Mugetsu
1 One-shot.
- Às vezes sinto como se o céu fosse um grande espelho e que o único reflexo programado pelo mesmo fosse a minha imagem – comentou a morena ao sentir os olhos da outra sobre si.
Um pouco confusa, a loira apenas continuou a encará-la em silêncio enquanto abraçava as próprias pernas.
- Você teve sorte – continuou sem esperar por uma resposta. – É difícil ter blackout em Tokyo.
- E por que isso seria uma coisa boa? – manifestou-se a loira.
- Porque, caso contrário, você nunca poderia ver o céu desta forma.
A estrangeira estranhou a expressão de felicidade no rosto da outra que, deitada no futon sobre a grama úmida, encarava o céu noturno a sua frente. Decidiu procurar o motivo para tal endeusamento, sem sucesso.
- Isso é algo comum de se ver em meu país – comenta com certa indiferença.
- Que inveja.
Ainda confusa, a loira decide apenas desistir de entender os desejos estranhos da outra que ao seu lado permanecia com o mesmo sorriso bobo ao analisar o breu do céu.
- Não entendo o que você vê de tão especial no céu noturno – resmungou a sueca com tédio.
A morena olhou para a menor que estava sentada ao seu lado, observando os detalhes invisíveis do céu. Era tão pequena e delicada que poderia quebrar a qualquer movimento brusco. Seus cabelos loiros prateados caiam até a sua cintura em breves ondulações, que balançavam de um lado para o outro devido a brisa frenética que se fazia presente. Seus olhos azuis, brilhantes como uma pérola no fundo do mar, expressavam inquietação ao tentar entender o real motivo de tudo aquilo.
A maior sorriu com a irritação da outra que não entendia seus sentimentos. Não podia julgá-la. Afinal, nunca fora muito sincera com seus próprios sentimentos e nunca deu liberdade para que os outros a conhecessem melhor.
- Elyon – chamou a morena, fazendo a loira encará-la.
- Sim?
- Você sabe o que significa Mugetsu?
- O seu nome?
- Sim.
- Não – assumiu a garota um pouco constrangida.
- Não precisa se envergonhar. Afinal, você ainda está aprendendo a falar japonês.
- Eu sei, mas é o seu nome. Não tem desculpa para isso – disse triste desviando o olhar, envergonhada de si mesma.
Mugetsu sorriu com a preocupação tola da outra. Acariciou os cabelos da menor fazendo com que a atenção da mesma voltasse para si novamente.
- Tudo bem, não é culpa sua. Eu preferiria que nem todos soubessem o significado do meu nome.
- É tão ruim assim?
- Significa “sem luar” – respondeu de forma prática para que Elyon entendesse.
- É bonito.
- Nem tanto – bufou Mugetsu.
Os olhos da menor mantinham uma expressão incompreensiva e Mugetsu percebeu que esta estava se esforçando ao máximo para entendê-la.
- Esse nome foi designado a mim quando eu nasci – explicou Mugetsu. – Meu pai disse que foi devido ao meu cabelo ser tão negro quanto um céu noturno, mas isso é apenas uma das várias mentiras que recebi durante a minha infância.
O sorriso padrão já não se encontrava mais no rosto de Mugetsu e Elyon pôde perceber que esse era um assunto sério para sua amada. Não queria que ela estivesse sendo pressionada a falar o que não queria, então protestou.
- Muge-chan, se você não quiser falar não precisa. Eu não quero que se sinta desconfortável.
- Não, tudo bem. Eu decidi que irei contar tudo a você. Não tem o porquê de existir segredos entre nós – disse Mugetsu com o seu sorriso de volta ao lugar onde ele pertence, mas logo desaparecendo quando voltou a encarar o nada.
Elyon retribuiu com um sorriso tímido e triste, mesmo sabendo que já não estava mais no campo de visão da outra.
- Quando minha mãe descobriu minha opção sexual ela jogou na minha cara toda a verdade – continuou a falar sem demonstrar expressão alguma. – Ela disse que ao me segurar em seus braços eu a olhei direto nos olhos, sem medo ou curiosidade. Ela disse que não havia brilho nos meus olhos, disse que eles eram vagos e sem vida. Assim como uma noite sem luar.
Ao terminar de contar a história por trás de seu nome tão incomum, um sorriso triste brotou em seus finos lábios. Elyon, um tanto atordoada, não sabia o que dizer depois de ouvir a história de sua amada. Queria consolá-la. Mas como?
Sua mente trabalhava tanto que demorou a perceber a mão familiar que afagava suas costas. Ao encarar os olhos amáveis da outra que a acariciava percebera que os papéis haviam se invertido: a garota com um passado triste estava confortando a garota que se sentia perdida no meio de tanta sinceridade. Sentiu-se uma completa inútil.
- Desculpa – sussurrou abaixando a cabeça, derrotada.
- Não se preocupe – disse, enrolando um pouco de cabelo platinado em seu dedo indicador. – Eu estou bem.
Elyon abraçou as pernas com mais força e descansou a cabeça nos joelhos, de uma forma que a paisagem a sua frente fosse centralizada na jovem morena de cabelos curtos que estava deitada abaixo do céu estrelado.
- Quando estou em Tokyo e olho para o céu em dia de lua nova, eu apenas vejo um infinito véu negro cobrindo meu campo de visão, e sinto como se este fosse me engolir e me deixar presa em um espaço de tempo interminável – desabafou Mugetsu, respirando fundo no intuito de continuar sua explicação. – E quando venho pra cá, onde as luzes da cidade não podem atrapalhar, eu consigo ver as estrelas e não me sinto tão só. Se um céu sem luar pode ser feliz com todas essas estrelas, por que comigo seria diferente?
Ao final do discurso melancólico, a morena voltou a olhar a pequena que abraçava as pernas e a encarava com paixão. Direcionou sua atenção novamente para o céu e soltou uma breve risada dos lábios, fazendo o cenho de Elyon reagir.
- O que foi? – perguntou curiosa.
- Isso parece depoimento de um lobo solitário – comentou com um sorriso nos lábios.
Elyon, que mesmo acostumada com as esquisitices da maior, estranhou a comparação feita pela mesma.
- Aliás, sinto pena dos pobres lobos que ficam sem lua para uivar – ri do seu próprio comentário sem sentido. – O que será que eles fazem nas noites em que a lua não aparece?
- Tenho certeza de que eles ficam aliviados em noites como essa, quando não precisam uivar para alimentar esse boato ridículo sobre eles uivarem para a lua – riu Elyon, fazendo com que a outra risse juntamente iniciando assim um ataque de risos sem motivo.
Quando ambas recuperarem o fôlego depois de tanta gargalhada sem sentido, a menor esticou as pernas e os braços, levantando-se e esticando o resto do corpo inteiro, fazendo as costas estalarem.
- Você está parecendo uma velha – implicou ao ver a outra gemer de dores.
- É, eu sei – falou com dificuldade enquanto terminava de fazer seu alongamento improvisado. Suspirou aliviada quando suas dores sumiram e seus músculos relaxaram. – Vou entrar e arrumar algumas coisas. Depois eu volto.
- Não demore – gritou Mugetsu para a amante que já se encontrava dentro da casa.
Tokyo parecia uma versão oriental de Las Vegas devido a tantas luzes e refletores pelas ruas movimentadas. Por tanto, presenciar um blackout é quase impossível, uma sorte invejável. E ambas as garotas haviam decidido aproveitar essa escuridão agradável em um lugar mais afastado, onde as luzes, mesmo ligadas, não alcançariam.
A morena levou sua parceira a uma montanha afastada de tudo e de todos, que se encontrava em uma cidade vizinha de Tokyo. Seu contato com o mundo moderno era tão precário que não havia forma de chegar ao topo de carro, tiveram de estacionar o veículo a certa distância e continuar o trajeto a pé. A subida era tortuosa e cansativa, mas a morena insistia em continuar, alegando que todo o esforço seria recompensado. Enquanto subiam o sol ainda podia ser visto. Este se despedia aos poucos, deixando pequenos feixes de luz para iluminar a duvidosa trilha que guiava as garotas ao seu objetivo.
Ao chegarem ao topo puderam visualizar os últimos raios de sol sumirem ao horizonte, dando lugar a escuridão que cobria tudo aos poucos.
Um pouco mais a frente havia uma velha casa feita de madeira. Sua estrutura era extremamente oriental, afirmando ser uma moradia bastante antiga que cultivava muitas histórias ao decorrer dos anos.
Com duas lanternas, as garotas puderam se localizar melhor dentro da residência. Esta, por sua vez, parecia bem conservada para a idade que aparentava ter.
Depois de largarem suas coisas no meio do caminho, a morena pegou um dos futons extras que havia levado, alegando ser necessário. Pegou a loira pelo pulso e dirigiu-se para fora da casa, onde estendeu o objeto na grama e deitou-se sobre o mesmo. Conformada com outra atitude estranha da mais velha, a loira decidiu simplesmente render-se ao desejo da outra e acompanhá-la no processo de admiração da natureza.
Depois de passar ótimos minutos ao lado de sua amada, Elyon decidiu deixá-la sozinha com seus pensamentos e estudar a casa com cuidado, arrumando e preparando as coisas para que ambas pudessem ter uma noite agradável naquele lugar abandonado.
Sua estrutura era extremamente oriental, possuindo o semblante de uma moradia bastante antiga que parecia reter muitas histórias ao decorrer dos anos.
Era bastante espaçosa. Nos aposentos encontrava-se somente mobílias necessárias. Na sala, por exemplo, havia uma mesa ao centro, onde as refeições eram realizadas. O banheiro era ocupado por uma grande banheira redonda, que era fechada por uma tampa de madeira igualmente de formato circular. A curiosidade foi derrotada pelo medo de encontrar alguma coisa assustadora dentro daquele buraco negro e hostil, então a sueca saiu dirigindo-se a outro cômodo.
A cozinha era simples e precária. Um longo balcão ocupava metade da parede a frente de quem entrava no local e a direita havia uma grande porta que levava ao lado de fora. Ao abri-la a loira deparou-se com uma ferramenta de metal que servia para bombear a água de dentro do poço subterrâneo. Aproximou-se e percebeu que o mesmo encontrava-se muito enferrujado, mas parecia funcionar. Deveria funcionar. Afinal, aquele era o único meio de se conseguir água.
A loira movimentou a bomba com dificuldade, mas após um minuto de insistência um som engasgado foi ouvido e a água começou a sair aos poucos, espalhando-se pelo retângulo de pedra a sua frente. Depois de bombear a água durante alguns minutos até ter certeza de que a mesma ficara potável a pequena a provou, surpreendendo-se com o seu frescor. Ficara tão encantada com o sabor natural do liquido que bebericou vários goles até satisfazer-se por completo.
Deixando a água de lado, a garota voltou para dentro da casa a fim de conhecer o restante dos aposentos.
Caminhou pelos corredores encontrando uns dois ou três cômodos vazios, mas ao abrir a próxima porta o que encontrou foi uma escada que levava ao sótão. O local era pequeno e iluminado devido a pequena janela que trazia luz do lado de fora. Ao olhar através do vidro empoeirado pode visualizar sua amada bagunçando os cabelos com ambas as mãos, da mesma forma que fazia quando ficava com tédio e não sabia o que fazer. Sorriu involuntariamente ao presenciar tal cena, e, em um ato infantil, passou o dedo pelo excesso de poeira, desenhando um coração.
Quando virou-se de costas para a o coração empoeirado, encontrou algo enrolado no canto do aposento. Ao tocar no emaranhado sentiu que o tecido lembrava uma rede de pescar, e logo percebeu do que se tratava. Aproveitando a sorte, a pequena decidiu usufruir do tecido contra insetos.
Com muita dificuldade e esforço a delicada sueca armou a rede como se fosse uma tenda em volta do futon que fora depositado no centro de um dos aposentos vazios. Ao terminar de montar a barreira contra insetos percebeu uma fraca luz vindo de uma porta extra no quarto, e ao abri-la sentiu o vento movimentar seus cabelos, trazendo consigo o aroma da noite. Exausta, respirou o ar fresco que entrava pela porta recém aberta e decidiu sentar-se e descansar. Olhou para as estrelas e se lembrou de como sua amada ficava feliz com coisas tão simples como a natureza.
- O que você está fazendo? – perguntou Mugetsu ao passar em frente à loira que estava com o corpo direcionado para a rua. – Decidiu me abandonar e observar as estrelas escondida?
- Como sabia que eu estava aqui? – assustou-se Elyon ao ouvir a voz da outra no meio do silêncio.
- Esqueceu que a casa é minha? – riu a maior com a inocência da loira. – Eu ouvi um barulho e deduzi que era você abrindo esta porta.
Elyon, como de costume, encolheu-se e abraçou as pernas novamente, como sempre fazia perto da maior. Esta, percebendo a reação da menor, olhou para dentro do quarto e visualizou a barreira.
- Você fez um bom trabalho – comentou, analisando a rede que cobria o local onde o futon estava depositado.
- Obrigada – sorriu Elyon. – Foi difícil, admito. Mas nada que a persistência não resolva.
- Persistência ou fita adesiva? – perguntou Mugetsu, apontando para uma das pontas da rede que estava grudada à parede com fita adesiva.
Riu das soluções práticas da estrangeira que ficara levemente ruborizada por ter sido descoberta.
- É que não tinha lugar para pendurar ou amarrar e essa foi a única solução que eu encontrei – disse aos sussurros, brincando com os dedos. – E você não pode reclamar de nada. Afinal, eu fiz tudo sozinha e-
Elyon fora interrompida pelo colapso de riso de Mugetsu, que agarrava a barriga e dobrava o corpo de tanto rir.
- Qual é a graça? – perguntou furiosa, fuzilando a morena com os olhos.
- Você é tão linda – disse Mugetsu enquanto ria escandalosamente, fazendo com que seu comentário reagisse de forma agressiva ao rosto delicado de Elyon.
Sem saber o que dizer, Elyon passou por baixo da fina rede contra insetos e deitou-se no futon, cobrindo-se dos pés a cabeça com o lençol floreado que estava estendido sobre o mesmo.
- Eeee? – soltou surpreendendo-se com a atitude da menor – Você já vai dormir?
- Sim. Boa noite – disse simplista, encolhendo-se em seu casulo florido.
- Mas eu não quero que você durma – protestou como uma criança, inflando as bochechas e aumentando o lábio inferior de uma forma manhosa.
Sem receber uma resposta da menor, Mugetsu entrou no quarto e infiltrou-se na barreira anti-insetos, deitando-se ao lado da loira que estava fora do seu campo de visão devido ao lençol que a cobria.
Mugetsu juntou seu corpo ao da outra e passou um braço pelo que, supostamente, deveria ser sua cintura.
Elyon reagiu. Virou-se de frente para a amada, ainda coberta, e ficou imaginando qual seria a sua expressão neste momento. Curiosa, descobriu seu rosto e encontrou o rosto de Mugetsu próximo ao seu. Esta, por sua vez, encarava a menor com um olhar doce e gentil, e em seus lábios havia um leve sorriso que raramente os abandonava.
- Sua mãe estava errada – disse simplista.
- O quê? – surpreendeu-se Mugetsu.
- Sua. Mãe. Estava. Errada – repetiu, dando ênfase em cada palavra.
- Sobre o quê?
- Sobre os seus olhos.
Mugetsu continuou a encará-la incrédula, sem entender o porquê de esta ter voltado a este assunto. Elyon encarava-a com a mesma intensidade, mas esta tinha uma expressão serena em seu rosto.
- Eu não entendi – admitiu Mugetsu.
Esta era a primeira vez que Mugetsu mostrava traços fortes e pesados em seu rosto. Sempre estava com a expressão leve e despreocupada, com um sorriso nos lábios e nos olhos. Mas em fronte a uma afirmação tão inesperada como esta a tranqüilidade parecia ter abandonado seus traços, dando lugar àqueles que se escondiam diariamente.
- Sua mãe disse que você não tem brilho nos olhos, que eles são vazios e escuros como a noite de lua nova. Mas isso é mentira – afirmou Elyon com uma iniciativa que Mugetsu nunca havia presenciado antes, surpreendendo a maior que a escutava com atenção. – Talvez sua mãe apenas estivesse olhando-a da forma errada.
"A lua é um astro que não contem luz própria, ele simplesmente rouba a luz das estrelas e recebe toda a glória pela iluminação à noite. Talvez a sua mãe estivesse te vendo da mesma forma que você via o céu noturno em Tokyo. Tenho certeza de que se sua mãe lhe visse livre para ser quem você é e feliz ao lado dos que a ama, da mesma forma que podemos ver o céu hoje, ela enxergaria o brilho das estrelas em seus olhos; assim como eu vejo."
O discurso que Elyon fizera havia pegado Mugetsu desprevenida. Seu rosto não ostentava mais preocupação, mas sim surpresa. Seus olhos castanhos fitavam aquelas esferas azuis a procura de uma resposta para tal atitude.
O rosto de Elyon não estava mais sereno, este expressava severidade. Ela juntou suas sobrancelhas e franziu o cenho. Seu rosto transmitia determinação.
Sempre havia admirado a morena. Pelas suas atitudes, sua paixão pela natureza, sua humildade e até mesmo a sua simplicidade. Amava a forma despreocupada como se vestia, usando apenas o básico; amava o corte de seu cabelo, curto e prático; amava a forma como lhe abraçava com aquelas braços confortáveis e acolhedores. Elyon simplesmente a amava e não agüentava mais o fato de vê-la sofrendo sozinha, sem deixar que os outros se preocupem com ela.
Elyon estava cansada de perceber as fracas expressões de tristeza que se escondiam atrás de falsos sorrisos. Ela quer apenas que sua amada se sinta a vontade para falar o que quiser e demonstrar o que realmente sente, sem ter medo do que os outros vão pensar ou sentir; fazer de seus sentimentos uma prioridade. E Mugetsu percebeu sua intenção.
- Nee, Elyon – começou Mugetsu, pondo novamente em seus lábios aquele sorriso que, mesmo escondendo algo, faz com que Elyon se derreta por dentro. – Talvez você seja a minha estrela.
Elyon abandonou aquela expressão severa e demonstrou ter se surpreendido com o comentário.
- Quando eu estou com você não me sinto só. Na verdade, eu me sinto amada, amada de uma forma que eu não era há muito tempo – declarou Mugetsu, tentando por em palavras aquilo que sentia por Elyon. – Você ilumina a minha vida assim como uma estrela ilumina a noite, mesmo que indiretamente.
Ao terminar a última frase com risadas, Mugetsu tampou sua boca com a mão em um gesto delicado, e ao visualizar isso Elyon percebeu certa ruborização no rosto da maior.
A felicidade dominou o corpo e a alma de Elyon. Esta estava tão feliz com o constrangimento da outra que se jogou sobre a mesma, abraçando-a em um ato infantil e impulsivo, escondendo seu rosto na dobra do pescoço da maior.
- O... O que foi? – perguntou assustada, surpresa pelo abraço inesperado.
- Eu estou tão feliz – disse Elyon em um tom choroso, afirmando existir lágrimas em seus olhos.
Este fato fora confirmado quando as gotas quentes de sentimentos pingaram na pele alva de Mugetsu. Esta, cada vez mais assustada, ficou preocupada com a reação da menor. Pegou-a pelos braços e a afastou um pouco de seu corpo para que pudesse olhá-la nos olhos.
As esferas azuis afogavam-se naquele liquido salgado, deixando transbordar pelos cantos pequenas gotas de felicidade.
- Por que você está chorando?
- Eu não sei – admitiu sorrindo. – Só sei que não consigo segurar.
- Ei. Não precisa ficar assim – limpou uma lágrima que escorria pela face rosada da menor. – Eu estou aqui com você, não estou?
- Sim, está – confirmou em um sussurro. – Mas eu tenho medo do dia em que não estará mais.
Mugetsu perdeu a fala por um instante ao ouvir a confissão da loira. Assim como seus outros sentimentos, a morena nunca havia revelado seus temores à outra. E agora percebera que ambas compartilhavam do mesmo medo.
Sempre se perguntara o que faria da sua vida quando não tivesse mais a loira por perto, e nunca encontrara uma resposta. Era incapaz de responder antes e é incapaz de responder agora. Tinha receio de tentar amenizar os medos da pequena e não conseguir convencer nem a si mesma.
Tirou os cabelos que escondiam o rosto da menor e prendeu-os atrás da orelha; levantou o rosto da mesma no intuito de fazê-la olhar em seus olhos. Passou seus dedos pelo rosto da outra com delicadeza, memorizando todos os detalhes possíveis. Ao passá-los pelos lábios entreabertos da menor, esta depositou um beijo nos dedos carentes. Com um sorriso nos lábios, Mugetsu aproximou-se e juntou os lábios necessitados.
Sem movê-los, ambas ficaram desfrutando do toque de carinho por um tempo. Mugetsu tomou a iniciativa de se distanciar, mantendo o mesmo sorriso nos lábios e os olhos fixos nas esferas azuis que continham resquícios de lágrimas.
- Você é a minha estrela – disse Mugetsu. – Não deixarei que desapareça tão facilmente.
Após uma noite de luxúria, as amantes afundaram-se no sono profundo, agarrando-se uma ao corpo da outra para que ambas afundassem juntas e nunca se separassem.
Os raios de sol invadiam o local pela porta que ficara aberta a noite inteira, acordando as garotas logo nas primeiras horas do dia.
Resmungando como uma criança, Elyon enroscou-se nos braços de Mugetsu para proteger-se dos primeiros raios de sol, afundando seu rosto nos seios da amada a procura de conforto. Seus corpos nus uniam-se com necessidade, sempre a procura de afeto.
Depois de lutarem contra a luz do sol durante algumas horas, as garotas decidiram se render a insistência da luminosidade e se levantaram, iniciando um novo dia.
- Será que a luz já voltou? – perguntou Elyon inocentemente, procurando por um interruptor de luz. – Será que tem algum interruptor por aqui?
- Esta é uma casa antiga – respondeu enquanto ria da busca inútil da outra. – Para se ter luz precisa de uma vela.
Derrotada, Elyon jogou-se novamente no futon; olhou a sua volta a procura de suas roupas que se encontravam em um canto qualquer. Após terminarem de se vestir, as garotas desmontaram a rede contra insetos e a devolveram ao sótão. Fizeram o desjejum com as frutas que Elyon havia levado consigo, no caso de sentirem fome.
A loira recusou-se a tomar banho naquela banheira misteriosa, temendo encontrar algum monstro ou algo do gênero. Atendendo o desejo da outra, Mugetsu propôs que ambas se apressassem para ir embora o mais cedo possível para poderem tomar um banho relaxante em casa. Feliz com a proposta, Elyon começou a arrumar tudo com uma incrível velocidade, guardando seus pertences e fechando a casa.
- Ei – disse Elyon após uma longa pausa de meditação. – Onde está o futon que usamos ontem à noite?
- Você não acabou de guardá-lo?
- Não, esse não. O que usamos para deitar na grama. Onde você o colocou?
- Etto – Mugetsu desviou o olhar por receio, arranhando a nuca de leve enquanto pensava em uma resposta plausível.
- Você se esqueceu de trazê-lo para dentro, não é?
— Desculpa? – acanhou-se como uma criança culpada.
- Tudo bem – resmungou enquanto revirava os olhos. – Mas eu não vou deitar naquele futon nunca mais. Vamos jogá-lo fora.
- Que exagero – riu a morena.
- Exagero nada. E se algum animal dormiu nele?
- E daí?
- E daí? – perguntou incrédula, como se a maior não entendesse a gravidade da situação.
- E só lavar – respondia a outra como se fosse a coisa mais normal.
- E se o animal for um leão que havia recém caçado e deitou-se sobre o futon com uma carcaça?
- Não existem leões no Japão.
- Foi só um exemplo – disse chorosa.
- Vamos conferir – pegou a loira pelo pulso e a levou para fora da casa.
O sol estava exposto de forma grandiosa, fazendo as árvores programarem sombras enquanto moviam-se com graciosidade devido ao vento fresco da manhã.
O futon havia sido levado pelo vento e encontrava-se perto de uma árvore, protegido por sua sombra. De longe as garotas podiam enxergar um vulto pequeno e redondo deitado sobre o objeto.
- Eu não disse? – comentou Elyon com certa arrogância, mas perdeu completamente o respeito ao esconder-se atrás de Mugetsu enquanto aproximavam-se do animal.
Rindo, a morena seguiu em frente em direção ao ser desconhecido. Elyon agarrava sua blusa com força e tremia vez ou outra, soltando breves gemidos que faziam Mugetsu rir ainda mais.
Próximas o bastante, as garotas puderam perceber que se tratava de um pequeno cachorro encolhido como uma bola no centro do futon. Tremia quando uma corrente de ar fazia seus pelos se moverem, eriçando-se com o arrepio que sentia.
- Kawaii – disse Mugetsu, abaixando-se perto do pequeno animal que levantou a cabeça com a movimentação a sua volta. – Podemos ficar com ele?
- Ficar com ele? – fez uma careta desaprovando tal idéia. – Mas e a mãe dele?
- Se ele tivesse uma estaria dormindo com ela, e não sozinho.
Após ouvir a suposta verdade, a loira encarou o pobre bichinho que se encolhia todo, assustado com as estranhas que o observavam. Percebeu que este estava sozinho e perdido pelo mundo, sem ninguém para seguir ou acompanhar.
A cena que estava a sua frente fez com que pensasse duas vezes antes de recusar o pequeno em sua vida.
No começo o animal estava assustado, mas com os carinhos e a atenção da mais velha o filhote se soltou e começou a brincar com a mesma. O pequeno vira-lata negro rolava de um lado para o outro como se fosse um novelo de lã, enquanto a garota sorridente brincava com ele da mesma forma que um felino faria com o novelo.
Rindo da cena, Elyon amoleceu seu coração e decidiu o que faria.
- Sim – respondeu. – Podemos ficar com ele.
- Sério? De verdade? – perguntou Mugetsu com euforia.
- Claro.
- Você ouviu? Você pode ficar com a gente. Sim, você pode – falava a maior com uma voz infantil, erguendo o cachorro a sua frente que tentava lambê-la.
- Qual será o nome dele?
- Escolha você.
- Eu?
- Sim. Por que não?
Elyon calou-se por um momento, pensando em qual nome seria ideal para o filhote. Pensou em coisas fofas e pretas, igual a ele, mas nada era bom o bastante. Queria um nome diferente e fofo, mas que fosse prático. Aquela pequena criatura viveria em suas vidas a partir daquele momento e deveria possuir um nome digno de sua existência.
Enquanto vários nomes passavam em sua mente ela observava sua amada brincar com o cachorro que, assim como sua nova dona, esbanjava felicidade. Percebera o quão feliz a morena havia ficado com o novo integrante da sua vida.
- Hoshi – sussurrou Elyon, brotando um pequeno sorriso em seus lábios.
- O que disse? – perguntou a maior virando-se para olhá-la melhor, percebendo a alegria da outra.
- Hoshi – repetiu a loira, satisfeita com o nome em que havia pensado. Olhou para os olhos da sua amada com ternura. Estes, por sua vez, a observavam com curiosidade. — Porque, de agora em diante, ele será uma nova estrela em sua vida.
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