Mundo Caído
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Três anos atrás nosso mundo mudou, eram 3 horas da madrugada quando os tremores começaram, duas crateras se abriram em Moscou na Rússia, paralelas, uma no chão e outra no céu. Centenas de cientistas começaram pesquisas com o que julgavam ser “fisicamente impossível”, após 3 meses nomearam as crateras, a de baixo nomearam Insernus e a de cima de Solon. No quarto mês tudo começou aquilo que chamamos de era apocalíptica; Milhares de homens com estranhas asas negras e imensas presas surgiram de Insernus, espalharam morte e caos causando a quase extinção da raça humana; mais tarde estes horrendos foram chamados de caídos. Aqueles que sobreviveram se esconderam no subterrâneo, uma boa parte montou uma sociedade subterrânea visando achar uma solução e salvar nossa espécie, minha mãe nos escondeu em um local que conheceu quando era pequena, um esconderijo secreto de sua turma da 5ª série, no caminho encontramos Diego, um garoto que adotamos. 6 meses atrás um caído salvou minha vida, isto me deixou um tanto confusa em relação a eles, a noite, quando saio para saquear, tenho a impressão que ele está ali, me vigiando o tempo todo. Durante estes 3 anos Insernus e Solon permanecem quietas sem nenhum movimento, a SHS (Sociedade Humana Subterrânea) irá começar uma expedição dentro de Solon, e anunciaram que estão precisando de voluntários nas idades de 10 á 17 anos, eu quero ir! Eu quero ir! Eu quero ir!
–Não Izadora Peter Normans- Disse minha mãe.
–Mas, mas, mas- Insisti perseguindo ela enquanto andava pela cozinha tirando a poeira dos moveis.
–Nada de “Mas”.
–Mãe eu tenho 16 anos, sou valente, sou perfeita para esta expedição.
–Dora- Ela jogou o pano de prato branco sobre o armário, se virou para mim, tirou o suor da testa, pôs as mãos na cintura e tomou folego, me preparei para seu sermão- Essa SHS não é nada confiável, eles iram mandar adolescentes, por serem mais puros que adultos vocês não iram como valentes garotos e sim como cobaias, vão lhe usar.
–Eu não me importo de ser usada- O duplo sentido tomou conta de minha mente, caí em uma gargalhada abafada, Célia revirou os olhos, entendi que era inútil continuar insistindo, frustrei, mas a expedição será mês que vem, tenho tempo de convencê-la ainda.
Ao entrar na sala vejo a luz vermelha refletida na cortina que tampa a janela, mordo meu lábio para controlar minha ansiedade, embora a vontade seja grande, não posso sair durante o dia, minha mãe sabe que saio, mas não aprova, porém também não impede, pôs acabo trazendo muitas coisas uteis de meus saques, mas não quer que Diego passe a querer ir também.
Atiro-me no sofá, retiro meu caderno de desenho de minha mochila, apanho uma grafite jogada no chão, me ponho a rabiscar um esboço de um novo desenho, não são muitas as formas de passar o tempo aqui, logo eu que sou uma garota animada, cheia de vontade de correr pular e sentir o sol, tenho que ficar presa dentro deste cubo!.
Abro meus olhos e então percebo que adormeci, encaro a cortina, a luz vermelha se foi, meu relógio de pulso marca 23:00. Entro em silêncio no quarto para não acordar meu irmão, olho meu reflexo no espelho em cima do criado mudo, só agora percebo que ainda estou de pijama, meus cabelos loiros bagunçados sobre meu rosto branco e pálido da ausência da luz do sol, meus olhos inchados.
“Bip” faz o barulho do alarme indicando que são 23h30min, hora de sair! Parada diante da janela faço meus últimos ajustes em minha bolsa, escalo a parede, me estreito pelo buraco e em segundos estou do lado de fora. Quando saio (somente quando saio), me sinto viva, por alguns instantes tudo parece ser igual á antigamente, me trás a sensação de conforto e paz, corro pela calçada, salto sobre os entulhos, mas um grito agudo me faz parar, me viro rapidamente, lágrimas se formam em meus olhos, vou em direção ao caído que se debate com minha mãe no chão.
–Pare! Solte-a! Pare!- Grito, mas de nada adianta, á cada grito de socorro dela meu coração aperta dentro do peito, vejo ele levantar sua garra ao alto de sua cabeça enquanto á suspende pelo pescoço, vejo seu olhar de insanidade, vejo o olhar dela de desespero, assisto suas garras atingirem o pescoço fino, e logo depois afundar suas presas no corpo magro de minha mãe, vejo tirar á vida dela. Algo quente escorre em minha bochecha, minhas mãos tremem, minhas pernas não se mexem, á alguns metros de mim, ele suga todo o sangue de minha mãe, eu não posso fazer nada, nada para impedir! Há 1 milhão de pensamentos em minha cabeça agora me dizendo o que fazer, mas não consigo fazer nada, parece que a qualquer momento irei explodir, o que acabou de acontecer aqui!?
–Mamãe- O grito de Diego me desperta.
–Não, não, Diego “shhhh”- Repito enquanto tento tirar a atenção do monstro de meu irmão desesperadamente para mim. Paraliso ao ver a criatura voar sobre o corpo pequeno do garoto, escuto o estalo de seus ossos quebrando, não processo o que aconteceu, não sinto nada, não consigo sentir nada, meus pensamentos se congelam nas cenas que acabo de presenciar, caio sobre meus joelhos, há centenas de imagens agora em minha cabeça, os pensamentos são tantos que mal me ouço gritando, tapo meus ouvidos com força para não escutar o que minha própria cabeça tentar me falar “ Mamãe e Diego estão mortos” ela diz. Ouço um grunhido, tento enxergar algo, mas as lágrimas tomaram conta de mim e embaçam minha visão, vejo o esboço do caído se aproximando de mim, permaneço parada chorando, se minha mãe se foi, se meu irmão se foi, se todo o meu mundo com amigos e escola se foram, eu prefiro ir também, fecho os meus olhos desejando minha morte, sinto a respiração do assassino se aproximar da minha, lembro-me de minha ultima noite nos tempos limpos, eu e Célia deitadas na calçada, rindo e contando as estrelas, senti meus lábios se abrindo em um simpático sorriso, se minha morte chegou, prefiro morrer sorrindo.
Ainda de olhos fechados, percebo que meus pés balançam sobre o “nada”, não sinto mais a dureza do chão nem a respiração do caído, lentamente abro meus olhos, embaixo de mim a vista de Manhattan ao que julgo ser 67 metros de altura no mínimo , a ventania fria e a tontura provocam sono em mim, além disso, me sinto embriagada, sinto que alguém está com os braços entrelaçados em minha cintura firmemente, deslizo minhas palmas por estes braços frios e firmes, me aconchego e instantaneamente durmo.
Acordo com a sensação das folhas que atingem meu corpo.
–Mãe?! Mãe?!- Chamo na esperança de que tudo tenha sido um sonho, sento-me, olho ao meu redor esperando que veja Célia saindo de trás de algo com aquele mesmo sorriso simpático e me abrace para me confortar, mas não acontece. Estou em uma caverna, a 7 metros á minha direita está sua entrada, ampla e clareada, lá em baixo enxergo os pinheiros formando um tapete verde musgo, não reconheço o local, sinto o choro vindo, não estou em casa, não foi um sonho, caio em lágrimas e gritos que não amenizam em nada a dor em meu peito esquerdo, grito por minha mãe e Diego sabendo que não responderam; Rebato por reflexo uma mão que encosta meu ombro, me arrasto como posso para longe do homem nu, seguro uma pedra afiada que acho no chão em defesa, mas estou tremendo tanto que devo parecer mais cômica do que ameaçadora.
–Quem é você- Grito, ficamos nos encarando por minutos, ele tentou se aproximar, cerrei os dentes e fiz uma investida no vento que o fez recuar um passo- Me responda! Que lugar é esse?!- Aponto a pedra com mais rigidez.
–Eu não vou lhe machucar- Disse, uma voz suave porém grossa, algo que não consigo descrever.
–Onde estou e quem é você?!.
–Está segura agora- Insistiu aproximando sua mão.
–Responde a droga da pergunta!- Investi contra seu braço, ficamos mais alguns minutos nos encarando em silêncio, logo percebo a verdadeira pergunta que devo fazer – O que é você?!
–Sou um caído- Se entregou, um arrepio tomou conta do meu corpo, brigo com minha cabeça para não pensar no caído da noite anterior, quando retorno meu olhar vejo que ele percebeu meu atordoamento, seus olhos caíram- Mas eu te salvei, não quero te machucar.
–Por quê?!- Gritei caídos são criaturas sem alma nem coração que agem apenas pelo extinto de matar, por que algum deles não me mataria?- Você me vigia toda noite, me persegue você atraiu aquela coisa, você fez minha mãe ser morta- Só quando ele me abraçou que percebi que chorava e gritava, resisti, mas soltei a pedra que segurava, seu peito era frio e forte, deixei minha cabeça deitar em seu ombro, senti o todo o peso de meus ombros desabarem no corpo gelado dele- A culpa é minha- Chorei.
–Não- O modo como falava,, deixava claro que estava mais nervoso que eu- Você não tem culpa.
Me afasto e olho em seus olhos, olhos! Ele possui olhos! Lindos olhos negros e brilhantes, olha-los é como encarar um caminho escuro sem fim, um cala frio passa por meu corpo e desvia meu olhar.
–Não encare meus olhos- Ele diz com a cabeça baixa.
–Por quê?
–Você é linda- Corei, não consigo responder a isto.-Já volto- Correu e saltou abrindo suas imensas asas negras, o observei se afastar voando sobre a floresta lá embaixo.
Não sei que horas são, não sei quantas horas se passaram, o chão em que estou deitada já se tornou confortável, as gotas que caem da estalactite é o único barulho aqui dentro, meu corpo está paralisado, como se meus músculos estivessem dormindo, sinto cada musculo meu como se pesassem uma tonelada.
Escutei um bater de asas atrás de mim, pensei em virar, a preguiça não deixou, ele sentou na minha frente, me jogou algo, corri meus olhos para o pacote dourado, chocolate! Desembrulhei o pacote, mordi o primeiro pedaço e senti o doce derreter na minha boca.
–Você sempre geme quando come chocolate?- Perguntou enquanto preparava uma fogueira.
–O que?- E mais uma vez corei.- É que faz tanto tempo que não comia um desses- Só então percebi que agora ele usava calças jeans surradas- Roupa?
–Achei que ficaria mais confortável se estivesse vestido- Confortável para mim? Ele está se preocupando comigo?.
–Qual seu nome?
–Meu nome é Azazel.
–Anzel... Oque está acontecendo?- Errei o nome de propósito, me olhou, mas ignorou e voltou a mexer nos gravetos, fiquei em silêncio.
–Eu te responderia, se soubesse.
–Como assim?- Perguntei em tom baixo, com medo de irrita-lo.
–Certo dia estávamos no mundo inferior, acorrentados, sendo obrigados a fazer e vivenciar coisas horrendas- Disse encarando o fogo que acabava de se formar, um olhar distante, como se lembrasse de um tempo cheio de dor- E então, fomos expulsos, um portal se abriu e nos jogou para fora, meus irmãos enlouqueceram com a liberdade, muitos se acostumaram com a vida lá, reproduziram o que aprenderam no seu mundo.
–Aprenderam?
–Nós já fomos anjos- Disse fazendo parecer que era algo óbvio que eu deveria saber- fazíamos o bem para nosso pai e vocês, dita a maior cria dele, não andávamos matando e arrancando cabeças por ai, estes costumes apareçam graças ao lugar para onde nos enviaram, a culpa de sermos uma ameaça a vocês, é do próprio criador- Um silêncio tomou conta da caverna, eu realmente nunca havia parado para pensar por esse lado, que estes mesmos que hoje tanto tememos, são iguais a aqueles por quem chamamos. Quando acabei o pacote de chocolate, o joguei no fogo, respirei fundo e por fim tomei coragem.
–Por que você foi mandado para lá?- Perguntei em tom firme.
–Meu pecado, foi se apaixonar, apenas isto.
–E o que vai fazer comigo?- Mesmo me mantendo firme, ele percebeu o medo em minha voz.
–Nada, se quiser pode ir embora, mas agora, principalmente agora, acho que o mais seguro seria ficar aqui comigo, posso lhe proteger.
–Por que quer me proteger?
–Não sei se foi seus olhos, ou a forma como sorri a noite ao se encontrar com a lua, mas a desejo perto de mim, não quero ficar só.- E mais uma vez, lá estava eu corando as bochechas para aquele anjo caído, parte de mim sentiu pena, como algo tão perigoso pode parecer tão frágil enquanto fala? Sacudi minha cabeça para voltar a realidade, estou diante de um caído que pode muito bem está realizando um joguinho para me matar assim que eu dormir, mas pensando bem... Se ele quisesse mesmo me matar, já teria matado. Olho mais uma vez para Anzel, seu olhar está perdido lá fora na floresta, parece lembrar de algo, imagino pelo o que deve ter passado no mundo lá embaixo, mesmo com um corpo e uma face rigorosa, aparenta ser um homem doce, carente... Homem!
–Quantos anos você tem?- Pergunto.
–há... como lá embaixo, o tempo não passa, diria que tenho 18- Arregalo os olhos.
–Só 18?
–Sim, mas já vivi muito mais do que isso- Assinto, por alguns minutos ficamos em silêncio, escuto apenas o queimar dos gravetos na fogueira, penso em minha mãe e meu irmão, só então chego a uma conclusão. Enxugo algumas lágrimas que se formaram, fico de pé para falar, Anzel me observa assustado.
–Ok, agora que não tenho ninguém, creio que a melhor opção é ficar aqui com você, mas vou ditar algumas regras okay?- Ele acenou- Nada de tentar me lanchar, nada de mistérios e quando eu perguntar algo tem que responder entendido?.
–Oque significa “ok”?
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