Mulligrubs

1 Mulligrubs


Notas iniciais
Espero que gostem. Boa leitura. :)

Eleanor observou o movimento que as ondas do mar faziam e tragou mais uma vez aquela fumaça tóxica, apreciando a sensação da nicotina impregnando seus pulmões. Fumar com certeza a acalmava, mesmo que em uma escala menor que o álcool.

Só para comprovar, ela levou a garrava cheia pela metade de uma mistura de Rum e Vodka que segurava e sorveu um gole. Seus lábios finos e arroxeados se contorceram em um sorriso torto ao sentir aquela costumeira queimação na garganta.

Era assim que a bebida reagia nela, deixava um caminho de fogo por onde passava e no processo dissolvia qualquer pensamento coerente o bastante para deixá-la deprimida.

Ela recostou o ombro direito numa placa vermelho gritante que dizia em letras garrafais algo sobre tubarões tornarem a praia imprópria para banho. Os olhos cinzentos (tão cinzentos quanto o céu naquele momento) voltaram sua atenção para a água do mar, onde ondas cada vez maiores quebravam com violência nos rochedos. Tudo no cenário da praia parecia transmitir parte de sua angústia.

Ela soltou uma baforada do cigarro e tomou mais um gole da bebida. Vício duplo. Ela ainda se lembrava de quando resolvera testar aquela combinação fatal.

Era um dia tão sombrio e chuvoso quanto aquele, ela voltava da escola mais cedo do que o previsto depois de uma crise de choro que assustou até mesmo a professora, uma mulher sempre tão severa e contida. Ela não quis ligar para nenhum de seus pais, para que viessem buscá-la, e após uma conversa curta com a diretora, foi permitido que ela voltasse para casa sozinha. Caminhando pelas ruas silenciosas da sua cidade natal, Eleanor pensava sobre sua tragédia.

Seu irmão falecera há somente algumas semanas e ela ainda estava aprendendo a lidar com isso. Ela vira a vida se esvair dos olhos (idênticos aos seus) de Edgar naquele acidente perturbador e após isso nenhuma de suas noites foram tranquilas.

Ainda era difícil para ela e seus pais aceitarem a tão dolorosa perda, mas as marcas roxas cobrindo seus braços e pernas e os terrores noturnos pareciam um lembrete constante de que tudo fora bastante real e o pequeno Edgar não voltaria.

Sentindo sua cabeça latejar, Eleanor decidiu que um analgésico não seria ruim, e parou em uma loja de conveniências há duas quadras de sua casa. Passando distraidamente pelas divisórias abarrotadas, um barulho muito parecido com vidro partindo chamou sua atenção.

Movida pela simples curiosidade, caminhou em direção ao som, que a levou até o freezer onde uma mulher tentava equilibrar nos braços finos um engradado de cerveja e praguejava baixinho pela bagunça do chão molhado de cerveja e cacos de vidro.

Eleanor observou a mulher empurrar o vidro quebrado com a ponta do sapato e abrir a porta do freezer novamente para pegar uma garrafa de Vodka, fechando-a logo em seguida.

A loira girou o corpo num movimento lento de seus calcanhares, mas parou assim que viu Eleanor olhando para ela. A menina ficou envergonhada de ser pega no flagra. Antes que Eleanor pudesse desviar o olhar e seguir seu caminho, a mulher sorriu.

— Oi – disse a loira, os lábios rosados repuxados num sorriso amigável.

— Olá – Eleanor murmurou, retribuindo minimamente o sorriso.

— Precisa que alguém compre bebida para você? Eu posso fazer isso.

A garota ficou em silêncio por um segundo, surpresa pela pergunta. Bebida alcoólica? Era algo com que ela poderia lidar? Não era do tipo que gostava de beber, mas todos sempre diziam que o álcool acalmava, ajudava esquecer os problemas. Talvez fosse uma boa maneira de não pensar em Edgar, nos olhos marejados da mãe e na expressão vazia do pai.

Assim, focando somente nos supostos benefícios que o álcool traria – e ignorando totalmente o que poderia dar errado –, Eleanor assentiu para a mulher loira a sua frente.

A loira virou-se mais uma vez para o freezer e abriu a porta usando a lateral do corpo para mantê-la aberta.

— Então, o que vai querer? – perguntou distraidamente, analisando as garrafas enfileiradas por tipo. – Cerveja, Vodka, vinho, rum..?

— Ahnn... Vinho?

A mulher virou a cabeça para ela, arqueando a sobrancelha.

— Você não faz ideia do que escolher, não é?

Eleanor balançou a cabeça em negação.

— Alguma sugestão? – a adolescente sentiu-se um pouco estúpida.

A loira soltou um risinho.

— Bem, aí depende do que você quer. Esquecer, rir, descobrir a sensação de tomar um porre.

Eleanor franziu as sobrancelhas, confusa.

— Isso faz diferença?

— Uh, bem, já que você não faz ideia do que pedir, eu recomendo Vodka.

Após passarem os produtos no caixa, Eleanor ajudou a mulher com a porta da loja, pois os braços da loira estavam ocupados com a sacola que continha suas compras.

— Obrigada – disse a mulher.

— Disponha. E obrigada também, sabe... Pela bebida.

A loira deu de ombros.

— Não para isso. Alguém fez o mesmo por mim quando eu tinha a sua idade, então acho que foi minha vez de retribuir o favor – Eleanor achou engraçado alguém que não aparentava mais que vinte e três anos falar aquilo, e mordeu os lábios para evitar um sorriso. – Gosto de pensar que é como um ciclo, ou um rito de passagem... – O olhar da mulher ficou vago, e ela deu um sorrisinho leve, então voltou a focar na garota a sua frente. – Que seja. Meu nome é Amy Rose, e o seu?

— Eleanor Allen.

Amy balançou a cabeça em um leve aceno, os cabelos longos e loiros ondulando ao redor de seus ombros com o movimento.

— Bem, a gente se vê por aí, Eleanor.

Com isso, Amy Rose caminhou até um carro vermelho estacionado do outro lado da rua, entrou no mesmo e com um ultimo aceno partiu, deixando Eleanor parada no mesmo lugar, segurando uma sacola de papel contendo a garrafa de Vodka e as aspirinas (que ela tinha certeza de que seriam úteis no dia seguinte).

Ela encontrou Amy dois dias depois, na mesma loja de conveniências (a mais organizada da pequena cidade, Fallen). Ela entrara lá para comprar mais aspirinas, ainda incerta se o efeito da Vodka tinha passado e viu Amy comendo cookies e comprando mais cerveja. Deus, como aquela mulher bebia!

— Você bebe sempre sozinha? – perguntou Eleanor para ela, tentando entender se era possível um corpo tão pequeno como o de Amy consumir todo aquele álcool e ela ainda parecer disposta.

— Não é tão deprimente quanto parece – respondeu Amy com um sorrisinho (ela era muito dada a sorrisinhos).

Eleanor tomou aquilo como um sim.

Amy olhou para ela como se ponderasse algo.

— Quer ir a um lugar comigo? – perguntou sorrindo.

Meia hora depois, elas estavam sentadas na areia da melhor parte da praia de Fallen. O que a tornava tão boa, segundo Amy, era o fato daquela região concentrar muitos tubarões e rochedos, e por isso a praia sempre estava deserta naquele ponto, não importava a hora, dia ou estação do ano.

Beberam em silêncio, apenas observando o movimento e brilho das ondas sob o entardecer de Fallen.

Quando Eleanor terminou sua terceira cerveja, Amy revirou sua bolsa lateral que carregava consigo até encontrar um pequeno bloco de notas de capa azul, uma caneta prata e um cigarro pela metade. Entregou os três objetos à Eleanor, que a olhou sem entender.

A loira ficou em silêncio por alguns segundos, então sorriu e começou a falar.

— Minha avó morreu há sete ou oito anos, não sei ao certo, eu nunca fui boa com o tempo. – Ela deu de ombros, gesto que Eleanor já achava característico dela. – Mas até o mês passado, meu avô ainda estava vivo. E, nesses sete ou oito anos de luto, ele costumava vir até essa mesma praia todos os dias ao entardecer. Ele bebia garrafas de rum como ele fazia quando era jovem e velejava com a vovó. – Os olhos de Amy estavam desfocados, como se ela estivesse perdida em lembranças. – Depois de esvaziá-las, ele escrevia mensagens e colocava dentro delas, e ao lacrá-las, as jogava no oceano. A vovó dizia que a Deusa dos Mares estregava as mensagens para os espíritos. Antes de morrer, vovô me disse que ele só não teve tempo suficiente para receber a resposta para o que ele enviava.

Amy fez uma pausa, e seus olhos verdes se encontraram com os cinzentos de Eleanor.

— Eu li no jornal sore o que aconteceu com você e sua família.

Eleanor suspirou.

— Eu devia esperar por isso, difícil encontrar quem não leu.

Mais um momento de silêncio, que foi quebrado por Amy.

— Você pode tentar, se quiser, Eleanor. Sabe, o pequeno ritual do meu avô. Talvez... Talvez a Deusa olhe para você e entregue suas mensagens.

Elas ainda mantinham contato visual quando Eleanor perguntou.

— Mas e o cigarro?

Amy sorriu pela primeira vez depois de todos aqueles minutos.

— Ah, é a minha pequena contribuição para essa bruxaria toda.

Notas finais
E então, o que achara,? Comentários são sempre bem vindos! :)
Eu tentei terminar o texto de uma forma mais leve. Deu certo?

Atenciosamente,
Helô.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!