Mulher de Palavra [CcL 18]

1 Mulher de Palavra - Capítulo Único


Notas iniciais
Ficou curtinho (a maioria das minhas ones para o CcL são curtas) mas espero que gostem ^^
Beijos de Mel ^^

“Meus cordiais cumprimentos a todos os cidadãos de uma nação decadente.

Eu sou a Mulher de Palavra. E minha vida é dedicada à Verdade.

Serei direta: eu vou morrer.

Acreditem ou não, eu vou morrer em breve. Disponho de alguns fugazes minutos para escrever minhas últimas palavras, escolhê-las e selecioná-las com cuidado, como uma dona de casa separa grãos saudáveis das pedras em um saco de feijões. As palavras que desejo escrever aqui devem ser os melhores entre os melhores feijões; de que adianta doar a minha vida à Verdade se o meu único e sincero talento, a escrita, não marcar à ferro em brasa o meu legado?

Durante muitos meses conturbados, me escondi enquanto escrevia minhas cartas. Eu precisava apenas de um computador com IP protegido (presente antigo da pessoa que, há muito tempo, me ensinou a hackear), uma habilidade de escrita muito bem afiada e uma sombra de esperança espreitando no meu coração.

Minha primeira carta foi um simples poema, um pedido de socorro transformado em verso, e uma assinatura: Mulher de Palavra. Ainda lembro das linhas, que ocasionalmente saltam diante dos meus olhos quando preciso de inspiração em meio a um mar de desesperança.

‘Flor bela, flor minha

Flor da minha alegria

Teu semblante é cabisbaixo

Não podes florescer na sombra!

Até quando ficarás debaixo

Desse escuro que te assombra? ’

Postar um poema aparentemente composto de forma deliberada, mas com uma mensagem muito maior nas entrelinhas, em uma rede social popular em tempos de repressão, é como jogar um fósforo numa trilha de gasolina.

Tive que fugir muitas vezes e aplicar toda a astúcia que ainda me restava para continuar mantendo aqueles milhões de cidadãos ávidos por respostas sob a luz frágil e débil da esperança. Ora, eu sou a Mulher de Palavra. Não é do meu feitio abandonar qualquer coisa que eu faça pela metade.

Mas mulher tem mesmo é que ficar quietinha em casa, não atiçando uma revolta, certo? Sempre obediente, sempre submissa. Homem que pode opinar na política.

E esses homens não estão nem aí para a situação apocalíptica que nosso país vive, desde que possam continuar recebendo seus salários em suas contas bancárias e agredindo suas esposas para ‘descarregarem a raiva do governo’, sem ao menos saber o nome do atual presidente – ou ditador, como preferir – , apenas para terem algum assunto para falarem com seus amigos no bar às sextas-feiras ou com suas amantes às quartas.

Eu não me esforcei para encontrar os meios mais criativos possíveis de manter a população informada da Verdade para ser submissa.

Mulheres – não, não apenas as mulheres, mas também qualquer leitor sedento por mudanças, faminto por justiça, independentemente do gênero, cor, religião, opção sexual – eu vim aqui para escrever meu grande último conselho. Para, enfim, fazer a chama chegar no tanque de gasolina vertendo combustível e desencadear a tão esperada explosão.

Eu ouço o som dos helicópteros à distância. Eles estão perto. Preciso me apressar.

Meu testamento e meu último desejo é um só: unam-se. Lutem. As palavras são, de fato, maravilhosas; foram as minhas ferramentas de trabalho enquanto fui a Mulher de Palavra, e eu cuidava delas como tal. Mas elas mudaram suas mentes; agora, cabe a vocês mudarem seus corações – e o coração desse país.

A revolução está logo ali, pronta para ser explodida.

Essas são minhas últimas palavras. Essa carta, em breve, aparecerá não só por toda a internet, mas invadirá o sistema de televisão e qualquer outdoor eletrônico nas ruas, para os meus fiéis leitores insurgentes. Minha missão acaba aqui – enquanto a de vocês, só começou. Vivam em um mundo melhor, pelas suas próprias mãos.

As batidas na porta. O exército grita o meu nome de batismo, mas eu não sou ninguém além da Mulher de Palavra. Não me importo com uma bala alojada em meu crânio, desde que eu permaneça viva nas minhas palavras.

Ainda não atendi. Agora eles estão dando tiros ensurdecedores. Ah! Como é lindo o som da morte.

Mulher de Palavra”

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Querem bolo? Digam nos comentários!
Beijos de Mel ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!