Muito Além de Mim
22 Tentando ajudar.
Se eu ia mesmo ficar aqui por tempo indeterminado, eu iria ao menos começar a tirar as minhas coisas de dentro das malas. Comecei o dia e fui logo tomar um bom banho morno. Fiquei ali algum tempo, de olhos fechados, deixando a água escorrer pelo meu corpo. Depois, coloquei uma roupa melhor e mais descente, muito mais apresentável. Para surpresa de todos, desci para me juntar a eles para o café da manhã.
Ainda bem que eles não disseram nada, só pareceram surpresos e contentes pelo meu primeiro passo. Eu não queria que eles me elogiassem como se eu fosse uma criança aprendendo a andar de bicicleta sem as rodinhas. Eu só me sentiria ainda pior. Mas que bom que foi tudo tranquilo e natural. Todos conversando e comendo como de costume.
— Eli, será que você poderia me ajudar a tirar as minhas coisas das malas? – Perguntei ao termino do café.
— Claro!
Nós subimos então para o quarto, sentamos no chão e tiramos tudo de dentro das malas e organizamos dentro das gavetas do guarda-roupa que fora do Andrew que não era muito grande, mas eu também não tinha muitas coisas.
— Antes que você me pergunte porque eu resolvi fazer tudo isso, eu só queria dizer que sou muito grata por todo o esforço e paciência de vocês. Eu percebi que tenho sido muito ingrata e muito imatura, que eu deveria ao menos tentar e fazer um esfocinho. Andrew iria querer isso.
— Eu estou muito orgulho de você, Nina.
Sorri para ele.
Depois que terminamos, ele desceu para ajudar Catarina com o almoço. Eu ainda estava pensando se iria ou não descer para comer com eles. Antes de chegar a uma conclusão, Célia entrou no quarto. Eu não estava esperando sua visita.
— Tenho uma coisa para você.
Nós nos sentamos.
— Os colegas de trabalho do Andrew encontraram isso nas coisas dele durante a viagem. Era para você. Não sei se ele chegou a mencionar antes de tudo acontecer. Eu só não te dei antes por receio de que tornassem tudo ainda mais difícil, mas hoje, vi seu esforço e achei que isso poderia te ajudar a seguir em frente e ser mais forte.
Ela me entregou um pequeno embrulho e uma carta.
— Vou te dar um tempo sozinha. – Ela beijou minha testa e saiu.
Abri o embrulho e encontrei nada mais nada menos que uma aliança. Uma aliança de noivado. Na mesma hora meus olhos se encherem de lágrimas. Ver aquele anel não facilitou nada para mim, só piorou. Pois saber que ele me pediria em casamento e não teve a chance nem tempo, me parte ainda mais o coração. Eu teria dito sim, teria pulado em seus braços. Seria um momento extremamente marcante para nós.
Só que não aconteceu e nunca aconteceria.
E como eu posso lidar com isso?
A carta eu simplesmente guardei. Não estava pronta para lê-la. Nem um pouco ansiosa. Eu já imaginava o que ele teria escrito ali e isso era demais para mim e meu fraco coração. Eu não suportaria ainda mais essa dor.
Esperaria um melhor momento, se é que eu teria.
— A comida está pronta. Você vai se juntar a nós, não vai? – Eli veio a minha procura alguns minutos depois.
Eu já me encontrava deitada em posição fetal, com a aliança de encontro ao meu coração que martelava no peito.
— O que aconteceu?
— Eu não vou. Me deixe em paz!
— Mas, Nina... Eu pensei que...
— Vá embora!
— Nina, por favor, me diz o que mudou!
— Você quer mesmo saber o que mudou? – Olhei par ele com muita raiva tomando conta de mim. — Isso mudou. – Entendi a mão e mostrei a aliança a ele. — Nós teríamos casado e seriamos felizes para sempre, como nenhum outro casal foi, porque nós sentíamos pelo outro um amor sem tamanho.
Eli olhava para a aliança em minhas mãos como olharia para um filhotinho de coelho abandonado dentro de uma caixa pequena no meio de uma estrada perigosa.
— Minha nossa...
— Era essa a surpresa que ele tinha para mim... Ele comprou essa aliança durante a viagem e quando chegasse me pediria em casamento da forma mais romântica possível e isso e me tiraria o fôlego de um jeito que só ele sabia fazer.
— Nina... Sinto muito...
— Não! Não sente. Eu sinto muito! Agora saia daqui!
Ele saiu mesmo contra sua vontade.
Durante todo aquele dia eu me dei conta que lá no fundo, numa parte minha bem escondidinha, eu já não tinha mais tanta vontade assim de viver. E porque teria? Eu perdi a pessoa que eu tanto amava. Toda minha felicidade foi embora com ele. Todos meus motivos e vontades. Todos meus sorrisos e anseios. Nada mais fazia sentido quando se sabe que no final é só você e o nada que restou.
O dia estava chegando ao fim quando ouvi a porta se abrir, pensei seriamente em fingir que estava dormindo para não ter que ver ou ouvir ninguém. Mas de pouco adiantaria se no dia seguinte eles continuariam insistindo e insistindo.
Virei-me para ver quem era.
— Max, vai embora.
Ainda calado ele se sentou na ponta da cama.
— A minha mãe sente muito pelo que aconteceu hoje. Não era a intensão dela te fazer se sentir ainda pior. Por um momento, ela achou que ajudaria e que te faria lembrar que ainda existem motivos para querer você continuar e ser feliz.
— Eu nunca mais serei feliz e vocês precisam entender isso de uma vez por todas. Eu posso até continuar vivendo, mas eu nunca mais serei a mesma e nunca mais sentirei nada igual.
— E você precisa entender que não é a única que se sente assim. Todos nós perdemos ele de maneira trágica, mas temos procurado forças um no outro. Porque quando se sente assim, sem forças, sem vontades, nós precisamos ficar perto das pessoas que se importam com nós e que nos querem bem.
— Sim, eu sei! Mas não dá para esperar que eu reaja da mesma maneira que vocês. Eu estava lá com ele, nós passamos muito momentos juntos. Era só nos dois, na alegria e na tristeza. Nós tínhamos planos para o futuro e acreditávamos que ainda tínhamos uma vida toda pela frente e que tudo aconteceria no tempo certo. Mas não foi assim.
— É, você estava lá fisicamente. Mas nós também estávamos... Em seu coração. Nós somos a família dele. Nós o vimos crescer e passar por todo esse processo, até decidir que buscaria um novo rumo em um país muito distante daqui. Nós o apoiamos, nós o incentivamos, sonhamos com ele.
— Então, você quer me dizer que a dor de vocês, a família, é muito maior que a minha e que eu não tenho o direito de me sentir assim, do jeito que me sinto?
— Não, não é isso. O que eu quero mesmo dizer é que nós também sentimos dor e nos confortamos um no outro. Estamos ao menos tentando. E você, olha só para você, se isolando do resto de nós. Mas por quando tempo? A vida inteira? Você espera que passemos o resto da vida alimentando você nesse quarto, tentando te fazer sair daqui até que você esteja pronta? Acontece que nenhum de nós está pronto para nada. Nunca estaremos prontos para perder uma pessoa amada, mas aconteceu e o que você espera que a gente faça? Pare a vida toda parar chorar pelo resto dos nossos dias? Por acaso no que isso vai adiantar? Faz as coisas melhorarem? Voltar a ser como eram antes? Faz a dor ir embora de alguma forma?
Como ele consegue ser tão caridoso, piedoso e tão cruel e impiedoso ao mesmo tempo?
É claro que eu precisava ouvir essas coisas todas pra cair na real, mas mesmo assim... Não torna tudo mais fácil. Nada será mais fácil como era antes. Nós o perdemos e depois disso nunca as coisas serão as mesmas. Não adianta eu acordar amanhã fingindo que nada disso aconteceu, mas também não adianta eu continuar aqui me sentindo um lixo de pessoa.
Sinceramente, eu não sei o que faço. Não sei se choro ou se sinto raiva dessa situação toda.
— Eu entendo, Nikolina. Se permita sentir. Se permitir extravasar. Coloque isso tudo para fora de uma vez por todas. Não reprima suas dores e o que você sente. Compartilhe isso com alguém, com nós. Sinta tudo que tiver que sentir!
Ele tem razão. Claro! Eu estava guardando tudo isso só para mim. Tornando tudo ainda pior, mais pesado. O que eu preciso mesmo é deixar fluir para fora, para aliviar.
Me levanto abruptamente, olho em volta e deixo a raiva me dominar. Começo então a agir feito uma maluca descontrolada. Tudo que vejo na minha frente eu atiro no chão ou nas paredes. Quebro, bato, chuto, esmurro. É o que quero fazer, é o que sempre quiser fazer... Eu não sabia ainda.
Com toda essa raiva e culpa por estar destruindo tudo que há no quarto dele, eu começo a chorar. Deixo as lágrimas escorrerem sem parar. Eu chorei algumas vezes desde então, mas nunca nessa intensidade. Não permiti coloca-las para fora dessa forma, porque achei que só pioraria. Mas está ajudando. Chorar e extravasar está me fazendo tão bem!
— Eu te odeio por ter me deixado! – Grito enquanto extrapolo e choro sem parar. — Eu me odeio por sentir tudo isso. É demais para mim! Não foi o que eu sonhei para nós dois. Eu odeio que isso tenha acontecido! Eu me odeio por não saber o que fazer ou como prosseguir sem você!
Não esperava que de repente eu começasse a agredir a mim mesma, me bater, na esperança de me fazer acordar pra alguma coisa. Foi nesse momento em que Max resolveu interferi. Ele tentava me segurar com o máximo de força, mas eu acabei de revoltando contra ele e o esmurrando também.
— Chega! Pare com isso! Já deu. Chega!
Só quando estava cansada o bastante foi que parei, então olhei em volta e vi tamanha destruição. Até as minhas roupas haviam ido parar no chão. Olhei para o Max, assustado e surpreso comigo... Eu estava envergonhada agora. Escondi meu rosto em seu peito e continuei chorando feito um bebê.
— O que aconteceu aqui? – Todos vieram ver de perto o furacão chamado Nikolina. — Está tudo bem?
— Venha, Nina. – Eli me tirou dos braços do Max. — Vou encher a banheira. Você merece um bom banho quente.
— Tudo bem. Está tudo bem. – Catarina tentou controlar a situação. — Eu arrumo a bagunça toda.
— O que aconteceu, gente? – Ouvi Isabeli perguntar. — Ela ficou doida? Teremos que interná-la, é isso?
— Ela vai ficar bem. – Garantiu Max.
Eli me esfregou com cuidado, lavou o meu cabelo, me cobriu com uma toalha e guiou até o seu quarto.
— Vou pegar uma roupa para você. – Ele saiu.
Max apareceu.
— Oi, como se sente agora? Melhor? – Continuei de cabeça baixa. — Acho que isso te pertence.
Ele se aproximou e estendeu a aliança.
— Obrigada... Por tudo.
Eu nunca imaginei que esse momento chegaria. Que eu o agradeceria por alguma coisa e que ele me ajudaria mais do que qualquer pessoa com algumas palavras de conforto e conselhos. Bom, pelo visto Andrew tinha um pouco de razão sobre ele.
**
Eu resolvi que eu finalmente daria uma chance a Catarina de me mostrar a casa. Bom, na parte de cima, como já era previsto. Estavam os quartos e um dos banheiros. O quarto de hospedes no final do corredor, o quarto de Célia, o banheiro, o quarto do Max e o quarto de Andrew do qual eu me apoderei. Lá em baixo, a cozinha, sala de estar, o lavabo, o escritório e o quarto que Catarina divide com Isabeli.
Depois de comer algo pela manhã, decidi fazer uma caminhada lá fora. Era mesmo uma vista incrível. Com perfume agradável de terra e flores. O vento batia constantemente nas árvores, fazendo as folhas verdinhas balançarem. Não arrisquei ir muito longe, tinha medo de acabar me perdendo na mata e não saber como voltar.
Estava tão maravilhada com tudo que acabei ficando por ali mesmo, sentada num banco de baixo de uma árvore, onde fazia uma sombra agradável. Foi então que vi Max sair da casa, acompanhado de Isabeli. Os dois começaram a brincar. Ela correndo atrás dele e pulando em suas costas. Ele não se importava e a puxava para o seu colo, fazendo-a morrer de rir. Os dois pareciam se dar muito bem. Como pai e filha.
— Você não quer conhecer de perto as minhas flores? – Célia surgiu de repente.
Acompanhei-a pelo quintal, onde estavam os canteiros com flores. Ela falou com profundidade sobre suas adoráveis plantações, sobre os nomes, as espécies, os cuidados.
— Descobri meu amor pelas flores ainda criança, por causa da minha mãe. A gente passava muito tempo junto plantando coisas e conversando sobre o assunto. Hoje em dia, eu vivo disso. Da venda das flores. Aqui eu planto, cuido e quando elas estão prontas eu as levo até a cidade.
— Uau! Isso é impressionante.
— Andrew me achava maluca, principalmente quando me flagrou conversando com as flores pela primeira vez.
Apesar de doer ouvir os verbos que se relacionavam com Andrew no passado, eu ri, por achar graça da situação.
— Vem, vamos entrar. O almoço deve estar quase pronto.
Na cozinha, encontrei Catarina e Eliezer muito atarefados.
— Seu amigo é um excelente ajudante.
Eli sorriu para mim, todo cheio de si.
— Só se for como ajudante mesmo, porque pelo que eu me lembre nem um miojo ele sabe fazer direito. – Brinquei.
— Ei... Não me ofenda. Eu aprendi muito ultimamente, sabia?
Nós rimos.
— Isabeli! – Catarina gritou pela janela. — Venha se lavar, querida. O almoço está quase pronto!
Minutos depois ela e Max surgiram.
Max sentou-se diante de mim, calado.
O almoço foi servido em poucos instantes. O frango estava uma delícia. Acho que fazia um tempão que eu não comia com tanta vontade desse jeito.
Insisti em ajudar com a louça, mas ninguém quis me dar ouvido. Então fui para sala, onde encontrei Isabeli esparramada no sofá, com o controle da grande televisão em mãos.
— Você não foi a escola hoje?
— Não. Mamãe disse que estou com uma virose. Achou melhor eu ficar em casa descansando até me sentir melhor.
Lá fora enquanto brincava com Max ela parecia bem animada e saudável para alguém que estava com virose.
— O que você quer assistir? – Perguntou ela quando me sentei.
— Qualquer coisa que você quiser.
— Que tal: Enrolados, da Disney?
— Eu gosto muito desse.
— Eu também! – Ela sorriu largamente.
Fiquei vendo filme com ela que nem vi a hora passar. Quando me dei conta, Isabeli tinha pegado no sono. Peguei uma manta e cobri com cuidado. Depois resolvi sair. O dia já estava chegando ao fim. Sentei-me nos degraus perto da porta. Max surgiu da lateral da casa e sentou-se comigo.
— Está entediada?
Pensei no Andrew e no quanto teríamos sido felizes aqui com nossas famílias ou em qualquer outro lugar do mundo.
— Um pouco. Sinto falta dele...
— É, eu também sinto... Fazia tanto tempo em que não nos víamos.
— Seria bom tê-lo aqui com a gente.
— De certa forma ele está. Você só precisa encontrar uma forma de se conectar com ele.
— Como?
— Ah, não sei. Talvez fazer algo que ele gostava muito que você fizesse.
Foi aí que me lembrei do sonho estranho que tive antes de Andrew morrer e as coisas que ele me disse: “Você vai ficar bem. Muitas pessoas cuidarão de você. E não é como se eu fosse embora para sempre, eu vou continuar aqui de certa forma. Bem juntinho de você. Você só precisa me encontrar. ”
— Vou pensar em algo.
Em silencio, ele tirou um maço de cigarro de dentro do bolso da calça jeans e acendeu um cigarro já na boca.
— Eca. Você fuma!
— E qual é o problema?
— É nojento!
— Não tem nada nojento nisso.
— Isso te faz mal...
— Isso eu sei.
— Então porque fuma?
— Motivos pessoais.
Revirei os olhos. Como ele pode acabar com todo o encanto em questão de segundos? Num momento ele estava aqui ao meu lado dizendo coisas bonitas, no outro agindo de forma estupida. Não sei como algum dia poderemos nos dar bem.
Levantei-me e entrei na casa.
Eli estava lá em cima, no quarto, arrumando suas malas.
— Não quero te deixar. – Disse ele quando me viu entrar.
— Não seja dramático. Eu vou ficar bem. Juro que dessa vez eu vou ficar bem. Eu sinto que sim.
— Eu também sinto. – Ele sorri. — E é por isso que vou te deixar me sentindo seguro de que estará em boas mãos.
Eu o abraço.
— Eu te amo, chato.
— Eu te amo, bebê.
Resolvo ajuda-lo com as coisas.
— Você já contou aos seus avós que voltou?
— Não voltei exatamente.
— Acho que eles iriam surtar ao saber que você está aqui.
— Não quero falar com eles agora.
— Dessa vez eu concordo com você.
Já em meu quarto, fechei meus olhos, pronta para dormir. Tinha sido um longo dia. Eu me esforcei o bastante e agora só queria um boa noite de sono. Mas nem tudo é como a gente quer, certo? Mal peguei no sono e tive sonhos terríveis.
Max foi o primeiro aparecer, afinal, seu quarto era praticamente em frente.
— Você está bem?
Sento-me.
— Vou ficar.
— Você quer alguma coisa? Um chá talvez?
— Não. Obrigada. Pode voltar para o seu quarto e para sua transa. Desculpa se eu atrapalhei alguma coisa.
Ele me olhou torto.
— Eu não estava transando.
— Não? Uau. Que milagre! – Ironizei.
— Eu só estava tentando ajudar, tá?
Em segundos, ele se mandou.
Não consegui mais dormir, então peguei um dos livros do Andrew que eu não estraguei e resolvi que ia ler só para me distrair.
Não sei quando peguei no sono e como não tive mais pesadelos, mas acordei com Eli no meu quarto, pronto para se despedir.
Foi difícil vê-lo partir mais uma vez, mas eu sabia que seria melhor assim... Ele merece essa felicidade. Ele merece voltar para o homem que ama. E deve aproveitar isso ao máximo.
Max e Célia foram os responsáveis em levá-lo até o aeroporto mais próximo, que na verdade não era nenhum pouco próximo.
Mais uma despedida em minha vida.
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