Mundo Descolorido
4 Capítulo 3
Notas iniciais

Sábado [7:21]
Acordei-me com um livro na mão. O que estava lendo antes de cair no sono. Olhei o relógio, e fui para o banheiro tomar banho. Em seguida fui comer. Minha mãe estava sentada em uma poltrona assistindo TV.
– Bom dia mãe. Não vai trabalhar? – Eu disse enquanto tomava café.
– Bom dia Lucy. Vou sim, já já eu vou. – Respondeu.
Talvez eu devesse contar a ela agora sobre o bullying... Não, acho melhor não...
– Então tá. – Disse.
Após terminar de tomar café, fui para meu quarto.
O que posso dizer do meu quarto? Bem, ele é o meu mundo. Tem pôster de bandas por todo lado, uma cama desarrumada, uma mesa para fazer minhas tarefas e um guarda-roupas. Nada em especial.
Peguei minha mochila e fui fazer a lição.
Após alguns minutos com “a cara nos livros”, eu finalmente terminei de fazer a lição de casa.
[13:45]
Estava deitada, lendo um livro, quando olho para o relógio:
– Oh meu Deus! O Matt, esqueci completamente que nós iriamos sair! – Disse correndo para o banheiro.
Faz tanto tempo que eu não saio com alguém que até acabei esquecendo...
Após o banho, peguei meu celular e fui até o parque.
[14:15]
Lá estava o Matt. Sentado em um banco procurando algo ou alguém, provavelmente eu.
– Olá Matt. – Disse sentando ao lado do mesmo.
– Olá. Achei que não fosse vir... – Disse ele, parecia envergonhado.
– Desculpe-me. Acabei perdendo a hora. – Disse. Nós rimos.
Quando falo com o Matt, parece que ele já é um amigo antigo.
– Então, o que vamos fazer? – Perguntei.
– Sinceramente, não sei. – Respondeu. Nós rimos novamente.
– Você gosta de Rock, ou metalcore...? – Perguntei tentando puxar assunto.
– Bem, eu... – Ele estava tentando responder quando eu o interrompi.
– Oh não, não me diga que você é um daqueles idiotas que acha Rock coisa do Satan... – Eu disse. Ele riu.
– Não. Na verdade, eu até curto. – Disse ele.
Depois de alguns minutinhos conversando sobre bandas, eu falei:
– Vamos passar trote?
– Sim! – Respondeu. Parecia alegre com a ideia.
Liguei para um número qualquer:
– Alô. – Disse alguém do outro lado da linha.
– Alô. Você trabalha com roupas? – Perguntei.
– Não. – Respondeu.
– Ah, então você trabalha pelado? – Disse. A pessoa desligou na minha cara e nós caímos na gargalhada.
– Você é a melhor, Lucy. – Disse Matt.
– Eu sei disso. – Falei. Voltamos a rir.
Depois de passar trote, Matt pediu para que eu lhe contasse algumas piadas:
– Havia duas loiras em um lugar bem escuro, uma delas disse: “Nossa, como está escuro aqui, não é?” E a outra respondeu: “Não sei, não estou vendo nada.” – Disse. Matt riu.
– Acho que vou morrer de tanto rir. – Disse ele.
– Você é muito retardado Matt, no bom sentido claro. Você ri de tudo! – Falei.
– É que você me faz rir. Desde que você chegou não paro de rir das coisas que você fala, você é muito engraçada. – Falou.
– E no entanto estou triste. – Disse.
– Como pode estar triste? Nem parece que está triste! – Disse Matt.
– Ninguém vê as lágrimas de um palhaço, não é? – Falei.
O silêncio reinou por um minuto.
– Desculpe-me. Não sabia que estava triste. – Disse ele.
– Tudo bem. Ninguém vê que estou triste, já acostumei. – Eu disse.
– Mas porque está assim? – Perguntou-me.
– Estou triste com tudo. Eu sofro bullying desde os meus 13 anos, me automutilo desde os 14. E ninguém parece se importar. Você deve estar se perguntando, “Porque não pedi ajuda a Deus?”, pedir mais? Eu já pedi tanto a ele, e ele nunca me atendeu. Já estou cheia de me sentir vazia. As vezes sinto como se estivesse presa no meu próprio mundo. Tudo que eu quero é alguém que me perceba, estou cansada de me sentir invisível. Por isso falo com você Matt, talvez você seja o único que consiga me enxergar. – Disse.
– Ei, eu sempre vou estar aqui quando precisar. – Disse Matt.
– Era tudo que eu precisava ouvir. – Eu disse enquanto o abraçava. – Obrigada.
Depois de contar tudo ao Matt, me despedi dele e voltei para casa.
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