—Quer jogar? — ouvi um garoto de cabelos cacheados perguntar para Júlio, quem eu espiava, eu estava a uma distância razoável, nem muito perto pra que não percebessem minha presença nem muito longe pra poder observá-lo bem. Para um ser humano escutar aquela conversa na minha distancia era impossível, mas ser vampiro tem lá suas vantagens, meus ouvidos eram bastante aguçados e eu podia praticamente ler seus pensamentos pela expressão de seu rosto.

— Não, prefiro ficar aqui. – respondeu Júlio depois de olhar rapidamente os meninos jogando algo que eles chamavam futebol.

— Você e estranho! — Júlio olhou para aquele garoto que estava a sua frente, ele tinha aproximadamente uns dez anos, havia chegado agora naquela escola de Morro Queimado, não conhecia Júlio e parece que não sabia da antipatia que os garotos tinhas por ele. Sim, eu já o observava a um bom tempo, não tem muito o que fazer quando se e um vampiro a não ser acompanhar as mudanças do mundo e se ocupar com algo. Estudar Júlio era meu segundo passatempo favorito.

—Você veio aqui para me dizer só isso? — ele perguntou

—Não. — disse o garoto se sentando no banco de madeira onde só havia Júlio. — Você não tem muitos amigos.- O garoto afirmou. Ele estava certo Júlio sempre estava só, por causa de seus gostos os garotos o repudiavam.

—Eu não tenho NENHUM amigo. — confirmou Júlio.

—Hum, então eu vou ser seu amigo. — Júlio olhou aquele garoto com uma expressão perplexa, “ele deve ter batido a cabeça antes de vir aqui”. Então em um só movimento o garoto o olhou e estendeu a mão:

— Meu nome e Daniel. – Júlio apertou sua mão ainda surpreso e disse:

— Júlio. – o tal Daniel sorriu e apertou sua mão com vigor. Júlio se recompôs, tossiu e disse:

—Mas um amigo não se faz de uma hora pra outra! — esse era um dos motivos de Júlio não ter amigos, ele lia muito e imaginava que as amizades tinham que ser como nos livros.

—Não? — perguntou Daniel. Júlio respondeu com a cabeça negativamente.

—E o que e preciso? -Daniel parecia confuso.

— Não sei, você nem me conhece ainda.

Daniel sorriu outra vez e disse se levantando:

— tem razão- por uma fração de segundos Júlio pensou que ele fosse embora, mas ao invés disso ele perguntou: Então do que e que você gosta?

***

E agora lá estavam eles em frente a uma velha casa que parecia que iria desmoronar a qualquer segundo e de fato havia um aviso na porta que dizia: PERIGO DE DESABAMENTO. Mas meu aviso não serviu de nada, é eles estavam na frente da minha casa. Não fiquei surpreso, no entanto não pensei quando os seguia distante que iam para lá. Esperei do lado de fora enquanto eles entravam, depois cuidadosamente entrei pela janela e me escondi entre uma cortina e outra, o que não foi difícil nos vampiros não somos notados facilmente. Nas suas expressões eu pude perceber que para eles minha casa era fantasmagoricamente velha e podre, vi algo mais no rosto de Daniel ele podia jurar que sentia cheiro de sangue. Por fim ele perguntou:

— Oque viemos procurar mesmo aqui?

— Alguma coisa que eu ache legal.

— Ahr! — exclamou Daniel um pouco lento- Você já veio aqui antes? — Júlio sentiu um pouco de medo na voz de Daniel (eu também) e tentou tranquilizá-lo:

— Não se preocupe já vim aqui outras vezes e nunca me aconteceu nada. – dito isso ele começou a andar a procura de algo. Passando perto de onde eu estava, pude ouvir seus batimentos e o sangue correr por suas veias e artérias.

— E você acreditaria se eu dissesse que você teve sorte? — perguntou Daniel.

— Você está com medo? — rebateu Júlio, ele estava tão perto! Mas eu tinha que me controlar.

—Não! — exclamou Daniel rápido demais, depois colocou um sorriso no rosto e continuou: eu adoro esse tipo de coisa.

— Deixa disso, não vai acontecer na...

— Júlio! Segura minha mão!

Um buraco se abriu no meio da sala quando Júlio caminhava e ele agora tentava se segurar na madeira podre quando, com alivio, ele viu o braço de Daniel. Este por ser um pouco mais forte conseguiu puxar Júlio que com um impulso e a ajuda do amigo conseguiu subir. Os dois arfavam por causa do susto e tudo ficou pior quando eles olharam para baixo.

Júlio virou a cabeça para o lado e Daniel fez o mesmo. Parecia que seus corpos estavam colados na madeira, assim que a poeira abaixou eles puderam ver meu mausoléu particular, bem ali embaixo do chão da sala jaziam os corpos sem vida e sem sangue de minhas vítimas, pessoas e animais. Então percebi que o braço de Daniel pingava sangue no lugar que acidentalmente ele cortou quando puxou Júlio, o mesmo tinha alguns arranhões.

— Cara melhor sairmos daqui. — falou Daniel se levantando. Júlio que no processo de virar a cabeça avistou minha agenda e a pegou, também se levantou e disse:

— E acho que já podemos ir.

— Ei o que e isso?

— Não sei, parece uma agenda antiga.

— Melhor você deixar isso ai, talvez as almas não gostem- Daniel falou sussurrando apontando para os corpos.

—Qual e você acredita nisso?

Eu não suportava mais, o sangue escorrendo por aquele braço, me chamava, mas eu não podia tocá-lo, ainda estava fraco e de alguma forma sentia que aqueles garotos eram muito fortes juntos, mas a minha agenda, não, ele tinha ido longe demais, não podia deixar que a levasse. Mas o que eu podia fazer? Puxei minha capa e arrastei-a no chão, depois soltei um grito o mais anormal possível.

— Júlio você ouviu isso? -perguntou Daniel meio baixo.

— Hum sim.

— Talvez sejam aquelas almas que você perturbou e querem pegar a gente. — eles se olharam e correram para fora da casa, atravessaram a rua, olharam por cima do ombro pra ver se tinha alguma coisa atrás, pararam quando se convenceram que devia ter sido imaginação. Sentaram na calçada do outro lado e olharam para a casa, eu estava debruçado no chão sentindo a vida daquele sangue tão jovem, passei os dedos pelos pingos que tinham no chão, tão saboroso. Então jurei que minhas mandíbulas provariam daquele sangue tirado diretamente da sua fonte, de suas veias. Levantei e voltei a observar os garotos. Eles estavam quase rolando no chão de tantas gargalhadas. Depois de um tempo, quando estavam mais calmos, Júlio olhou para o braço de Daniel e disse:

— Deve estar doendo muito!

— Não se preocupe, não foi tão fundo. – disse rindo e passando a mão pelo braço

— Obrigada pela ajuda.

— Então agora somos finalmente amigos. – Daniel não conseguiu esconder a empolgação na voz.

— Acho que sim. Mas me diga, porque quer tanto ser meu amigo? — ele finalmente tinha feito a pergunta que tanto queria. Daniel abaixou a cabeça e disse:

— Eu também não tenho amigos.

— E todos os meninos da escola? – Júlio tinha visto a empolgação dos garotos com o aluno novo, lhe dando atenção.

— Eles não são meus amigos, estavam daquele jeito porque sou aluno novo, mas depois que me conhecem viram apenas colegas de classe. E você e estranho, gosto disso. — ele colocou novamente o sorriso no rosto e disse: mas abra logo essa agenda, pra gente ver o que tem dentro.

Não minha agenda, minhas anotações sobre Júlio e todas as minhas vítimas mais intrigantes.

Júlio olhou a agenda na mão e vi seu rosto mudar:

— Ahr não eu tenho que ir.

—Tudo bem, acho que devo ir pra minha casa também.

— Ok amanhã a gente vê então, tchau...amigo. – Júlio sorriu, se levantou e seguiu por um lado da rua, Daniel sorriu e disse para si:

— Tchau! — e seguiu pelo outro lado. Júlio parou longe, virou e olhou para Daniel, que continuava caminhando. Pude ver estampado em seu rosto, o afeto que sentia por ele. Depois ele correu para casa com meu caderno.

Ufa, talvez eu tivesse sorte e ele não o abrisse hoje, eu tinha que recuperá-lo. Mas não podia ir a sua casa hoje, estava com fome e podia fazer uma burrice...

Em todo caso, tinha mais coisa pra fazer como encontrar minha próxima presa e, claro, dar um jeito em todas aquelas mortes parecerem algo natural...