Muito Além de Mim

32 Pegos no flagra.


Acabei ganhando mais um amigo: o Jonathan. O que é totalmente incrível. Minha vida é rodeada por amigos agora. Quando criança ou até mesmo quando adolescente eu só tinha o Eliezer, mas agora, a lista só parece aumentar cada vez mais.

Ele tem vindo bastante para cá nos finais de semana passar um tempo a mais com Catarina. No começo, os dois ficavam juntos o tempo inteiro. Mas agora, com todas as horas de estudo extra dela, Jonathan têm tido mais tempo com a gente, principalmente com Isabeli que já está encantadíssima por ele.

— Você não acha que ele está um pouquinho misterioso? – Perguntou Max durante uma de nossas noites juntos.

— Quem? O Jonathan? – Ele fez que sim. — Ah, bom, eu não acho. Ele é um amor. Você acredita que os pais dele não apoiavam ele ser um professor? Por causa dos salários baixos e injustos? Quando ele me contou isso, eu fiquei com o coração apertado...

No final das contas, Max estava certo. Jonathan nos escondia algo e fomos todos pegos de surpresa, principalmente Catarina.

Eu já deveria ter desconfiado disso no exato momento em que ele nos convidou para jantar em sua casa numa sexta à noite.

A casa dele ficava do lado oposto da cidade, numa parte mais afastada do centro assim como a nossa, era pequena, porém muito charmosa e tinha um grande quintal com churrasqueira e tudo.

Enquanto Isabeli corria e pulava lá fora no quintal, maravilhada com tudo e Max e Célia bebiam vinho na sala, me ofereci para ajudar no preparo do jantar, mas ele recusou a ajuda de todo mundo, até mesma de Catarina que ficou uma fera.

Alguns minutos depois estava tudo pronto e cheirando muito bem, então nos reunimos em sua pequena mesa para comer.

— Bom, antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a todos por terem tido a paciência de esperar pelo jantar e por estarem aqui hoje. Vocês são especiais. – Ele se levantou de repente e mexeu no bolso do jeans. — Eu tenho um pedido especial para fazer essa noite...

Meu coração parou. Juro que parou.

Imaginem só a cara da Catarina... Em choque.

— Catita... – Ele se virou para ela.

Catita era o apelido que ele deu a ela que eu particularmente achava fofo e engraçado.

— Você aceita ser casar comigo?

Tapei a boca com a mão.

Ai. Minha. Nossa.

— E-eu.. Eu... – Catarina estava ainda mais branca, os olhos quase saltando pra fora e as mãos visivelmente tremendo. — Nossa... Uau! – Ela finalmente sorriu, nervosa. — Eu não esperava por isso...

Pela expressão de Jonathan, ele ficou preocupado por um instante. Acho que com receio de que ela dissesse Não. Não porque não o amasse, mas talvez porque ainda não estivesse pronta.

O que seria totalmente compreensível, pois se conheciam há pouco tempo e só namoravam há alguns meses.

— E então, você aceita ou...? – Insistiu ele.

Ela abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Mas é claro que sim!

Ela se levantou, os dois se abraçaram, se beijaram e colocaram as alianças de noivado um no outro e o resto de nós, continuou pasmo, sem saber como reagir diante de tudo aquilo.

— Tia Nina? – Isabeli me chamou mais tarde, quando já estávamos indo embora para casa.

Eram onze e meia da noite.

— Oi, querida. O que foi? – Olhei para ela.

— Tio Jonathan e mamãe vão se casar, certo? – Assenti, sorrindo de leve. — Então, quer dizer que ele não vai ser mais meu tio e agora vai ser meu papai?

— Bom, querida, ele vai ser o que você quiser que ele seja. Se você quiser que ele seja sempre seu tio, ele será. E se você quiser ele seja seu papai número 2, ele também será.

— Ele não iria se chatear se eu continuasse chamando ele de Tio?

Eu ri.

— Mas é claro que não. Ele gosta muito de você!

Ela ficou pensativa por um tempo.

— Sabe de uma coisa? Eu já tenho um montão de titios, mas não conheço ninguém ainda que tenha dos papais. Acho que vou querer que ele seja meu papai número 2.

**

Estava eu, em mais um belo dia nublado, pensando sobre a minha vida e no que ela se tornaria em tão pouco tempo após o nascimento do bebê que eu ainda desconhecia o sexo, quando meu celular tocou sobre o criado-mudo ao lado da cama.

— Alô?

— Nikolina?

— Eu mesma. Quem é?

As palavras que ouvi a seguir não fizeram sentido nenhum na minha cabeça.

A ligação era de um representante de uma editora de livros que estava interessado em conversar comigo sobre o meu livro.

Até aí tudo bem. Ser contatada por uma editora é um dos maiores sonhos de qualquer escritor. Mas o que eu não sabia explicar é como ele sabia do meu livro se eu nem tinha divulgado para ninguém ainda? Isso ele também não soube dizer. Ele só disse que tinha recebido o arquivo, lido e gostado muito.

Finalizei a ligação após lhe garantir que pensaria melhor no caso, mas que eu precisava de tempo para pensar.

Ainda bem que ele entendeu.

Fiquei o resto do tempo pensando em como aquilo foi acontecer, porque não parecia real.

— Ei, pedimos pizza hoje. Você quer? – Perguntou Max, após colocar a cabeça dentro do meu quarto.

— Não estou com fome... Mas, obrigada.

Ele já ia embora quando repentinamente lembrei de algo.

— Max! – Chamei-o de volta.

— Algum problema?

— Deixa eu te perguntar uma coisa.

Ele entrou de corpo inteiro no quarto, fechando a porta.

— O que foi?

— O que de fato você estava fazendo aqui aquele dia no meu quarto, com meu notebook e um pen-drive?

— Ué, que tipo de pergunta é essa? Eu disse que...

— Você mentiu para mim. – Cortei-o.

— Não, eu não...

— Você mentiu, sim. Disse que seu computador estava com problemas e você estava resolvendo umas coisas importantes de trabalho de última hora, quando na verdade você estava roubando a minha história.

— Nina, olha... – Ele sentou-se comigo na cama. — Eu não roubei a sua história.

— Não roubou exatamente, mas você a pegou sem me consultar antes e mandou para uma editora... tudo isso sem falar nada comigo.

— Me desculpe, eu só queria...

— Ajudar, certo? Mas não ajudou. Max... Eu não estava pronta! Eu ainda queria reler algumas coisas, modificar algumas partes, ter certeza de que estava boa o suficiente e do jeitinho que eu queria e só depois eu pensaria no que fazer a respeito...

— Nina, você leu a história toda para mim! E nossa, estava incrível, estava ótima. Eu nunca ouvi nada parecido. Eu amei! Você precisa acreditar em mim. Você precisa confiar mais em você...

— Não importa, Max! – Eu estava furiosa. — Você não tinha esse direito! Você não tem o direito de vir aqui no meu quarto, pegar o que é meu e fazer com isso o que bem entender! É a minha história, minha decisão, a minha vida. Não se meta nisso! Você não é nem mesmo o meu namorado... O que achou que estava fazendo?

Eu queria muito gritar com ele, mas certamente o resto do pessoal ouviria e viria aqui saber o que estava acontecendo.

Eu não queria ter que explicar nada a ninguém.

Pelo visto, minhas palavras tinham o ferido. Mas eu não me senti culpada. Queria que ele se sentisse culpado por ter interferido na minha vida dessa forma, como se fosse dono de tudo. Principalmente numa coisa tão importante para mim.

— Me desculpe. – Disse ele de cabeça baixa. — Vou ligar para a editora e dizer que tudo não passou de um grande engano...

— Não. Apenas não se meta mais nisso. – Pedi, decidida. — Agora a cagada já está feita e o que você fez... Nossa, eu nem sei o que dizer. Além de furiosa, estou magoada com você.

De certa forma eu me sentia traída por ele e tudo que eu mais queria era poder sempre confiar nele, mas eu estava errada.

— Só me... desculpe. – Ele se foi.

**

E mais uma vez não estávamos nada bem. Só que diferentemente da última vez, agora eu só queria ficar sozinha em paz e pensar na minha vida. Evitando ficar por muito tempo no mesmo cômodo que Max para não ter que olhar na cara dele.

Estava no banheiro, escovando meus dentes e me preparando para dormir, quando senti uma pontadinha no pé da barriga.

Não fiquei preocupada, apesar de ter se repetindo mais duas vezes. Afinal, o bebê estava crescendo muito e o espaço lá dentro ficando cada vez menor. Achei que fosse algo normal.

Tentei dormir mais cedo, pois eu tinha muito o que pensar, principalmente a respeito do meu livro e no quanto estavam interessados em publica-lo para o mundo. Eu ainda não tinha dado minha resposta, apesar de pensar muito a respeito, mas essa noite em especial eu só queria um descanso dos meus pensamentos.

Eu estava tendo um maravilhoso sonho com o Andrew e no quanto estávamos felizes e realizados com o nosso bebê, quando acordei de repente com um barulho na porta do quarto.

Era o Max.

— Eu te acordei? – Perguntou ele, baixinho.

— Sim... – Disse eu, sonolenta.

— Desculpe. Só queria saber se você estava bem.

— Eu estou bem. Obrigada.

— Nada de pesadelos?

— Acho que não mais.

— Fico feliz por isso.

Ele sorriu e virou-se para ir embora, mas parou no meio do caminho.

— Posso entrar por um instante?

Eu não estava muito afim de bater papo agora, mas eu também não podia enxota-lo dali sem dor ou piedade.

— Eu só queria me desculpar mais uma vez pelo que eu fiz. Eu juro que não foi proposital. – Ele disse, sentado em frente a mim. — Eu não fiz para te chatear ou te deixar furiosa. Eu só achei que poderia ajudar de alguma forma. Encoraja-la a seguir com seu sonho de escritora. – Ele suspirou fundo, desviando o olhar.

Ele segurou a minha mão carinhosamente.

— Eu acredito em você, Nina. Eu mais do que qualquer outra pessoa quero que você seja feliz e realizada. Você escreve tão bem. É a melhor escritora que eu já conheci em toda a minha vida...

— Não seja exagerado...

Algo dentro do meu coração despertou com suas palavras.

Ver o Max assim tão sensibilizado, tão vulnerável. Era difícil vê-lo assim. Ele faz mais do tipo durão, estou nem aí para nada...

Acho que vai ser difícil me acostumar com esse outro lado dele que eu tenho visto com mais frequência desde que estamos juntos.

— Você tem que acreditar mais em si mesma. – Ele apertou de leve a minha mão. — E no quanto você é capaz. Sua história é maravilhosa, imagine só quantas pessoas você pode alcançar com simples palavras da mesma forma que você fez comigo.

— Max...

— Nina, por favor... pensa nisso. Não foi por mal...

— Eu sei. A questão não é só essa. É sobre confiança. Eu acreditei em você, eu me abri para você. E você pegou algo de mim sem nem perguntar. Você poderia ter conversado comigo...

— Eu quis falar com você! Eu juro. Mas aí quando pensei melhor, eu soube na hora que você iria deixar sua insegurança e seus receios falarem mais alto. Então, eu tive que arriscar... por você. Eu faria qualquer coisa por você, Nina. Você não tem porque desacreditar em mim. – Ele me olhou bem no fundo dos olhos.

Em parte, ele tinha razão. Se ele tivesse sugerido que eu enviasse minha história para as editoras para ver o que elas achariam, eu certamente não teria gostado da ideia.

— Mas então já entraram em contato com você? E o que você disse a eles? – Ele quis saber, depois de eu não ter dito nada.

— Eu disse que iria pensar...

— Mas eles gostaram do material, não gostaram?

— Pelo visto... sim.

— Então é isso! Não existe outra resposta... É sim, sim, sim...

Ele praticamente voou para cima de mim, me enchendo de beijos melados por todo rosto e me fazendo rir, abobada.

— Nina, você está...

Nos afastamos depressa, como se tivéssemos levado um choque. E na porta estava Célia, com uma expressão nada amigável.

— Mãe...

— Me desculpem... eu desci para beber água e acabei ouvindo um barulho e só queria saber se estava tudo bem.

— Está tudo bem... só nos deixe explicar...

O que poderíamos dizer àquela altura do campeonato? Estávamos aos beijos no quarto de seu filho falecido... Ela viu tudo. Não tinha nem o que dizer. Eu estava envergonhada e me sentia muito mal, praticamente uma traidora por estar me envolvendo com seu outro filho de baixo do teto da casa dela. Quando comecei a me envolver com o Max para valer, eu nunca achei que quando esse momento chegasse, seria tão difícil e tão doloroso para mim.

Eu me sentia exposta.

**

— O que você está fazendo?

— Arrumando minhas coisas para ir embora.

Max me olhava assustado.

— Nina, você não precisa fazer isso.

— É claro que eu preciso! – Olhei para ele, histérica. — Ela não vai mais me querer aqui nessa casa nunca mais. Você viu a cara dela? Ela tem nojo de mim, acha que sou uma traidora.

— Ela não disse isso.

— Max – Me sentei por um momento. — Como você pode estar tão calmo com tudo isso? Ela nos flagrou... Não era isso que você tanto temia e não foi por isso que você se afastou de mim?

— Sim, mas... Você já está nervosa por nós dois. Não adianta nada eu também me descontrolar agora. E se eu fosse você, ficaria mais calma. Você pode fazer mal para o bebê desse jeito...

— Não tem como eu ficar calma com isso! O meu mundo desabou. Eu briguei com você por causa de confiança e olha só para mim agora! Ela era uma amiga para mim, ela me acolheu e cuidou de mim no momento mais difícil da minha vida e eu traí sua confiança da pior forma possível...

— Não é bem assim. Eu sou o mais culpado de toda essa história. Acredite. – Ele beijou o meu rosto. — Fique calma. Eu vou tentar resolver isso agora. Vou lá conversar com ela, ta bom? Vou tentar explicar tudo, mas saiba de uma coisa: nada do que ela disser vai mudar o que eu sinto por você, Nina. Se você quiser, eu vou embora com você agora mesmo... Vamos viver juntos em qualquer lugar desse mundo. Só depende de você.

— Você não pode me dizer isso agora...

— E porque não? Eu gosto de você!

— Eu também gosto de você! Mas ficarmos juntos agora parece muito difícil e uma ideia assustadora.

Ele se levantou, decidido.

— Espere aqui. Eu já volto.

Eu esperei por muito, muito tempo. Achei que as horas não fossem passar nunca. Eu andei de um lado para o outro, frustrada. Fiz e desfiz minhas coisas um milhão de vezes.

Até que Max finalmente voltou a aparecer.

— E aí, o que ela disse? Ela me odeia? Quer que eu vá embora? Max, pelo amor de Deus, me diz alguma coisa...

— Ela quer falar com você agora.

Respirei fundo.

Tudo bem, Nikolina. Você consegue. Não pode ser tão difícil assim. Ela só quer conversar. Ela nem te chutou para fora ainda.

E lá fui eu.

Ela estava me esperando em seu quarto, com a porta aberta.

— Posso entrar? – Perguntei, receosa.

Mal conseguia olhar para ela de tão envergonhada.

— Claro. Fique à vontade. – Ela sorriu ou foi só impressão?

Eu poucas vezes entrei em seu quarto... Apenas para limpar ou guardar algumas roupas limpas. Fora isso, nenhuma outra vez. Mas como já era de se esperar... era tudo limpo e organizado. E tinha um perfume bom de flores por causa das velas aromáticas.

Sentei-me próxima a ela na cama, meio encolhida, completamente tensa e com os dedos se mexendo nervosamente.

— Olha, Célia, eu nem sei por onde começar a me desculpar...

— Você o ama? – Ela perguntou.

Olhei para ela, assustada e sem entender.

— Se eu amo o Max?

— Sim, exatamente o que perguntei.

— Bom...

— Eu só quero saber se você o ama mesmo.

— Acho que sim. Não sei. Talvez. Eu gosto muito dele. Gosto de tudo nele. O jeito esquisito, a cara fechada, a prepotência, o cabelo grande e bagunçado, a barba que cobre praticamente o rosto inteiro. – Só de citar as principais características dele, já não conseguia conter o sorriso bobo. — E gosto de como ele me faz sentir amada outra vez, segura, protegida e abrigada.

— Parece que ele sente o mesmo por você...

— Eu não sei. Acho que sim. O que ele disse?

— Muitas coisas, mas disse que faria de tudo para ficar com você, mesmo que isso parecesse errado para o resto do mundo.

— Mas e você, você acha que isso é errado? Eu adoro ele, mas a nossa amizade também é muito importante para mim e se você acha que eu não devo ter esse tipo de relação com ele, tudo bem pra mim. Eu termino tudo. Me afasto para sempre. Vou embora, mas por favor, me perdoe. Não quero perder você...

— Eu não seria capaz de algo assim... Ainda mais de tudo que vocês disseram um do outro. E não cabe a mim decidir o que é certo ou errado. Também não importa o que eu acho. O que importa mesmo é a felicidade de vocês...

— E a sua...

— Se vocês estão bem e felizes, eu também estarei. Max é meu filho e você é como se fosse uma filha também...

— Oh, Célia. – Eu me joguei em seus braços, chorosa. — Me desculpe ter que te fazer passar por isso.

— Não tem problema, minha querida. Vai ficar tudo bem. – Disse ela, passando a mão nos meus cachos indomáveis.

Saí de lá alguns minutos depois, após ter certeza de que estava tudo certo entre nós. No final de tudo, foi mais fácil do que eu imaginava.

Max me esperava de pé em frente ao quarto.

— E aí?

— Vai ficar tudo bem. – Me joguei em seus braços, contente.

Notas finais
Estamos chegando ao fim, finalmente.