Muito Além Da Dor!
1 Capítulo 1 PRÓLOGO
Notas iniciais
Eu ouço o barulho regular da chuva, pingos que mais parecem lágrimas que se repetem num ritmo semelhante ao pranto de quem perde alguém. Nestes momentos, em que estou só, em frente à janela, eu me permito chorar.
Então, ele vem a mim e toca meus cabelos...
Não chore, irmão. Eu estou aqui! Ouço a voz melodiosa sussurrar.
Eu fecho os meus olhos e sinto as mãos macias se entrelaçando em meus fios escuros, numa brincadeira que costumávamos fazer. Em seguida, volto à realidade e tudo se desfaz.
Vou até o bar e sirvo uma dose de conhaque. Bebo tudo em um só gole e a imagem dele volta à minha mente e lá está ele sorrindo daquele jeito doce, novamente...
— Bom trabalho, Ikki! Leve o guarda-chuva.
— Até mais tarde, Shun. Faça a sua lição de casa e depois pode jogar o que quiser. – digo em resposta, mesmo sabendo que falo para o vazio.
Para mim, Shun ainda está mantendo aquele sorriso, o único capaz de penetrar em minha couraça protetora.
Eu olho para trás e aceno para o fantasma que criei e caminho em direção à porta, pronto para uma viagem de muitos quilômetros e mais uma missão que adormecerá a dor que ainda sinto em meu peito.
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Hyoga entrou na van de comunicações e os homens pararam de falar, olhando para ele como se ele fosse um animal raro de zoológico. Alguns cochicharam e sorriram, mas ele não se importou. Estava ali a pedido de um amigo de sua família, alguém que o ajudara a superar momentos difíceis e dolorosos.
Ao fechar a porta, sentiu o frio cortante das montanhas que, para ele não era nada. Sua terra natal era ainda mais fria e mais inóspita. Pelo menos nisso, levava vantagem sobre aqueles homens, pensou.
Seu olhar recaiu, inadvertidamente para o homem moreno que estava com uma camisa preta de mangas compridas aberta e camiseta por baixo arregaçada, para a instalação do aparelho de escuta.
O cara não era muito alto, mas sua expressão sisuda dava a impressão que ele era grande e imponente. Por baixo da camiseta arregaçada via-se a ponta de uma tatuagem em seu bíceps.
Hyoga fechou os olhos e viu que era uma espécie de ave mitológica, uma Fênix, que aliás era o codinome do moreno. Havia também uma cicatriz antiga e quase apagada entre as duas costelas e outra sobre o peito, no lado esquerdo. A primeira era de um ferimento à faca e a segunda, de um buraco de bala. Fora isso, a pele era lisa, firme e os músculos eram vigorosos e nada exagerados...
Uau. Ele era um homem impressionante e também... solitário.
Pare, Hyoga! Sua missão aqui não é invadir a vida de um agente que nem conhece e que não lhe deu a mínima quando entrou. Sua missão é fazer o que Isaac lhe pediu, traduzir a conversa que ouviria entre o bandido e o agente infiltrado.
— Pronto! – disse Aiolia para Ikki, enquanto terminava de ligá-lo aos fios.
Ikki ajeitou a camiseta.
— Espero que dê pra ouvir bem. No outro dia a conexão tava tão ruim que mesmo se o cara falasse inglês, ia parecer russo. – disse Ikki olhando para Hyoga.
— Não se preocupe, esse equipamento é de primeira. – respondeu Aiolia.
Ikki puxou de volta a manga da camiseta, enquanto seu olhar encontrava o de Hyoga. Uma de suas sobrancelhas se elevou, numa pergunta silenciosa: Esse cara ainda é um moleque! Deve ter a mesma idade do Sh... Ah, para com isso Ikki. Foco.
Hyoga sentiu-se perturbado com aquele olhar, mas não demonstrou. Continuou se conectando ao equipamento de escuta com tanta naturalidade que parecia ser uma atividade comum em seu cotidiano. Na verdade, não era. Tinha 22 anos e estava concluindo Ciências da Computação na University of Iowa, sendo considerado um gênio na área de desenvolvimento de softwares.
Entretanto, ele possuía um segredo, além da genialidade intelectual, ele fora brindado com um dom, um dom que por vezes parecia uma maldição. Seus olhos podiam gravar tudo o que vislumbrava na realidade e, além dela. Isso incluía ter uma percepção extra sensorial que ele controlava, razoavelmente, e a capacidade de falar com os mortos...
— Bem, vamos lá. – disse Ikki deixando a van.
Hyoga posicionou-se e respirou fundo. Então, de repente, foi se como alguém cochichasse em seu ouvido, levando-o a chamar:
— Ikki.
O moreno olhou para trás, seus ombros escondendo a visão da noite, mas não o vento gelado.
— Sim?
— Tenha cuidado.
Um leve sorriso irônico passou pelos lábios de Ikki.
—Eu já era agente quando você ainda usava fraldas. Mas, obrigado por se preocupar.
Hyoga sentiu um calor subindo pelo rosto, mas se manteve impassível. Por que dissera aquilo se nem conhecia aquele homem?
Quando Ikki saiu ele respirou fundo, novamente, e sentou-se em seu lugar.
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— Puta que pariu! Como está frio aqui fora. – disse o agente que acompanhava Ikki.
Diante do comentário óbvio de Kanon, Ikki soltou o ar formando uma neblina com sua respiração. Os dois estavam deitados de bruços no telhado do celeiro que havia sido apontado como um depósito clandestino de armas.
Sim, estava frio demais, porém Ikki se concentrava mais no fato de estar a dez metros do chão e enfrentando um vento forte que parecia querer arrancar as roupas do seu corpo.
Kanon abaixou o binóculo, observando um discreto movimento.
— Tomara que consigamos pegar esses caras antes de virarmos picolé neste maldito telhado.
Ikki virou-se para o amigo e sorriu. Kanon era forte e ágil, mas como um autêntico grego, odiava o frio. Na verdade, os dois se conheciam de longa data, treinaram juntos e passaram por momentos dolorosos semelhantes. Tinham uma boa comunicação entre si e ideias semelhantes também. Para chegar ali, eles decidiram sedar os rottweilers que guardavam a fazenda ao invés de matar os animais. Caminharam pela mata e agora estava sobre o celeiro, tudo isso em menos de 30 minutos.
— Mas que merda é essa? – falou Kanon.
— O que foi? – perguntou Ikki.
— Olhe ali, bem ali. Está vendo?
— Crianças?! – disse Ikki franzindo o cenho.
Graças aos óculos especiais com visão noturna, Ikki enxergava com perfeição o chão lá embaixo. Um grupo de crianças maltrapilhas eram conduzidas por longas coleiras como se fossem animais.
— Dvigatʹsya! (Andem!) – gritava um homem corpulento.
A temperatura caíra para dois graus e o vento parecia congelá-los por dentro. Ikki queria avançar, mas eles estavam presos ali até receberem um sinal da estação de comunicações, instalada na van onde estavam Hyoga e uma equipe, na estrada principal a 400 metros dali.
— Precisamos chegar mais perto, para que Hyoga os ouça. – disse Ikki pelo microfone.
— Eu estou ouvindo. – disse Hyoga, para surpresa de Ikki.
Como assim ele está ouvindo? Mal dá prá eu ouvir daqui! Pensou Ikki.
— Impossível! Nem mesmo eu entendo e...
— Ele disse Speshite, ili ya ubʹyu ikh! Andem logo, ou vou matá-los! – falou Hyoga com uma segurança que fez Ikki sentir uma agitação dentro de si.
— Permanecer aqui não vai ajudar. Aiolia, mande a equipe avançar! – disse Ikki.
Kanon se mexeu, provavelmente tentando não congelar naquele frio. Ikki fez o mesmo, mas por motivos diferentes. Não sabia o que era, mas ouvir Hyoga o tinha perturbado e também... excitado. De repente, imaginara aquele corpo alvo e esguio embaixo do seu, os lábios se abrindo para receber os seus... Céus, mas que porra era aquela?
— Fiquem em posição que estamos quase chegando, Ikki. – disse Aiolia pelo microfone.
Ikki retornou sua atenção à missão e, de repente, achou algo estranho naquela cena. Havia alguma coisa destoante... As provas estavam ali, com o adicional de terem achado crianças que, provavelmente, estavam sendo mantidas como escravas para prostituição ou aliciamento militar para atos terroristas. Havia silêncio e, somente uma camionete estacionada próxima ao celeiro. Ele se virou para Kanon.
— Você está pensando o mesmo que eu? – perguntou para o amigo.
— Que prepararam tudo para que fôssemos trazidos para cá? – devolveu Kanon.
— Isso mesmo.
— Pessoal, não venham até aqui. É uma armadilha. Repito, é tudo uma armadilha! – disse Kanon.
Na van, Hyoga continuou ouvindo uma conversa, ao fundo, em russo. Fechou os olhos e se concentrou, enxergando as crianças dentro do celeiro, todas amarradas a bombas programadas para explodir quando alguém abrisse a porta. Seu coração acelerou, mas ele continuou a vasculhar com a mente, toda a cena. Dois homens armados haviam saído, sorrateiramente e estavam até o teto do celeiro subindo por uma escada improvisada.
— Ikki! Saiam daí! Tem dois homens armados subindo pela retaguarda! – falou Hyoga.
Ikki virou-se e ouviu um clic, seguido de um estampido. Kanon levantou-se enfrentando a força do vento, no mesmo instante. Não houve tempo. Os dois foram derrubados com um tiro.
A van com Aiolia e os outros agentes estava quase entrando no perímetro onde Ikki e Kanon estavam, porém, não encontrando sinal de nenhum dos dois. Hyoga continuava a ouvir uma conversa que não estava sendo transmitida por equipamentos e sim captada por sua mente. Fazia esforço para concentrar-se e descobrir o que acontecera ao Ikki e Kanon.
My v konechnom itoge s nimi, kak my eto delali s etimi dvumya ! Kogda oni stanovyatsya blizhe, my budem vzryvatʹ! (Assim que eles se aproximarem mais, vamos explodir tudo e acabar com eles como fizemos com aqueles dois!)
— Eles acreditam que mataram Ikki e Kanon, mas não podemos entrar, o celeiro vai explodir. – disse Hyoga aflito.
— Como sabe disso? – perguntou Aiolia.
— Eu ouvi a conversa antes de... antes de ficar mudo. – mentiu Hyoga.
— Muito bem! Shiryu, June, Seiya, cerquem o local, mas não entrem! Vamos forçar o inimigo a sair! – gritou Aiolia.
Os agentes se posicionaram e Hyoga tentou, aflito, enxergar Ikki e Kanon, mas não conseguia. Geralmente, quando isso acontecia era porque havia alguma interferência de outros planos astrais. Suspirou e se desconectou da visão paranormal para deixar fluir seu outro dom.
— Está bem, quem quer que você seja, por favor, apareça! Está me atrapalhando. – disse o loiro.
Lentamente, como se fosse uma imagem holográfica, a figura de um jovem foi se materializando. Ele era belo, tinha grandes olhos verdes e cabelos castanhos que pareciam seda. Sua expressão era triste, mas estranhamente agradável e íntima.
— Você pode me ver, certo? – perguntou ele.
— Sim, eu posso. Mas, o que faz aqui? – falou Hyoga.
— Eu tento proteger meu irmão. Desde que eu parti, ele vive aceitando essas missões perigosas e eu... temo que ele seja ferido.
Hyoga franziu o cenho, analisando aquele jovem que parecia ter a mesma idade que ele.
— Seu irmão é...
— Meu irmão se chama Ikki e eu, me chamo Shun.
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