Mr Monk Vai Ao Brasil
1 A casa dos Starkeys
Notas iniciais
Mr Monk vai ao Brasil
Adrian Monk acordou, e seus olhos viram uma imagem embaçada da primeira pessoa depois de quase 6 horas dormindo. A última coisa que ele lembrava era de alguém dizendo “trinta dias”, e de estar sendo amarrado em uma poltrona de avião em pleno ar.
_ Monk, pode me ouvir? Se puder, diga como está. – Leland segurava uma mala de viagem, e estava com uma roupa de inverno. Atrás dele, Monk podia ver que o lugar onde eles estavam se tratava de um aeroporto. Era o Aeroporto de Guarulhos.
_ Eu morri? – perguntou confuso.
_ Acho que não! – Leland respondeu sorrindo.
_ Que pena! – fez um esforço para se levantar da poltrona em que estava, que era tão desconfortável quanto a última de que ele se lembrava – Eu devia estar morto, para não tentar matar você agora!
_ Relaxe! Nós já chegamos! Estamos no Brasil! Praias, churrascos e muita música!
_ Não precisávamos sair da Califórnia só para ver isso! Lá nós temos a mesma coisa. Onde estão as minhas malas?
_ Eu já pedi que colocassem no taxi. Considere que aqui teremos férias e sossego. E não teremos que trabalhar.
Monk o encarou muito sério.
_ Você devia se ouvir falando, capitão! O que fazemos é muito importante.
_ Eu não vou discordar. Mas, por favor, aqui eu não sou capitão, ok? Vamos. O taxi nos espera.
Leland e Monk viajaram por quase três horas. Obviamente o lugar para onde iam era apenas uma hora e meia de São Paulo, mas Monk queria parar para beber água. Sua garrafa preferida de Sierra Springs estava dentro da ultima mala do bagageiro, e ele decidiu, depois de tirar sua água, arrumar não só as malas como também o carpete que forrava o piso do bagageiro, por que estava um pouco torto.
Mas, apesar de tanto trabalho, Leland estava feliz por poder viajar para um lugar diferente de tudo que já viu em sua vida. E ele também estava ansioso para rever seus amigos ingleses que moravam no interior de São Paulo.
Como Monk o solicitou na última noite, antes de sua partida, ele o convidou.
E lá estavam eles então, passando pelo último pedágio, na famosa Rodovia Presidente Dutra.
_ Me sinto muito mal num lugar como esse. Parece que me falta uma coisa, na verdade muitas coisas.
_ Nem preciso perguntar o que...
_ Natalie, minha casa, meu guarda roupas, meu banheiro... – lamentava – O que eu estava pensando, meu Deus?
_ Ora, Monk, não será tão ruim assim, vamos! Meu amigo John me convidou, e eu já sei que ele poderá nos receber com muito requinte. È um homem fantástico, com uma família fantástica. Além disso, Doutor Bell também saiu de férias. O que você faria lá sem suas sessões?
_ De qualquer modo, não vão gostar de mim aqui “nesse” Brasil. Eu sei disso.
_ Teremos 30 dias para adaptação e...
Ele parou de falar bruscamente, mas já era tarde. Monk já se assustava novamente.
_ Você ficou louco! – gritava – Trinta dias? Deixe-me sair desse avião! Deixe-me pular! Parem esse avião!
Daquela vez, não foi necessário amarrá-lo novamente. O carro parou, e eles estavam em frente a casa de John.
A casa era imensa tanto por fora quanto por dentro. John Starkey era, com seu irmão, dono de um dos maiores escritórios de contabilidade da região do Vale do Paraíba. Eles estavam no país desde a infância. Leland conheceu John e Bob durante uma investigação de assassinato a quatro anos que envolvia chefes do crime organizado que atuavam também no Brasil. A colaboração da família foi muito importante para a resolução do caso, e o que os tornou amigos da polícia internacional.
_ Leland! Como está, meu amigo? – John o recepcionava na sala de estar com um abraço – Quanto tempo, hein?
_ Estou muito bem! Quero que conheça meu amigo Monk. Ele é o policial de que lhe falei.
_ Ah, Monk! É um grande prazer conhecer você e recebe-lo em minha casa.
John não o abraçou e nem estendeu a mão, pois Leland já o havia alertado sobre muitas coisas a respeito de Monk e suas fobias.
_ Muito prazer! – Monk quase sorriu – Sou ex-policial, na verdade. Ainda estou aguardando a decisão da comissão.
_ Ele será reintegrado, eu tenho certeza! – disse Leland para agradar o amigo.
John os conduziu à sala principal, e pediu que se sentassem ali, diante de uma grande tela de T.V.
_ Meu irmão e minha cunhada estão chegando, e eu vou pedir que a cozinheira sirva nosso jantar mais cedo. Chamarei também alguém que vai colocar as malas nos dois quartos. Enquanto isso, descansem um pouco, está bem?
Quando ele saiu, Leland olhou para Monk e ele estava sorrindo. Preocupado, perguntou se ele se sentia bem.
_ Sim, é claro! Você não percebeu? Ele nem sequer me estendeu sua mão! Ele disse “dois” e não “um” quarto! E você viu os quadros dessa parede? Os móveis dessa sala? Simetricamente desenhados, em perfeita harmonia! Mal posso esperar para ver o meu quarto!
Aquilo, embora fizesse Leland rir intimamente, o deixou contente, Ver o amigo satisfeito e feliz depois de tudo que aconteceu nos últimos dias era compensador.
Ele havia feito um pedido aos ingleses a respeito do quarto que Monk ia ocupar, e foi prontamente atendido. Então, quando Monk entrou para arrumar suas coisas, ficou ainda mais feliz. Estava tudo como ele gostava.
_ Leland, eu estou no paraíso! Eu disse a você, temos que ficar aqui por mais de um mês, e talvez eu nem mesmo queira voltar! Será que Natalie e Trudy (esposa de Leland) vão gostar do Brasil? Elas se acostumarão, não é?
Leland ria.
_ Monk, não exagere! Ficaremos por 30 dias, esta bem? – olhou para o lado e disse a si mesmo – Não acredito que eu disse isso e ninguém se feriu!
Depois de ajeitar suas coisas no guarda-roupa que foi colocado no quarto especialmente para ele, Monk tomou um banho. Sais de banho, sabonetes importados e antibacterianos foram colocados para ele usar, e o ambiente estava impecavelmente limpo. Como as empregadas foram avisadas de que ele gostava de fazer sua própria limpeza no banheiro, deixaram disponíveis também vários produtos de limpeza em um pequeno gabinete embaixo do lavabo.
_ Eu sinto muito pelo que houve com Bob, John. Ele foi um de meus melhores amigos, e eu não pude estar aqui quando ele precisou.
Leland falava com John no quarto de hóspedes, enquanto acomodava as coisas que tirou da mala no armário.
_ Tudo bem, Leland. Não havia nada que podíamos fazer. Se você estivesse aqui também, seria apenas mais um para assistir. Nós ficamos impotentes diante do problema, e tudo que pudemos fazer era esperar.
_ Não consigo imaginar a agonia que devem ter sido...
_ Quando Bob entrou em coma, pensei que fosse o fim. Infelizmente ficamos nisso por dois meses, sem esperança. E um dia ele se foi. Eu... Eu vou ver se Roger chegou.
Emocionado, John saiu. Não queria chorar perto de seu amigo.
A morte de seu irmão mais velho ainda o deixava abalado, assim como aos outros. Bob foi para eles como um pai, já que ajudou sua mãe a cria-los desde que ela os adotou. Quando Bob tinha 21 anos e seus irmãos 8 e 10 anos, sua mãe decidiu ir embora para o Brasil a fim de dar a eles mais oportunidade na vida. Bob acabava de se formar, tinha uma adoração pelos meninos, apesar de não terem o sangue de sua mãe como ele, e concordou com ela que no Brasil conseguiria exercer sua profissão de contador com maior chance de sucesso. Vinte anos depois já tinha seu império, e seus irmãos trabalhavam lado a lado com ele. Eram os melhores! E Judy, quando se casou com Bob já trabalhava com eles.
Roger e Judy chegaram e John os apresentou aos seus convidados que já estavam à mesa para o jantar.
_ Leland, Monk, esse é Roger, meu irmão caçula, e essa é Judy, minha cunhada.
Eles se levantaram e Monk recebeu o mesmo tratamento que John lhe deu. Mas ficou desconsertado ao olhar para a mulher. Envergonhado, tentou cumprimenta-la.
_ Muito... Muito... Ahn...
_ Muito prazer! – Leland disse para ajuda-lo a se expressar.
_ O prazer é todo nosso, Leland! – disse Roger – Eu não o conhecia pessoalmente, mas Bob falava muito bem de você.
_ Obrigado! Esse é meu amigo e colega de trabalho, Monk.
_ Olá, Monk, seja bem vindo em nossa casa. Espero que tenha gostado das coisas que fizemos pra você.
Ainda olhando para Judy, ele respondeu:
_ Eu gostei, gostei muito. Mas nós já estávamos de saída, não é mesmo Leland? Você já chamou o taxi?
Então Leland foi quem ficou desconsertado.
_ Ele só está brincando! – levantou-se de novo – Monk, eu posso falar com você um instante?
Monk o acompanhou até a sala, enquanto os outros agiam com naturalidade, sem deixar de rir discretamente. Eles já sabiam sobre Monk.
_ O que há de errado com você? O que houve com o “paraíso”?
_ Leland, você não viu? Ela se chama Trudy! Tem olhos verdes como os da Trudy!
_ Não Monk! O nome dela é Judy!
_ Isso mesmo! Eu não sei se isso é um teste do destino... Trudy, como a Trudy!
_ Eu não entendo. Você nunca se importou com minha esposa por causa do nome.
_ Sim, mas o nome de sua esposa é Trudy, e o dessa mulher é Trudy, é bem diferente!
Leland teria se irritado e deixado Monk de lado, se não o conhecesse.
_ Está bem, é mesmo estranho, mas pense nos sabonetes e nos móveis simétricos, está bem? Vamos voltar para a mesa. Eu estou faminto e aquele peru assado parece delicioso.
Então ele voltou. E tentou se comportar normalmente, apesar de estar incomodado com a presença de Judy.
Quando terminaram, John os convidou para conhecerem o resto da casa. E foram todos juntos a caminho da piscina, passando por cada cômodo.
A casa era mesmo enorme e tinha 6 quartos, todos suítes. E sala de estar, de jantar e de jogos. Do outro lado, perto da casa da piscina havia um grande salão onde ficavam vários instrumentos musicais, usados pelos irmãos em festas como a que aconteceria dali a uma semana.
Na linha de chegada Leland e Monk foram convidados a se acomodarem nas belas poltronas infláveis, na beira da piscina, com eles. Era uma construção alta, de onde se podia ver uma parte da cidade.
_ É uma pena que encontraram o tempo fechado aqui em São Paulo, Leland. – disse John – O tempo está maluco.
_ Tudo bem. Aproveitaremos outras coisas.
_ Estamos de férias do escritório também, então vamos levar vocês aos melhores lugares da região!
_ Se preparem, — disse Roger – será um mês de muitas novidades.
Mas a vontade de Monk era de ficar ali mesmo. O lugar não era exatamente um sítio, mas era rodeado de verde e de plantas ornamentais coloridas e de varias espécies e tamanhos. E era um ambiente silencioso, onde se ouvia o canto dos pássaros, e o som quase imperceptível dos veículos que passavam na rodovia a dois quilômetros dali.
Monk deixou os amigos, e foi para baixo para olhar aquelas plantas de perto.
Vendo que ele se afastou, Judy foi atrás dele. Havia notado que sua presença o deixava pouco à vontade, mas queria fazer com que ele se sentisse melhor se talvez falasse com ela e a conhecesse.
_ Essas eram as preferidas de Bob. – disse ela ao ver que Monk se maravilhava com uma planta, cujas flores cresciam feito buquê de noiva, como um arranjo arredondado — Ele viu em uma revista, gostou muito, então plantou.
Monk se virou para ela e sorriu.
_ Não se veem muitas dessas.
Ela se aproximou.
_ Você gosta de plantas?
_ Sim, eu tenho algumas em minha casa. Eu... tenho uma casa... Eu moro em... uma casa.
Ela percebeu seu nervosismo.
_ Espero que esteja gostando daqui. – Monk abaixou a cabeça e já não olhava mais as plantas – Senhor Monk, eu o deixo nervoso?
_ Não, é apenas seu... seu... sotaque... Você é brasileira, não é?
_ Sim. Meu sotaque deixa você nervoso?
_ Um pouco. É que você não pronuncia da forma correta, então, é o mesmo que falar errado.
_ Errado?
_ “Errado”!
Ele tentava corrigi-la, para que a palavra Wrong não parecesse Young. E ao mesmo tempo achava que Judy o detestaria depois de dizer aquilo.
Porém, ao contrário, Judy sentiu seu coração bater mais forte, ao se lembrar de que Bob a corrigia o tempo todo, e com naturalidade.
_ Bob queria que eu falasse com ele em sua língua, então eu estava aprendendo aos poucos. Mas quando ele faleceu, eu parei de tentar falar com perfeição.
_ Eu sinto muito... que não tenha conseguido aprender.
Ela sorriu.
_ Achei que fosse dizer que sentia por Bob.
_ Oh, não, me desculpe, eu também sinto muito por isso. Leland me contou sobre ele.
_ John me contou sobre Trudy. Sinto muito também.
_ Obrigado... Por pronunciar o nome dela corretamente.
Judy ficou pensando, Monk era mesmo o homem mais estranho, porém o mais sincero que ela já viu depois de Bob.
Disposta a saber mais sobre ele, Judy perguntou sobre Trudy, e deixou que ele contasse tudo que quis, até o momento em que ele se emocionou.
_ Não quero que chore, senhor Monk! A lembrança dela deve apenas confortar você.
_ Como você consegue?
_ O que?
_ Falar de Bob e não sofrer? Você não o amava?
_ Acho que quando você descreve seu amor por Trudy, está descrevendo o meu por Bob. Mas me lembrar dele me dá alegria. Tento não pensar em como ele se foi, mas em como ele viveu em minha vida.
_ Eu sei que tenho que pensar nisso, mas não sei ignorar uma coisa. O que ela fez de mim enquanto estava comigo, e o que fez quando me deixou. Não sou nem mesmo a sombra do que era antes.
_ Eu soube que você encontrou a filha dela.
_ Molly é adorável, e se parece com a mãe em muita coisa, apesar de não ter vivido com ela. Conhece-la me confortou, mas não trouxe sua mãe de volta. Ainda sou o mesmo, sem ela.
Judy podia sentir a tristeza e solidão através de seus olhos. Era como ela se sentia também nos dias que sucederam a morte de Bob. Tentava naquele momento mostrar a Monk que não devia sofrer, mas ela descobriu que apenas queria convencer a si mesma.
_ Acha que por causa disso será impossível ser feliz novamente? – já era uma pergunta pessoal.
_ Não. Eu acho que o que quero é ser feliz como antes. Isso sim é impossível. – ele enfim notou que Judy também estava triste – Me desculpe por isso. Não é todo mundo que pensa como eu. Você não é como eu, não se preocupe.
_ Acho que descobri agora que sou como você.
Enquanto ele a encarava com lamento, John os chamou, descendo as escadas da piscina.
Vamos tomar um lanche!
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