Mrs. & Mrs. Swan-Mills

1 Verificando o Óleo


Notas iniciais
Oi. A fic não é algo original. Apenas reescrevi e encaixei Swan Queen na história. P.S.: O Capítulo eu dedico à todas as Xulilas e elas sabem o "por quê"!

DR. ARCHIE HOPPER

— Belle, o gravador está ligado? — ela faz um sinal positivo com o polegar — Muito bem. Passe o microfone.

Sou o Dr. Archie, e estas são as transcrições de minhas sessões gravadas com um certo casal Swan-Mills, desde o dia primeiro do mês passado. Compiladas e digitadas pela minha assistente, Belle French. Também incluem comentários copiados de minhas anotações a respeito da expressão facial das pacientes, sua linguagem corporal etc. etc., como de praxe, e assim por diante. Quando a Sra. Swan e a Sra. Mills entram no meu consultório, fico um tanto surpreso. Em primeiro lugar, são um pouco mais jovens que a maioria dos casais que vêm me procurar. Muito bonitas também. Como artistas de cinema, na verdade, as duas. Cheirosas, elegantes. Educadas. Ambas parecem muito agradáveis e inteligentes. E estão sorrindo. Olhando para elas, qualquer um diria tratar-se do casal perfeito.

“Afinal”, penso, “o que vocês duas estão fazendo aqui, num consultório de terapia de casais?”.

Às vezes meus clientes irrompem na minha sala num acesso de fúria. Às vezes entram quietinhos — vulcões prestes a explodir. Às vezes posso até perceber que discutiam na sala de espera. Ah, as coisas que minha recepcionista conta... Daria até para escrever um livro!

Mas essas duas... Nenhuma pista. Em público, são talvez um tanto gentis demais; de resto, são extremamente afetuosas uma com a outra. Observo que a loura até puxa a cadeira para a morena se sentar. E ela diz: “Obrigada.”

Coisa rara, em meu consultório. Fico imediatamente interessado.

Trabalho nesta área há quase 23 anos, e já vi de tudo um pouco. Mas, de modo geral, as pessoas se encaixam em certas categorias preestabelecidas. Marido traiu a mulher com outra. Mulher traiu o marido com outro. Ou com outra. Um dos cônjuges mais bem-sucedido no trabalho que o outro, e assim por diante.

Mas minha intuição diz que algo diferente está se passando com as Sras. Swan-Mills (nenhuma quis abrir mão do sobrenome de solteiras. Um caso interessante, deduzo). Como de costume, pergunto se posso gravar nossa conversa. O que vem a seguir é a transcrição dessa sessão, pontilhada com os meus comentários e observações.

PRIMEIRA SESSÃO, SRAs. SWAN-MILLS

Espero elas se acomodarem. Olhando sobre a armação dos óculos, sorrio para o casal; seguem-se alguns minutos durante os quais lhes ofereço café e chá (ambas agradecem), abro um arquivo novo para o casal, escolho uma caneta entre as várias sobre a mesa, limpo as lentes dos óculos — um artifício para dar aos clientes a oportunidade de relaxar um pouco antes da primeira pergunta.

NOTA: A Sra. Swan já se inclina para a frente, ansiosa para esclarecer algo.

SRA. SWAN: Muito bem, então. Em primeiro lugar, quero dizer que a gente não precisava exatamente ter vindo aqui...

NOTA: Sim. Muitas pessoas começam dizendo isso.

SRA. MILLS (sorrindo): Na verdade, é uma história engraçada.

SRA. SWAN (também sorrindo): Estávamos num evento de caridade, um leilão seguido de churrasco, promovido por uma igreja...

SRA. MILLS: ...uns amigos nossos, os Nolans. Muito carolas.

SRA. SWAN: Anglicanos episcopais.

SRA. MILLS: Presbiterianos.

NOTA: Pequena discórdia. Nada preocupante. Exceto... ah, sim, um olhar de acusação trocado entre as duas.

SRA. SWAN: Bem, o lote principal...

SRA. MILLS: ...um lote-surpresa.

SRA. SWAN: Eu estava um pouco bêbada, não ia dirigir...

SRA. MILLS: Um pouco?

NOTA: A Sra. Mills revira os olhos, impaciente. A Sra. Swan responde com uma expressão severa. Um músculo se contrai ao longo do maxilar. Está claro que a relação dela com a bebida constitui um problema.

Mas ela não morde a isca.

Caso clássico de repressão dos sentimentos. Pelo menos na frente de estranhos.

Minha suspeita inicial é de que são daqueles casais que nunca discutem em público.

A Sra. Swan prossegue, ignorando a interrupção.

SRA. SWAN: Então Regina começa a dar lances. E logo fica um tantinho competitiva...

NOTA: Os lábios da Sra. Mills se crispam diante do comentário. Outro problema do casal?

SRA. SWAN: Final da história: acabamos torrando oitocentas pilas no tal lote-surpresa.

SRAS. SWAN-MILLS (ao mesmo tempo): Quatro sessões com o Dr. Archie Hopper.

NOTA: Ambas riem. Educadamente. Mas com certa estridência.

SRA. MILLS: Os Nolans têm um ótimo senso de humor.

NOTA: Mais risadas, e depois silêncio.

Agora meus sentidos estão em alerta. O casal não me procurou por iniciativa própria. Mas vieram mesmo assim. Rabisco uma anotação qualquer, dando tempo à elas, de modo a me certificar de que tinham dito tudo o que queriam. Depois olho para as duas com um sorriso nos lábios.

EU: Mas vocês não precisavam ter vindo.

NOTA: Silêncio absoluto.

Sras. Swan-Mills se entreolham rapidamente.

Não digo nada, e espero, paciente. Às vezes essa é a melhor maneira de fazer alguém falar. O silêncio não incomoda quem está em paz consigo mesmo. Mas uma pausa significativa costuma incitar os nervosos a abrir o baú. Um pequeno artifício que aprendi assistindo aos seriados policiais na TV.

Continuo esperando.

SRA. SWAN: Certo...

SRA. MILLS: Não precisávamos mesmo.

NOTA: Elas se recostam nas poltronas. Um pouquinho nervosas. Mas percebo que a Sra. Swan reflete sobre algo.

SRA. SWAN: Mas temos uma teoria...

SRA. MILLS: Temos?

SRA. SWAN (sorrindo): A verificação do óleo.

SRA. MILLS: Ah, claro.

NOTA: Fico com a nítida impressão de que a Sra. Mills jamais tinha ouvido falar dessa teoria antes. Mas decide fazer o jogo da mulher.

SRA. SWAN: Acontece que, bem, a gente está casada há cinco anos...

SRA. MILLS: Seis.

SRA. SWAN: ...cinco, seis anos, e talvez esteja na hora de um check-up. Dar uma olhada no motor, verificar o óleo, trocar os cabos ressecados...

NOTA: Os anos de casamento aparentemente constituem um problema.

A Sra. Swan parece gostar muito da analogia com a mecânica. As duas sorriem um para a outra e depois se voltam para mim. O casal perfeito e feliz.

Começo a entrever o rumo que isso vai tomar.

EU (sorrindo): Muito bem, então. Vamos abrir esse capo. Vou fazer algumas perguntas, e gostaria que vocês respondessem o mais rapidamente possível, sem pensar muito.

SRA. MILLS: Tudo bem.

SRA. SWAN (sacando uma arma hipotética): À queima-roupa.

EU: Numa escala de um à dez, que nota dariam para o casamento de vocês?

SRA. MILLS: Oito.

SRA. SWAN: Espera aí.

NOTA: A Sra. Mills respondeu instantaneamente. A Sra. Swan parece assustada com a resposta dela.

SRA. SWAN: Quer dizer, dez é para um casamento totalmente feliz e um é para... um casamento totalmente fracassado?

EU: Apenas responda sem pensar.

SRA. SWAN: Tudo bem. Vamos lá?

SRA. MILLS: Vamos.

SRAS. SWAN-MILLS (juntas): Oito.

NOTA: Interessante... nem muito quente, nem muito frio. Como um mingau.

EU (próxima ficha): Numa escala de um à dez, até que ponto você acha que sua parceira está feliz?

SRA. SWAN: Oito.

NOTA: Dessa vez é a Sra. Swan quem responde instantaneamente, e a Sra. Mills hesita.

SRA. MILLS: Humm... Podemos dar notas quebradas?

NOTA: A Sra. Swan parece intrigada com a resposta da mulher e inclina o tronco para a frente.

EU e a SRA. SWAN: O que vier na sua cabeça.

SRA. MILLS: Tudo bem, vamos de novo.

SRAS. SWAN-MILLS (juntas): Oito.

NOTA: Mais um oito. Elas olham para mim em busca de aprovação, como se eu fosse um professor.

Muito interessante... Oito é um número muito revelador. Altitude de cruzeiro, nada muito arriscado. Nenhum drama, nada de altos e baixos. Nenhuma paixão, nem para o bem, nem para o mal.

Já estão aquecidas, prontas para a grande pergunta. Olho para minha ficha, impassível. Não quero dar nenhuma pista do que vem a seguir. O elemento-surpresa geralmente produz as respostas mais sinceras.

EU (displicentemente): Com que frequência vocês fazem sexo?

NOTA: Preciso levantar os olhos para verificar se elas não fugiram do consultório.

Não fugiram, mas parecem duas estátuas. Atordoadas. Talvez em estado de choque.

SRA. MILLS (corada): Eu... não compreendi a pergunta.

NOTA: Compreendeu, sim, Sra. Mills.

SRA. SWAN (contorcendo-se na poltrona): Espera aí. Agora fiquei perdida. Você quer dizer, numa escala de um a dez?

NOTA: Ah, Sra. Swan. Precisa ganhar tempo, não é?

SRA. MILLS: Ela tem razão, porque se for, a gente precisa saber: um significa "muito pouco" ou "nada"? Afinal, "nada" deveria ser zero, e não um.

SRA. SWAN: Exatamente. Além disso, se a gente não sabe o que é o um, o que será o dez?

SRA. MILLS: Isso mesmo. Dez então seria...?

SRA. SWAN: Todo dia, toda hora...

SRA. MILLS: Vinte e quatro horas por dia, sem nenhum intervalo. Pra nada.

SRA. SWAN: Nem mesmo pra comer.

SRA. MILLS: Como o Charlie Sheen ou Tiger Woods.

SRA. SWAN: Exatamente.

NOTA: A Sra. Swan balança a cabeça enfaticamente — usou celebridades para desviar o assunto —, uma tática para aliviar seus sentimentos de culpa ou desconforto.

SRA. SWAN: Quem mais dispõe de sessenta horas por semana pra ficar na cama?

NOTA: Bem, acho que já posso arriscar uma suposição. Baseado na minha experiência e nos meus instintos profissionais, anoto um número. Minha estimativa de quantas vezes este jovem casal fez sexo no último mês. Talvez durante o ano inteiro.

EU (calmamente, sem denotar nenhuma crítica): Não se trata de uma escala de um à dez. Fiz uma pergunta direta.

NOTA: Espero que elas se acalmem um pouco. Afinal, trata-se de uma pergunta difícil de responder na frente de estranhos. Algumas pessoas dizem apenas que não se lembram. Outras gostam de contar vantagens. Na maioria das vezes, mentem deslavadamente. Aguardo a resposta delas. Como ninguém diz nada, repito a pergunta.

EU (limpando a garganta): Com que frequência vocês fazem sexo?

NOTA: Ainda nenhuma resposta.

EU (forçando a barra): Nesta semana, por exemplo, quantas vezes vocês fizeram sexo?

SRA. SWAN (mais uma vez tentando ganhar tempo): Incluindo o fim de semana?

EU (balançando os ombros e sorrindo para ganhar a confiança delas): Claro.

NOTA: A Sra. Swan se joga novamente na poltrona e fixa o olhar nas mãos. A Sra. Mills parece analisar a estampa das cortinas do consultório.

Ah, Sras. Swan-Mills. Nem conseguem dizer o número em voz alta, não é? Mas talvez nem precisem. Olho novamente para o número que havia escrito em minhas anotações: uma grande bolota vazia. Zero. Depois confiro minha agenda para ver se posso recebê-las outra vez na semana seguinte. Acho que temos um longo caminho pela frente.

SEGUNDA SESSÃO, SRAS. SWAN-MILLS

NOTA: Clientes não comparecem.

A Sra. Mills telefona mais tarde, desculpando-se. Diz que tiveram um imprevisto. Prefere não marcar um novo horário. Diz que precisa consultar a parceira. Telefonará mais tarde. Uma hora depois, a Sra. Swan telefona, desculpando-se. Diz que a Sra. Mills precisou fazer uma pequena viagem inesperada. Prefere não marcar um novo horário. Diz que precisa consultar a mulher. Telefonará mais tarde.

A Sra. Mills telefona no dia seguinte. Quer saber se pode vir na terça-feira. Sozinha. Interessante...

SEGUNDA SESSÃO, SRA. MILLS SOZINHA

Senhora Mills, segunda sessão. Transcrição completa de nossa conversa, acrescida de minhas notas. A Sra. Mills entra, hesitante, desculpando-se. Senta-se, cruza as pernas. Descruza as pernas. Inclina-se para a frente. Recosta-se. Gira a aliança repetidas vezes. A mulher parece cansada. Confiro minhas anotações: a Sra. Mills trabalha para uma firma de consultoria técnica na área de informática. Atende a grandes empresas da cidade, que visita frequentemente para resolver problemas relacionados à sua área de especialização. Horários imprevisíveis, ocasionais chamadas de emergência no meio da noite. Viaja muito, não tem filhos. Uma vida atribulada. Mas seu cansaço não parece ser apenas físico. Percebo uma profunda fadiga emocional. Ela tem um sorriso encantador, mas que não se reproduz nos olhos. Os olhos parecem cansados. Vazios. Tristes.

Como de hábito, remexo nos meus papéis, esperando que ela relaxe. Ofereço café e chá, e ela agradece. Mas pergunta se pode fumar. Fico surpreso; ela não fumou durante a primeira sessão. Talvez não fume na frente da esposa. Um segredinho particular? Respondo que sim, é claro que ela pode fumar. Não aconselho ninguém a fumar, mas, na condição de ex-fumante, sei que um cigarrinho pode ser de grande auxílio nesse tipo de situação. É importante, no ponto em que estamos, que ela não se sinta censurada em nenhum aspecto. Talvez possamos lidar com o tabagismo mais tarde. Por ora vamos cuidar do casamento.

Ela retira da bolsa uma bonita cigarreira de couro, um porta-isqueiro do mesmo material, e acende um cigarro. O gesto é tão elegante que a Sra. Mills se mostra inusitadamente sensual — parece uma atriz daqueles filmes preto-e-branco. Aqueles policiais clássicos, como Disque M para matar. A impressão é radicalmente diferente daquela produzida na primeira sessão. Depois de dar uma longa tragada no cigarro, ela fica visivelmente mais relaxada.

Agora podemos começar.

EU: Então me diz, Sra. Mills. Por que resolveu voltar aqui sozinha?

SRA. MILLS (dá de ombros, desvia o olhar): Na verdade, não sei. Não creio que tenhamos um problema. Quer dizer, amo a minha mulher, minha casa, nossa vida...

NOTA: Ela não termina a frase. Há um grande “mas” pairando no ar, esperando para ser dito. Seja o que for, ela aparentemente não sabe como continuar.

EU (incitando-a): Mas...

NOTA: A Sra. Mills assume um ar distante. Decerto está mentalmente revivendo cenas do seu casamento, coisas que a deixam triste. Mas depois apenas sacode os ombros.

EU: E no entanto você veio. Sozinha. Não se trata mais de um lote-surpresa arrematado num leilão por mero capricho... Não se trata de uma simples conferida no óleo, não é mesmo?

NOTA: A Sra. Mills olha para as próprias mãos, balança a cabeça.

EU: Está claro que você sente a necessidade de falar sobre alguma coisa.

NOTA: Sorriso forçado. Insisto no assunto.

EU: Então, qual é o problema?

NOTA: A Sra. Mills traga o cigarro e olha pela janela. Tenho a impressão de que é uma dessas pessoas que trancam tudo dentro de si. Não será fácil para ela compartilhar os sentimentos mais íntimos. Especialmente em voz alta.

Por fim ela se volta para mim.

SRA. MILLS: Há um buraco entre nós, um buraco que vai sendo preenchido com tudo aquilo que deixamos de dizer uma a outra. Que nome você dá a isso?

EU (com sarcasmo): Casamento.

NOTA: A Sra. Mills reflete um pouco, dá mais um trago no cigarro.

SRA. MILLS: Às vezes ela está ali, bem na minha frente, mas é como se estivesse... em outro planeta.

EU: Pode dar um exemplo?

NOTA: A fita cassete chegou ao fim. Mas ela mencionou algumas coisas. Uma discussão sobre cortinas. Falta de assunto durante o jantar... Algo sobre passar o sal, pequenos atritos sobre o lado da mesa em que é colocado o saleiro... Coisas sem a menor importância. Mas ao mesmo tempo importantes. Não por causa da natureza delas. O comportamento à mesa, a decoração da casa, quem dorme de que lado da cama. Essas coisas são importantes porque são sintomas: podem se tornar pequenos campos de batalha para os problemas reprimidos que até mesmo as pessoas envolvidas não conseguem compreender e expressar a contento.

Enquanto remexo no gravador, deixo-a falar até não ter mais o que dizer. Ela parece aflita, frustrada. Sabe que está tendo dificuldade para expressar o problema.

NOTA: A gravação recomeça.

EU: Até que ponto você é sincera com sua esposa?

NOTA: A Sra. Mills assume a expressão de um cachorro perdido na estrada, diante das luzes de um caminhão. Dá mais um trago no cigarro. Solta a fumaça lentamente. Olhar vago.

SRA. MILLS: Bastante sincera. Não que eu minta pra ela. Acontece que... Tenho certeza de que nós duas guardamos os nossos segredos. Todo mundo tem segredos, não tem?

NOTA: Respondo com os ombros, sem demonstrar nenhum tipo de censura. Tenho a impressão de que a Sra. Mills esconde um bocado de coisas da esposa. Talvez até algo importante.

EU: Olha, vou lhe passar um pequeno dever de casa.

NOTA: Ela ri nervosamente.

EU: Nada complicado, eu garanto. Quero que vá para casa e escreva sobre os seus sentimentos.

SRA. MILLS: Bem, Dr. Archie, não sou lá uma grande escritora. E o trabalho... Meu tempo é muito corrido e...

EU: Compreendo. Mas não precisa se preocupar. Não se trata de uma redação para a escola. Não é necessário caprichar na gramática. Nem mesmo terminar as frases. Além disso, só você verá o resultado. Você não precisa mostrar à ninguém.

SRA. MILLS: Nem à você?

EU: Nem à mim. Claro, pode mostrar à mim, se quiser. Mas o principal objetivo desse exercício é fazer com que você se abra para si mesma, de modo a perceber melhor onde está o problema. Ás vezes, para conhecermos nossa própria história, precisamos contá-la à nós mesmos.

NOTA: A Sra. Mills fuma, pensativa.

SRA. MILLS: Ninguém precisa ver.

EU: Ninguém.

SRA. MILLS: Nem mesmo... Emma.

EU: Nem mesmo Emma.

SRA. MILLS (balançando os ombros): Vou tentar.

EU: Ótimo! Acho que isso vai ajudá-la bastante.

SRA. MILLS: Humm... Você quer um tipo especial de caderno, de caneta...?

EU (sorrindo): Faça do jeito que quiser.

SRA. MILLS: Como devo começar?

EU: Que tal começar pelo começo? Escreva sobre como se conheceram. Tente lembrar-se, antes de mais nada, dos motivos que a fizeram se apaixonar por ela...

NOTA: A Sra. Mills olha vagamente através da janela. Finalmente um sorriso. Um sorriso adorável, diga-se de passagem. Está se lembrando de algo muito agradável.

SRA. MILLS: Foi em Moçambique. Em Maputo. Seis anos atrás.

NOTA: Ouço com atenção, satisfeito. Pela expressão no rosto dela, posso concluir que... bem, alguma brasa ainda arde sob as cinzas desse casamento.

EU (encorajando-a): Muito bem. Comece com isso. Ah, gostaria muito que sua esposa fizesse o mesmo exercício. Acha que seria possível?

SRA. MILLS (surpresa): Sem chance! Quer dizer, tenho a impressão de que ela não vai voltar mais aqui. Emma não curte muito... esse tipo de coisa. E, na verdade...

EU: Na verdade?

SRA. MILLS (leve sorriso): Não disse à ela, ainda, que viria aqui sozinha. Não queria deixá-la preocupada. Nem que pensasse que existe algum problema realmente sério. Queria apenas... que isso ficasse entre nós.

NOTA: Ah, sim. Mais um segredinho. Ao que parece, a Sra. Swan também guarda alguns segredos. Sem que a mulher soubesse, telefonou, ela também, para marcar uma consulta individual.

SEGUNDA SESSÃO, SRA. SWAN SOZINHA

A Sra. Swan entra no consultório e se senta. Desculpa-se pelo atraso, embora não haja atraso nenhum. A mulher parece cansada. Confiro minhas anotações: a Sra. Swan tem uma empresa de construção. Internacional. Viaja muito. Sem filhos. Uma vida agitada. Mas seu cansaço não parece apenas físico. O olhar sugere que algo mais está consumindo sua energia.

Como de hábito, remexo nos meus papéis, esperando que ela relaxe. Ofereço café, chá, etc. Ela agradece e depois saca do bolso um cantil de prata. Com um sorriso no canto dos lábios — desses que deixam as pessoas derretidas por dentro —, pergunta: “Se incomoda se eu...?”

Olho para o relógio de parede. Ainda nem é meio-dia, mas o gesto me pareceu perfeitamente natural para a Sra. Swan. “Como diz a canção: ‘Em algum lugar do mundo já passa das cinco...’”, ela brinca. Faço uma anotação. Emma Swan é mais afável do que se mostrou na primeira sessão. Além disso, pareceu-me uma mulher gentil, confiável e equilibrada. Essa Sra. Swan me parece... sei lá, diferente. Se James Bond fosse uma mulher tenho certeza que a Sra. Swan se encaixaria perfeitamente no papel.

Casualmente dá um gole na bebida, e só então percebo que não está usando a aliança no dedo. Confiro minhas anotações. Não há dúvida de que usava a aliança quando esteve no consultório pela primeira vez, na companhia da mulher. Pode parecer um detalhe sem importância. Mas é algo que costumo reparar quando recebo casais. Uma aliança de casamento é mais que um símbolo. Tem um valor muito grande para a maioria das pessoas. Cogito se a Sra. Swan tem um bom motivo para não estar usando a sua. Estou certo de que vem por aí uma história bem interessante.

Ligo o gravador, esperando descobrir do que se trata:

EU: Me diz uma coisa: por que resolveu voltar aqui sozinha?

SRA. SWAN: (dá de ombros, desvia o olhar): Na verdade, não sei. Não creio que tenhamos um problema. Quer dizer, amo minha mulher, minha casa, nossa vida...

NOTA: Ela não termina a frase. Há um grande “mas” pairando no ar, esperando para ser dito. No entanto, ela aparentemente não sabe como continuar.

EU (incitando-a): Mas...

NOTA: A Sra. Swan assume um ar distante. Decerto está mentalmente revivendo cenas difíceis de sua vida. Algo definitivamente a perturba. Mas está claro que não sabe como falar sobre o assunto. Isso é muito comum. Então retrocedo e tento uma nova abordagem.

EU: Procure relaxar, Sra. Swan. Estamos aqui para conversar, só isso. Não há respostas certas ou erradas. Fale um pouco de sua mulher. O que a deixou atraída por ela logo no início?

SRA. SWAN (agora sorrindo): Ela era encantadora... instigante... misteriosa...

NOTA: Ótimo. Ela está se abrindo.

EU: E hoje?

NOTA: O rosto da Sra. Swan assume uma expressão sombria, os olhos se fecham.

SRA. SWAN: Nenhum mistério.

NOTA: Espero, paciente, que ela diga mais alguma coisa. Mas simplesmente olha para mim e sacode os ombros. Como se dissesse: “É só isso.” Brinca com o cantil, dá mais um gole na bebida (seja lá qual for) e depois baixa os olhos, conformada com sua decepção.

Percebo que terá dificuldade para se abrir. Na verdade, estou convicto de que será preciso dinamite para fazê-la continuar a se abrir. Reflito, tamborilando a caneta sobre a mesa.

EU: Vou lhe passar um pequeno dever de casa.

NOTA: Ela olha para mim como se dissesse: “Está gozando com a minha cara, não está?”

EU: Nada complicado, eu garanto. Quero que vá para casa e escreva sobre os seus sentimentos.

NOTA: A Sra. Swan cai na gargalhada, como se eu tivesse acabado de contar uma piada hilariante numa rodinha de clube. Depois se recompõe, visivelmente envergonhada.

SRA. SWAN: Não está falando sério, está? Está. Bem... Olha, doutor, escrever não é o meu forte. Meu negócio é ação. Tenho uma construtora — já lhe falei sobre isso, não falei? Além disso, ando sempre muito ocupada. Estou com esse projeto em Boston, um pepino atrás do outro.

EU: Compreendo. Mas não precisa se preocupar. Não se trata de uma redação para a escola. Não é necessário caprichar na gramática. Nem mesmo terminar as frases. É apenas um exercício. Uma experiência, digamos assim. Não precisa mostrar a ninguém.

SRA. SWAN: Ninguém?

EU: Ninguém.

SRA. SWAN: Nem mesmo... pra ela?

EU: Pra sua mulher? Não, não precisa mostrar à ela. Nem à mim. Claro, pode mostrar à mim, se quiser. Mas o mais importante é que você se sinta livre para escrever sobre qualquer coisa. Para ajudá-la à descobrir exatamente o que a está perturbando. Às vezes, para conhecermos nossa própria história, precisamos contá-la à nós mesmos.

NOTA: A Sra. Swan leva o cantil à boca mais uma vez. Parece desconfiar que eu esteja contando os seus tragos. Rapidamente, tampa o gargalo e guarda o frasco no bolso da jaqueta.

SRA. SWAN (dando de ombros): Tudo bem, então. (Ri como se não estivesse preocupada.) Que mal pode haver nisso? Vou pagar pra ver o que acontece. Por que não? Afinal, o senhor deve saber o que está fazendo, certo?

EU: Excelente.

SRA. SWAN: Mas não estou prometendo nada.

NOTA: A Sra. Swan se apressa em sair. Aperta minha mão como se fôssemos velhos amigos de escola. Anda em direção à porta. Despois vira-se para mim.

SRA. SWAN: Humm... Doutor?

EU: Diga.

SRA. SWAN: Bem, é que... como devo começar?

EU: Que tal começar pelo começo? Tente se lembrar de como conheceu sua mulher, dos motivos que a fizeram se apaixonar por ela...

SRA. SWAN: Ótimo. Isso mesmo. Então, tchau.

NOTA: A Sra. Swan sai pela porta como se a sirene da escola tivesse acabado de soar. Faço uma anotação e balanço a cabeça. Fico pensando se voltarei a vê-la.