Muito Além Da Dor!
11 Capítulo 7 CONFRONTO!
Notas iniciais
"Sonhos não morrem, apenas adormecem na alma da gente."
O clarão, seguido de um estrondo chamou a atenção de Ikki e Shura ao formar um desenho alaranjado contra o azul do céu.
— Hyoga... – murmurou o agente ao perceber a direção em que o som e o clarão haviam se propagado.
— A explosão foi na casa! – falou Shura.
Ikki manteve o corpo totalmente parado. Ficou um momento em suspenso, a mente arquitetando um plano mesmo em meio ao caos. Sendo um agente com anos de experiência, sabia o que tinha que fazer. No entanto, algo dentro de si havia mudado e as opções antigas já não tinham ressonância dentro de si. Dever acima do amor. Isso já lhe custara parte de sua alma, fato que não voltaria a se repetir. Não mais.
— Tenho que voltar, Shura.
— Vou com você. – disse o médico compreendendo o dilema do amigo.
— Não, continue daqui e veja se encontra os outros.
Os dois se olharam, sérios, por breves segundos e então cada um fez o qu e tinha de fazer.
Na estrada, Nikolai chamou seus homens e os reorganizou. Tinha visto o clarão, sinal que havia mais alguém tentando chegar até Ikki Amamiya.
— Quero que se dividam e verifiquem quem está no perímetro. Já! – gritou o russo.
Os homens agiram rápido, portando armas e entrando nos carros, enquanto Nikolai tocava sua Glock como se estivesse acariciando uma amante... Ah, Natássia... Eu queria que tudo tivesse sido diferente, mas prometo que nada vai ferir o nosso filho. Nada!
Já no limite da mansão de Ikki, Serguei comandava a invasão, sorrindo ao ver os tanques ultrapassarem as barreiras íngremes da geografia do lugar com facilidade. Estava confiante em destruir dois inimigos de uma só vez, sua aura alimentava-se da eminência da destruição e isso atraía certas energias...
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Guilty estava cansado daquele lugar, suas forças pareciam se exaurir junto com toda aquela lama nauseante e aqueles seres que gemiam e praguejavam o tempo todo... O tempo e o espaço perdiam a forma e moldavam-se àquele lugar prendendo-o como se fossem aquelas armadilhas feitas em papel para moscas.
Uma mulher aproximou-se dele com o rosto descarnado e branco. Seus dentes eram escuros e a voz rouca e baixa. Ela buscava tocá-lo, mas o simples movimento lhe causava repulsa e dor.
— Afaste-se de mim!— gritou ele.
No entanto, ela parecia não ouvir e continuava sua movimentação, sendo seguida por uma horda de outros seres macilentos. De repente, todos olharam para cima e um som, semelhante a um zumbido de milhares de insetos se fez ouvir. Como autômatos, eles começaram a andar na direção do som.
— Vamos... Vamos... Alguém de lá nos quer por perto. — disse um homem com olhar malévolo e um sorriso torto.
— Alguém vai nos alimentar...— murmurou a mulher com um tom de voz que mais parecia um ganido.
Guilty também sentiu a vibração, mas, ao contrário das outras vezes, havia uma contradição em seu espírito. Parte de si desejava ir, enquanto a outra o alertava para o preço a ser pago: ligar-se àqueles espíritos obsessores o deixaria cada vez mais, fraco, doente e sem a consciência de si mesmo...
— Venha conosco! — Insistiu o homem que liderava aquela incursão e Guilty sentiu que ainda tinha contas a acertar, então pagaria o preço...
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Hyoga corria junto com Shun e, embora a situação fosse crítica, ele refletia sobre a ironia de estar sendo protegido por um fantasma. Quando chegou junto da cerca onde fizera amor com Ikki, ele estancou. Dali para frente, a propriedade era formada por uma floresta densa de pinheiros.
— Entre na floresta e espere. — disse Shun e o loiro não teve tempo de questioná-lo.
Shun olhou para o lado e uma senhora simpática e risonha estendeu-lhe a mão. Vamos, meu querido! Veremos se esta velha ainda consegue convencer alguém... Disse ela e os dois desapareceram.
Hyoga ficou ali, observando a fumaça espessa que subia da parte destruída da mansão de Ikki. Inquieto, olhou ao redor, sentindo o frescor que o ambiente da floresta proporcionava. Não conseguiria ficar parado, então andou um pouco, tentando ver se tudo estava bem com Ikki. Fechou os olhos e, no momento exato em que começava a visualizar algo, uma mão forte tapou sua boca, enquanto o braço musculoso puxava-o de encontro a si.
Ikki! Disparou sua mente, enquanto o moreno o abraçava bem apertado contra o corpo.
— Como conseguiu sair? Por Deus, achei que, novamente, eu perderia... – disse o agente.
— Eu estou bem, Ikki. – disse Hyoga interrompendo a fala e sentindo os batimentos cardíacos do moreno.
— Você fez bem em vir para cá. Aqui é o local mais seguro, por enquanto. – falou Ikki.
— Ikki, meu... pai. Ele veio por minha causa e eu tenho que resolver isso.
— Nikolai não está sozinho, Hyoga.
— Eu sei e agora as coisas estão ficando mais claras. O outro russo é inimigo de Nikolai e fez várias coisas para incriminá-lo, embora ele não seja nenhum santo. Se eu conseguir chegar até ele, eu posso...
— Não me peça para arriscar a sua vida. Tenho que deixá-lo em segurança.
— Eu tenho proteção... – murmurou Hyoga.
Nem bem dissera a frase e um barulho se fez ouvir, um estalido nos galhos e folhas secas que forravam o chão. Ikki prontamente colocou-se à frente do loiro quando um homem avantajado surgiu, também armado, e com uma névoa cinzenta e estranha diante de si. Por uma fração de segundos, Ikki piscou ao ver a cena, porém em seguida apontou a arma para o ponto entre os olhos do homem.
— Parado! – gritou Ikki.
— Você é duro de matar, Amamiya... Mas, não é você quem eu quero. – falou Serguei sem se alterar, embora estivesse na mira de Ikki.
— Largue a arma ou eu estouro a sua cabeça! – continuou Ikki sem tirar os olhos do homem.
Serguei sorriu mostrando dentes grandes e acavalados. Sem fazer nenhum movimento, ele continuou fixando os olhos no agente e logo surgiram outros homens com fuzis cercando-os tão rápido que a Ikki, só restou praguejar.
— Como pode ver, sou eu quem tem o controle da situação. – falou Serguei.
— Pode até ter, mas isso não impede que eu estoure a tua cabeça. – devolveu Ikki sem demonstrar temor.
Uma risada alta escapou da boca do russo, porém, logo em seguida, o silêncio se fez ao constatar mais sons de passos e armas juntando-se ao grupo.
— Meu velho amigo Serguei... Mas que satisfação encontrá-lo aqui! – disse Nikolai entrando em cena.
A reunião dos dois, mais Ikki e Hyoga, parecia uma cena de filme, onde os gângsteres acabavam encurralando um ao outro, somado ao fato que sempre havia um terceiro, ou seja, a cavalaria formada pelos mocinhos que também se juntava ao cenário composto...
Ikki ouviu o som de helicópteros e soube que o FBI entrava no embate, tornando o resultado de tudo aquilo imprevisível e perigoso. Em sua mente, Hyoga era prioridade e faria de tudo para preservá-lo... Mal sabia ele que, além de todos aqueles homens de carne e osso, havia outros. Não era, apenas, um enfrentamento entre a lei e os infratores, também era uma questão de fazer prevalecer a luz ou as sombras.
Shun olhou pra Hyoga. Ele estava sério, porém sereno e o loiro percebeu outros espíritos com ele. Havia uma senhora risonha e simpática, um homem baixo de olhar penetrante, porém generoso, uma menina ruiva e uma mulher loira e séria, cuja expressão misteriosa acentuou-se quando ela olhou na direção dos homens de Serguei.
As armas estavam apontadas umas para as outras e os líderes buscavam uma brecha, um ato falho pra começar a chacina. Nikolai olhou para Hyoga, seu filho... Pela primeira vez, ele hesitou ao reconhecer nas belas feições, um pouco de si e da única mulher que tinha amado. Hyoga tinha a beleza de Natássia, mas também um olhar incisivo e frio que era seu.
Os espíritos de luz se aproximavam dos homens de ambos os gângsteres, encontrando os obsessores inspirando atos de violência. O homem que liderara a incursão ao lugar falava direto ao ouvido de Serguei, incitando-o a começar o confronto, enquanto Guilty parecia paralisado.
A mulher loira caminhou na direção de Guilty sempre mantendo a conexão do olhar. Seus cabelos pareciam fios transparentes de luz e a fluidez de seus movimentos era muito diferente da densidade dos obsessores.
Por que está aqui, Guilty? Perguntou ela.
Guilty sentiu uma intensa vibração e, de repente, a dor e a raiva pareceram arrefecer um pouco mais... Havia acontecido o mesmo no Abismo quando o anjo o envolvera em luz. Suas emoções ainda estavam tomadas pelo sentimento de vingança, mas a compreensão de seus atos começava a abrir espaço em sua alma. Ali, à sua frente, estava a mulher que amara, a razão de sua existência e de toda a dor que ele sofreara por anos.
Você se foi... Você me deixou sozinho, me trocou por aquele ricaço metido. Abandonou Esmeralda! Eu fiz de tudo... tudo! Mas você preferiu o luxo e o conforto junto daquele homem!
A expressão da mulher transformou-se em tristeza.
Eu errei, Guilt. Eu era muito jovem e tola. Não estava preparada para arcar com o ônus de ter um marido que ficava mais tempo fora de casa em missões perigosas e secretas, nem enfrentar as dificuldades em criar uma criança. Quando Edgar surgiu em minha vida eu achei que ele era a solução, que o que havia entre nós era amor. Larguei tudo para ficar com ele, inclusive nossa filha. Quando fiquei doente ele me deixou e eu... não tive coragem de voltar e pedir que me perdoasse. Eu estava muito longe, em outro país. Morri sozinha e fui dada como indigente. Só então eu compreendi que morrer não dava por encerrado tudo o que eu fiz. Perdoe-me, Guilty.
As palavras da mulher pareciam ondas que o transpassavam deixando um rastro de limpeza emocional. A palavra perdão parecia um bálsamo em suas emoções conturbadas.
Você está me pedindo perdão por que...
Porque amor é diferente de paixão e eu só descobri isso tarde demais. Eu amei você. Muito. Mas não soube cuidar desse amor, assim como você está subvertendo o amor que sente pelo jovem que ensinou. Nossa filha também está em perigo. Pode compreender isso?
Eu... Eu estou confuso. Todos me abandonaram!
Não, meu amor... Você os abandonou quando se deixou levar pelas sombras que tomaram conta da sua alma. Esqueça a vingança, Guilty ou a tragédia se abaterá sobre todos que você ama.
A voz da mulher penetrava na mente de Guilty e ele não compreendia como era possível. O ódio que alimentara se parecia com um cristal cheio de rachaduras. Aos poucos, sua consciência, não seus sentimentos, começava a ditar as regras...
Venha conosco. Não se deixe manipular por esses pobres espíritos obsessores.
Ouça o que ela diz, Guilty. Você não precisa voltar para aquele lugar. Disse Shun de forma serena.
Enquanto aquela estranha reunião acontecia no plano sutil, o som alto e ensurdecedor de helicópteros enchia o ar e duas vozes, uma feminina e outra masculina se fizeram ouvir.
— FBI! Todos larguem as armas! – disseram Isaac e Esmeralda.
Guilty viu a filha de forma diferente, naquele instante. Ela não era a menina tímida e sim uma mulher com voz de comando, mesmo tendo uma aparência delicada.
Esmeralda... Pensou no nome da filha e ouviu a própria voz vibrar, como se fosse uma corda de um instrumento desafinado.
Com as armas apontadas uns para os outros, tantos os gangsteres quanto os agentes pareciam sem alternativa que não fosse a rendição. No entanto, um brilho perverso e perigoso passou pelos olhos de Serguei... Por milésimos de segundos, ele pareceu entrar em transe e então fez o impensável, começou a atirar...
Os espíritos se moveram como se fossem enormes riscos, alguns luminosos, outros sombrios. Para Hyoga, era como se tudo acontecesse ao mesmo tempo, em um bailado de luz e sombra que alternava vertiginosamente com a ação dos vivos.
Ikki empurrou Hyoga a tempo de ver a arma de Serguei ser tomada de suas mãos após o disparo e sua mente recusou-se a acreditar em seus olhos...
Deus! Mas o que é isso? Pensou o agente ao ver que, embora o gângster tivesse atirado, as outras armas não estavam sendo disparadas e havia algo ou alguém frente a cada homem que participava. Seus olhos não conseguiam identificar o que era... As imagens pareciam dissolvidas, surreais como se ele estivesse alucinando e também havia os sussurros... Sussurros que pareciam canções antigas, do tipo que as mães cantavam aos seus filhos.
Os olhos de Hyoga viam tudo claramente. Os espíritos mais evoluídos haviam feito um círculo de proteção e oravam, cada um à sua maneira, a vibração erguendo um escudo de luz para impedir uma chacina. Alguns anjos haviam se juntado ao círculo e eram percebidos como luzes incandescentes que tinham o poder de interferir no espaço-tempo daquele lugar.
Shun olhou na direção de Hyoga e então, tudo voltou ao normal. O FBI já estava no controle da situação, os helicópteros haviam lançado bombas de um gás paralisante, evitando que os homens pudessem focar no confronto. Kanon, Saga, Shura e Seiya haviam se protegido em locais específicos na floresta e puderam observar os acontecimentos e chegar até Ikki sem maiores problemas.
Esmeralda e Isaac comandavam a retomada do controle. Homens com máscaras de proteção e armados faziam a contenção dos bandidos que tossiam e lacrimejavam. Praguejando, Serguei não entendia o que acontecera. Ele que tinha todo aquele arsenal a seu favor, agora estava sendo preso. Com um olhar insano, ele voltou-se para Nikolai.
— Ne zhdite, chtoby uytis , Nikolay! (Não pense que vai se safar, Nikolai)
— Ty idiot , Sergey . Eto byl yego posledniy shans. (Você é um idiota, Serguei. Foi a sua última oportunidade.) – disse Nikolai.
Assim que todos foram sendo levados, Hyoga e Ikki que já estavam, novamente, em pé olharam na direção do russo. O loiro notou o pequeno oscilar de Nikolai, constatando uma mancha escura se formando na camisa branca ocultada pelo paletó escuro.
— Nikolai... – murmurou Hyoga sem entender o que estava acontecendo e correndo até o russo.
Seu pai estava ferido e somente agora, isso aparecia. O russo levou a mão ao lado e o sangue brotou de imediato. Hyoga aproximou-se e Nikolai sorriu.
— Venha, me deixe vê-lo. – disse o russo.
— Está ferido. – falou Hyoga.
— Isso não é nada...
Hyoga se aproximou, amparando o homem cercado por dois agentes do FBI. Ikki fez um sinal para que os deixassem conversar um pouco.
— Escute, Hyoga... Eu só quero que saiba que... apesar de tudo o que fiz, saber que tenho um filho me permite morrer em paz. Eu amei muito a sua mãe... – disse Nikolai e seu corpo vacilou, fazendo-o cair de joelhos.
— Preciso de um médico aqui! – gritou Hyoga tentando levantar o russo.
— Não... – murmurou Nikolai. – Me dê sua mão... Eu não mereço... mas, por favor, diga... diga que vai tentar me perdoar...
Agarrando a mão ensanguentada, Hyoga olhou dentro dos olhos de Nikolai. Perdão era algo que não dependia da vontade. À sua frente estava um homem estranho que, no entanto, tinha muito de si, mas que fizera sua mãe sofrer e cometer aquela loucura. Sentiu os olhos serem inundados pelas lágrimas e uma mão suave tocá-lo no ombro. Não precisava mover o rosto, sabia quem estava ali...
Perdoe, meu filho... Perdoe...
Nikolai sentia seu corpo ser tomado pelo frio, mas ainda assim, descobriu-se em uma espiral de paz. Sorriu para Natássia que surgiu ao lado de Hyoga. Ela vinha buscá-lo, seu único amor, a luz em meio às trevas de seu coração ferido.
— Natássia... você veio. – disse ele em meio ao sangue que começava a brotar em sua boca.
Sim, meu amor... Eu vim.
Hyoga apertou a mão de Nikolai, deixando que as lágrimas escorressem pelo rosto.
— Adeus, pai. Eu... o perdoo... – disse com naturalidade.
O russo tocou o rosto do filho.
— Eu nunca pensei ouvir essa palavra... Ah, meu filho... – a frase comovida foi a última. Os olhos azuis de Nikolai se fixaram nos de Hyoga e ele deixou de respirar.
O jovem fechou os olhos de seu pai e elevou o rosto, encontrando o olhar compassivo de Shun. Logo os agentes vieram com maca e um médico, mas Nikolai já havia partido. O corpo físico foi levado, enquanto ele e Natássia deixavam aquele plano junto com os demais.
A caravana de espíritos retornava ao plano espiritual, enquanto a retirada dos gângsteres continuava. Assim como no plano da matéria, alguns espíritos voltavam a contragosto para o lugar onde deveriam reaprender a viver, enquanto outros se encaminhavam felizes e sorridentes por ter ajudado a evitar uma tragédia.
O loiro acompanhava ambas as cenas, seu coração abalado, mas ainda assim, em relativa paz. Essa era a vantagem se ver e falar com espíritos. Ele sabia que vida e morte eram estágios da peregrinação humana.
— Hyoga! – chamou Ikki. – Você está bem?
O jovem não respondeu. Guilty e Shun continuavam ali, olhando-o como se quisessem dizer algo.
— Hyoga! – repetiu Ikki, agora segurando o jovem pelos ombros.
Olhando para o homem que amava, Hyoga sorriu triste e falou:
— Chegou a hora Ikki. Eles querem que você saiba de tudo.
— Eles quem? – perguntou o agente com o cenho franzido.
— Seu irmão e seu instrutor. Os dois estão aqui e têm pouco tempo
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