Mrs. & Mrs. Swan-Mills

14 A Destruição das Cortinas


Notas iniciais
Dedico à todos os ursos e troféus sem cabeça. Divirta-se

EMMA

Enfim, lar, maldito lar.

Cruzei a última colina voando.

Mas ela já estava lá, estacionando o carro diante da garagem.

Não podia deixar que entrasse em casa primeiro. Joguei o carro no nosso jardim, dei um cavalo-de-pau sobre o gramado e cobri o Mercedes de nacos de terra. Não pude ver a expressão no rosto de Regina quando ela saltou do carro, mas seria capaz de jurar que não havia gostado nem um pouco da minha manobra. Que se dane! Não era ela quem cortava aquele gramas três vezes por semana.

Desliguei o motor, pulei do carro e, saltando canteiros e arbustos, irrompi na direção da porta de entrada de modo a chegar lá antes de Regina.

Abri um sorriso de vitória quando pus a mão na maçaneta.

— Merda! — A porta estava trancada e aferrolhada, e minhas chaves não estavam comigo.

Quando me virei para trás, vi que Regina já entrava pela porta lateral.

Caramba! Aquela casa se transformaria numa fortaleza nas mãos de uma agente tão tarimbada como Regina. Eu tinha de entrar!

Corri para o quintal. Talvez pudesse arrombar a porta dos fundos.

Mas assim que contornei a casa, a porta se abriu por conta própria. Do outro lado estava Regina, transfigurada em amazona: cabelos revoltos ao vento, olhos refletindo o luar, pés afastados numa postura de Rambo prestes a atacar.

Acalentava nos braços uma submetralhadora de botar medo em qualquer um.

Fiquei rígida no lugar.

Senti uma contração abaixo do ventre. Jesus! Regina estava de tirar o fôlego.

Não restava dúvida de que sabia manejar muito bem aquela arma. Mas teria coragem suficiente? Seria capaz de me olhar nos olhos e me despachar para o inferno depois daqueles momentos de prazer e tortura na pista de dança? Depois das coisas que eu havia dito pelo telefone? Caramba! Por mais que me odiasse, teria a frieza necessária para puxar o gatilho?

Regina se mexeu ligeiramente, e isso me bastou como resposta:

“É claro que teria!”

Imediatamente pulei para a direita.

Blam!

“O inferno desconhece a fúria de uma mulher.”

Deitada no chão e cuspindo terra, eu já me preparava para morrer — sabia que, por mais rápido que conseguisse me arrastar dali, não teria a menor chance de escapar da mira de Regina. Não havia nada que eu pudesse fazer.

Todavia... a morte não veio.

Fiquei aliviada ao constatar que minha cabeça não tinha sido reduzida a farelo. Surpresa ao ver Regina voltar para o interior da casa e bater a porta com estrépito. Ouvi o dique da tranca, o “cleft” do ferrolho.

Tradução: “Fique longe da minha casa!”

— Sinto muito, gatinha — murmurei enquanto me levantava. — Mas meu nome ainda está naquela escritura.

Essa não foi a primeira vez que me vi obrigada a arrombar uma porta ou pular uma janela para entrar na minha própria casa. Mas das outras vezes eu não estava tão sóbria quanto agora. E sabia, por experiência, que o porão era o acesso mais fácil.

Corri até a porta de tela, e entrei. Depois subi as escadas, atravessei a porta com o máximo de cautela e passei ao meu escritório com a rapidez de uma sombra.

Uma vez no meu santuário pessoal, abri um nicho secreto na parede e de lá tirei uma pistola: prontinha para cuspir fogo e devidamente silenciada.

Nenhuma necessidade de desviar a atenção dos vizinhos do reality show a que sem dúvida estariam assistindo.

Depois saí para o corredor.

Tudo estava terrivelmente calmo. E assustador — os recantos da minha casa, antes tão familiares, haviam subitamente se transformado num terreno desconhecido. Regina saberia da minha presença ali? Estaria à espreita em algum lugar? Talvez achasse que tinha me afugentado com aquela demonstração gratuita de poder de fogo. Talvez achasse que estava segura em sua fortaleza trancada a ferrolhos e tivesse ido dormir.

“Acontece, gata, que as negativas de uma mulher nunca me impediram de chegar aonde eu queria chegar.”

Dei um passo em direção às escadas.

E com o rabo do olho vi um vulto passar correndo de um lado para outro. Seria Regina?

Blam, blam, blam...

Joguei-me ao chão, evitando com sucesso a saraivada de balas que se abateu sobre a parede oposta, estilhaçando porta-retratos e mandando uma luminária para bem longe dali.

Então ela ainda não tinha ido dormir. E ainda estava puta comigo.

Com uma Regina enfurecida em meu encalço, corri para o abrigo mais próximo: a cozinha. Atirei de volta e rolei sobre a bancada central.

Regina atirou de novo, mas abri a tempo a porta da geladeira. As balas ricochetearam no aço como se o nosso freezer fosse o escudo de um guerreiro grego.

Opa, foi mal. Se Regina ainda não quisesse me matar, nada a seguraria agora. Tinha um carinho todo especial por aquela geladeira. Havia demorado três meses para escolher o modelo.

Foi aí que algo no interior da geladeira chamou minha atenção: uma pequena sobra daquela torta de maçã que só Regina sabia fazer. Na mesma hora comecei a salivar como um cachorro de padaria, até porque ainda não havia jantado, muito em razão do espetáculo pirotécnico que Regina havia providenciado no restaurante.

Tinha de dar pelo menos uma mordidinha!

Eu tentava arrumar um jeito de abrir a gaveta dos talheres sem perder uma das mãos quando...

Blam! Blam!

Isso mesmo. Esposa exterminadora à solta.

Caralho. A torta teria de esperar.

Talvez fosse o caso de passar para a sala de jantar. No caminho até a porta, disparei mais uma rodada de tiros. Taças de cristal explodiram em fileira, como garrafas numa barraquinha de tiro ao alvo. Armários vieram abaixo, despejando no chão suas vísceras gastronômicas. O bule de chá predileto de Regina também levou bala, assim como a amiguinha dela, a chaleira. Jamais apitaria outra vez.

Regina ficou estupefata e parou um instante para avaliar os estragos causados no seu cômodo favorito da casa. Eletrodomésticos, prateleiras, enfeites — sua preciosa cozinha tinha se reduzido a pó.

Depois se virou para mim. Olhando naqueles olhos flamejantes pude ter uma clara ideia de como seriam as profundezas do inferno.

Calor demais para mim. Achei melhor cair fora dali.

Continuei na direção da porta, atirando para trás. De repente, clic, clic, clic... Merda. A munição tinha acabado.

Dei uma última olhada na Mulher-Demônio e escapei pela saída mais próxima.

De volta à escuridão do jardim.

Mas em vez de vir atrás de mim, Regina simplesmente bateu a porta e passou a chave.

— Porra! — Por que ela insistia em me deixar do lado de fora? Tive a sensação de estar vivendo um daqueles desenhos de Pernalonga ou de Tom e Jerry.

Trancada no jardim, no escuro, sem nenhuma munição.

Isso não era nada bom. Regina estava me dando uma surra, e se a notícia se espalhasse no mercado minha reputação estaria arruinada pelo resto da vida.

Corri até o quartinho de ferramentas na esperança de encontrar uma arma qualquer.

Sabia que Regina e sua gangue haviam limpado todo o meu arsenal, mas talvez fosse possível transformar uma das ferramentas numa arma letal.

Chave de fenda: muito fraco. Foice: muito sangue. Inseticida: levaria muito tempo para matar.

Revirei toda a tralha à procura de alguma coisa, qualquer coisa — latas de tinta, jornais velhos, uma bicicleta enferrujada... Puxa, aquele lugar precisava de uma faxina! E então avistei algo promissor: um tesourão de poda da melhor qualidade. Avaliei o instrumento numa das mãos: excelente, era suficientemente pesado. E versátil. Serviria para abater, furar, cortar, arrancar. Não era a tecnologia de ponta com a qual eu estava acostumada, mas dadas as circunstâncias achei que poderia ser útil.

Voltei ao jardim e, protegida pela noite, comecei a dar golpes no ar com o tesourão.

Parecia um samurai. Mas quando cheguei à porta do porão, ela estava trancada. Obviamente, a Miss Eficiência já havia passado por ali e colocado o cadeado na tranca.

Talvez eu ainda conseguisse entrar, mas a operação seria demorada e decerto muito barulhenta. Então optei por buscar uma alternativa.

Dei uma volta em torno da casa, espreitando pelas janelas. Sabia que Regina ainda estava de sentinela, mas não a via em lugar nenhum.

“O escritório!”, pensei. “Ela nunca entra no escritório.”

Ou pelo menos assim eu achava. Era bem possível que, ainda na noite anterior, ela tivesse entrado ali e dançado nua sobre a mesa enquanto seu colega e amante vasculhava minhas gavetas. Como eu poderia ter certeza de alguma coisa naquela altura dos acontecimentos?

De mansinho, fui até a janela do escritório e arrisquei uma olhada. Estava vazio. Nenhum vestígio de striptease sobre a mesa. A janela estava trancada, mas, enfiando a pontinha do tesourão entre o parapeito e a esquadria, consegui arrombá-la.

“Já não se fazem casas como antigamente”, pensei.

Ainda nenhum sinal de Regina. Então pulei para dentro, tesourão em punho.

Depois de conferir os arredores, tomei o caminho da cozinha. Supus que Regina já teria saído dali, inconformada com a destruição. Uma vez dentro, peguei uma panela de aço.

Depois parei. Meus olhos detectaram algo ainda mais interessante, uma frigideira de cobre, top de linha — acho que valeu à pena não ter trocado de canal no dia que estava passando Enrolados na TV — Regina sempre comprava o que havia de melhor.

Então voltei ao campo de batalha — armada de meu inseparável tesourão e da minha fidelíssima frigideira.

Como dizem por aí, o importante não é o que a pessoa tem; é o que ela faz com as coisas que tem.

Lentamente atravessei a sala de visitas, olhando para todos os lados, conferindo cada canto e espiando atrás de cada peça de mobiliário.

Até ali, tudo bem.

Mas quando pus o pé no vestíbulo...

BANG! BANG! BANG!

Como um atirador de elite, Regina abriu fogo do topo das escadas.

Voltei rapidamente para a sala de visitas e me espremi contra a parede, esperando.

Silêncio total.

Depois de um instante, estendi a frigideira um pouco além da quina da porta, na esperança de ver a posição de Regina espelhada na superfície de cobre.

Blam!

Regina arrancou a frigideira da minha mão com um único tiro, jogando-a do outro lado da sala.

Então me perguntei: “Por que aquela operação se mostrava mais difícil do que as outras?”

Na maioria das vezes eu concebia um plano, seguia esse plano e corria atrás do meu alvo. Fria, confiante, eficaz. Sem nenhum envolvimento emocional. Quando o alvo reagia, tratava-se apenas de uma questão de sobrevivência. Nada pessoal — nem para ele, nem para mim.

Mas essa história com Regina... Talvez tivesse começado como uma missão de rotina, encomendada pelo patrão dela. Assim como a minha tinha sido encomendada por Cora.

Mas agora tudo havia se revestido de um caráter pessoal. E foi aí que as coisas ficaram perigosas.

Senti um par de olhos sobre mim e imediatamente virei para ver o que era, tesourão ainda em punho.

Minha vontade foi de rir.

Lá estava o ursão de Regina, recostado na lareira. Apesar dos ferimentos, sorria para mim como se eu fosse uma amiga de longa data. E lá também estavam todas as estatuetas de Regina, perfiladas numa prateleira. Decerto ela havia recolhido algumas lembranças de nossa vida juntos para levar quando fosse embora.

Ou para queimar numa fogueira mais tarde.

De um jeito ou de outro, aquilo me deu uma ideia.

REGINA

Suando em bicas, parei para recarregar.

Depois, do alto da escadaria e com as costas viradas para a parede, fiquei de ouvidos bem abertos, tentando ouvir passos, um revólver se armando, um estômago roncando, um arroto — qualquer coisa que denunciasse a localização do “inimigo”.

Então ouvi uma coisa e segurei a respiração. O barulho tinha vindo de baixo, talvez da sala de visitas. Um barulho estranho. Na verdade, um barulho muito estranho. O que poderia ser aquilo?

Clip... Clip... Clip...

Parecia o ruído de... um par de tesouras!

De repente algo rolou pelo chão e parou diante das escadas. Uma bola... não, uma cabeça!

Tive de fazer um esforço para não gritar.

Depois vi o que era.

Meu urso! Emma havia decapitado o meu urso de pelúcia!

Como pôde fazer uma coisa dessas? Mas que ousadia a dela! Agora ela tinha realmente passado dos limites!

Com ânimo redobrado, avancei em sua direção. Mas depois ouvi aquele mesmo barulho outra vez.

Clip... Clip... Clip...

O que seria agora?

Retalhos de pano voaram pelo ar.

Abaixei o corpo e olhei através dos balaústres da escada. Não, ela não teria tido a coragem...

Pois teve! Logo vi que tecido era aquele.

Que mente doentia!

Emma cortava minhas cortinas novas com um podão de jardim! E com o entusiasmo de uma maluca, falou:

— Agora — clip! — a gente não precisa mais — clip! — de um tapete novo! — Clip! Clip! Clip!

Então fiquei de pé e, com a gana de um guerreiro troiano, abri fogo contra a sala de visitas, deixando aquela devoradora de cortinas sob uma chuva de metralha.

— REEEEGINA! — ela gritou. — Você é a minha outra metade!

A mulher tinha mesmo perdido o juízo, já não falava coisa com coisa.

Furiosa por causa das cortinas, desci as escadas o mais rápido que pude, metralhadora em punho. Mas assim que pus os pés na sala de visitas...

Wham!

Um abajur surgiu do nada e me acertou em cheio na cabeça.

Assustada, tive de me apoiar na parede para não cair. Inacreditável! Emma havia me atacado com um abajur! Será que não sabia quanto custava um abajur daqueles?

Antes que eu pudesse recobrar inteiramente os sentidos, Emma se jogou sobre mim e tentou arrancar a metralhadora das minhas mãos.

Então nos jogamos uma contra a outra e, à base de muitos socos, mordidas, dedo no olho e pontapés, começamos a lutar pela posse da arma. A metralhadora cuspia fogo para todos os lados, arruinando o pouco que ainda sobrava da minha sala.

Por fim, acertei uma cotovelada no rosto de Emma, que acabou caindo. Aproveitei a oportunidade para sacar simultaneamente duas pistolas.

A espertinha pagaria caro pelas cortinas picotadas!

Mas antes que eu pudesse armar os gatilhos, a sacana enlaçou minhas pernas com o fio do abajur e me derrubou ao chão. Com a queda, minhas armas saíram rolando pelo chão.

Ofegantes, Emma e eu nos arrastamos para cantos opostos da sala. Tentei localizar um objeto qualquer que estivesse ao alcance da mão e pudesse fazer as vezes de uma arma. O troféu de ouro!

Isso mesmo! Eu detestava golfe, detestava todas aquelas horas que ela havia passado correndo atrás de uma estúpida bolinha branca apenas para ter uma desculpa para ficar horas a fio bebendo com os amigos no clube. “Trabalho”, ela costumava dizer.

Trabalho era o que eu daria à ela muito em breve.

Com o precioso troféu de golfe levantado bem acima da cabeça, virei-me para Emma e olhei fundo nos olhos dela.

Se careta matasse, nossa luta terminaria ali mesmo.

— Esse troféu pertence ao clube— berrou Emma. —Está comigo apenas este ano!

Dei um riso sinistro e parti para o ataque. Minha intenção era partir o crânio dela com o estúpido troféu.

Emma pegou o atiçador de brasas ao lado da lareira e com ele se defendeu do golpe. Mas não sem prejuízo. A cabecinha do jogador de golfe acabou se quebrando do resto do corpo. Caindo assoalho com um lamentável "clinc"!

Emma rugiu ensandecida.

Sacrifício do troféu pelas cortinas!

O jogo começava a ficar sujo! Arremetemo-nos uma contra a outra como dois bodes marrentos, cotovelos e joelhos voando para todo lado, ossos trincando, carnes se dilacerando — uma orgia selvagem de artes marciais.

Duas assassinas profissionais descendo a mão uma na outra, derrubando móveis, colidindo com as paredes, destruindo um a um aqueles cômodos que um dia haviam construído e decorado com tanto carinho.

Em algum momento naquela missão nossa batalha havia adquirido um novo caráter. Já ia muito além de uma disputa entre agentes que haviam invadido o território uma da outra. E muitíssimo além de troféus e cortinas.

Assassinato a sangue-frio era uma coisa. Mas aquilo que se passava entre nós terminaria em algo muito mais próximo de um crime passional.

Eu queria acabar com a raça da babaca da minha esposa!

E obviamente ela queria acabar com a minha raça. Da mulher dela!

Como um pugilista em plena luta, cambaleei de volta para o centro do “ringue”, localizei uma das minhas armas e tratei de recuperá-la. Depois de limpar o suor dos olhos, levantei a arma, virei-me para trás e acabei cara a cara com Emma. Que também apontava uma arma para mim.

A hora da verdade havia chegado.

Estávamos a poucos centímetros uma da outra, nossos peitos arfando de cansaço, nossos dedos apertando gatilhos idênticos, os escombros do nosso casamento esparramados pelo chão.

Fotos rasgadas. Pedaços de tecido. Estilhaços de recordações preciosas.

Móveis, pratos, paredes e chão.

Nossa vida em ruínas.

Nossos olhares se entrelaçaram, e acho que naquele momento realmente nos reconhecemos por quem éramos, assim como os vampiros se reconhecem quando misturados aos vivos.

Sentíamos nas vísceras que estávamos diante de uma verdadeira colega de profissão. E daquela distância não teríamos a menor dificuldade para despachar uma a outra direto para o inferno.

Então seria esse o nosso fim? Em Maputo havíamos salvado a vida uma da outra; agora, nos subúrbios de Nova York, faríamos exatamente o contrário.

Ficamos ali, suspensas no momento, naquele impasse a que se resumira nosso longo e duro embate. Incertas quanto ao que fazer.

Se eu corresse, ela atiraria em mim pelas costas. Se atirasse primeiro, ela atiraria de volta antes de cair no chão. E morreríamos juntas.

Nem mesmo os melhores roteiristas de Hollywood seriam capazes de bolar uma saída decente para aquela situação.

Eu já havia tido encontros semelhantes com a morte outras vezes na minha vida, mas nunca havia parado para pensar neles mais que o necessário para escrever meus relatórios para a agência.

Pela primeira vez considerei a possibilidade de morrer com remorso. “E se a gente tivesse...” “O que teria acontecido se...”

Observei com cuidado o rosto de Emma. O queixo forte e teimoso não se deixava intimidar pela ameaça de morte. E aqueles lábios, aqueles lábios traidores. Apesar de todas as mentiras que dali haviam saído, minha vontade era sentir o gosto deles por uma última vez antes que uma de nós — ou nós duas— partisse dali para a eternidade.

Emma olhou para mim de maneira estranha, e subitamente temi que ela tivesse lido meus pensamentos. Eu precisava esconder meus sentimentos, pois, se demonstrasse fraqueza, por um segundo que fosse, ela aproveitaria a oportunidade para atirar primeiro. E eu não tinha certeza se seria capaz de atirar de volta.

Mas se apenas uma de nós tivesse de morrer, talvez fosse esse mesmo o melhor desfecho.

Deixar que ela me eliminasse. Melhor do que sobreviver para vê-la morrer.

Com a cabeça levemente inclinada, Emma estudava a expressão em meu rosto também. Minhas mãos não paravam de tremer. O único ruído na sala era o de nossa respiração ofegante. Parecia que o mundo havia parado de rodar.

Pensei ter sentido uma mudança na química entre nós.

De repente, Emma arreou os ombros e baixou a arma.

Fiquei confusa. Engoli a seco e disse:

— O que você está fazendo? — Nada se lia no rosto dela.

— Acaba logo com isso — falou baixinho.

Depois deu um passo adiante e encostou o peito no cano do meu revólver.

Trêmula, pisquei os olhos para limpar o suor das vistas.

— Isso é mais um de seus truques — desferi.

— Não, não é — ela disse simplesmente, o olhar perfurando a minha alma. — Agora diz — continuou —, diz que é só uma questão de negócios pra você.

Eu mal conseguia me mexer. Desviei o olhar.

Então Emma levantou uma das mãos; achei que fosse tomar minha arma.

Em vez disso, fechou os dedos bronzeados em torno dos meus e, como uma amante mostrando o jeito certo de fazer as coisas, engatilhou o meu revólver — o cano cravado no seu coração.

Santo Deus! O que ela estava tentando fazer?

Lentamente levantei os olhos na direção dos dela. Piscando sem parar, lutava com todas as minhas forças para não desabar numa crise de choro.

Com a garganta seca tentei dizer:

— É só... uma questão... de...

Emma deu um pequeno passo à frente e apertou o cano do revólver ainda mais contra o peito. Eu sentia seu hálito na minha pele. Via sua garganta pulsar freneticamente junto com o coração, aquele coração que eu poderia esfacelar com um simples gesto do dedo.

— Negócios? — ela completou.

Meu dedo escorregou do gatilho. A arma caiu das minhas mãos.

Eu não seria capaz. Jamais seria capaz.

Aterrorizada, senti meu corpo desfalecer, aos pouquinhos...

Até que Emma me segurou pela cintura e me apertou em seu peito, num abraço faminto e demolidor.

Como uma mulher à beira da inanição, devorei o beijo dela e me deixei ser devorada também. Rasgamos nossas roupas e nos jogamos ao chão — um chão coberto com os destroços do nosso passado em comum. Duas assassinas. Absolutamente rendidas uma à outra.