Mundo Submerso

2 A Bela Adormecida


ALICE ~*~

-Como você se chama? – perguntou o Homem de cabelos alaranjados e roupa engraçada

-Alice. – respondi a ele que sorriu

-Chapeleiro. – disse ele tirando a cartola grande e cheia de agulhas e restos de pano. Ele é engraçado, estranho como tudo nesse lugar, mas... Eu não sei, talvez eu esteja gostando disso tudo, talvez eu finalmente possa começar tudo de novo. Ele me parece simpático, louco, porém confiável.

-Como veio parar aqui? – perguntou ele colocando a cartola na cabeça

— Eu não sei bem, eu estava caindo e acabei numa sala, que deu em outra... – ele estava me olhando como se fosse louca, mas ainda sim prestava atenção em tudo, como se acreditasse no que eu estava falando – Resumindo, eu atravessei aquela porta. – disse a verdade e apontei para onde a porta deveria estar para minha surpresa... Ela havia sumido.

-Hahahaha – riu ele, só podia ser louco. – Que estranho hihi.

-Muito. – me senti ser invadida por um sentimento estranho, talvez medo. Medo, por ter caído em uma sala ao invés do asfalto. Medo, por ter obedecido ao rótulo de uma garrafa e bebido um líquido desconhecido. Medo por encolher e crescer. Medo desse lugar. Não, não pode ser medo, prefiro acreditar que esse sentimento seja apenas por causa da altura de minha queda.

-Você gostaria de uma xícara de chá? – interrompeu-me ele. Parecia muito feliz ao dizer a palavra “chá”.

— Eu aceitaria um café. – disse á ele

— Não, não querida, é chá. – ele levantou a cartola e entre o seu cabelo havia uma xícara de chá.

-Como...?!- perguntei. Ele tirou a xícara da cabeça e ao olhá-la fez uma cara triste

-Está vazia. — estava quebrada, sem fundo. Ele levantou a xícara e olhou para mim pelo buraco da mesma. – Huhu. Venha, vamos tomar chá. – Ele foi à frente, andava esquisito, mas divertido. Fomos até um campo aberto, cheio de margaridas, no meio do campo havia uma mesa enorme, cheia de bolos, doces, geleias, pães e muitos e muitos bules e xícaras. Deveria ter umas vinte cadeiras, todas diferentes umas das outras, porém apenas uma estava ocupada. Um coelho doido servia-se de chá.

— Seja Bem Vinda, Alice. – ele fazia meu nome soar engraçado, deu a mão para que pudesse me guiar até meu lugar e eu aceitei. Fomos até a ponta da mesa e o coelho nos seguia com o olhar, o mesmo estava muito agitado.

— Poderia me passar uma xícara? – perguntei a ele

— Xícara, Xícara, cuidado com a xícara. – ele me atacou, sim, me atacou, jogou a xícara de porcelana em mim, era completamente louco. Felizmente o Chapeleiro a pegou antes que acertasse o meu rosto.

— Cuidado Lebre, ela é nossa convidada. – disse o Homem de cabelos alaranjados. Então era uma Lebre, não um coelho.

— Convidados merecem histórias. – disse alguém, não identifiquei de onde vinha. – Conte a ela uma história. – foi então que saiu de dentro de um bule vazio um camundongo que vestia uma roupa amassada e cheia de geleia.

— Isso mesmo Dormidongo. – falou o Homem Maluco na ponta da mesa.

— Que tal “A Bela Adormecida”? – sugeriu a Lebre, olhando para outro bule vazio.

— Todos conhecem a história da Rainha... E também, não é muito agradável para um chá.

— Tudo bem, acho que já escutei. É sobre rocas de fiar, desejos, fadas... — falei lembrando-me da história.

-Hoohoohii – riu a Lebre e o Chapeleiro

— Está é sobre irmãs e coroas. – disse Dormidongo. — Conte-a

— Tome mais chá. – afirmou o Chapeleiro enchendo minha xícara até vazar e fazendo outras mini xícaras que ficavam no Pires encher.- Muito bem. “Era uma uma vez, duas irmãs, uma branca, chamada Amy, e uma vermelha, chamada Esther. Um dia ambas cresceram e Amy por ser a mais velha assumiu o trono de todo o reino, ela se tornou A Rainha do País Das Maravilhas, do baralho ao tabuleiro. Porém, visto tamanha responsabilidade e injustiça com sua irmã, a Rainha Das Maravilhas dividiu o País, e decretou que Esther se tornaria a Rainha do Baralho, enquanto ela, se tornaria a Rainha Branca, a Rainha do Tabuleiro.(...)”—Não me pareceu pesada para um chá, eu gostei da compaixão e sabedoria da Rainha Branca. – Manteiga! – cortou-se o Chapeleiro, e um pedaço de manteiga foi arremessado até chegar à fatia de pão no prato dele. – Hahaa

—Chapeleiro- chamei-o – é uma boa história.

—Não acabou!! — gritou a lebre jogando um bolinho confeitado em mim. Desta vez eu o peguei

— Mas flores sempre murcham, e está já estava na hora. – voltou a falar – “(...) Muitos anos se passaram desde aquele decreto e o País nunca teve dias tão gloriosos, entretanto, uma doença atacou nosso reino, arrancando magia por onde passava, matando pessoas, destruindo raças e lugares. A Grande Rainha Branca conseguiu pará-la antes que destruísse todo o baralho, porém, ela contraiu a doença, A Rainha Amy estava morrendo. Esther não suportou ver tudo aquilo, a doença havia destruído parte de seus domínios e agora estava destruindo sua irmã. Como Rainha do Baralho, Esther dominava as quatros divisões: Copas, Espadas, Ouros e Árvores, ela tinha o poder de ambas as divisões, e usou o máximo de seu poder para salvar sua irmã. Antes de Amy falecer Esther descobriu que apenas um coração salvaria a Rainha Branca e foi o que ela fez, doou seu próprio coração a sua irmã. Porém, cada coração é um coração, e o de Esther não funcionou para sua irmã como todos esperavam.”

-Sem amor verdadeiro! – disse Dormidongo

-Sim, Esther não amava sua irmã verdadeiramente, mas ainda sim a amava, e foi o suficiente para salvar Amy. A Rainha Branca dorme eternamente, um sono profundo entre a vida e a morte.

— E o que ouve a Rainha do Baralho? – perguntei

— A pobre Esther morreu, havia usado demais os poderes de Copas, desrespeitou as leis da magia. — explicou Chapeleiro

— “Magia sempre vem com um preço.”— disse a Lebre.

— O preço pago por Esther, foi sua própria alma. No lugar dela uma coisa horrível ficou em seu corpo, uma mulher horrenda.

— “CORTEM-LHE A CABEÇAAAA!!!” – gritou a Lebre. Um frio subiu pela minha espinha.

— Como assim? O que ficou no corpo de Esther? – perguntei

— Ela usou tanto o poder de Copas que se tornou sua Rainha, a pobre Esther havia se tornado A Rainha dos Corações, A Amaldiçoada, A Vermelha, A Sem Coração, A Que Não Morre. – falou Chapeleiro, à sombra de seus olhos escureceu.

— Por ser a Rainha dos Corações, ela sobreviveu. Mas sem um, ela não sentia mais nada. — explicou Dormidongo.

— Cortem, cortem CORTEEEM!!! – Repetiu a Lebre cortando tudo pelo caminho

— “Cortem-lhe a Cabeça!” – disse o Chapeleiro com os olhos vidrados. – A Rainha de Copas ordenou que cortassem a cabeça de todos aqueles que não a seguisse. Foi uma boa desculpa, sabe.

— Pra que? – estava apavorada, assustada, com aquela história terrível.

— Ela não possuía um coração Alice, não entende? A Rainha Vermelha ficou com sede de sangue e fome do que ela não possuía – falou ele com os olhos esbugalhados.

— Eu tenho que ir! – disse me retirando da mesa, não podia ficar mais naquele lugar horrível. – Preciso voltar pra casa. — levantei-me tão rápido que esbarrei a mão na xícara do Chapeleiro que caiu no chão.

— Espere Alice! – disse Dormidongo e Chapeleiro, mas eu já estava longe, estava me afastando cada vez mais do campo.

— Haahahaa! Coortem! – gritou a Lebre e eu já esperava o que vinha em seguida, me abaixei e no mesmo segundo um xícara passou em cima de minha cabeça e se estilhaçou na árvore a minha frente.

— Aaah Alice. – Não era de ambos os loucos, era uma voz tranquila e misteriosa. – A Rainha de Copas não lhe fará mal algum garota.

— Quem está aí? – disse levando a mão ao bolso do vestido onde havia uma faca escondida desde...

— Não irá precisar disso minha cara. – era um gato encima de uma árvore... Ou melhor, a cabeça de um gato. – Ela morreu. – seu rabo era felpudo e quando passou em frente à sua cabeça o resto de seu corpo apareceu.

— O que? Co-como? – perguntei

— Se apaixonou. – ele flutuou ate chegar próximo ao meu rosto. – Um amor verdadeiro a tornou a doce Esther de novo. Contudo, ela não aguentou ver o que fez... Então se matou.

— As varias faces de Esther! — comentou Chapeleiro.

— Uma doce garota, mas sem destino, sem seu eu próprio. Pobre Esther — comentou o Gato.

— Tudo aquilo acabou. O Reino foi deixado para cinco pessoas, seus descendentes. Dois irmãos, que cuidam do lado preto e do lado branco do tabuleiro. Uma mulher, cuidando da divisão de copas. Dois príncipes que cuidam das divisões de Espadas e Árvores. – disse o Chapeleiro atrás de mim. – Esperamos que eles salvem o Reino. Apenas eles podem lhe dizer como voltar pra casa.

— Se é assim, me leve até eles. – afirmei ao Gato e ao Chapeleiro. — Agora!