Mundo dos Demônios

6 Começando do zero


Notas iniciais
Espero que gostem. :3 Boa leitura!

Eu não sabia mais o que pensar e nem mesmo o que fazer. Não sabia como ver as horas, como saber se o tempo estava bom. Não sabia se seria seguro sair na rua sendo humana. Não sabia se conseguiria mesmo ter uma nova vida em meio a demônios. Não sabia como me alimentaria depois que a comida que tinha na minha cozinha acabasse. Nem mesmo sabia como passaria meus dias na escola.

Ficar mais confusa do que eu já estava talvez fosse impossível. Minha cabeça parecia que ia explodir se continuasse com aquelas ideias. Eu precisava relaxar e Thed percebeu isso.

– Sthef, você parece meio pálida...

– Eu tô bem. Só preciso descansar um pouco. — Procurei por um relógio na sala mas não encontrei. — Que horas são? Quer dizer... É muito cedo pra eu dormir, ou sei lá?

Nem mesmo fazer uma simples pergunta eu estava conseguindo. Eu gostei bastante da casa e tudo mais, mas eu tinha que estar ciente de que aquilo era mesmo real e seria minha vida a partir daquele momento.

Eu estava mito confusa e precisava tirar algumas dúvidas para poder relaxar minha mente.

– Thed, posso fazer algumas perguntas?

– Claro. Tudo o que quiser saber. — Ele disse ajeitando o cabelo.

– Pra ser sincera, eu tô cheia de perguntas... — Ele balançou a cabeça e disse "imagino" e eu continuei. — A mais importante delas é: Como vim parar aqui?

Ele soltou um longo suspiro e jogou o cabelo para o lado, para tirá-lo de seus olhos. Olhando para mim, ele respondeu:

– Eu não sei. Nós não sabemos. Doutor Bxo está encarregado de cuidar desse mistério, então faremos várias visitas a sua casa e laboratório. Até lá, ficaremos na curiosidade.

Pegando o controle e ligando a TV, eu pensei naquilo. Era algo muito estranho estar em um outro mundo de forma desconhecida, como se eu tivesse sido teletransportada. Eu apenas esperava que um dia tivesse respostas.

– E quanto a lá fora? — Apontei com a cabeça para fora da grande janela. — Como vou viver no meio de vocês?

– Isso já está sendo resolvido. Doutor Bxo vai falar com as autoridades sobre você e todos cidadãos te tratarão como uma de nós.

Cruzei as pernas no sofá porque senti que a conversa ia ficar interessante.

– Mas... Você comem humanos. Eu sou humana! — Apontei para mim. — E se um louco quiser me devorar na rua?

Thed riu como se fosse a piada mais engraçada do mundo.

– Ah, Sthef... Você tem mesmo muito o que aprender. De humanos, nós só comemos carne morta e olhos frescos. O resto, é comida normal, assim como a sua.

– Sério? Vocês comem alfaces e cebolas? Comem biscoitos e tomam sucos naturais? — Levantei as sobrancelhas.

– Mas é claro! — Dizendo isso, ele tirou uma barrinha de chocolate do bolso e mordeu. — Quer um pedaço?

Minha consciência já estava menos confusa. Muitas perguntas ainda o aguardavam, mas eu precisava mesmo descansar.

Fiquei observando Thed por um longo tempo. Ele era muito bonito. Seu cabelo brilhava com a luz do lustre que estava acima de nós. Seus olhos já não me eram tão assustadores quanto antes. Seu rosto era tão lindo que parecia ter sido desenhado. Aquilo não era obra de Deus, mas era quase perfeito. Enquanto ele mastigava a barrinha de chocolate tranquilamente, eu pudia ver seus caninos afiados subindo e descendo. Pareciam de vampiros, mas aqueles eram de demônios.

Na minha mente, demônios seriam criaturas terríveis e nojentas. Bxo e Thed eram lindos demais para isso. O pessoal que eu vi na rua e no hospital, também eram. Aquilo parecia história de garotinha. Era inacreditável.

– Nos livros e filmes que vi, demônios eram criaturas assustadoras, medonhas, horríveis e nojentas. Por que vocês não são assim?

Thed parou de mastigar. Ele olhou para mim sério. Depois de alguns segundos, sorriu e respondeu alegremente:

– Nós somos de Gothic Dark. Aqui, somos da espécie Trevor. A espécie de demônio mais mansa e adorável que existe. Por isso não matamos humanos. Nós apenas os compramos para completar a alimentação. — Ele mordeu outro pedaço da barra e completou: — Mas existem demônios bem piores do que esses que você descreveu. São da espécie Klaus. Eles são nossos vizinhos e, vez ou outra, passam por aqui causando problemas. Mas você não deve se preocupar com isso.

– E se um dia eu estiver andando a caminho da escola e um desses me devorar? — Arregalei os olhos e me arrepiei toda com aquela ideia.

– Não se preocupe. Eles não rondam a cidade, apenas vêm vender suas carnes. Quando causam algum problema, são brutalmente mortos por nossos guardas. Eles, são de Klaus, mas treinados. Posso apresentá-los mas tarde.

Dei um suspiro, ficando mais tranquila. Após isso, me levantei e comecei a subir as escadas.

– Vou tomar um banho e descansar, tudo bem?

– Claro, fique a vontade. A casa é sua! — Respondeu, piscando para mim.

Antes de entrar no meu quarto, dei uma última espiada em Thed. Ele era bonito demais para ser um demônio.

Quando entrei, dei um enorme pulo e caí na cama. Como era macia e cheirosa, eu dormiria por horas ali, com certeza.

Fui até o guarda-roupa procurar um pijama e acabei ficando de boca aberta com as roupas e encontrei lá.

Estava tudo organizado. As roupas de sair, de festa, pijamas, roupa íntima... O problema, era que as únicas cores que tinham eram pretas, roxas, vermelhas, cinzas, vinho e azul escuro. Todas elas eram decotadas, fora os agasalhos. Além do decote, quase todas eram transparentes, inclusive os pijamas.

Eu peguei uma das camisolas que tinha achado linda. Ela era somente um pedaço de tecido muito fino e transparente. Como usaria aquilo com Thed por perto? Eu estava muito cansada para ficar escolhendo meu pijama. Peguei aquela camisola mesmo, e um sutiã, já que ela era transparente. Quando fui pegar uma calcinha, fiquei de boca aberta. Elas eram dos mesmos estilos das blusas, camisolas, vestidos e sutiãs. Transparentes, e com renda. Algumas com babadinhos, mas todas muito delicadas, exatamente do meu tamanho.

– Fazer o que...

Dei de ombros e peguei aquilo mesmo.

No banheiro, enquanto a banheira enchia, fiquei planejando meu futuro naquele mundo. Me tornando uma pessoa respeitada por ser humana. Tendo filhos e depois netos... Seria completamente estranho.

Entrei na banheira e relaxei. Esvaziei minha mente e lá fiquei por um bom tempo.

Quando já estava mais relaxada, saí. Botei meu pijama e voltei para quarto.

– Sthef, isso é pra você! — Thed me disse estendendo a mão.

– O que é? — Perguntei quando vi só um cubinho de vidro.

– Veja você mesma. É um presente meu, espero que goste. — Ele sorriu olhando para mim. Mordeu o lábio inferior enquanto me observava com o cubinho na mão. Segundos depois, ele se virou e disse: — A propósito, belo pijama. — E fechou a porta.

Eu tinha esquecido completamente de que a camisola era transparente. Thed tinha visto meu corpo por baixo dela. Não só isso, como meu sutiã e a calcinha.

Eu fiquei vermelha de vergonha. Não sabia se ficava com raiva ou não. Estava cansada demais para isso.

– Vejo o que é isso mais tarde. Preciso dormir!

Dizendo isso, botei o cubinho sobre a mesinha do lado da minha cama, fechei as cortinas do meu quarto, deitei e logo dormi.

Acordei com uma música bem perto do meu ouvido. Era um rock pesado, como se fosse um despertador.

Olhando para direção de onde vinha a música, vi o cubinho de vidro piscando uma luz roxa. Ainda sonolenta, coloquei aquele pequeno objeto na mão e fiquei olhando. A música não parava e era muito alta. Resolvi por a mão onde piscava a luz e de repente, aquele cubinho foi se abrindo até revelar sua verdadeira forma.

– É um celular!

Só consegui identificar o que era, quando vi a tela. Era o celular mais perfeito que eu já tinha visto. Ele era transparente como se fosse mesmo de vidro, e dobrava em forma de um cubo. Fiquei de boca aberta.

Levantei da cama rápido e fui até o quarto de Thed para agradecer. A porta estava aberta e ele não estava lá. O cheiro de carne podre já tinha sido filtrado antes de eu acordar. Aquilo era maravilhoso.

Desci as escada e fui até a cozinha. Chegando lá, uma mesa cheia de comida me esperava.

– Bom dia! — Ele disse largando o jornal que estava lendo.

– Ah, bom dia! — Eu sorri. — Quero te agradecer por ter me dado esse celular. Ele é perfeito!

– Fiz ele especialmente para você. Achei que fosse mesmo gostar.

Fiquei sorrindo por um tempo, até que me lembrei da maldita camisola. Lá estava eu, de novo, me sentindo nua na frente de Thed.

– Não se preocupe com isso, Sthef. — Ele tomou um gole de café e continuou: — Lá no hospital, fui eu quem te deu banho. Fui eu quem vestiu aquelas roupas em você. Não precisa ficar envergonhada. Eu sou médico!

Ao saber daquelas coisas, senti minhas bochechas queimarem de vergonha. Eu achava meu corpo horrível. Eu não era nem magra, nem gorda. Era aquele tipo de corpo esquisito. E que eu fazia questão de manter escondido.

Saí correndo da cozinha e voltei ao meu quatro para trocar de roupa. Voltando a cozinha "neutra", comi o delicioso café da manhã preparado por Thed.

– Nossa, você cozinha muito bem!

– Obrigado! Panquecas sempre foram minha especialidade.

Fiquei comendo e imaginando como seria bom morar com Thed. Ele seria mesmo como um irmão mais velho para mim. Minha mente já estava começando a se acostumar com a situação.

– Hoje iremos até a casa do Doutor Bxo. Ele precisa te examinar e aproveitamos para saber se ele descobriu mais alguma coisa sobre seu aparecimento aqui.

Concordei com a cabeça e depois ajudei a lavar a louça. Enquanto lavávamos, jogávamos espuma um no outro.

Aquela foi, sem dúvida, a melhor manhã da minha vida.