Barth não era o centro. Eu não pensei que a história iria tão fundo. Tudo que estava escrito no livro da minha família era mentira? Tudo que continha naquele diário, muito antigo e escrito à mão pelo próprio Bartholomew, dizia o oposto do que eu sabia. Barth não fora o verdadeiro idealizador da cidade. Esse era Rafael. Rafael era o homem rico que queria se provar melhor que seu pai. Então quem era, e qual o papel de Barth? Estava intrigado com o achado, e acabei perdendo a noção do tempo. Do pouco que consegui ler, percebi que eu precisava saber de tudo que estava ali. Mas não teria tempo para fazê-lo naquela sala escura. Fechei o diário e o coloquei em baixo de um braço, para com o outro tatear o quarto novamente até a saída. A porta no guarda-roupas. Consegui chegar até a porta, mas percebi que estava trancada por fora. Será que ainda tinha alguém no quarto? Gritar por ajuda estava fora de questão, mas eu poderia tentar arrombá-la. Embora o barulho seria tão grande quanto o grito. Voltei para onde havia uma fresta de luz, e comecei a pensar se havia uma outra maneira de sair dali. Não encontrei nenhuma que fosse imediata ou furtiva o bastante. Decidi que a melhor opção era esperar que alguém abrisse por fora, e tentar passar com a ajuda do escuro. Meus olhos estariam acostumados, e o da outra pessoa não. Se desse sorte, poderia passar sem ser percebido. Só seria muito melhor se a pessoa fosse o velho Sullivan, e não meu pai. Decidi aproveitar o meu tempo ali lendo o resto do diário.

Barth tinha inveja do poder de Rafael. Ele dizia várias vezes que em seu lugar, faria tudo diferente. Que faria melhor. Que Rafael era desorganizado e impulsivo. Os treze homens abandonaram suas famílias por um tempo, e se dedicaram totalmente às construções. O que antes era só uma pequena vila de viajantes, em cerca de dois anos tinha a infra-estrutura para abrigar moradores permanentes. Rafael incentivou a agronomia e a exportação. Barth contava sobre os detalhes de seu trabalho. Ele era um agricultor. Ele tinha um campo grande, cedido pelo próprio Rafael, onde ele poderia plantar o que quisesse e ter um bom negócio. A taxa que pagava à Rafael pelo terreno era muito abaixo da média, portanto seus lucros eram altos. Mas Barth não gostou disso. Ele dizia várias vezes que não teria concordado com a idéia da cidade se soubesse que continuaria sendo agricultor. Ele queria ser mais do que era. E Rafael estava negando isso à ele. Barth nutria uma amizade com Specchio. Ambos tinham ambição. Specchio era, segundo Barth, capaz de tudo para conseguir o que queria, por isso era o homem ideal para ter por perto. Conforme os dias passavam, ambos se aproximaram mais. Specchio era um construtor, que trabalhava diretamente para Rafael. Barth mencionou que sempre que conseguia, Specchio espiava os documentos de Rafael. Ele sabia onde Rafael guardava suas riquezas, e como pôr as mãos nelas. Só precisava de um plano que o inocentasse depois. Aí entrava Barth. Barth era ardiloso o bastante para incriminar outra pessoa. E ele faria isso. Barth arquitetou tudo. Forjou indícios que entregassem Dallaluna, amigo próximo de Rafael, como estelionatário. Manipulou a opinião de todos para que o culpassem do roubo. Em seguida, junto de Specchio, assassinou Rafael, culpando novamente Dallaluna, levando o homem inocente à forca.

Isso aplicava à minha família, um contexto extremamente oposto do qual eu estava familiarizado. Meu pai me dizia para ser como Barth. Para “estudar os passos dos que caminharam à minha frente”. O quanto ele sabia disso? E se sabia tudo, quanto daquilo ele usava como exemplo para ele próprio? Quer dizer, eu sempre lidei com os negócios do meu pai, mas não podia dizer que sabia o bastante sobre eles. Meu pai dizia que eu tinha de começar de baixo, estudar e aos poucos crescer. O quanto ele queria que eu crescesse? E como? Fiquei ali, perdido em pensamentos por mais algum tempo que me pareceram horas, quando ouvi um barulho de clique. Alguém estava entrando aqui. E eu não podia perder essa chance. Levantei-me depressa e pensei num jeito de garantir minha saída. Só consegui achar uma coisa que me ajudasse. Pus o diário por dentro da camisa e peguei o castiçal pendurado na parede. Meus olhos estavam acostumados com a escuridão. Eu teria a vantagem na reação. Era o velho que estava entrando. Ele passava pelo corredor até a sala com o alçapão, onde eu estava encostado na quina da parede, apertando o corpo do castiçal com muita força na mão. Eu tentei me esgueirar pelo lado do quarto, esperando que o velho não se acostumasse com o escuro e não percebesse minha presença até que eu estivesse fora dali. Caminhei o mais silenciosamente que pude, prendendo a respiração, mas o velho parou no centro do quarto. Sua respiração parara também. Ele estava desconfiado. Estava tentando ouvir alguma coisa ali. Consegui ver, graças à pequena fresta de luz, o velho levando a mão ao bolso e tirando algo de dentro. Eram fósforos. Assim que ele tirou o primeiro palito da caixa, eu corri para suas costas, e assim que o quarto tornou-se rubro com a luz da pequena chama, eu o golpeei na altura da nuca com o castiçal. O velho deu um grito curto e caiu no chão com um baque, espalhando vários palitos de fósforo pelo chão. O quarto estava escuro novamente e eu percebi que estava respirando pesado. Peguei um palito no chão e busquei pela caixa, que caíra perto de mim. Assim que toquei o palito na caixa hesitei. O homem podia estar morto, e eu não iria querer ver aquilo. Fui até a saída que dava pro armário do velho, e certifiquei-me de que não havia ninguém no quarto. Estava vazio. Assim que coloquei um pé do lado de fora do guarda-roupa, ouvi o som do velho recobrando a consciência. Fiquei apavorado e simplesmente saí dali o mais rápido que pude. Fui direto para fora de casa. Não pensei direito em pra onde ia, mas notei que estava tomando a direção do jardim da minha mãe. Escondi-me dentro do quarto de ferramentas e tranquei a porta dele atrás de mim. Fiquei ali, apenas respirando fundo e tentando aguçar os ouvidos para saber se o velho estava atrás de mim. Ou se tinha dito ao meu pai vir atrás de mim. Nada. Apenas minha própria respiração. Espiei pelo canto da porta e estava tudo quieto. Só agora havia notado que já anoitecera. E que ainda segurava com força o castiçal. Soltei-o imediatamente e ele atingiu o chão com um som metálico. Devia ser de prata. Tinha lugar para três velas, e estava bem velho e sujo. Tinha uma marca vermelha numa ponta, o que eu deduzi que fosse um pouco do sangue do velho. Fechei os olhos por um instante. Quanto tempo eu fiquei preso? Saí lentamente do barraco, mas não iria voltar para casa. Em vez disso, dei a volta e usei uma caixa com as plantas mortas da limpeza do jardim como escora para me agarrar ao muro de casa. Dei impulso e me joguei para o outro lado, aterrissando com um estalo. Eu... eu estava fugindo de casa? Percebi que nem mesmo eu esperava essa reação de mim. Tentei pensar em algum lugar para ir, mas nada me ocorreu. Caminhei por algumas quadras, ainda perto da minha casa. Havia muita coisa na minha cabeça, e eu precisava me acalmar. Sentei-me na raiz de uma árvore e fechei os olhos. Senti algo incômodo na minha na barriga. O diário. Havia quase me esquecido dele ali. Comecei a passar pelas páginas. Sentia-me traído por meu pai. Se ele sabia sobre o diário, e provavelmente sabia, ele havia mentido pra mim muitas e muitas vezes. Ele me dizia para ser um homem que faz o que é certo. Que tomasse as decisões certas sempre, para não manchar o bom nome da família. Bom nome. Há! Lembrei-me então da outra casa. Do outro lado da cidade, tínhamos outra casa, quase que idêntica à nossa. Ela estava sendo usada como escola primária, logo não havia ninguém morando lá, e ela só era ocupada até certo horário. Talvez tivesse algum caseiro, mas eu poderia passar por ele. Fiz o caminho do jeito que me lembrava, atravessando a cidade e indo até a encosta que dava visão à um campo de flores e depois o mar. Contornei a encosta até a mansão. Havia uma única janela com luzes acesas no segundo andar da casa. Eu poderia arranjar um lugar pra passar a noite lá. A casa era grande, e se eu ficasse em apenas um quarto sem fazer muito barulho, provavelmente não perceberiam minha presença. Me dei conta de quão cansado estava, e que realmente precisava de uma noite de sono.

Entrei na casa sem muitos problemas. A semelhança dela com a minha própria me deixava um pouco mais tranqüilo, mas mais do que isso, percebi que muitas das obras de arte que minha mãe gostava e tinha em nossa casa enquanto era viva estavam aqui. Achei que meu pai as tinha vendido, pra alguém e que nunca mais as veria. Dei-me o luxo de caminhar pela casa para saber o que mais da minha mãe estava ali. Escutei um barulho vindo de um quarto do segundo andar. Provavelmente o caseiro. Algumas salas estavam adaptadas para parecer uma escola mas ainda me lembravam de como era minha casa na época que minha mãe estava lá.

Levei alguns minutos para explorar tudo, e me senti aliviado por não ter alertado o caseiro, permanecendo livre de problemas. Eu passaria uma noite ali e de manhã pensaria num lugar melhor para ir. Com todas as crianças que estariam aqui de manhã, com certeza eu passaria despercebido. Escolhi um quarto bem longe do quarto do caseiro para passar a noite. Estava cheio de materiais escolares, vassouras, produtos de limpeza, bolas, redes, cordas... Era uma bagunça. Um bom lugar pra ficar escondido. Juntei uns livros e cordas onde eu poderia me sentar e improvisei uma cama atrás de toda a bagunça. Sentei-me sobre uma pilha de livros, e então finalmente a sensação de tudo que havia acontecido nesse dia me atingiu. Senti tontura e meu estômago começou a revirar. A angústia da dúvida sobre a historia da minha família veio com tanta força que me desfez. Só percebi que havia dormido quando um raio de sol tocou meu rosto com seu calor. Abri os olhos devagar, e levei um susto quando percebi que não estava na minha cama. Ouvi muitas vozes em algum lugar perto, então já devia ser hora da aula. Me levantei, bati o pó da minha roupa e fui até a porta ainda meio tonto e desorientado. Abri apenas uma fresta, e vi que o lugar estava cheio de crianças. Assumi que podia sair dali sem problemas. Passei pela multidão de crianças que estava chegando, e fui em direção à porta principal. Não levantei suspeita alguma. Estava no jardim da frente, onde havia uma estátua de um anjo. Parei para admirá-la por uns segundos apenas, e alguém tocou em minhas costas. Virei-me assustado, esperando ser meu pai, ou o velho Sullivan com um castiçal, mas vi uma garota muito bonita, com cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Seus olhos castanhos eram inteligentes, e combinavam muito bem com sua pele rosada.

– Ei... Eu conheço você, é o filho do Sr. Winter. Porque esta aqui? Achei que estudasse em casa. – ela disse sorrindo calmamente. fiquei paralisado com o comentário da garota. Ela sabia quem eu era.

– Sou eu mesmo, mas já estava de saída. – tentei cortar o assunto e continuar andando, mas ela começou a me seguir.

– Você estava indo embora? Vai matar aula? Eu estava pensando em algo parecido, então se você não se importar, podemos ir juntos? – ela parecia estar sendo sincera. E também parecia que não se importava realmente de eu ser filho do “Sr.Winter.” A melhor opção no momento deve ser sairmos daqui juntos. Ela não vai falar que me viu aqui, se não quer que saibam que ela está matando aula. E se ela contar, eu já vou estar longe.

– Sair daqui vai ser ótimo. E eu adoraria aceitar uma companhia como a sua. – tentei sorrir para soar mais natural. Foi mais difícil que eu esperava. – Como me conhece? Eu com certeza lembraria de você se já a tivesse visto...

Vi sua face adquirir um tom rosa-avermelhado, e ela demorou um pouco mais do que o normal para responder.

– Eu moro perto da sua casa. Sempre que passo por lá eu tento te ver. Tem boatos por aí que você é meio que um fantasma ou uma assombração. Sabe como é, você tem idade pra estudar aqui mas só fica em casa. Seu cabelo tem essa cor... insólita... – ela fez uma pausa, com os olhos focados em meu rosto. Tentei encarar de volta, mas percebi que perderia essa luta sempre que tentasse.

– Se eu entendi bem, você costuma me espiar? Porquê te interessa ficar tentando me ver?

– Não fique incomodado com isso, eu só gosto bastante dessa cor.

– Bom, pode acreditar que isso não é o que me incomodou. – revirei os olhos teatralmente, o que ela respondeu com um breve riso. – eu não sabia que me viam assim. Mas pensando agora, nunca tinha me ocorrido qual é a visão que têm de mim. É um pouco distinto para mim relacionar-me com pessoas da mesma idade.

– Nota-se. Bom, aula número um, você tem que parar com essa formalidade.

– Estou matando aula, lembra? – nos encaramos por alguns segundos e rimos juntos. Dessa vez, foi um pouco mais fácil.

– Você não é como eu achei que um fantasma seria. – ela não me olhou para dizer isso.

– Sinto desapontar.

– Tudo bem. É mesmo mais divertido saber que você é uma pessoa.

– Deve ser mesmo.

Ficamos alguns minutos em silêncio enquanto passávamos pela encosta com as flores. Chegamos ao outro lado da rua e voltamos para a cidade, e o cheiro das flores sumiu. A garota suspirou profundamente e deu uns passos à frente.

– Você vai pra algum lugar agora?

– Não tenho nada na cabeça. – o que era verdade. Ainda não sabia pra onde poderia ir. E o que aconteceria se voltasse pra casa.

– Vem comigo. Podemos ir pra um lugar que eu gosto. É perto daqui.

– Eu aceito o convite. Mas queria que me tirasse uma dúvida...

– Pode dizer.

– Qual o seu nome? – Ela levantou uma sobrancelha e me encarou com uma expressão divertida.

– Você me surpreende Sr. Fantasma. Saindo com uma mulher sem nem perguntar seu nome? Muito feio. – na última frase ela me mostrou a língua enquanto se virava, fazendo o cabelo preso balançar e pousar levemente em seu ombro. – vamos, eu só vou te dizer meu nome quando achar que você merece saber. E até lá você também vai ser só o Sr. Fantasma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.