Muito Além Da Dor!
4 Capítulo 4 SOMBRAS DO PASSADO...
Notas iniciais
Hyoga entrou em seu apartamento, totalmente exausto. Atirou-se no sofá de couro manchado de café, colocou uma almofada colorida embaixo da cabeça e ficou olhando para o teto. As janelas amplas que iam do chão até o teto davam para uma vista espetacular da Ponte do Brooklyn e ele ficou ali, admirando as luzes em meio à escuridão da noite, pensando em como sua vida podia sofrer tantas mudanças em tão pouco tempo...
O telefone tocou e ele sabia quem era. Havia desligado o celular e, certamente, era Isaac tendo outro ataque de ex-padrasto zeloso.
— Sim? – disse sem muita vontade.
— Chegou bem? – perguntou uma voz grave.
— Ikki?
— Como pode ver, não é só você quem sabe das coisas. Liguei para avisar que terá um homem cuidando da sua segurança de forma discreta. Você já o conheceu é o Seiya e ele é bom. Eu sugiro que você quebre a sua rotina, caso algum observador indesejado esteja à espreita. Não vá à faculdade durante esta semana, já que tem de viajar para isso. Mantenha-se vigilante e não se exponha muito.
Hyoga não sabia se ria ou ficava furioso. Aquele homem gostava mesmo de ter o controle sobre os outros e o fazia sem nenhum constrangimento.
— Eu agradeço a preocupação, mas não creio ser necessário todo esse aparato. O alvo são vocês, então... sugiro que descubram logo quem os quer mortos.
Ikki sorriu do outro lado da linha.
— A lista é grande. Mas o que me preocupa, agora, são os inocentes na trajetória destes filhos da puta e isso inclui você. Portanto, cuide-se garoto. – disse Ikki.
— Eu não sou um garoto. – respondeu Hyoga ouvindo apenas o som do telefone sendo desligado.
O jovem russo bufou e foi até a cozinha. Pegou uma caneca e despejou o café da cafeteira. Provou, sentindo o sabor forte e amargo. Não usava açúcar e detestava qualquer coisa doce. Também fazia, segundo alguns de seus colegas da universidade, o sacrilégio de tomar café quase frio.
Dirigiu-se ao seu quarto onde mantinha dois computadores em rede e sempre ligados. Sentou-se em frente às duas telas planas e digitou, abrindo várias janelas com informações sobre os últimos acontecimentos. O noticiário nas redes já falava sobre as crianças achadas no prédio abandonado e na prisão de dois russos ligados a alguma facção mafiosa.
Em seguida, digitou um número e logo outra janela se abriu com foto, nome e endereço. Ivan Petrikov, preso em 2005 por assalto à mão armada, colocado sob regime semi-aberto em 2011, endereço rua 105th St, número 332-A.
Tomou mais um gole do café forte e esfregou os músculos do pescoço. O número que digitara fora a placa da moto que conseguira visualizar e agora sabia quem era o proprietário...Mandaria os dados para Isaac e talvez ele ficasse menos histérico ou não.
Bem, vou tomar um banho. Pensou Hyoga, após constatar que estava mais cansado que conseguia admitir.
Entrou embaixo da água fria e ensaboou-se, descobrindo alguns arranhões que resultaram de ser atirado no chão. Suspirou e abraçou a si mesmo, recostando-se na parede de mármore, deixando que a água fria o relaxasse, mesmo que isso parecesse descabido a qualquer outro mortal adepto do banho quente.
Por um breve instante, a imagem de Ikki invadiu-lhe os pensamentos... Lembrou-se do tórax forte e da forma impetuosa com que ele reagia a tudo. Parecia um daqueles heróis de anime, cuja força era sempre inesgotável. O simples pensamento o deixou excitado, o que tratou de acalmar colocando a cabeça embaixo da água, agora ainda mais fria.
Era estranho, nunca sentira uma excitação tão imediata ao conhecer um homem. Aliás, sexo era meio tabu para si. Não gostava de envolvimentos, nem de ninguém adentrando o seu mundo. Era considerado frio pelos parceiros, que nem eram muitos, e nem se importava, porque paixão era uma palavra que só conhecia o significado do dicionário e preferia que continuasse assim.
Desligou o chuveiro e se secou, olhando-se no espelho e analisando o próprio corpo. Era um tanto esguio, mesmo que tivesse tudo no lugar, ainda assim gostaria de ter um corpo mais desenvolvido, mais... desejável.
Deixe de ser otário, Hyoga. Pra que um corpo desejável se transar pra você é quase a mesma coisa que se masturbar?Pensou se dando conta que nem tinha uma vida sexual decente, já que vivia no mundo acadêmico pesquisando e trabalhando em seu universo virtual.
Vestiu uma calça de moletom e uma camiseta larga. Sacudiu os cabelos, ainda molhados e voltou para frente dos computadores. Instantes depois ouviu a campainha. Ninguém vinha à sua casa... Talvez Isaac?Não, ele não costumava fazê-lo, dizia que quanto menos alguém os visse juntos, melhor.
— Entrega de Pizza! – gritou a voz atrás da porta.
Hyoga franziu o cenho. Apagou as luzes e esperou sem dizer nada. Respirou lenta e pausadamente, como sempre fazia quando algo estava para acontecer.
— Vai esfriar se você não abrir a porta! – insistiu a voz.
Fechando os olhos, Hyoga viu, além da porta... Era o tal Seiya vestido de entregador de pizza. Patético! E aquele era um dos melhores agentes?Ikki só podia estar brincando!
O jovem russo acendeu a luz e abriu a porta, encontrando o entregador com uma expressão séria.
— Por que abriu? Tava fazendo tudo certo, russo. Não era pra abrir a porta! – disse Seiya com uma caixa de pizza na mão.
Hyoga fez um muxoxo com os lábios e apoiou a mão no batente da porta.
— Eu sabia que era você. Entre. – disse o russo com uma expressão de tédio.
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A voz de Esmeralda tentava disfarçar a dor, mas Ikki a sentiu de uma forma quase palpável. Então ali estava a filha do homem que amara como um pai e que... ainda amava e sofria com isso.
— Sinta-se à vontade. – disse ele, também com um tom cansado, mas, estranhamente sem mostrar surpresa.
A jovem estremeceu sob aquele olhar direto de Ikki, que sempre parecia uma arma apontada para os seus.
— Não quero que se preocupe quanto ao fato de tê-lo prendido. Eu sou bem consciente das ações do meu pai e nós nunca fomos próximos. Por isso, resolvi ser agente. Você não parece surpreso com isso. – disse ela bebendo mais um gole de uísque e franzindo o cenho ao sentir o líquido descer queimando pela garganta.
— A Princesinha do papai... Eu vi uma foto sua ainda menina. Ele me mostrou quando tentou me convencer a não denunciá-lo.
— O quê? Quando...? Que foto é essa? M-Meu pai nunca gostou de fotos. – gaguejou Esmeralda.
— A foto que ele sempre carregava consigo. Ele queria vê-la longe de tudo isso, dizia que você se tornaria o tendão de Aquiles dele e, por isso, preferia me ter como substituto. Na verdade, acho que você é a única pessoa que ele ama, verdadeiramente.
— Foi você, quem ele treinou. E eu me lembro dele elogiando-o e dizendo que você era o filho que o universo o tinha presenteado.
— Eu fui o presente a ser desembrulhado e usado. Você foi preservada de tudo isso, então agradeça. Fique aqui esta noite, mas amanhã quero que volte para Nova York e diga a Isaac que se desconfia de mim, que seja homem, pegue minha arma e meu distintivo e me demita!
Esmeralda cambaleou. Não estava acostumada a beber uísque puro. Ikki segurou-a e ela fitou-lhe os olhos. Sentiu o magnetismo que emanava dele, fazendo-a sentir-se mais feminina e vulnerável, mas, ao mesmo tempo, percebia que ele permanecia distante, um homem que mesmo sob uma fachada civilizada era, na verdade, um diamante bruto e inacessível para si. Desvencilhou-se dele sentindo-se incomodada.
— E-Estou bem, apenas não costumo beber. – disse por fim, tentando sorrir.
— Acho melhor descansar um pouco. Foi um dia atribulado para todos nós. Vou mostrar-lhe o quarto de hóspedes. – falou Ikki.
Kanon continuava bebendo seu uísque com uma expressão zombeteira, algo que Ikki percebeu, mas preferiu ignorar.
O quarto de hóspedes era estilo suíte. Era amplo, possuía um armário para roupas, o chão era recoberto por um tatame e a cama era larga e baixa, coberta por um futon com motivos florais. Havia uma janela que dava para um pátio interno com uma fonte e flores que exalavam um perfume delicado.
Esmeralda tirou a roupa, ficando apenas de sutiã e calcinha. Deitou-se na cama, sentindo o corpo relaxar sob o efeito do álcool. Fechou os olhos e sonhou...
Estava em uma encruzilhada, onde os caminhos eram apontados por setas feitas de neon. Era tudo tão brilhante e confuso que seus olhos se estreitaram...
Faça! Ouviu uma voz sussurrar-lhe bem perto do ouvido, fazendo-a estremecer.
O quê? O que quer que eu faça? Ela perguntou de volta.
Mate-o! Mate-o por mim! Faça-o pagar!
A voz era tão alta e tão densa que a fez sentir-se asfixiada. Então ela olhou na direção da voz e seu coração acelerou.
Pai! Gritou ela e seu corpo foi envolvido pela escuridão.
— Esmeralda! Acorde! – falou Ikki sacudindo-a.
A jovem abriu os olhos cobertos de lágrimas e abraçou-se ao agente, deixando que ele visse a sua fragilidade.
— Tive um pesadelo... – sussurrou ela.
— Está tudo bem, foi apenas isso, um pesadelo. Está segura, aqui. – respondeu ele acariciando-lhe os cabelos.
Esmeralda tocou a mão de Ikki e, de repente, a solidão de ambos pediu passagem diante na cena inusitada, aproximando-os, fazendo com que seus corpos sentissem o calor e a proximidade um do outro.
Ikki passou o dedo pelo contorno do rosto delicado, descendo para os lábios que se entreabriram dizendo seu nome. Esmeralda fechou os olhos, desejando a entrega, ansiando em ser seduzida.
Porém, quando Ikki aproximou os lábios dos dela, as portas do armário se abriram, violentamente, batendo sozinhas. O moreno parou a ação e olhou surpreso. Esmeralda sentiu um arrepio e colocou os braços em volta do corpo.
O futon elevou-se como se alguém estivesse sacudindo-o e, em seguida, a porta do quarto se abriu e o labrador adentrou o quarto latindo e sacudindo o rabo como se estivesse feliz de ver alguém muito próximo.
Ikki franziu o cenho. Beethoven não costumava entrar assim nos quartos. E por que ele estava olhando na direção da janela e abanando a cauda?
— I-Ikki, o que está acontecendo? – perguntou Esmeralda vestindo suas roupas.
— Eu não sei. Mas parece que passou. – disse o moreno levando a mão aos cabelos.
O cão olhou-o e depois latiu, voltando a apontar na direção da janela. Esmeralda foi até lá, mas nada viu. Apenas sentiu, novamente, aquele arrepio que parecia percorrer seu corpo todo, dos pés à cabeça.
— O que foi rapaz? O que está vendo aí? – perguntou Ikki afagando-o na cabeça.
Se o cão pudesse falar, diria que estava feliz, porque estava revendo aquele que era a razão dele ter sido adotado por Ikki.
Encostado à janela, Shun sorria satisfeito por ter impedido que seu irmão cometesse mais um grande erro...
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Seiya sentou-se no sofá onde antes, Hyoga tinha deitado. Abriu a caixa deixando exalar um gostoso cheiro de pizza napolitana. Inspirou o aroma e serviu-se de uma fatia, oferecendo para Hyoga, logo a seguir. O russo ficou olhando-o agir tão à vontade e se perguntou como alguém podia ser tão...tão descarado!
— Não vai comer? Tem que aproveitar que ainda tá quente. – disse o agente com a boca cheia. – Tem algo pra beber?
— Água. – respondeu Hyoga.
— Com gás?
— Não, comum, da torneira.
Seiya franziu o cenho e olhou para Hyoga que permanecia em pé e com os braços cruzados.
— Fique à vontade. Faça de conta que está em sua casa. Eu vou dispensar a água, faz mal à saúde comer e beber líquido. Com exceção da cerveja ou de um bom vinho! – disse o agente rindo.
Hyoga sorriu de má vontade. Ótimo, agora o sem noção fazia piadinhas, também!
— Olha, Seiya, eu agradeço a preocupação, mas não costumo hospedar estranhos em minha casa, então que tal você...
— Ainda bem que eu não sou estranho, né? A gente se conhece e, um pedido do Ikki, pra mim é como se fosse a vontade de Deus. Portanto, aqui estou e aqui ficarei! Não se preocupe comigo, eu me arranjo por aqui mesmo. Esse sofazinho parece bem confortável. – falou Seiya comendo outra grande fatia de pizza.
Hyoga bufou, mas Seiya pareceu não notar. Muito à vontade, o agente procurou o controle da TV, colocou os pés sobre a mesinha de centro e serviu-se de mais um pedaço de pizza.
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— Preciso de um café forte. – disse Esmeralda ainda perturbada com o que acabara de acontecer.
— Vamos até a cozinha, eu faço um, para nós dois. – disse Ikki.
Nem bem ligara a cafeteira, seu celular tocou. Olhou o número e sorriu, reconhecendo quem era.
— Oi, Hyoga. – disse ele num tom rouco.
— Quero que mande seu homem deixar meu apartamento! Já disse que não preciso de babá e não gosto de estranhos tomando liberdades em minha casa! – falou o russo, irritado.
— É para o seu próprio bem, não seja grosseiro. – respondeu Ikki se divertindo com a situação.
— Grosseiro? Eu? Ora, quem falando! Mande-o sair da minha casa ou saio eu!
— Não entendo porque está tão nervosinho. Sabe muito bem que esse procedimento é padrão para quem se envolve com um agente, nos termos que acabaram de acontecer. Certamente, Isaac também mandou vigiá-lo de longe o que me deixa mais tranquilo. Enfim, você terá proteção extra. Pedi ao Seiya, porque além de bom, ele não levanta suspeitas se ficar aí com você. Ele é três anos mais velho, mas vocês dois parecem ter a mesma idade. Finja que é um colega de faculdade passando uns tempos em sua casa.
— Eu não preciso de proteção! – gritou Hyoga quando ouviu um clanc!
— Hyoga! Hyoga! – gritou Ikki ao sentir o silêncio do russo e ouvir o som surdo de armas disparadas ao fundo.
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A porta foi aberta com um chute e três homens entraram atirando. O sofá de couro virou uma peneira e os quadros na parede estilhaçaram lançando vidro para todo lado. Lascas de reboco da parede deixaram o ar empoeirado, enquanto as armas automáticas continuavam sua dança.
No chão, Seiya rolou para trás de um móvel com fotos expostas e disparou três tiros, enquanto gritava para Hyoga se proteger. Um baque surdo garantiu que ele atingira um dos homens, mas ainda havia dois, sendo que um procurava Hyoga e outro continuava tentando atingi-lo.
Uma bala zuniu perto de si, mas Seiya foi mais rápido e disparou, novamente, atingindo o homem no centro entre os olhos.
O outro homem havia ido até a cozinha, onde Hyoga estava telefonando. A mão tatuada abriu a porta de correr com a arma em punho e, antes que pudesse reagir, recebeu uma xícara de café fervente no rosto e um chute nos genitais que o fez urrar de dor e disparar a arma a esmo.
Seiya chegou, logo a seguir, atingindo o mafioso na cabeça e terminando o serviço.
—Por que o matou? – perguntou Hyoga com os olhos arregalados.
— Máfia russa. Eles não falam nada, mesmo sob tortura e, se o deixamos vivos, eles conseguem fugir e voltam com mais carga.
— Podíamos tê-lo prendido para interrogatório.
— Temos que sair daqui, isso sim! – disse Seiya ignorando o comentário de Hyoga.
— Vamos pra onde? – perguntou o russo, exasperado e com o rosto coberto de suor.
— Pra Fortaleza da Solidão. – respondeu Seiya, com um meio sorriso.
Foi então que Hyoga sentiu o flanco esquerdo úmido e pegajoso. Levou a mão e quando a retirou, ela estava suja de sangue. Sentiu-se tonto e viu o rosto de Seiya desfocado.
— A-Acho que... ele... me atingiu. – disse o russo.
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Ikki já estava com as chaves do helicóptero na mão, quando seu celular tocou.
Esmeralda apenas olhava, sem saber muito como agir, então permaneceu calada. Precisava falar com Isaac, mas sentia-se quase uma traidora por isso.
— Seiya! O que aconteceu? — perguntou Ikki.
— Fomos atacados e o Hyoga tá ferido.
— O quê? Ferido como? Não tinha um dos homens de Isaac protegendo-os do lado de fora?
— O cara nem teve chance. Foi fuzilado enquanto comia donuts. O ferimento do Hyoga não é grave, a bala entrou no lado esquerdo e saiu. Ele só perdeu um pouco de sangue, mas já tá consciente.
— Saiam daí e vão até o Central Park, vou pegá-los de helicóptero.
— Uau! De helicóptero no Central Park? Mas... onde, chefe?
— Ache um lugar com bastante área livre e me espere.
— Okay!
Hyoga ouvia a conversa, ainda estonteado. De repente sentiu que havia alguém ao seu lado. Pensou em Shun, mas não era ele. A imagem era fraca, mas ele sentia a leveza da mão acariciando seus cabelos, uma leveza que lhe era familiar...
Estreitou os olhos, obrigando-se a focá-los para saber quem era. Percebeu, apenas um sussurro e ouviu uma canção de sua infância.
Fechou os olhos e tudo escureceu, enquanto Natássia tocava em seus cabelos e dizia:
— Estou aqui, meu filho...
Enquanto isso, sem nada perceber, Seiya tirava Hyoga do apartamento, sob olhar curioso dos vizinhos e o som de sirenes ao longe...
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