Revolução: Grande transformação, mudança sensível de qualquer natureza, seja de modo progressivo, contínuo, seja de maneira repentina. Necessária.

Também o que mudou o mundo durante eras.

Eu não sou branquinha dos cabelos lisos. Eu não sou magra e sexualizada como as garotas da revista. Eu não sou o que ele pede para que eu seja. E tem outra coisa que eu também não sou: obrigada.

Foi com esse pensamento em mente que eu decidi terminar com o meu namorado, Harry, que me encarava atônito, não acreditando na minha capacidade de fazer coisa como essa. Bom, não vamos culpa-lo; eu também não acreditava em mim mesma.

Mas foi aos poucos que as palavras foram subindo e se instalando na minha garganta. Foi quando, na casa da mãe dele, ele me privou de comer o delicioso pudim que ela havia feito para a sobremesa porque eu estava gorda – e gorda, mesmo. Não vamos suavizar com o gordinha. Minha nível de ofendida não foi suave.

Foi quando ele disse que meus cabelos estavam altos demais e minha família concordou, dizendo que era coisa de gente que não se cuida. Ou então quando ele comprou uma base mais clarinha, de presente de aniversário, como um toque discreto que eu era escura demais – e, aparentemente, tinha marcas de espinhas que PRECISAVAM ser escondidas.

Cada mínima vez que ele me fez acreditar que eu precisava melhorar. Não só precisava, mas vivia em um mundo onde era possível nascer negro e se tornar branco. Um mundo onde isso era novidade em todas as bancas de cosméticos e revistas femininas, porque até a luz das câmeras eram fortes demais para que a pessoa fosse mais destacável – coisa que só mulher branca era. Tinham medo que não enxergassem o nariz da negra, só pode.

O motivo pelo qual as palavras ficaram presas na minha garganta durante todo esse tempo foi que eu acreditava em Harry. Meu querido Harry. E no que eu via. No que impunham. No que parecia a meta de todos. E se era a de todos, por que não era a minha?

Mas o motivo pelo qual explodi, terminando com Harry e radicalizando minha vida de uma vez, também foi porque eu comecei a acreditar em algo. Não foi em mim, porque eu mesma ainda estava chocada demais pelo que tinha acabado de fazer. No entanto, comecei a acreditar que uma pessoa daquelas não prestava.

O que abriu meus olhos foi outra coisa. Mas não vamos falar disso agora. Vamos começar do início do início. De como Harry era um babaca e em como minha vida girava em volta dele.

Suas seguintes palavras me acertaram em cheio, fazendo com o que meu pilar sensível fosse derrubado e as lágrimas começassem a cair junto com a minha dignidade e autoestima. Mas também provaram o argumento acima: ele se mostrou mais possível babaca.

Sério. Eu juro. Ele me disse apenas algumas frases:

— Você nunca irá encontrar alguém que te ame novamente se fizer isso. – Seus olhos estavam desesperados, os cantos da boca enrugados por tensão acumulada pela situação e sua respiração lenta. E nem foi a pior parte. A pior parte foi quando ele completou: — Você é gorda e ninguém gosta das gordas.

Doeu, em parte, porque era o Harry, o cara que eu amava (amo?). Em parte, porque eu não estava preparada ou bem construída para ouvir a verdade tão árdua na cara. E, finalmente, porque realmente era verdade.

As pessoas não gostam de gordos. Elas encaram, e mesmo quando não, ficam sem graça. Que também é um sinal de preconceito, já que está tentando lidar com a situação. Como se eu ser gorda automaticamente ganhasse um título acima da cabeça dizendo que não pode me tratar como um humano normal. Porque, óbvio. Gordos não são humanos. Eles comeram o humano que o hospedava.

Com o peito doendo, olhos lacrimejando e o coração na mão, reuni toda a força que havia no corpo e, com calma e elegância, pedi para que Harry se retirasse já da minha casa.

Ele saiu.

Mas doeu.

Não pensem que só porque eu reparei que ele era tóxico que tomei uma repulsa automática ou qualquer coisa que possa, magicamente, sumir com nossos quatro anos de relacionamento e juras de amor, com outros dois anos planejados. Ou com os sentimentos. Arrependimentos. Pensamentos. Costume.

Se isso existe, uau! Mas não foi comigo desta vez, colega.

Mas foi pensando em tudo isso, não conseguindo focar em mim e o meu orgulho, que liguei aos prantos para minha melhor amiga e contei as duas versões da história.

Também foi uma noite em que contei sobre a vez que ele me deu um tapa – "Sem querer, eu juro! Foi fora do meu controle!" –, as vezes que ele me ofendeu explicitamente e as vezes que ele não o tão descaradamente, contei sobre as manchas de batom em uma parte inusitada de sua cueca e das outras coisas que eu vinha guardado inconsciente e inocentemente.

Inconsciente, sim. Inocente também. Porque quando você acredita que algo está certo, que é comum, que pode ser aceito, você não vê o problema que realmente é. Você não compreende o que de errado está acontecendo. Mas aos poucos que você vai tomando consciência, você se toca o quanto tudo foi mais que um erro.

Foi um insulto.

Mas eu sabia que amanhã iria ouvir as vizinhas cochichando sobre a placa que estaria bem em cima da minha cabeça, junto aos meus cabelos crespos. Algo como:

"MULHER NEGRA, FEIA, GORDA.AGORA, SEM NAMORADO. ABANDONADA, PROVAVELMENTE."

Mas eu ainda não tinha o que era preciso para lidar com tudo isso. Com a mudança brusca que fiz em minha vida só pelo fato de retirar a cobra do calcanhar. Ainda teria que sugar o veneno, me cuidar pelo corte que as presas fizeram e sarar totalmente. Muitas etapas pela frente, aparentemente.

Mas quem diria que o primeiro passo seria tão libertador?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.