Muito Além de Mim

11 Uma conversa franca.


Notas iniciais
Me desculpem pelo atraso do capítulo. Eu estava quase enlouquecendo!

Mais um dia de folga. O que é muito raro, então eu tinha que aproveitar e colocar toda minha vida em ordem.

Fui ao mercado e comprei tudo que tinha que comprar ou a gente ia morrer de fome, dei uma geral no APERtamento” e coloquei minhas atividades do livro de inglês em dia.

Andrew saiu mais cedo do trabalho e me mandou uma mensagem, sugerindo que eu me encontrasse com ele. Eu topei, é claro. Ele estava me esperando a algumas quadras dali, em frente a um Café muito mais charmoso e sofisticado que eu trabalhava. Nós resolvemos entrar. Pedimos alguns muffins de mirtilo e dois cafés fortes. Nos sentamos em uma mesinha pequena perto do balcão.

— Você está estranha.

Era verdade. E eu não conseguia esconder. Acontece que eu ainda não havia criado coragem de dizer a ele que meus planos para o futuro estavam no Brasil. Eu queria recomeçar de novo e de novo. Quantas vezes fossem necessárias. Ter um lugar só meu e começar uma vida pra valer, com os pés no chão.

Eu tinha receio que ele se chateasse e eu não queria criar um climão entre nós agora. Achava cedo para isso. Além do mais, eu ainda tinha tempo para me decidir e me resolver. Vai que eu mudo de ideia. Ou quem sabe... Ele muda de ideia. Agora, tudo que eu quero mesmo é continuar bem com ele aqui e aproveitar o tempo que temos.

— Não estou, não! Vamos falar de outra coisa, pode ser?

Então perguntei sobre seu dia no trabalho.

— Hoje meu chefe veio com um papo todo estranho. Sobre uma viagem de trabalho que ele acredita ser uma oportunidade única e quer que eu vá junto. – Disse ele.

— E do que se trata, exatamente?

— Eu não sei. Ele também não sabe muito. Mas parece ansioso. Acredito que seja algo relacionado ao resgate de algum animal...

— Uau! Mas isso é incrível, não é?

— Sim, mas... seria muito tempo longe de você.

Ele pousou sua mão sobre a minha e eu sorri para ele, maravilhada.

Até então não achava que fosse possível amar tanta uma pessoa.

**

Havia parado de chover a algumas horas. Já estava de noite e fazia friozinho lá fora. Mas aqui dentro, no quarto do Andrew, tudo era tão quente e aconchegante. Eu não queria sair daqui nunca mais. Uma pena que isso não fosse possível. Pois eu ainda tinha uma vida toda lá fora, me esperando.

— Você pensa muito em ter uma família? – Perguntou ele de repente, quebrando todo o silencio.

Eu estava sentada no chão, com as costas apoiada na cama, enquanto ele, sentado no colchão, com uma perna de cada lado do meu corpo me fazia uma massagem nos ombros.

Isso era tão relaxante.

— Não penso muito... Porquê?

— Eu sei que isso soa maluco, mas, sei lá, eu sou assim, eu tenho curiosidade sobre tudo que esteja relacionado a você, por isso preciso perguntar... Você quer ter uma família?

— Ah, acho que sim... Tanto faz...

Seus dedos pararam de se movimentar de repente.

Eu abri meus olhos.

— O que foi?

— Nina! Por favor, leve isso a sério.

— O que você quer que eu diga? – Fiquei de joelhos para ficar mais ou menos na altura dele e lhe roubei um beijo.

— Às vezes eu só queria que você fosse um pouquinho menos fechada e um pouquinho menos contida.

— O que você quer dizer com isso?

— É que sei lá, às vezes, você é tão fechada. Não diz nada se eu não perguntar. Parece que tem medo de se abrir ou de tocar em certos assuntos ou até mesmo de matar suas curiosidades. Eu não sei do que você tem medo, mas espero que não seja de mim. Porque você pode falar comigo sobre qualquer coisa, você sabe disso, não sabe?

Assenti, levemente ressentida.

— Você tem razão. As vezes eu sou bastante reservada. Eu queria se diferente! Mas alguma coisa me impede. É mais forte que eu... Me desculpe... Vamos começar de novo...

— Você não precisa se desculpar o tempo todo. – Ele sorri de leve e me puxa para cima, para eu me sentar ao lado dele na cama.

— A verdade é que eu não penso muito sobre ter uma família. Pelo menos não por agora. Primeiro eu quero estabilidade, um futuro, experiências.... Essas coisas.

— Então você nunca pensou em ter... Filhos? — Ele quis saber.

— Porque? Você pensa muito nisso?

— Às vezes, sim.

— E quantos filhos você gostaria de ter?

— Milhares! – Ele parece um garotinho ao dizer isso.

— Sério? – Não consigo não sorrir nessa hora. — Meu Deus, coitadinha da sua futura esposa. Ela está ferrada!

— Não seja boba. – Ele me abraça, me apertando. E me faz cocegas. Dou uma risada muito alta e tento me livrar dele.

— Por favor, pare com isso. – Praticamente imploro, com lágrimas nos olhos de tanto rir.

Tudo entre nós é tão natural, tão íntimo... E gostoso.

— O.K. Eu vou parar. – Ele finalmente tira seus dedos ágeis de mim. — Quer dizer então, que você não pensa nem em se casar comigo algum dia? – Pergunta ele, ainda brincalhão. Por isso não fico tão assustada com esse papo todo.

— Quem sabe. – Olho para ele com um sorrisinho. — Eu posso até pensar mais sobre isso se você me garantir que se contentará em ter apenas um único filho e que demore bastante pra isso acontecer.

— Só um? – Ele parece indignado.

— Talvez dois.

— E que tal três?

— Acho melhor só um.

— Mas ele ia ser tão solitário! Coitadinho. Pense nele...

— É, pode ser... Talvez um irmãozinho mais novo com companhia não será tão ruim.

— Aposto que ele ficaria muito mais feliz com vários outros irmãozinhos para brincar o tempo todo.

**

— Agora eu já sei qual é o defeito dele. – Comenta Eli durante nosso intervalo no dia seguinte.

Descemos para comprar algo.

— E qual é? – Pergunto, intrigada.

— Ele é maluco! Piradinho das ideias. Tipo assim, vocês estão juntos não faz nem dois meses direito e ele já está pensando em casamento e filhos...

— Ele é assim. – Eu rio. — Ele pensa em tudo.

— E isso não te assusta?

— Não. Eu até que gosto.

— Então, você é maluca também!

— Ah, Eli. Para com isso. – Continuo a sorrir. — Essas coisas são normais entre casais. A gente mal começa a se envolver e já pensa que vamos parar num asilo aos oitenta anos de idade porque nossos filhos nos esqueceram e não têm mais tempo para gente.

— Nossa! Credo!

Solto uma gargalhada.

— Mas é verdade!

Eu compro um refrigerante e um sanduiche light.

— Seu cabelo está tão bonito hoje. – Comenta ele logo depois de darmos o dinheiro para a atendente do caixa.

— Que mentira! Ele está péssimo. O creme que eu trouxe do Brasil já acabou e é tão, tão difícil encontrar um creme ideal para o meu tipo de cabelo nesse país. É frustrante!

Começamos então a falar de cabelos e quando damos conta, nosso tempo já estava terminando. Resolvemos subir, mas acabamos esbarrando com o Fernando no meio do caminho.

— Ei. Fernando. – Eu sorrio para ele.

— Oi. – Disse ele meio sem jeito e passou direito.

Pelo visto ele e o Eli continuavam brigados.

— Quando é que vocês vão se resolver?

— Nunca se depender de mim. Eu odeio ele! Ele nem se quer se desculpou. Mas quer saber? Eu não quero mais. E quero que ele fique o mais longe possível de mim... Eu até já estou em outra.

— Até parece. — Reviro os olhos.

**

Andrew me espera no corredor. Acabei de sair do vestiário, onde tirei meu maiô e coloquei roupas secas para podermos ir embora. É a primeira vez que resolvemos vir ao Clube em um domingo de manhã para praticarmos mais um pouquinho de natação.

— Como você já é uma excelente nadadora, até melhor do que eu, tenho uma surpresa para você. – Diz ele a caminho do carro enquanto segura firmemente a minha mão.

Andrew me leve ao aquário onde ele trabalha.

Nem posso acreditar.

— Vamos!

— Eu pensei que não abriam os domingos.

— Até certo horário abrimos sim. Mas já está fechado. E essa é uma ótima oportunidade para nós.

— Nós não vamos fazer nada ilegal, né?

— Claro que não! – Ele sorri. — Eu sou funcionário daqui, esqueceu-se? Tenho acesso livre. Então vem. Anda logo!

Não estou acreditando. Não consigo me segurar de tanta euforia. Nós vamos mesmo entrar em um dos tanques cheios de peixes de várias espécies, tipos e tamanhos. Seria assustador se eu não tivesse ao lado do melhor especialista de todos.

Andrew me ajuda com a roupa de mergulho e com os cilindros que me ajudarão a respirar de baixo da água.

Subimos uma escadinha estreita ao lado do tanque.

— Acho que não consigo! Estou tremendo de medo. – Tento dizer a ele, mas não sei se ele me ouve bem por causa da máscara.

— Você consegue. Estarei com você o tempo todo. – Ele alcança minha mão e lá vamos nós.

Certamente é uma das melhores experiências de toda a minha vida. Vou carregar esse momento para sempre. Andrew e eu, nadando, entre os peixes. Alguns olham com curiosidade, outros se afastam com certo medo. É incrível. Quase mágico. Todo aquele meu medinho evaporou totalmente.

Apesar de tudo, não ficamos por muito tempo. E depois que eu me seco e já estou mais contida, ele me leva para conhecer melhor o aquário, me explicando vários detalhes e me contanto algumas curiosidades. Ele é incrível. O que ele faz e tudo que ele sabe é bastante impressionante.

Andrew é quase um livro de biologia ambulante.

O que eu totalmente amo.

**

Tive um dia totalmente estressante. O Café ficou tão cheio durante um certo período do dia que eu me embananei toda e fiz mil besteiras. Desde a errar no troco dos clientes a trocar um pedido pelo outro. É claro que levei bronca por isso. Josh riu da minha cara. E Judy debochou de mim logo depois que o Andrew saiu para uma visitinha rápida e me deixou uma outra carta fofa como só ele sabe escrever.

Acho que Sydney tem razão: Judy tem inveja. Claro que sem motivos nenhum. Já que ela é linda e poderia ter qualquer cara. Mas não... Porque ela está ocupada implicando comigo e meu relacionado do qual ela sabe tão pouco.

Eli ao que parecia também não teve um dia muito bom e então nós resolvemos sair para tomar alguma coisa e tentar relaxar um pouco. Só quando o álcool começou a fazer efeito que ele resolveu se abrir comigo e contar que o motivo de todo seu estresse foi o Fernando ter tentando falar com ele o dia inteiro, ligando sem parar em seu celular durante o trabalho, o que irritou muito a chefe dele.

— Vocês se amam. É tão obvio!

— Mas eu já o esqueci.

— Que seja! Mas pelo visto ele não te esqueceu.

— É claro que não! Porque ele é um idiota e quando eu estou finalmente superando ele resolve correr atrás.

— Você deveria ter atendido.

— Eu não quero mais, Nina. Eu já disse.

— Então diga isso a ele.

**

Estou ferrada. Ai, meu Deus. Estou tão ferrada. Eu sabia que não era uma boa coisa deixar certas coisas para lá. Todo mundo sabe que elas sempre acabam voltando de algum jeito para te infernizar e para te lembrar que elas existem mesmo que você não queira.

Foi só hoje depois da última reunião do comitê de organização sobre a nossa festinha de conclusão do nosso intercambio que eu me dei conta que ainda não tinha conversado sobre o Andrew que chegaria um dia que eu teria que ir embora.

É, não tem jeito.

Esse dia está cada vez mais próximo. Assim que acabar meu curso é como se meu visto de estudante para permanecer nesse país chegasse ao seu prazo de validade. Afinal, eu vim aqui para estudar. Essa era objetivo. Mas eu acabei me apaixonado, coisa que eu não esperava. Ou talvez até esperasse, só não imaginava que seria tão intenso e tão especial.

E se eu, de repente, quiser permanecer aqui por mais tempo, eu preciso solicitar uma renovação do meu visto. Mas eu nunca tinha parado para pensar nisso antes, pois meu plano era estudar e depois voltar para o Brasil. Só que tudo mudou. Agora eu tenho o Andrew e ele é importante na minha vida.

Eu amo ele e adoro esse lugar tão bonito e tão seguro, mas eu não sei se quero ficar aqui. Nem sei se posso ficar. E é por isso que preciso mais do que nunca ter uma conversa bem franca com ele sobre o destino do nosso futuro.

Preciso te ver. Você está livre?

Para você estou sempre livre.

Fui até sua casa com o coração na mão. Entrei, cumprimentei os meninos que estavam jogando baralho na sala com mais outros meninos que eu não conhecia e subi para o quarto do Andrew.

Ele estava lendo quando entrei.

Deixei minhas coisas ali em um canto e me aproximei devagar de sua cama, onde ele estava, o beijei de leve e me sentei.

— Eu estou indo embora.

— O quê? – Ele se sobressaltou.

— Não. Quero dizer, eu vou ter que ir embora.

Ele fez uma careta. Parecia não entender nada.

— Desculpe. É difícil para mim. Eu sou péssima nesse tipo de coisa. O que quero dizer é que.... Chegou a minha hora.

— Espera. Continuo sem entender nada. O que você quer me dizer com isso? Que você está com câncer ou algo assim?

— Não! Credo!

— Então, o que é?

— Andrew – Suspirei. — O que eu quero mesmo saber é o que vai ser da gente.

— Como assim o que vai ser da gente? Então você não está com câncer e nem vai morrer?

— Bom, que eu saiba não... Mas isso não tem nada a ver com o que quero dizer! Escuta – Suspirei de novo. — Meu intercambio está chegando ao fim. Meu visto está chegando ao fim. Quando eu vim para cá, eu vim para estudar. Eu não esperava te conhecer, nem me apaixonar. E é por isso que quero saber de você o que vai ser da gente. Porque eu, sinceramente, não sei.

Não sei porque razão meus olhos se encheram de lágrimas e ele me puxou para um abraço desajeitado.

— Eu te amo. E você sabe disso. Então, nós vamos ficar juntos, não vamos?

— Vamos? – Perguntei.

— Claro que vamos!

— Mas onde? Aqui? No Brasil? No Canadá? Na Dinamarca? Onde?

— Aqui. Bem aqui. – Ele segurou minha mão próxima ao seu coração. — Você não tem que ir embora, Nina. Você pode ficar. Pelo menos por um tempo, até darmos um jeito nisso. Fica comigo, bem aqui. Não vai embora não.

— Mas...

— A gente vai dar um jeito. Juntos nós daremos um jeito.

Eu sorri, secando as lágrimas.

— E se não funcionar? Se não der certo?

— Vai dar. – Ele beijou minha testa. — Claro que vai dar.

Notas finais
E aí, será que isso vai dar certo mesmo?