Eu o enxerguei de longe, sentado á beira do prédio como uma gárgula,

seu corpo nu exibia cicatrizes e músculos inchados. Rastreou sua vitima com os olhos estreitados; se pôs em pé, uma postura invejável por qualquer bailarino, se atirou suavemente da borda, despencando em uma queda livre de 70 metros de altura, um mergulho perfeito, afastou os braços, abrindo-os de forma rígida. Duas frechas rasgaram-se como aberturas em suas costas, de onde surgiram duas belas asas negras de dois metros de comprimento. Pairou

sobre o ar como um papel atirado de muito alto, pousou sobre o corpo do homem que andava distraidamente pela rua, fincou suas presas no pescoço do coitado. Minha mãe abaixou a cortina, cobrindo o único buraco que nos permitia ver o que acontecia lá fora, me afastou do local não permitindo que assistisse a cena; Mas não conseguiu evitar de escutar os gritos de socorro daquele que estava sendo morto.

Passei o cobertor por meus ombros me aconchegando na “fofura” fria do pano, aproveitei que mamãe estava na cozinha preparando a sopa e liguei a TV, ela nos impede de ver as noticias, para nos proteger do que o mundo se tornou.

“Seja bem vindo ao seu canal de noticias TSM” Disse Tomas Hederick, o homem careca e barbudo que apresenta toda noite o jornal da TSM (TV Subterrânea mundial), após o caos os humanos tiveram de se esconder, alguns que desceram para o subterrâneo construíram a TSM para ainda nos manter informados, uma rede com cabos subterrâneos secreta dos humanos.

“75 caídos foram mortos hoje na fronteira da entrada da terra subterrânea, não houve nenhuma morte humana, a equipe de inteligência trabalha em uma possível expedição no paralelo superior e em armas especificas; Foi descartada a ideia de uso de bombas atômicas nas cidades completamente tomadas por caídos” Meu irmão tropeçou no cabo alimentador de energia, a TV desligou, me olhou com cara de choro, Diego havia sido adotado por mamãe após o começo da era Apocalíptica, como apelidaram a nova era em que vivemos, tinha pouco mais que 4 anos, cabelos escuros que caiam sobre seus ombros, devia ter descendência asiática, seus olhos eram puxados. Diego correu e me abraçou.

-Desculpa mana- Disse com um beicinho.

-Tudo bem- Deixei que se aconchegasse dentro do cobertor comigo, não me estressei, pôs sabia que era melhor ter desligado do que minha mãe ter me pego assistindo as noticias.

Um estrondo repentino atingiu o chão a cima de nós, as lâmpadas improvisadas no teto balançaram, Diego apertou o abraço como se estivesse verificando se eu ainda estava, minha mãe entrou no quarto com duas tigelas cheias de sopa. Uma mulher com rugas e marcas de lutas em sua face, os olhos eram caídos de forma chorosa, o corpo magro, deve medir 1,60 de altura, tem cabelos louros como os meus, porém os seus são mais ondulados, e maltratados, esta é minha mãe. Apesar de sua aparência fraca, Célia é guerreira, e vem nos protegendo desde a invasão dos caídos. Entregou-me as duas tigelas, queimei meu dedo, então as posicionei no chão para poder sacudi-lo e leva-lo a boca.

-Cuidado Dora- Disse a min- Acabei de tirar do fogão.

-E agora que a senhora avisa?-

-Isto é sopa mãe?- Diego se desprendeu de mim para chegar até sua tigela.

-Sim, mas está quente-

-Não me diga- Coloquei ironicamente. Mas um estrondo provocou um tremor de pelo menos 2 minutos em nossa residência escondida, durante o tempo, observei os movimentos formados na sopa, as ondulações provocadas pelo tremor.

-O que acha que está acontecendo?-

-Não sei minha filha, mas não se preocupe com isto, tome sua sopa- empurrou uma colherada em minha boca, já não estava quente, não era das melhores pôs não tínhamos mais acesso a ingredientes como tínhamos antes, porém nestes tempos nada podemos negar, permiti deixar o liquido descer por minha garganta, esquentando minha barriga quando atingiu meu estômago. Tomei posse da tigela, deixando-a cuidar de Diego, em alguns minutos já havíamos esgotado a sopa, deixando apenas o resto que havia na panela para o café da manhã.

A noite demorou a vir, quando chegou já não sentia mais sono. Fui até o quarto de minha mãe, através de uma abertura na porta verifiquei se estava mesmo dormindo, embrulhada em uma manta azul, dormia profundamente, aproveitei a deixa. Peguei em minha gaveta meu moletom preto, troquei as pantufas pelos coturnos, pus uma camisa preta, com mangas que ultrapassavam minhas mãos por isso as encolhi até os cotovelos, amarrei meus cabelos loiros e os escondi no capuz do moletom. Joguei duas maçãs e em minha bolsa, uma mochila feita para escalar ou realizar outros tipos de aventuras. Segurei a cortina com uma das mãos enquanto saltava para fora pelo buraco com quase 1 metro de comprimento que chamávamos de janela.

Olhei para trás enquanto caminhava, minha casa não ficava totalmente no subterrâneo como de algumas outras poucas pessoas que também se arriscavam em tentar uma vida independente apenas com sua família. 35 centímetros de nosso teto ficava a mostra, por isso tínhamos o privilégio de ter uma janela (um buraco feito nesta parte amostra). Ao nosso redor imensos prédios circundavam as ruas. Caminhei algumas quadras por becos e sombras, as roupas e a mochila completamente pretas aumentavam a dificuldade de ser vista.

Parei 15 quadras de casa, algumas noites comecei á ter constantes ataques de insônia, talvez seja pela quantidade de horas presa, ou pela depressão que insisti em espreitar-se em meu peito. Então decidi fugir, e andar uma quadra a mais toda noite. Trago em minha bolsa, acessórios e equipamentos, saqueando farmácias, lojas, bares entre outros estabelecimentos, passo minhas noites.

Cheguei ao novo quarteirão da noite, parei no meio da rua. Deixei meus pensamentos sessarem, concentrei-me na lua, no vento frio que soprava meus cabelos acariciando minhas bochechas, abri meus braços, fui tomada pelo clima da noite calma, por um momento senti-me transportada para um lugar de paz e sossego, lembrando-me das noites que minha mãe e eu deitávamos nas calçadas alheias, lembrei-me de uma noite, alguns flashes de uma conversa, então um estrondo, presas e por fim de asas. Abri meus olhos assustada, o arrepio provocado pela lembrança havia se chocado com os pelos de meu braço, meus olhos se mexeram rapidamente de um lado para o outro se assegurando que não havia ninguém ali, demorou alguns minutos até que controla-se a respiração, não podia permanecer em um lugar como aquele parada por muito tempo, ainda me sinto mal, sinto saudades, e o aperto no peito insiste em aparecer em momentos como esse, mas sei também que não posso me render a tais sentimentos, por Diego!. Ousei a me mexer, apanhei a bolça no chão e a joguei em minhas costas, com passos lentos caminhei pela rua rodando meu campo de visão para analisar o que poderia ocupar minha noite de roubo, logo na esquina havia restos de uma construção, aparentemente uma sorveteria não terminada; do outro lado da rua três casas iguais ocupavam o local, uma delas tinha muros caídos, e as outras possuíam partes quebradas; ao olhar para esquerda novamente, dei de vista com uma igreja, marrom e intacta, me permiti parar, xingando-a em meus pensamentos, estava tão lotada com a raiva, que só percebi depois que havia apanhado uma pedra e a enrolava em minhas mãos, parte de min queria atira-la, porém, parte de mim hesitou, deixei-a cair e prossegui. O que mais me perturbava, é, onde estão aqueles que deviam nos proteger, hoje sinto como se tivesse tido dias em vão, porque o todo poderoso Deus, não desceu para impedir que caídos viessem do inferno e começassem a devorar almas humanas? As vezes pergunto a min mesma, se isto é carência de divindade, nunca fui daquelas garotas que possuem muita fé, porém nunca fui extrema ateia, muitas pessoas se tornaram ateus, por as pessoas que deviam representar o grandioso estarem estragando sua imagem aqui. Parei meus pensamentos quando avistei uma lojinha de conveniência no fim da esquina do lado direito “perfeito” pensei comigo mesma, corri até a frente, parando sobre a janela, estava suja, empoeirada, porém ainda inteira, não havia sinais de arrombamentos, nem de invasão “Perfeito”. Tirei um pé de cabra de minha mochila, encaixei entre a porta e a parede, após 3 investidas ela abriu; A luz lunar iluminou os grãos de poeira que voavam pelo local. O ambiente aparentava ser um bom local para comer nos “tempos limpos” quatro mesas se estendiam no meio da entrada, havia cadeiras caídas e derrubadas pelo recinto, imaginei pessoas comendo e brincando ali, imaginei também as mesmas correndo apavoradas para salvar suas vidas, era impossível pensar em coisas boas que não chamassem coisas ruins, algo brilhou em cima de uma mesa, cheguei mais perto, um carrinho de brinquedo!. O joguei em minha sacola, pensei no sorriso sapeca de meu irmão, embora fossem tempos difíceis, sua risada alegra a casa, afasta o olhar assombrado de minha mãe.

Devo ter permanecido 30 minutos saqueando o local, consegui: Potes de feijão, alguns doces, 40 Dólares, uma jaqueta de couro preta e algumas tralhas. Dei meia volta, afastando algumas cadeiras para poder passar, me virei para porta, estava começando a andar quando um vulto passou do lado de fora, o barulho de bater de asas me fez saltar para o chão, desliguei minha lanterna imediatamente, rastejei pelo piso empoeirado até alcançar a porta, cuidadosamente á fechei. Sentada a beira da janela, abri uma pequena frecha na cortina de pano com meus dedos, tentei controlar a respiração, não sei se eles escutam bem, mas se escutarem, acabarei sendo entregada pelo pânico, eu, Dora Peter, morta por respirar alto demais?. Não vi ninguém lá fora, parece que foi apenas um caído com insônia. Apanhei a bolsa, a joguei em minhas costas, olhei mais uma vez para o local e saí, do lado de fora a lua estava tão brilhante quanto o sol, “noite de lua cheia” pensei, realmente, olha-la me fazia bem, abro os meus braços em contemplação, fecho meus olhos, estou sentindo a brisa fresca das 3:00 horas, sinto uma batida, não é mais a brisa fresca que estou sentindo, agora é a dureza do asfalto, percebo que estou deitada sobre ele, há algo em minhas costas, minha cabeça dói, as imagens em minha visão dançam, algo me atingiu, demoro a aceitar o que está acontecendo, pelo peso sobre mim, há um caído em minhas costas, só percebo que está imobilizando minhas mãos quando tento mexe-las e não consigo, imaginei este momento várias vezes, o que faria se fosse atacada, mas agora, minha mente mal processa o que está acontecendo. Algo voou sobre aquele que estava em cima de min, minha visão ainda estava meio turva, mas pude detectar dois pares de asas se atracando a minha frente, me levantei com o apoio dos braços trêmulos, sobe minhas pernas ajoelhadas, passei a mão sobre certo ponto na minha cabeça, estava molhado, deduzi ser sangue, pela batida seca no chão, me sentia bêbada, olhei para o lado, o vulto dos dois caídos brigando á alguns metros á minha frente, puxei minha faca da bainha presa ao meu tornozelo, me concentrei, segurei firme a ponta, a balancei algumas vezes e atirei em direção aos dois, uma das duas formas explodiu em uma imensidão de carvão em pó, ao tocar o chão os grãos sumiam, o cheiro de enxofre me deu náuseas, agora, enxergando mais nitidamente, pude ver o segundo: com 2 metros de altura, cabelos curtos negros arrepiados, um corpo definido porém pálido como de um albino que parecia brilhar a luz da lua, olhos intensamente negros, face rigorosa e firme, estava nu, duas belas asas negras ocupavam suas costas, as penas pareciam brigar por espaço de tantas que haviam, no final de suas costas uma calda escamosa se estendia com pelo menos 1 metro de comprimento. Apanhou minha faca no chão e se virou para min, a cada um passo seu, eu recuava dois me arrastando no chão, tentei correr, mas ao virar, lá estava ele, me encarando, seu rosto apenas alguns centímetros do meu, o medo congelou cada parte minha, meu coração batia tão forte que era possível escuta-lo, será que ele estava o escutando? Olhando fixamente sua face, percebi que não há olhos negros intensos, na verdade não há olho nenhum! Apenas um vácuo vazio e profundo, era como olhar para um abismo sem fim.

Notas finais
Obrigado por ler até aqui, já temos o capitulo 2, que tal dar uma olhada?