo
Notas iniciais

Enzo acordou. Sua cabeça doía, como se estivesse em chamas, e ele não estava se lembrando de muita coisa. Mas as memórias marchavam em ritmo constante, comprimidas de volta para sua cabeça, e ela começava a latejar mais.
Estava em um lugar muito escuro, e decididamente, espaço não era algo que havia de sobra ali. O que estivera fazendo ali? Não importava. Mais alguns segundos, e sua cabeça organizaria as informações. Sentou-se e esperou uma tempestade cerebral. E eis que repentinamente, quase como mágica, todos os detalhes voltaram ao seu cérebro em um incrível período de três segundos. Ele fora saqueado e sequestrado.
*Flashback*
Mais cedo, naquele dia, Enzo estava viajando. Estava em uma viagem de negócios. Sim, mesmo com dezoito anos apenas, Enzo já cuidava dos assuntos do pai.
Era bem tímido pra esse tipo de coisa, sinceramente, mas bem influente principalmente na Itália, onde sua família construíra uma grande empresa de equipamentos de esportes radicais. Na verdade, a maior do mundo, secretamente.
Neste dia, Enzo estava viajando num navio, com a finalidade de ir até à Austrália, apresentar um projeto a uma empresa menor. Se ele conseguisse fazer com que eles aceitassem a proposta, haveria uma grande revolução no tipo de produto que fabricavam, e acabariam faturando milhões, talvez bilhões de Jewels... Enzo estremecia só de pensar em como essa viagem era importante.
Mas nada daquilo realmente importava pra ele. Ele continuava naquelas missões cansativas que o pai lhe dava porque não gostava dedecepcioná-lo. E, na verdade só conseguia suportar aquilo porque gostava de viajar.
Ah! Enzo adorava viajar, principalmente no mar. Sempre que viajava, sentia-se livre. Seus problemas mundanos adquiriam um peso bem menor, e ele se sentia mais alegre, despreocupado e leve. Mas desta vez, houve uma pequena mudança de planos.
Ao invés de viajar de jatinho, desta vez foi preferível viajar de navio. Após muita insistência de Enzo ao seu pai, Rafael, e depois de ouvir muitos “Ora, para que isso? Temos um jatinho particular!” e mais falatórios de que “Uma viagem de navio demora mais, nem todo negociante é paciente assim, Enzo”, e muito mais falatório de trabalho e coisa e tal, foi possível viajar de navio, com uma pequena ajuda de sua mãe, que apareceu exatamente na hora mais propícia da aceitação do pai.
A verdade é que ele queria uns diazinhos de descanso. Achava que merecia. Afinal, passara cinco meses simplesmente à deriva do pai, cumprindo com seu dever, e representando-o em inúmeros lugares, enquanto ele apenas descansava com a família.
Bem, Enzo não o culpava, agora sabendo como era a vida que ele devia levar, mas o incomodava que estivesse deixando de viver sua própria vida pra viver a de outra pessoa. Ora, nem seus próprios amigos da Itália ele via mais. Pouco contato com qualquer um, e raramente, muito raramente alguns dias livres, que ele utilizava não para lazer, mas para pura e simplesmente ferrar no sono.
Pensava em tudo isso enquanto se apoiava na borda do navio, o Naïve Cruiser II, olhando o mar, já planejando como seria este período de “folga” no navio, quando algo lhe chamou a atenção: um barco estava se aproximando.
“Normal”, pensou, “sempre ocorrem estes encontros. Afinal, é o mar.” Tranquilizou-se ao pensar que logo este barco seguiria um caminho completamente distinto do seu. Mas havia algo mais naquele barco... Parecia... diferente. O barco começou a se aproximar... Enzo notou que ele realmente parecia ameaçador, vinha em direção a eles e não mudava de curso...
Enzo olhou a vela do barco e paralisou de medo. Lá, distante, tatuada na vela do barco desconhecido, estava a Jolly Roger – o símbolo pirata.
* * *
Foram necessários apenas quinze minutos do tempo de todos os presentes para que se realizasse uma carnificina no Naïve.
Nos primeiros dois minutos, ocorreu a fase de percepção. Enzo correu para avisar a todos que encontrava que uma embarcação pirata vinha em direção ao navio.
Nos três minutos seguintes, o navio todo entrou em estado de defesa, incluindo blindagem e pessoas com porte de armas.
Nos dois próximos minutos, a embarcação pirata chegou ali.
Mais cinco minutos e os piratas conseguiram passar por todas as defesas, disparando com canhões na blindagem. Inclusive torturaram, mataram e jogaram ao mar todos os seguranças do navio.
Apenas mais três minutos, e toda a fúria dos piratas foi desencadeada dentro do navio. Todos os passageiros foram saqueados e amarrados. Alguns até amordaçados. Com toda a sorte que tinha naquele momento, Enzo conseguiu ser ambos amarrado e amordaçado.
A tripulação pirata era muito numerosa. A maioria dos tripulantes carregava armas de fogo, exceto dois, que Enzo reconheceu como o Capitão e o Imediato, que além de armas, carregavam também espadas. Enzo reconheceu o capitão; vira-o em algum panfleto daquele mesmo navio. De fato, logo ele reapareceu com aquele mesmo panfleto e riu, falando com o Imediato.
– Veja só isso! – e mostrou o panfleto ao Imediato. – Eles estão ficando cada vez mais desesperados, Cyrus! Já chegaram a oferecer 80.000Jwl$ pela minha cabeça! – e soltou uma gargalhada.
O homem parecia familiar a Enzo. Era velho, provavelmente na casa dos cinquenta, mas mantinha um físico de jovem. Perceptivelmente, ele era um homem inescrupuloso, já que não se importava de mostrar as cicatrizes que trazia no corpo e na face. Cabelos ondulados, grisalhos, curtos, que retratavam a forma das ondas do mar. Barba cheia, que dava um ar de superioridade ao tal capitão. Apenas pelo que vira no panfleto, Enzo podia supor (se estivesse lembrando direito), que o nome dele era Gellert.
Logo, ele foi falar com o capitão do navio, talvez bater um papo de capitão pra capitão. Não parecia satisfeito com as respostas que obtivera. Cansou-se, deu uma estocada com punho de sua espada na nuca do capitão, deixando- o inconsciente. Então ele falou:
– Capitãozinho medíocre – e olhou com nojo para o homem. – Podem jogá-lo ao mar!
Dois marujos pegaram cada um embaixo de um braço do capitão, e o suspenderam, indo até a borda do navio e jogando-o ao mar. Depois o capitão olhou os outros tripulantes do navio, que estavam todos apavorados, e alguns até soltavam guinchos abafados pelas mordaças. Então olhou para Enzo e fixou seu olhar sobre ele. Um rápido fulgor e exaltação perpassaram os olhos do homem, que a seguir chamou o Imediato Cyrus para perto de si, e cochichou coisas que Enzo não pôde ouvir, sem nunca tirar os olhos de Enzo.
Logo após isso, o Imediato deu algumas ordens, e Gellert não tirava o olhar de Enzo. O pavor, coisa que Enzo raramente sentiu em sua vida tomou conta dele. Cresceu ali, dando fertilidade a pensamentos horríveis...
Fora reconhecido!! Tinha de ser isso! Tinha sido reconhecido e agora o fariam de refém!
Mal pensou na probabilidade, e já apareceram dois marujos vizinhos a ele. Quase desmaiou de susto. E no momento seguinte, realmente desmaiou após sentir uma coronhada muito forte na nuca. Tudo ficou preto.
*Fim do Flashback*
E agora, com todos os detalhes certinhos, cada um em seu lugar de volta à memória, ele só pensava que aquilo ali deveria ser uma cela... E, se aquilo era mesmo uma cela, então ele devia estar no próprio barco pirata!
Reconhecia agora o lugar onde se situava: uma cela, realmente. Muito pequena, na verdade, quase do tamanho de um dos banheiros de sua mansão. Podia perceber, quase sem olhar, que havia uma janela do seu lado direito, e barras do lado esquerdo. Definitivamente, estava dentro de um barco, pois tinha a leve sensação de que o lugar balançava.
Estendeu sua visão para até o outro lado da cela, e levou um susto! Tinha mais alguém ali! No outro extremo da cela havia um sujeito virado para a parede concentrado em fazer alguma coisa.
Temendo que o outro pudesse lhe fazer algo de mal, fez a coisa mais genial que alguém poderia ter feito ao ser trancafiado com um assassino em potencial: correu para as barras da cela, e gritou por entre elas:
– Socorro! Tirem-me daqui!!
Obviamente, depois deste ocorrido, o maníaco desviou sua atenção para Enzo. Estava mais do que claro que era um pirata. Suas vestimentas eram próprias para o ofício: camisa social branca, com as mangas enroladas até o braço; um colete preto por cima da camisa, fechado, e com a Jolly Roger tatuada em branco no centro dele; usava coturnos; o cabelo era encoberto por uma bandana vermelha com caveira preta.
Não era tão forte como Gellert, mas era suficientemente forte para Enzo pensar duas vezes antes de se meter numa briga com ele. E então ele disse num tom absurdamente calmo:
– Quer parar de choramingar, por favor? Estou tentando escapar.
– Escapar? – perguntou Enzo. E só então percebeu que ele carregava consigo uma pequena adaga dourada.
– Sim, escapar. Estou trabalhando nisso há dois meses, e seria bem grato se não chamasse ninguém que possa interferir minha fuga. Obrigado. – e pôs-se a trabalhar novamente.
Logo, Enzo viu do que se tratava. O pirata, fosse quem fosse, estava amolando sua adaga. Pelo que tinha entendido, o plano dele era serrar uma barra da cela.
Era um bom plano, pois as barras da cela eram regularmente grossas, e o espaço entre cada uma era suficiente para impedir uma pessoa de passar por entre elas. Porém, se uma barra fosse cortada, dava para passar tranquilo.
Ele também notou que o pirata estava serrando apenas a parte inferior da barra. A parte superior já estava serrada. Mas era incrivelmente quase imperceptível. O corte era fino e preciso, e ficava exatamente no nível do teto.
Em determinado momento, o tal pirata se cansou e sentou. Escondeu a adaga no coturno. Suspirou. Enxugou o suor da testa, encarou um pouco, com desconfiança, e perguntou:
– Por que você veio parar aqui?
– Provavelmente, porque estou sendo feito de refém. – respondeu Enzo.
– Acho que eu te conheço de algum lugar... – disse ele
– Err... Acho que não – Enzo tentou desviar do assunto. Não queria que um pirata que mal conhecia soubesse quem ele era.
– Bom, eu provavelmente lembrarei depois. – disse ele. – Mas vamos às cordialidades. Bem vindo ao inferno! População: 2. Meu nome é Roger, aliás. Muito prazer.
– Eu sou Lorenzo. Lorenzo Bernoulli. Mas, pode me chamar de Enzo, mesmo. Nunca gostei de “Lorenzo”.
Aquelas palavras causaram uma reação instantânea em Roger.
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