Mundos Paralelos
1 Arco 1 - Capítulo 1
Notas iniciais
Este capítulo funcionará mais como um piloto, pequeno em relação aos próximos.
Boa Leitura.
Boa Leitura.
Olhei mais uma vez para meu relógio. Eram quase seis da tarde, horário que eu saía do meu estágio e ia para faculdade.
Eu estudava filosofia na Federal de São Jorge. É, eu sei, filosofia, mas hey, não é meu curso que é ruim, e sim a sociedade que valoriza muito o dinheiro. Engraçado, eu não gosto de estudar, mas defendo meu curso com unhas e dentes... Parece uma metáfora da minha vida. Antes que finalizasse o atendimento a tosse veio novamente; forte e seca, me fazendo dobrar na cadeira. Ela tinha aparecido há três semanas agora, ficando mais forte e mais irritante nesse período de tempo. Poucas coisas são piores que tossir em público. — Tudo bem mocinha? — perguntou a senhora enrugada que eu atendia, mas não lembrava o nome.— Claro. — repondi assim que parei de ter espasmos. — Seu cadastro já está completo, a senhora só precisa ir à mesa grande, no final do corredor a direita. Boa tarde. — completei devolvendo sua documentação. Ela me olhou agradecida. — Boa tarde, e fique com Deus. -Hesitei por um segundo. Eu nunca sabia como responder quando me diziam isso, meu primeiro impulso era sempre dizer "obrigada", apesar de parecer estranho, mas para mim era melhor que dizer "vá com Ele", mais sincero pelo menos. De qualquer forma, eu apenas fiquei calada. Quando finalmente chegou a hora de ir embora, o grupinho de estagiários que se formava em um canto da sala começou a se dispersar. Era sexta feira, então muitos dos animados planos feitos no meio da conversa envolviam uma festa e bebidas, afinal, não havia ninguém menor de idade ali. Eu era a mais nova, e tinha 18 anos. Chamaram-me para algumas festas, mas não aceitei, nem recusei, deixei tudo por "via das dúvidas". Já estava meio caminho de pegar meu ônibus quando recebi uma ligação. Era uma das minhas colegas da faculdade, Mariana. — Eu estava escutando The Neighbourhood, sabe o que isso quer dizer? -— Que vai escutar a música toda de novo? — respondeu ela, sua voz meio metálica graças ao celular. — Exatamente. — disse simulando irritação. — Ei, acho que vou chegar um pouco tarde. Você pode colocar meu nome na lista de chamada? -— Não vou pra faculdade. Te liguei por isso. — disse ela. — Estou aqui no Centro, vem pra cá. O Davi, o Miguel e a Júlia também estão aqui. Esta tendo uma super manifestação. -— Manifestação pelo que? — tinha acabado de chegar à parada de ônibus, que estava lotada por sinal. — Eu não sei. Quem se importa? — respondeu Mariana, rindo. Realmente, não importava para nós, contanto que não fosse violento ou preconceituoso, nos geralmente adoravamos protestos, e ultimamente tem tido vários pela cidade. — Não vai acontecer nada na faculdade hoje, Alice. E todo mundo sabe que você nem precisa de um bom motivo pra faltar. -Foi a minha vez de rir. — Onde vocês estão? Vou levar no mínimo uma hora pra chegar no Centro. -— A gente se encontra perto do Shopping Anil e de lá vamos a pé, pode ser? — Por sorte o ônibus que eu esperava estava chegando. Entrando nele eu disse: — Tudo bem, te ligo quando chegar. — A partir daí tudo que eu prestava atenção era na música alta dos meus fones e os dois ônibus lotados que entrei, mas graças ao engarrafamento típico daquele horário, agravado pela manifestação, tive que descer alguns quarteirões antes.A quantidade de pessoas presentes não era brincadeira, antes mesmo do Shopping, que marcava o início do Centro da cidade, pessoas já passavam com cartazes, e faixas. Tirei meu celular da bolsa, sempre com cuidado, uma vez que não seria difícil ser roubada ou furtada ali, e liguei para Mariana, poucos minutos depois estávamos todos juntos, caminhando com a multidão, gritando apenas por diversão, atravessando bairros e mais bairros nobres e comerciais. Em determinado momento, em uma área cheia de prédios, estranhamente comecei a me sentir sufocada e extremamente cansada. A tosse veio mais uma vez, tive que me afastar dos meus amigos por um momento, mesmo que eles estivessem preocupados comigo achei melhor ir em direção à calçada. Meu peito doía, minha garganta não estava melhor, me apoiei em uma parede. Foi quando alguém esbarrou em minhas pernas, com força. Felizmente apoiei minhas mãos no chão, evitando que a queda fosse maior. Antes mesmo de levantar eu já estava xingando tudo que eu conhecia, mas parei ao perceber que foi um criança que bateu em mim, e ela continuava correndo o máximo que podia no meio das pessoas.Eu comecei a segui-la, nem me pergunte o porquê, eu também não fazia ideia, apesar de existirem diversas explicações plausíveis, eu não estava com nenhuma delas na cabeça enquanto corria atrás da garotinha. Ficamos nisso por um tempo, eu nunca conseguia chegar à garota, mas também a garota sempre se mantinha a minha vista, o que era complicado, já que a quantidade de pessoas só aumentava. Eu devo ter pisado em mais de 40 pés, e empurrado mais De 20 ombros. De repente ela dobrou em um beco, e finalmente a alcancei, mas não por mérito meu, e sim porque a própria menina tinha parado, tanto que quase tropecei nela.
A garota estava de frente para mim, de forma que eu só precisei apoiar um joelho no chão para nivelar nossos olhares. — Você está bem? — perguntei a ela. — Se perdeu de alguém? — Só essa pequena perseguição já fez com que pequenas pontadas dolorosas aparecessem em meu peito. — Eu estava procurando por você Alice. — a garotinha respondeu, sua voz era penetrante, mas baixa, não tenho ideia de como eu ouvi acima do barulho das pessoas e dos carros de som. — Como sabe meu nome? — sussurrei de volta, surpresa. É uma frase pouco original, mas resumia muito bem meu espanto. — Você pode me encontrar? — disse ela calmamente, docemente até, e não respondendo a pergunta. — Você quer enxergar? -Sem mais explicações a garota se moveu de lado, abrindo meu campo de visão para outra cena. Perto de um amontoado de lixo, no final do beco, havia um pessoa deitada, e outra debruçada sobre ela, como se estivesse examinando. Levantei-me e comecei a andar em direção a cena, pisando leve, cuidadosa e vagarosa como se um barulho meu pudesse dispersar o que quer que eu estava vendo. A medida que me aproximava percebi que a pessoa debruçada não estava examinando a outra, ela estava comendo, literalmente. Ele se movia com avidez, como um animal, puxando e rasgando cada pedaço de carne, quando de repente virou-se para mim, e pude perceber toda a extensão da carnificina.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
Fale com o autor