Muito Bem Acompanhada
5 Ajuda Polêmica
Notas iniciais
— CAPÍTULO CINCO –
AJUDA POLÊMICA
Nos quinze minutos seguintes, tudo que se ouviu naquela sala foram as gargalhadas de Marlene. O rosto dela estava vermelho, ela tinha lágrimas nos olhos; mal conseguia respirar e se segurava, abraçando o próprio corpo por causa do seu estômago, que a essa altura já estava doendo de tanto rir.
E Severus assistiu aquela cena com descrença, apesar de ter sido até divertido improvisar aquela frase no final, quando ele mesmo não sabia o que o levou a investir contra Marlene daquela maneira. Na verdade ele sabia sim, mas talvez não fosse uma boa ideia dizer que, apesar do perfume enjoativo dela, ele foi traído pelos seus instintos e seu corpo reagiu naturalmente à proximidade; isso poderia assustá-la ainda mais, e por isso ele preferiu dizer que estava só sacaneando... Mas ainda assim, ela não deveria estar rindo daquele jeito, não era algo engraçado o que ele havia dito.
— Você ouviu o que eu disse? – Severus finalmente perguntou enquanto ela ainda se contorcia rindo. – Eu estava te sacaneando... – ele deu ênfase à palavra.
— É só isso? Mesmo? – Marlene o interrompeu, um sorriso abrindo-se em seu rosto enquanto ela tentava segurar o riso. – Quero dizer, você só estava fazendo aquilo tudo pra me... sacanear?
— Sim – ele disse cético. – Mas isso não é engraçado...
— Claro, claro – ela concordou, ainda rindo. – Mas é que... Sinceramente, você só estava me sacaneando? Mesmo?
A sobrancelha dele se ergueu.
— Por quê? – Severus limitou-se a perguntar.
Marlene então respirou fundo antes de conseguir responder:
— Porque foi muito bom ouvir aquilo – ela disse aliviada –, eu percebi que não era nada do que eu pensei...
— E você pensou que era o quê? – ele insistiu.
— É que teve uma hora que eu achei que você queria... Sei lá, que você realmente queria que eu... – ela ainda não tinha palavras. – Mas então você disse que não ia me beijar que só estava me sacaneando! — e começou a rir de novo, mas conseguiu concluir: – É verdade isso, não é?
— Claro – ele mentiu solenemente. – Eu só quis te dar um susto, considere desta forma.
— Susto... susto... – ela repetiu, e voltou a rir feliz; realmente era muito bom ouvir que tudo aquilo era mentira.
Severus percebeu que Marlene ainda não havia parado de rir.
— Precisa de uma Poção Calmante para se recompor, McKinnon? – ele perguntou, aquele riso já começava a se tornar irritante.
— Não, não, acho que já está tudo bem agora – Marlene respondeu com sinceridade, segurando o riso antes que a crise voltasse. – É... A poção já está pronta? – e apontou para o caldeirão.
— Quase – respondeu ele. – Questão de minutos.
Antes que o silêncio se instalasse entre eles, Emmeline voltou até a sala; a loira entrou aos pulos, animada para contar à amiga o que havia acontecido no campo:
— Lene! Lene! O Fenwick... – a voz dela falhou quando percebeu que a amiga tinha lágrimas nos olhos; então olhou feio para Severus e indagou a Marlene: – O que é que aconteceu? Por que você está chorando?
— Eu estava chorando de tanto rir! – Marlene respondeu tranquila, e diante da expressão incrédula da amiga, acrescentou: – Eu estava rindo! Mesmo! Eu tive um acesso de riso...
Emmeline não se convenceu; continuou olhando para os dois ali, como se esperasse uma explicação. Mas como ninguém se manifestou, ela mesma cortou o silêncio.
— Acho que já podemos ir então, não é? – ela indagou à amiga. – Eu quero passar na biblioteca antes do jantar...
Marlene olhou para Severus e foi ele quem respondeu por ela:
— Ainda não terminamos, Vance.
A loira o olhou incrédula.
— O quê? – ela indagou e pôs as mãos na cintura. – Como assim, ainda não acabou? Eu não estou entendendo! Por que isso está demorando tanto?
Marlene a interrompeu:
— Ah, Emme, você sabe que eu não tenho muito jeito com as poções e na verdade nem é muito tempo, só alguns minutos – ela olhou para Severus, pedindo respaldo: – Não é, Snape?
— Claro – ele concordou. – Apenas o tempo de envasar e entregar a Slughorn.
— Viu? – Marlene a indagou.
Emmeline sacudiu a cabeça em desaprovação; não sabia ainda o que estava acontecendo ali, mas então decidiu não esperar pela amiga.
— Desculpa, Lene, mas eu não posso esperar; a biblioteca já está fechando e eu preciso ver uns livros – ela comunicou. – Eu te vejo depois na sala comunal! – e deu meia volta, saindo a passos largos.
— Emme! – Marlene a chamou, em vão. – EMMELINE!
E quando ela fez menção de ir atrás da amiga, Severus a interrompeu:
— Não vá atrás dela – ele disse numa voz seca que soou quase como uma ordem.
Marlene voltou-se para ele, vendo-o colocar as poções nos frascos.
— Mas... mas ela é minha amiga, Snape! – replicou ela. – Minha melhor amiga! E eu não vou deixar que ela saia assim sem...
— Ela só está com ciúme – ele a interrompeu, impassível. – Uma boba...
Ela se retesou de repente, erguendo o queixo numa postura defensiva.
— Não fale assim dela! – ela gritou, os olhos de novo se estreitando perigosamente.
Severus percebeu que ela estava irritada outra vez, mas não deu importância.
— Calma – ele pediu e afirmou: – Você se descontrola muito fácil, McKinnon.
Marlene até chegou a abrir a boca e pensou em dizer alguma coisa para revidar, mas não fez isso; sabia que o que ele estava dizendo era a mais pura verdade. Ela respirou fundo para se acalmar e meio constrangida, disse:
— É verdade... – ela começou, dando um sorriso fino. – Várias pessoas já me disseram isso... Eu sempre fico nervosa por pouca coisa...
— Percebi... – ele disse irônico, antes de passar a Marlene o frasco com a poção dela. – Agora vamos entregar a Slughorn.
Ela nada respondeu, apenas assentiu com a cabeça, tomando o frasco para si. Enquanto eles andavam em silêncio até a sala de Slughorn, Marlene conseguiu perceber que as poções deles tinham cores levemente diferentes: a de Severus estava lilás, como o esperado, e a que ela tinha nas mãos estava mais escura, quase roxa. Diante do fato, ela parou antes que ele batesse na porta e se pronunciou:
— Snape?
— O quê? – ele se virou para ela.
— A minha poção... – ela apontou para o frasco – ... está meio esquisita...
Ele não demonstrou surpresa.
— Eu vi – disse ele. – Raízes demais...
— E agora? – ela perguntou preocupada.
— Isso não é problema – ele assegurou, tomando a poção dela para si.
O momento seguinte passou como um borrão, Severus agiu muito rápido; Marlene sentiu sem perceber que era a poção dele que estava em suas mãos e não entendeu porque ele tinha feito aquilo. Ela até tentou chamá-lo, mas a palavra ficou engasgada quando a porta se abriu e o professor surgiu por detrás dela.
— Ora ora, o que vocês dois ainda fazem por aqui? – ele sorriu e disse fanfarrão: – Vamos todos nos atrasar para o jantar! – e seu olhar recaiu sobre Marlene.
Ela continuou muda e Severus assumiu a palavra.
— Estávamos trabalhando na Poção do Morto-Vivo, professor – ele respondeu. – Queríamos entregar ao senhor ainda hoje.
— E vocês conseguiram! – Slughorn exclamou. Ele ia pegar a poção de Severus, mas o sonserino à sua frente disse:
— Primeiro as damas – e pôs a mão nas costas de Marlene para que ela também desse um passo à frente, na direção do professor.
Meio temerosa, Marlene então estendeu o frasco ao professor, morrendo de medo que ele percebesse a "farsa". Slughorn olhou o frasco, avaliando a poção e a reação dele a surpreendeu completamente:
— Está perfeita, Srta. McKinnon! – ele exclamou orgulhoso. – Não creio que a senhorita tenha escondido o seu talento em Poções por tanto tempo!
Ela deu um sorrisinho amarelo e olhou significativamente para Severus enquanto respondia.
— Mas eu não tenho talento nenhum professor – ela respondeu, e essa parte era verdade. – Acho que foi sorte de principiante, e além de tudo, Snape me deu uma grande ajuda...
— Certo; a senhorita disse que iria se esforçar para recuperar o tempo perdido, e não perdeu tempo mesmo – concordou ele, ainda sorrindo satisfeito e se dirigiu a Severus: – Sr. Snape?
Severus entregou a "sua" poção para o professor. Dessa vez, Slughorn franziu a testa.
— Hum... não creio – ele disse, realmente incrédulo. – Excesso de raízes, Sr. Snape?
— De fato, professor – Severus admitiu. – Não consegui me concentrar totalmente na minha poção... – e olhou significativamente para Marlene.
Marlene corou furiosamente. De raiva. Se Severus tinha se dado ao trabalho de trocar as poções, então porque insinuar que a culpa era dela? E pior, insinuar que estava interessado nela? Tudo bem que ela queria que parecesse isso, mas não era Slughorn quem tinha que se importar com o fato.
O professor cortou o silêncio.
— Ah, compreendo – disse ele, achando que tinha entendido exatamente o que acontecera, mas sem constrangê-los. – Mas como percebo que há um esforço mútuo aqui, vou considerar as duas poções aceitáveis.
Marlene suspirou aliviada quando o professor se virou; ela viu que Severus reprimiu um sorrisinho cínico e estava a um segundo de discutir com ele de novo; só não fez isso porque Slughorn os interrompeu outra vez:
— Fiquem com isto – o professor estendeu a eles dois pedaços de pergaminho, e ambos pegaram ao mesmo tempo enquanto Slughorn explicava: – É uma lista, com as poções mais prováveis de caírem nos N.I.E.M.s.
Marlene até sorriu diante do pergaminho. Pelo menos agora, ela não precisava mais mentir sobre o "reforço" em Poções, já que ela realmente precisaria de ajuda para saber preparar todas aquelas poções até o final do semestre.
Ela não percebeu o professor sair, apenas que algo como "Espero vocês amanhã." tinha sido murmurado por Slughorn e no instante seguinte ela estava sozinha com Severus de novo. Sem se conter, ela esbravejou:
— Você não devia ter feito isso! – Marlene reclamou séria. – Viu a cara dele?
— Não sei do que está reclamando, McKinnon – Severus respondeu indiferente.
— Ah, por favor, Snape! – ela retrucou. – Slughorn está achando que eu adoro Poções e pior, que você...
— Pode dizer – ele a desafiou e disse cínico: – Ele saiu daqui tendo certeza que eu estou a fim de você... Acho que eu o enganei direitinho...
— E você acha isso bom? – ela o indagou. – Slughorn não tem nada a ver com a nossa vingança!
— Agora ele é uma testemunha, McKinnon – ele continuou impassível. – Se alguém perguntar alguma coisa sobre como tudo começou, nos referimos a ele, sem problema.
Ela pensou por um minuto. Talvez Severus tivesse razão, quanto mais pessoas eles conseguissem enganar a esse respeito, menos falso o namoro de "mentira" pareceria ser futuramente. Mesmo assim, ela ainda seguia inconformada com a troca das poções.
— Apesar de tudo, eu acho que você não deveria ter trocado as poções.
— Apesar de tudo, você mereceu.
Marlene piscou, sem acreditar. Realmente, não acreditava que Severus tinha feito aquilo por ela.
— O que quer dizer com isso? – ela perguntou intrigada.
— Você mereceu. Mesmo – Severus respondeu, e ela acreditou que foi sincero quando ele explicou: – Apesar de você ter vindo aqui só por causa da vingança, admito que fiquei... surpreso quando você ignorou o Quadribol para se dedicar a Poções, que você odeia tanto...
— Eu odeio mesmo! – Marlene admitiu. – Acho que é porque eu sou preguiçosa... – e acrescentou com determinação: – Mas quando eu me proponho a fazer alguma coisa, eu vou até o fim.
— Eu percebi isso também. Você não fugiu quando eu disse "me convença"...
— Mas eu não estava com medo! – ela replicou confusa. – Quero dizer, eu não tive medo, assim, vontade de fugir... Eu só não estava te entendendo muito bem... – e meio sem graça, ela acrescentou: – E me desculpe por aquelas coisas que eu falei, sobre as garotas te rejeitarem...
Severus a interrompeu:
— O que eu lhe disse sobre pedir desculpas?
— Que era para eu parar de pedir desculpas... – ela disse e pediu sem se conter: – Me desculpe. Ai, desculpe de novo! Eu prometo que vou tentar não falar mais isso! – ela exclamou nervosa. – Eu só queria dizer que, como você está sempre sozinho, e depois do que aconteceu hoje, eu tenho uma teoria...
A sobrancelha dele voltou a se erguer.
— Teoria? – ele a indagou.
Marlene então explicou:
— Acho que você pensa que nenhuma garota aqui é boa o bastante pra você, isso é ridículo, claro...
— Não, eu não faço esse tipo – ele respondeu.
— Ah, qual é? – ela indagou divertida. – Falar com você foi mais difícil do que nadar nua no Lago Negro...
Severus deu outro sorrisinho infame.
— Você fez isso, McKinnon?
— Ah, a minha prima que me convenceu a... – Marlene disse, e de novo percebendo do que falava, interpôs rapidamente: – Bom, o que eu quero dizer com isso tudo, é que mesmo que você pense que nenhuma garota aqui é boa o bastante pra você, ao mesmo tempo eu estou feliz, porque então se você disse "sim" pra mim, mesmo que seja só pra fingir, então você pensa que eu valho alguma coisa... Estou certa?
— Em parte – respondeu ele, e antes que ela perguntasse mais alguma coisa, disse em ultimato: – Acho que você tem que ir agora, McKinnon.
Marlene bufou impaciente e Severus não entendeu: será que ela não queria ir embora?
— O que foi? – ele teve que perguntar.
— Nada – ela disse com sinceridade. – Só que à noite tem mais um encontro chato com o nosso grupo de estudos... E Sirius vai estar lá...
— Então por que não aproveita a oportunidade? – Severus sugeriu.
— Aproveitar pra quê, Snape? – Marlene não entendeu.
— Por que não conta a Black o que você fez hoje à tarde? – ele explicou, acrescentando: – Estou falando do "reforço" em Poções; o resto seria totalmente desnecessário...
Marlene sorriu animada.
— Eu tenho uma ideia melhor: por que você não vai comigo? – ela convidou num impulso. – Aí não vou ter que explicar nada, apenas te convidei, ponto final e eles vão ter que engolir! E então?
Severus ponderou por um momento; adoraria ver a cara de Black no chão se isso acontecesse, mas optou pela racionalidade.
— Não, ainda não é o momento – disse ele. – Pode parecer que estamos forçando uma barra... Por enquanto eu estou apenas te ajudando – ele assinalou –, somos somente parceiros de laboratório... E para o Slughorn, talvez um pouco mais...
— É... – ela concordou num muxoxo, mas consciente de que era melhor assim. – Você tem razão...
Um pequeno silêncio voltou a se instalar no ambiente e logo Severus se manifestou:
— Acho melhor você ir agora... – ele tornou a dizer. – A sua amiga está te esperando...
— Coitada da Emme... – Marlene riu-se, mas antes de se virar para ir embora, ela quis saber: – Só uma coisa: o que você falou sobre eu ter que mudar o meu perfume... é verdade?
— Sim – ele respondeu direto. – O perfume é uma das coisas que você vai ter que mudar; o resto, veremos aos poucos...
— Ah, é? – ela perguntou com sarcasmo. – O que mais você está insinuando que eu vou ter que mudar, além do meu perfume que não te agrada?
— A atitude, McKinnon.
Marlene não acreditou.
— O quê? Você quer que eu mude o meu comportamento? – indagou ela.
— Você tem que ser diferente; não pode agir comigo como agia com Black, que fique bem claro – Severus disse, e ela percebeu que ele falava sério. – E então, eu serei o melhor namorado que você já teve...
Dessa vez, foi ela quem debochou:
— Um namorado de verdade... rá! – ela disse cínica.
— Sim, um namorado de verdade— ele repetiu significativamente. – Mesmo que seja mentira – e antes que ela replicasse, ele pediu sério: – Você tem que ir embora, McKinnon, antes que a sua amiga tenha um ataque...
— Não precisa me expulsar! – ela reclamou. – Eu já estava indo mesmo...
Marlene andou até a porta, mas de novo, ainda tinha algo a dizer e ela se voltou para Severus novamente:
— Só mais uma coisa...
— O que é agora, McKinnon?
— Apesar de tudo – ela disse –, eu não queria que parecesse que eu estou te usando...
— Não se preocupe – ele garantiu. – Eu aceitei participar disso, ninguém vai usar ninguém...
— Ah... Até amanhã então... – ela disse e saiu às pressas, sem olhar para trás.
Enquanto ela saía, Severus apenas pensou:
"Se tem alguém usando alguém aqui, com certeza não é você, McKinnon..." – e depois também deixou a sala de Slughorn.
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Marlene agora acelerava o passo pelos corredores, pensando que a essa altura Emmeline já estava surtando de preocupação. Quando enfim chegou à Torre Corvinal, ela encontrou a amiga furiosa na sala comunal.
— Até que enfim! – a loira reclamou. – Onde é que você estava?
— Você viu onde eu estava, Emme – Marlene respondeu tranquila. – Na sala do Slughorn. Com Snape.
— Eu vi sim... – Emmeline respondeu debochada. – Só não sei o que tanto vocês estavam fazendo lá, porque se fosse só a poção do Morto-Vivo, não ia demorar tanto!
Marlene entendeu onde a amiga queria chegar, mas ela não queria discutir e apenas riu.
— Ah, Emme...! – ela exclamou, aproximando-se da amiga para abraçá-la. – Eu não acredito que você estava pensando que eu... que ele... que nós...!
Apesar do abraço, Emmeline continuava com o rosto duro.
— Não sei, né, Lene? – ela indagou com sarcasmo. – Se você visse a cara dele quando você falou aquelas coisas... Eu quase morri de vergonha! Você deveria saber as obscenidades que ele estava pensando...
— Que ele ou você estava pensando? Ei! – Marlene insistiu. – Me desculpe, ok? Eu falei aquilo sem pensar e de qualquer forma, Snape não levou isso a sério – pelo menos, era o que ela acreditava. – É por isso que eu estava rindo daquele jeito!
— Tem certeza? – a loira perguntou, ainda desconfiada.
— Claro. Ele só está me ajudando, ele também quer vingança, só isso – Marlene garantiu.
— Tomara que seja só isso mesmo...
Marlene então aproveitou a deixa da amiga para mudar de assunto:
— E então, o que Fenwick disse sobre o treino ter sido adiado?
Emmeline finalmente sorriu.
— Ele foi um amor... – respondeu num suspiro.
— Amor? – Marlene não entendeu.
— Ele não reclamou nem nada – explicou a loira. – Apenas disse que entendia e até se convidou para participar do nosso grupo de estudos, acredita?
— Não...! – a morena respondeu surpresa. – Benjy Fenwick participando do grupo de estudos... Quero ver como ele vai se sair; essa eu não vou perder por nada...
— Então vamos jantar, né? – Emmeline disse nervosa. – Senão, daqui a pouco o Fenwick aparece e nós nem saímos daqui...
Marlene concordou; de lá as duas foram para o Salão Principal e durante o jantar nenhuma delas se atreveu a falar de Severus, já que Benjy Fenwick veio se juntar a elas à mesa da Corvinal.
Após o jantar, o trio Corvinal logo seguiu para a Torre Grifinória. Lá, a Mulher Gorda chamou Dorcas Meadowes para recebê-los:
— Boa noite, gente! – ela disse generalizando, mas depois seus olhos recaíram sobre o loiro que acompanhava Emmeline, cujo ela não reconheceu. – Ei, quem é você, gatão?
Marlene e Emmeline se olharam quando Benjy respondeu com graça:
— Talvez você se lembrasse do meu rosto se não tivesse que se desviar dos meus balaços... – ele riu, apertando a mão de Dorcas: – Benjy Fenwick!
— Ah, claro... – Dorcas respondeu. – Bom, acho que eu não preciso me apresentar, né? Se a minha prima manda você atirar balaços em mim... – e riu gostosamente enquanto conduzia o trio para dentro da sala comunal.
Marlene sacudiu a cabeça quando foi abraçada pela prima; ela viu que somente Lily estava sentada à mesa do canto; aparentemente os rapazes ainda não haviam chegado.
Benjy e Emmeline logo tomaram seus lugares em volta da mesa e Marlene e Dorcas sentaram-se logo depois. Marlene ficou ao lado de Lily e a ruiva não perdeu tempo:
— Eu vi você na aula de Poções hoje – disse ela, exclamando: – Fico muito feliz que você não tenha desistido, Lene!
Marlene deu de ombros.
— Você está feliz porque Poções é a sua matéria favorita – ela debochou. – Você sabe que eu detesto Poções, o Slughorn, as Masmorras... Odeio tudo naquele lugar... Só que por mais que eu não goste, é necessário, não é?
— É sim – concordou Lily. – Que bom que você pensa dessa maneira, às vezes é necessário um pouco de sacrifício mesmo...
— Com certeza – Marlene respondeu, e certamente não se referia apenas ao sacrifício das aulas de Poções.
Ela desejou não ter olhado para as escadas naquele momento; deparou-se com os olhos cinzas de Sirius, cintilando enquanto ele descia as escadas num passo cadenciado e elegante. Ele deveria ter acabado de sair do banho, pois Marlene notou as pequenas gotículas de água que se desprendiam dos cabelos dele. Ela sentiu as pernas tremerem ao ver de novo aquele mesmo brilho de garoto inocente nos olhos dele, iluminando seu rosto perfeito, como sempre, munido de seu melhor sorriso.
— Boa noite – ele anunciou, aproximando-se da mesa e de Marlene, especialmente.
Todos que estavam à mesa responderam de volta, mas ela nada respondeu, ainda parecia bestificada com seu pensamento: "Ah, por que ele tem que ser tão lindo?" e só depois de alguns segundos percebeu que Sirius se sentou do outro lado, de frente a ela e que James, Remus e Peter chegaram, juntando-se ao grupo que já estava sentado.
Marlene olhou para o lado, tentando desviar os olhos de seu ex-namorado, então viu Benjy conversando com Emmeline e sorriu discretamente: a presença do batedor ali sufocava completamente o clima hostil da loira para com Dorcas.
Os estudos sobre Transfiguração começaram e ninguém parecia incomodado em olhar diretamente para Marlene ou Sirius. Todos estavam perfeitamente cientes de que eles não eram mais namorados, então não deveria haver motivo para constrangimentos. Realmente não deveria, mas havia, porque a todo o momento ela via o ex-namorado lhe dirigindo sorrisinhos que a faziam se sentir... culpada. Será que ele realmente merecia aquela vingança?
E então a resposta ecoou como um trovão em sua mente:
"Sim, é claro que ele merece!"
Sim, ela não podia desistir agora e repreendeu-se por pensar daquela forma. Agora, à medida que a conversa ia fluindo, Marlene só pensava em achar uma deixa para poder contar o que havia acontecido mais cedo na sala de Poções; ela não podia simplesmente vomitar os fatos: precisava de um momento adequado, quase estratégico.
Ao final da reunião, Marlene teve sua oportunidade de entrar no assunto; a deixa ocorreu exatamente quando Benjy foi convidado para voltar no dia seguinte:
— Você também virá para estudarmos Poções amanhã, Fenwick? – foi Remus quem perguntou, organizando uma lista.
— Amanhã não, Lupin – o loiro respondeu. – Talvez outro dia.
— Tudo bem – Remus disse e se voltou para Marlene, que estava ao lado de Benjy: – E você, Lene?
— Também não, Remus – disse ela, e quando todos olharam intrigados, acrescentou em alto e bom som: – Na verdade, eu já encontrei uma maneira melhor de me preparar para o N.I.E.M. de Poções do que ficar trancada aqui estudando teorias e mais teorias...
Emmeline gemeu em desaprovação; intimamente já sabia do que a amiga estava falando, só não entendia porque Marlene decidira escancarar os fatos logo no primeiro dia.
Sirius se intrometeu na conversa:
— Mesmo que você não ligue pra teoria, você pode voltar amanhã – ele pediu –, e vamos fazer a poção que Slughorn pediu, todos juntos...
— A Poção do Morto-Vivo? – ela indagou e quando ele assentiu com a cabeça, ela disse: – Essa eu já fiz.
A resposta dela o surpreendeu; e não apenas a Sirius, mas a todos os grifinórios – já que Benjy também estava ciente de que Marlene havia preparado uma poção, motivo pelo qual ela adiara o treino – que a olhavam intrigados, claramente percebendo que algo lhes fugia do conhecimento.
Lily então resolveu perguntar:
— Você já fez, Lene? – a ruiva indagou surpresa. – Quando?
E Marlene simplesmente respondeu:
— Hoje à tarde – e reuniu coragem para dizer alto e claro: – Snape me ajudou.
Houve uma reação de susto no rosto dos grifinórios quando Marlene disse aquele nome, foi quase como se ela tivesse cometido um crime, digno de Maldições Imperdoáveis.
— COMO É QUE É? – a pergunta furiosa de Sirius ecoou pelo recinto; ele a encarava, sério, esperando a resposta.
De novo, Marlene respondeu tranquila:
— Snape me ajudou – ela repetiu. – Nós ficamos no laboratório depois da aula, fizemos a poção e até já entregamos ao Slughorn... Algum problema?
— Se ele te ofereceu ajuda, você não deveria aceitar! – retrucou ele.
— Snape não me ofereceu ajuda. Eu que pedi pra ele me ajudar – ela retorquiu com firmeza. – Agora que eu voltei a cursar Poções, eu pedi pra ele me dar aulas de "reforço" e...
Marlene perdeu a voz quando Sirius deu um soco enraivecido na mesa, que fez todos os pergaminhos espalhados ali voarem. Ele ficou em pé, o rosto enrubescendo de raiva quando ele gritou:
— VOCÊ NÃO PODIA TER FEITO ISSO! – o grito enfurecido de Sirius doeu aos ouvidos dela.
Marlene também se levantou e o encarou firme para responder:
— E por que eu não podia? – ela o provocou. – Onde é que isso te ofende?
— Ofende a TODOS NÓS se você não percebe! – Sirius gritou em resposta.
— Calma! Vamos todos nos acalmar – Remus pediu, ficando em pé.
Logo todos também se levantaram e Lily também interferiu:
— Não é que isso nos ofenda, Lene – ela disse, contrariando Sirius –, mas por que você não pediu ajuda pra mim? – perguntou, e Marlene percebeu um pouco de mágoa na última frase da ruiva.
Mas antes que ela pudesse "explicar", Sirius interrompeu grosseiramente:
— É porque ela não quer a sua ajuda Evans, e pelo visto nem de ninguém aqui não! – ele disse, ainda mais colérico. – Ela já achou um jeito melhor de estudar, você ouviu o que ela disse: estudar teoria com a gente é chato; bom mesmo é ficar nas Masmorras com Snivellus! Lindo isso, PER-FEI-TO!
— Você quer mesmo saber por que eu pedi pro Snape me ajudar? – Marlene berrou com Sirius. – Por causa de VOCÊ! – isso não era mentira. – Eu não aguento mais EU e VOCÊ! – ela apontou para ele e para si. – Eu estou CHEIA disso aqui! Mas em nome de Merlin, isso não tem nada a ver com os meus amigos! – ela apontava agora para o resto do grupo. – Eu não suporto mais olhar pra SUA cara e ver você fingindo que não aconteceu nada!
— E não estaria acontecendo nada se você não tivesse terminado comigo! – ele ainda rebateu.
— Exatamente – ela concordou cínica. – Eu TERMINEI com você! Então por que você está exigindo satisfações sobre o que eu faço ou deixo de fazer?
— Você está certa – Sirius disse, dando de ombros de repente. – Talvez eu não devesse mais ser seu amigo e nem me preocupar com você! E se você acha que vai ser melhor assim, que vai ser melhor se Snape te ajudar, então vá em frente! – dizendo isso, ele se largou na cadeira novamente.
Naquele momento, Marlene sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Lágrimas de dor e ódio. E antes que elas pudessem escapar, pegou a bolsa de cima da mesa e saiu correndo pela porta da sala comunal da Grifinória, apenas a tempo de ouvir alguma coisa como "Por Merlin, Lene!". Apesar de tudo, ela não imaginava que pedir "ajuda" a Severus iria causar uma polêmica tão grande entre seus amigos grifinórios. Mas ela também não quis nem pensar muito na reação deles; seria pior quando eles soubessem o que aconteceria depois.
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