Muito Além de Mim
17 Você mudou tudo.
Todos os dias depois do trabalho eu me encontrava com a Célia para mostrar a ela um pouco mais da nossa cidade. Eu tinha que fazer companhia a ela, principalmente porque Andrew estava sempre ocupado ou atarefado com o trabalho que exigia muito mais dele do que o meu exigia de mim.
Eu não podia deixá-la sozinha por nada, por mais cansada que estivesse. Sentia que esse era meu dever com nora.
Andrew se desculpava o tempo todo por sua ausência, quando na verdade tudo que ele mais queria era aproveitar melhor o tempo com sua mãe, mas eu sabia que no fundo ela entendia melhor do que ninguém. Seu coração era enorme.
Não achei que seria possível ficarmos ainda mais próximas, mas foi exatamente o que aconteceu: nos tornamos muito mais amigas. Ela me contou sobre suas flores, suas queridas e adoráveis flores. Ela era uma obcecada por jardinagem. E eu contei a ela mais sobre minha rotina de trabalho no escritório, até que um dia finalmente resolvi apresenta-la a minha chefe, a Denise.
As duas tinham mais ou menos a mesma idade e era mulheres maduras e admiráveis. Dois grandes exemplos de mulheres. Não deu em outra: as duas se apaixonaram instantaneamente. Célia não tinha um inglês tão bom ou tão fluente, mas eu sempre dava uma forcinha quando estava por perto e geralmente eu estava sempre por perto, no meio das duas, quase sempre excluída. Mas eu não me importava.
Numa bela manhã, enquanto eu fazia alguns telefonemas importantes, Denise deixou um bilhetinho sobre a minha mesa, passou por mim e saiu. No bilhete estava escrito o seguinte: Vou sair com a sua sogra. Preciso mostrar a ela minhas lojas favoritas de Cupcakes. Espero que dê conta de todo o trabalho sozinha. Só por hoje, o.k? Confio em você. Beijo!
Basicamente a nossa nova rotina era essa: quase todas as manhãs Célia passava algum tempo com Denise, no final do dia eu a encontrava para fazermos alguma coisa juntas e as vezes, quando possível, ela ficava com o filho, matando a saudade. Nesses momentos eu sempre tentava deixá-los sozinhos para aproveitarem melhor esse tempinho.
— Ele é tão feliz com você. – Ela comentou de repente.
Estávamos na praia, vendo de longe o Andrew surfar.
— E porque você acha isso? – Perguntei, mesmo sabendo que era uma pergunta muito boba.
Eu precisava ouvir de outra pessoa certas coisas.
— Vocês se amam... É nítido. E eu sinto que ele é muito verdadeiro quando está com você. Ele é ele mesmo o tempo todo. Não precisa fingir, nem forçar nada. É natural.
— Eu sinto o mesmo. Com ele eu sou uma versão melhor de mim mesma. Ele faz com que eu queira ser melhor a cada dia. Acho que... Nunca amei uma pessoa desse jeito. E as vezes isso assusta.
— Eu sei que sim, querida. – Ela coloca sua mão quente sobre a minha. — Mas não deveria. Isso é especial e você deve aproveitar ao máximo essa chance que a vida lhe deu. Não é sempre que acontece. Não é sempre que se pode ter tudo.
**
Era um dia claro e caloroso, mas com muita chuva.
Sydney e Mason resolveram casar-se às pressas. Os dois pareciam desesperados para consagrar essa união. Eu, como madrinha, fiz de tudo para facilitar a vida dos dois. Célia também ajudou muito. Eu agradeci a ela o tempo todo, pois as vezes eu tinha a sensação de que não daria conta sozinha.
Judy também era madrinha, mas como nossa relação não era lá das melhores, eu quase não falei com ela. Apenas o necessário. Sempre que eu olhava para ela e via sua cara sínica, eu tinha vontade de voar em cima dela. Então, eu evitava qualquer proximidade e se não fosse pela Sydney eu nem me esforçaria para nada disso.
Noite passada, Andrew organizou uma despedida de solteiro para o Mason e convidou todos os amigos deles. Pelas fotos e pelos poucos relatos do Andrew, a noite foi marcante e muito divertida. Fico feliz por poder estar fazendo parte disso. Eu nunca fui madrinha antes.... Nunca se quer presenciei um casamento assim tão de pertinho. Somente em filmes.
E é realmente aquela loucura toda, principalmente quando as coisas são feitas às pressas e de última hora.
A cerimônia aconteceu em uma pequena capela da nossa cidade. Muito antiga também. Sydney acertou em cheio na escolha do vestido. Longo, branco e com renda. Mason olhava para ela como se fosse a mais bela entre todas as melhores do mundo inteiro. E eu não duvidava. Porque ela realmente parecia uma bonequinha de tão perfeita.
Eu chorei o tempo todo. Não pude evitar. Porque pela primeira vez eu entendia o significado daquilo. Não era só mais um casamento, só mais uma história ou só mais duas pessoas apaixonadas. Eu finalmente sabia qual era sensação por ter encontrada a pessoa ideal e a vontade de eterniza-la em sua vida de todas as maneiras possíveis. Eu sabia o que era amor e a grandiosidade desse sentimento.
E naquele momento, enquanto Mason e Sydney trocavam as alianças, eu soube que era aquilo que eu queria para mim. Eu queria ser aquela pessoa vestida de noiva lá na frente. Com todos olhando para mim. É clichê e super brega? Sim. Mas eu quero ter isso e quero ter com o Andrew. Quero que ele seja a outra pessoa comigo, ao meu lado, para todo o sempre.
Por sorte a chuva deu uma diminuída e o céu escureceu. A festinha de comemoração seria na casa deles, onde eu também já morei com o Andrew. Lá no quintal. Célia se encarregou da maior parte da decoração e preparativos. Ela decorou tudo com flores e luzes, escolheu os melhores petiscos e bebidas, posicionou as mesas, as cobriu com toalhas, e pesquisou as melhores músicas para tocar.
Ela foi sensacional.
— Foi lindo, não foi? – Comentei quando o Andrew quando me juntei a ele em uma das mesas lá fora.
— Eu não sei. – Ele sorriu, chegando mais perto com o rosto do meu. — Eu só conseguia olhar para você.
— Mas você estava do outro lado! No seu posto de padrinho do noivo. E tinha todas aquelas coisas acontecendo...
— Nada importava além de você. – Ele me beijou gentilmente. — Eu estou tão, tão apaixonado por você.
Eu o beijei de volta.
Depois disso, abri a boca para retribuir o carinho e dizer a ele tudo de melhor que ele era na minha vida desde que ele surgiu nela, mas fomos interrompidos pelos noivos.
Mason me convidou para uma dança e Sydney perguntou se poderia dançar com Andrew. Então, lá fomos nós.
Teríamos todo o tempo do mundo para isso, mas aquele momento era único para os nossos amigos.
**
Passei o dia inteiro muito mal. Provavelmente foi algo que eu comi durante o almoço, mas eu quase não consegui sair do banheiro, mesmo durante o trabalho.
— Sabe o que eu acho? – Denise perguntou mais tarde, quando já fechávamos o escritório. — Você deve estar gravida.
— O quê? – Eu quase gritei. — Não! Isso não é possível. Não pode ser. Eu tenho tomado o remédio...
Foi então que me lembrei: não, eu não tomava o remédio fazia algum tempo já. A cartela tinha acabado e eu simplesmente esqueci de comprar uma nova.
Confesso que isso me deixou bem abalada. Apesar de conversar muito com o Andrew sobre essas coisas, eu não estava pronta para isso. Eu nem se quer tinha certeza se queria ter um filho. Ainda mais agora... Sendo tão cedo.
Fui para casa pensando nisso. Cheguei a parar em frente a uma farmácia para poder comprar um teste... Mas eu recuei de medo. Não queria saber. Não estava pronta para saber.
Desisti.
— O que foi? – Andrew quis saber. Estávamos recolhendo a louça suja do jantar. Éramos só nós dois hoje. — Foi algo no trabalho? Você está esquisita hoje. Muito calada e distante. Ou é só aqueles dias? Devo me manter afastando até passar?
— Não. – Tento sorrir. As vezes ele é fofo demais. — Não é nada disso. É só cansaço mesmo e um pouco de mal estar. Comi algo que não me fez bem. Mas vai passar. Amanhã estarei novinha em folha.
— Tudo bem, então. Tome um banho e deite um pouco. – Ele beijou o topo da minha cabeça. — Deixa que eu cuido disso sozinho hoje. – Ele se referia a louça e a sujeira.
Fiz exatamente o que ele sugeriu, mas mesmo depois de um tempão não consegui pregar o olho.
— Andrew? – Chamei por ele, bem baixinho. Já estava tudo apagado. — Você ainda está acordado?
Ao ouvir a minha voz ele se revirou um pouco, resmungou e finalmente deu algum sinal de vida.
— O que foi? Está se sentindo mal ainda? – Ele acendeu o abajur ao lado e olhou bem para mim, todo preocupado.
— Você sempre diz que quer ter um montão de filhos... E se, sei lá, não fosse algo que acontecesse dentro dos planos...
— Que papo é esse agora? – Ele parecia surpreso. — Espera... Você acha que... Acha que você está grávida?
— Não! Quer dizer... Não sei. Talvez. Há uma possibilidade.
— Você está brincando?! Ah, meu Deus. – Por um momento pensei que ele fosse surtar, mas pelo visto eu me enganei. — Ah, meu Deus! Você jura? Nós vamos ter um bebezinho?
Ele pousou a mão sobre a minha barriga como se eu já estivesse cem por cento certa do que dizia.
Era quase como se ele já esperasse sentir algo se movimentando ali dentro.
— Andrew... Não. É só uma possibilidade. – Sorri, admirada com sua reação. — Talvez não seja nada...
— Eu espero que seja. Eu realmente espero que seja! Eu quero ter um filho com você. E estou mais do que pronto para isso agora. Eu poderia até tirar umas férias do trabalho e...
Ele passou o resto do tempo divagando sobre essas coisas e as possibilidades. Até que eu já estava exausta e não aguentava mais e insisti para que fossemos dormir logo, pois acordaríamos cedo no dia seguinte para ir trabalhar.
Por insistência do Andrew, comprei um teste na tarde seguinte. Um não. Comprei três só por garantia. Passei o dia todo agitada por conta disso. Em casa, mais tarde, na presença dele resolvi apressar as coisas antes que eu explodisse.
O primeiro deu negativo. O segundo também, assim com o terceiro. Uma grande parte de mim ficou imensamente grata por isso. Mas outra parte ficou levemente triste. Principalmente por ele que estava tão empolgado.
— Sinto muito. – Saí do banheiro com os três testes negativos em mãos. — Nós nos enganamos...
Foi visível seu desapontamento ao receber a notícia. Todos os seus planos jogados ladeira a baixo. Fui abraça-lo com lágrimas nos olhos. Tudo que eu queria era fazer dele um homem feliz, completo e realizado. Mesmo que isso significasse para mim fazer certos sacrifícios. Não tinha problema. Sei que daríamos um jeito. E eu faria qualquer coisa por ele.
— Não tem problema. – Ele segurou meu rosto com carinho. — Será numa próxima vez. No momento certo. Vamos esperar mais... Talvez não fosse pra ser agora, certo?
**
Na semana seguinte fui surpreendida no trabalho pelo moto boy com uma entrega especial para mim: flores e uma carta. Deixei de lado tudo que tinha para fazer e fui receber meus pequenos mimos.
As flores eu imediatamente coloquei na água e a carta deixei para ler no meu horário de almoço, durante a minha pausa. As duas e meia, depois de ter comido uma saladinha caprese maravilhosa no restaurante da esquina, sentei-me no meio da praça e abri a carta do Andrew.
Eu meio que já estava acostumada com elas, mas essa me pegou.
Minha Sereia,
Tenho sentido algo diferente em você nos últimos dias, principalmente depois daquele ocorrido em relação ao filho que poderíamos ou não ter nesse momento das nossas vidas.
Eu admiro seu esforço, admiro seus sacríficos, admiro tudo que você tem feito por mim, por ter tornado minha vida mais feliz, mais completa, mais realizada. Mas saiba que eu não preciso de muito. Eu só preciso de você. Acredite.
Eu não preciso ter o casamento dos sonhos realizado em um magnífico castelo e uma lua de mel em Paris. Não preciso de uma casa cheia de filhos. Não preciso de uma casa grande, com uma cerca branca na frente e um lindo jardim.
Eu me contentaria com qualquer pouca coisa que a vida me oferecesse se você estivesse lá comigo.
Não quero que você se sinta pressionada ou na obrigação de me dar tudo que você acha necessário. Eu não quero que você pense que nossas vidas só seriam perfeitas se nós tivéssemos uma vida igual as dos filmes que vemos por aí.
Eu esperaria qualquer coisa por você.
Esperaria você estar pronta para ser mãe. Esperaria até mesmo a vida inteira. E entenderia se você nunca estivesse pronta para algo assim ou se você desejasse não ter nenhum filho e quisesse apenas ter um cachorro um gato.
Esperaria você estar pronta para casar-se comigo. E entenderia se você optasse por ter uma cerimônia pequena. Algo só entre nós dois. Ou que você preferisse nunca oficializar isso que nós temos e me pedisse para continuarmos para sempre assim que seria o bastante para você.
Seria o bastante para mim também.
Qualquer coisa com você e por você, lembra-se?
Não importa quais sejam suas decisões futuras, eu irei te apoiar, eu iriei entender, irei respeitar, irei compreender.
Então, por favor, não faça nada só mim. Faça por você também. Faça por nós dois. Mas nunca faça só por mim, pensando no que eu iria pensar ou no que eu iria preferir.
Nunca se esqueça disso, o.k?
Eu te amo e sempre amarei,
Seu peixinho favorito.
Tem como não se emocionar com algo assim?
Tem como esse homem existir? Ainda parece que as vezes estou vivendo um sonho. Porque não pode ser possível que isso seja mesmo real. Não pode existir alguém que me compreenda dessa forma, que me decifre, que enxergue além de mim, que desvende coisas sobre mim que eu nem mesmo consigo lidar ou enfrentar na maior parte do tempo.
Isso me surpreende cada vez mais.
Guardei a carta de volta na bolsa com cuidado para mais tarde guardar dentro da caixinha junto de todas as outras.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para ele.
Tenho uma surpresa para você mais tarde.
Antes de ir para casa tomar um banho e me arrumar, passei no mercado e comprei tudo que achei que fosse necessário. Em casa, montei a nossa cestinha.
O plano era levá-lo a um lugar distante da cidade, quase como uma espécie de campo de golfe, onde faríamos nosso primeiro piquenique sob as estrelas.
Ele foi vendado a maior parte do caminho. Não queria estragar a surpresa. Ele fazia coisas grandiosas por mim, eu queria retribuir na mesma intensidade ou ainda mais.
Tivemos uma noite incrível e agradável.
Comemos, rimos, dançamos, conversamos, corremos, rolamos no gramado feito duas crianças, deitamos, admiramos as estrelas, nos beijamos, demos alguns amassos, inclusive no carro e por fim, fomos embora, já era muito tarde.
**
Ele já tinha pegado no sono, mas eu não. Fiquei olhando para ele como se fosse a primeira vez. Fiquei observando os traços do seu rosto, a suavidade de sua respiração, a textura de seu cabelo e sua pele... Tudo era lindo, perfeito e mágico.
Se algum dia acontecer algo muito ruim entre nós dois, esse é um dos momentos em que quero lembrar para sempre para nunca esquecer o quanto fui feliz, o quanto eu amei esse homem e o quanto ele transformou a minha vida.
Como ele mesmo diz: não dá para saber o que vai acontecer amanhã ou depois. Dessa vida a gente pode esperar tudo. Mas se for o caso de acontecer, sei que esse é um dos momentos, assim como tantos outros, que vai me fazer pensar no quanto vale a pena continuar vivendo por coisas assim.
O quanto vale a pena continuar vivendo por esses tipos de pessoas: aquelas que entram em nossas vidas de uma hora para outra e viram tudo de pernas por ar.
Fale com o autor