Mr. Clichê

5 Capítulo 5


— Quem era?

— Meu vizinho. — Ela sentou-se no sofá.

— O delegado? — Rômulo perguntou.

— Sim. Queria saber se estava tudo bem. Ele viu as luzes acesa, o carro estranho. Veio checar. — Ela não pode não sorrir. Darcy era bastante doce quando queria.

— E você preocupada de morar ao lado dele.

— Ainda fico, às vezes. Darcy faz perguntas que eu não sei como responder. As vezes eu quase esqueço.

— Você acha que ele desconfia de algo?

— Não, não exatamente. As vezes eu sinto que ele sabe que estou escondendo algo? Mas num geral ele só gosta de dar em cima de mim. — Rômulo riu.

— E você?

— Eu o que?

— Está interessada nele também?

— Que? Não. Rômulo! Não. Não tem espaço na minha vida para nada disso. Não. Não quero esse tipo de confusão. — Rômulo levantou a sobrancelha.

— Esse tanto? Ele deve ser bonitão.

— Você não ouviu uma palavra do que eu disse? Não importa quão bonito o Darcy seja. Não há espaço na minha vida para um homem.

— Por quê?

— Sério? Você sabe porque.

— Não, na verdade não sei. O ponto de você vir para cá não foi recomeçar? Não foi para você e Tom terem uma vida?

— E nós estamos tendo. Uma boa vida. Eu tenho um emprego, Thomas está indo a escola, fazendo natação. Ele joga futebol na rua com as outras crianças. — Rômulo riu. — Temos essa casa. Estamos recomeçando. Estamos bem.

— Eu ouvi que o Tom está indo bem. E você?

— O que tem eu?

— Você precisa viver também Elisa. Eu quero que você seja feliz.

— Eu estou feliz.

— Eu sei que a Elisa mãe está feliz. Essa é a vida que você sempre quis para ele. E a Elisabeta mulher? Ela também merece uma chance de ser feliz. De fazer amigos, sair a noite, se apaixonar… — Elisabeta suspirou e recostou no sofá.

— Eu tenho medo. Medo de deixar as pessoas entrarem. Olha o que aconteceu da última vez. E além do mais, vai sempre haver isso. E o medo. E se alguém descobrir que eu estou mentindo?

— Eu acho que se você deixar as pessoas entrarem, elas vão se apaixonar, porque Elisa, você é uma mulher apaixonante. Eu consigo ver que você está melhor. Que você está no caminho de ser aquela Elisa que conheci anos atrás. E quando essas pessoas verem a verdadeira Elisa, eu tenho certezas que se elas descobrirem qualquer coisa, elas irão entender.

— Não sei, Rômulo. Eu só…

— Você está com medo. Eu entendo. Eu só quero que você pense a respeito. Não precisa pular de cabeça em um relacionamento. Nem nada do gênero. Faça amigos, amigos de verdade. Convide eles para jantar. Saia a noite. Se divirta. Viva um pouco.

— Viver é um risco. Todos os dias, é um risco.

— Eu sei. Mas está tudo sob controle. Se alguma coisa sair do esperado, se alguém desconfiar, ou chegar perto de descobrir onde você está, eu vou saber. E eu vou lhe avisar e aí nós pensamos. Mas as chances são tão pequenas. Eu quase não achei esse lugar, e eu sabia onde procurar.- Elisabeta o encarou. — Certa vez, uma amiga minha, da época da escola, me disse que viver era um risco. Mas que ninguém chegava a lugar nenhum sem fazer algumas apostas. Qual era o ponto de viver se a gente nunca tirar as rodinhas da bicicleta?

— Essa sua amiga parece um pé no saco. — Elisa sorriu

— Ah, ela era. Uma verdadeira sabichona. Achava que tinha sempre todas as respostas. E que estava sempre certa também.

— Algo me diz que ela costumava estar. — Elisa riu.

— É. Sim. Ela tinha esse péssimo hábito. Mas a minha amiga, com certeza saberia aproveitar o vizinho bonitão que aparentemente está interessado.

— Realmente queria saber porque você acha que ele é bonitão.

— Ele tinha voz de bonitão. — Elisa gargalhou. — Ok, ele é um velho nojento que te importuna? Porque eu posso dar uma passada lá.

— Não. Darcy deve ter seus trinta anos. E ele é bem maior que você. E mais forte, também. Não quero que se machuque. — Rômulo levantou uma sobrancelha.

— Trinta anos, forte, alto…?

— Olhos azuis. Tem uma Harley. — Rômulo gargalhou . — Eu sei! Deus está testando o meu juízo.

— Ou Ele está te recompensando. Você merece Elisa, um pouco de diversão, aventura…

— Você vai ficar insistindo nisso?

— Até você me prometer que irá viver um pouco.

— Está bem. Está bem! — Rômulo bateu palmas. — Não estou dizendo que vou pular na garupa do Darcy. Mas talvez você tenha razão com relação a deixar as pessoas entrarem. Minha chefe é uma pessoa maravilhosa. Vive me convidando para sair.

— Ótimo! Comece com uma amiga. Eu vou ficar mais tranquilo sabendo que você está tentando ser feliz.

— Certo. Agora chega de mim. Tem notícias da minha família? Como vai seu romance com a Ceci? Rômulo, Rômulo, se você estiver enrolando minha irmã…

— Na verdade, esse é um dos motivos da minha visita. — Ele fez uma pausa. Elisabeta estava ansiosa. Rômulo manda mensagens dizendo que estava tudo bem. Estavam todos bem. Mas ainda assim, era sempre tão vago… — Eu pedi a Cecília em casamento. E ela aceitou.

— Ai meu Deus Rômulo!! — Elisabeta levantou e se jogou nos braços dele. Ela começou a chorar. — Eu estou tão feliz. Eu não poderia estar mais feliz! — Mas então algo atingiu ela. Elisabeta ficou gelada.

— Ei, ei. Não se preocupe. Eu e a Cecilia iremos morar na capital. Ela vai estar segura.

— Rômulo, você precisa me prometer! Longe daquele lugar, longe de...

— Eu a amo, Elisa. Eu nunca imaginei que eu me apaixonaria por aquela pirralha sonhadora, mas é isso. Eu sou da Cecília, eu daria minha vida por ela. Você tem minha promessa.

— Que engraçado a nossa vida. Nós já fomos muita coisa um para o outro, e agora seremos irmãos.

— Seremos irmãos. — Rômulo concordou. — Mas ela disse que só fará a festa de noivado quando você voltar. Estão todos reclamando da sua viagem a Europa. Você não dá notícias.

— Eu sei. E eu queria tanto conversar com todos. Mas se o meu pai descobrir tudo, Rômulo! Imagina só a tragédia que não seria? É para o bem deles.

— Eu sei que concordei com isso. Mas talvez você devesse contar só para as meninas. Elas entenderiam. E te apoiariam. Tenho certeza que se você pedisse, deixariam seu Felisberto no escuro.

— Eu sinto falta delas todos os dias. Acha que não pensei nisso? Seria egoísmo da minha parte envolvê-las nisso. É melhor assim. A ignorância é uma benção.

— Você quem sabe. Agora eu preciso ir. Vou voltar para Monte Alto e de lá pegar um avião.

— Obrigada por ter vindo.

— Dê um abraço no Tom por mim.

— Ele vai ficar muito triste por ter perdido sua visita.

— Eu volto com mais tempo, para fazer uma visita decente para ele.

Elisabeta acompanhou Rômulo até o portão. Ele olhou para casa do Darcy e viu a Harley.

— É uma bela moto. — Elisabeta ficou calada. — Pensa em tudo que conversamos hoje. Chame ele para conversar. Para sair. — Ele a sacudiu pelos ombros. — Viva um pouco!

— Você está muito obcecado com ele. Vou mandar uma carta anônima para Ceci abrir o olho. — Rômulo riu.

— Se cuida. — Ele disse antes de entrar no carro.

— Você também. E cuide da minha família.

— Como se fosse minha.

Rômulo foi embora e deixou uma Elisabeta pensativa. Estava tudo bem, tudo certo. Ninguém sabia onde ela estava. Ela podia relaxar um pouco. Ela deitou e começou a pensar em tudo que eles haviam conversado. Ele iria se casar com a Cecília! Mal podia acreditar. Que casal mais improvável. Sua doce e inteligente Cecilia. Elisabeta pegou o celular. Queria tanto ver as irmãs, falar com elas. Ela abriu sua antiga página no Instagram. Não tinha como ninguém saber que ela estava online. Ela foi até o perfil de Cecília e viu a última foto postada, era apenas a mão com um belíssimo anel. Ela quis tanto curtir aquela publicação! A irmã tinha feito uma legenda bonitinha, falando que era o dia mais feliz da vida dela. E tinha fotos que Elisa não conhecia. Dela e do Rômulo. Havia uma foto dela com as irmãs. Mariana tinha cortado o cabelo? Ela abriu o perfil da irmã. Mariana tinha cortado o cabelo! Ficou chocada. Ela sempre teve um apego tão grande as longas madeixas negras. Agora ostentava cabelos curtos e modernos. Ela estava namorando? Mariana era a solteira mais convicta que Elisabeta já conheceu. Tinha uma foto bonitinha, parecia de casal. Ah, sua Jane. Jane era a sua melhor amiga. Que saudades. Ela abriu o perfil de Jane. Tinha foto da família, de um ano atrás. No de Lídia eram basicamente fotos dela de biquíni. Elisabeta riu. Ela dormiu abraçada a foto das irmãs, que salvou no celular.

Os dias seguintes correram sem grandes alterações. Darcy insinuou que ela tinha um namorado secreto, e ela teve que dizer a Ludmilla que ele era apenas um velho amigo, de passagem.

— Não liga para ele, Elisa. É ciúmes.

— Não sinto ciúmes. — Darcy deu de ombros. — Sou evoluído demais para isso.

— Poxa vida, logo agora que eu acreditava que você me amava. — Elisabeta respondeu.

Darcy riu. Ele sempre ria das piadas dela, por mais ruins que fossem. E claro, desde que Rômulo ficara martelando na cabeça dela que ela deveria sair, se divertir, ela passou a reparar mais nele. Darcy seria a pessoa ideal para um aventura. Leve, divertido, sem pretensões. E se ela fosse ser honesta, ele ali, parado no batente da cafeteria, conversando com Januário, estava espetacularmente bonito. Darcy era bonito. O problema era o Mr. Clichê. Ela não conseguia levar a sério toda aquela pinta de motoqueiro hollywoodiano que fazia sucesso na região. Já tinha visto ele soltar as mesmas cantadas baratas para várias moças e via o resultado era sempre infalível. Nunca tinha visto ninguém dizer não a ele. As vezes ele nem se esforçava. Ficava ali, parado no balcão, escrevendo na cadernetinha vermelha enquanto tomava café. E as moças surgiam do nada, e davam seu telefone a ele. Não havia um limite. Ela já vira meninas de 15 anos atras dele e senhoras de 60. Qualquer coisa que se movia. Ele atraía qualquer coisa que se movia. Ela era imune? Não. Mas também não tinha essa necessidade toda de jogar sua calcinha em cima dele. Mas poderia.

— É meio doido as vezes, ver os dois se dando tão bem.

— Quem?

— Darcy e Januário. — Ludmilla respondeu. — Darcy o odiou quando o conheceu. Ameaçou quebrar todos os ossos dele. E claro, o Janu não ficou contente ao descobrir que o meu melhor amigo era o meu ex. Mas olha só, hoje eu tenho quase certeza que eles gostam mais um do outro que de mim. — Ela sorriu, pegando uma xícara de chá.

— Você e Darcy?

— Aham. Mil anos atrás. — Ela riu. — Dá para acreditar?

— Existem alguém nessa cidade que não seja ex namorada dele?

— A Amélia, da sua rua. Mas ela não é daqui. Jorge voltou com ela da capital. Não sei se consigo pensar em mais alguém que você conheça. — Elisabeta arregalou os olhos. — Estou brincando. Darcy não é muito de namoros sérios. Tirando eu, a Laura e a ex mulher dele, não me lembro de mais nenhuma garota que tenha ficado muito tempo não. Mas, é claro, — Ela fez uma pausa e tomou um gole de chá. — Você não precisa comprar a Harley para fazer um test drive. — Elisabeta riu.

— Eu não consigo acreditar. É difícil de imaginar vocês dois juntos.

— Como eu te disse, foi a mil anos atrás. Éramos muito jovens. — Ela ficou calada e Elisa tentou imaginar os dois juntos. Era muito estranho. Era como imaginar irmãos se beijando. Ela fez uma careta.

— Vale a pena? — Ela perguntou para Lud.

— O que?

— Dormir com ele. — Ludmilla a olhou como se ela fosse um et e então arregalou os olhos.

— O que? Não! Elisa! Eu nunca dormi com o Darcy!

— Você disse que namoraram…

— Nós tínhamos 13 anos! — Ludmilla começou a rir e depois Elisa passou a rir com ela. Darcy e Januário entraram e perguntaram qual o motivo da graça. — Ah, eu estava contando para Elisa sobre os velhos tempos...

Ludmilla era uma ótima companhia. Então ela passou a responder as mensagens com mais entusiasmo, compartilhar um pouco mais da vida. Ainda pensava se valia a pena dormir com Darcy. Eles eram amigos. Eram? Ela sentia que sim, mas não tinha certeza. Enfim, eles tinham uma boa relação. Não sabia como seria depois. Mas ela estava cogitando. Rômulo ficaria orgulhoso. Entretanto, Thomas estava meio estranho. Achou que ele as vezes dava uma resposta atravessada para ela. Então, alguns dias depois, ela estava no café, num horário que não costumava ter muito movimento. Ela levava um livro e costumava ler nessas horas. O telefone tocou. Ele raramente tocava. Ludmilla estava no escritório, e não atendeu. Então ela o fez.

— Café da Lud, bom dia.

— Bom dia. Eu gostaria de falar com Elisabeta Silva.

— É ela. — Elisabeta achou estranho. Quem ligaria para o café para falar com ela?

— Ah, bom dia Elisabeta. Aqui é a Martha, coordenadora da escola primária do Vale. A diretora pediu que a senhora viesse aqui, assim que possível.

— Por quê? — Elisabeta se desesperou.- Aconteceu alguma coisa com o Tom?

— Não. Quer dizer, sim. Ele se meteu numa briga. Já é a terceira em duas semanas. E dessa vez a coleguinha dele se machucou.

— Estou indo.

Elisabeta avisou Ludmilla e saiu correndo para a escola de Thomas. Ele havia se metido numa briga! Nem conseguia imaginar isso. O que ele tinha feito? Por que ele tinha feito?

Quando chegou na escola, a secretária a encaminhou para a secretária. Thomas estava sentado do lado de fora, de braços cruzados, emburrado. Ele sorriu ao vê-la.

— Mamãe! Você veio me buscar? Não aguento mais essa escola. Podemos ir embora? Quero ir para casa, assistir tv.

— Que história é essa que você se meteu em uma briga? — Nisso a diretora apareceu na porta. — Você espere aqui, nós conversamos depois.

Elisabeta segurava a bolsa junto ao corpo enquanto se sentava em frente a diretora. Sentia como se ela tivesse feito algo errado e talvez tivesse.

— Eu mandei chamar a professora dele. Ela já está chegando. — Poucos segundo depois, a professora de Thomas, Ana, se juntou a elas. — Mandei lhe chamar aqui, Elisabeta, devido ao comportamento do Thomas. Ele tem se metido em diversas confusões, provocado brigas, agredido os colegas. — A diretora começou. Elisa sentiu o sangue se esvair. A professora pareceu perceber, e tomou a palavra.

— O Tom é um menino muito inteligente. Ele é um líder nato e bastante amável, normalmente. O problema é que ele não aceita ser contrariado. Nos últimos tempo, toda vez que um colega o ignora, ou vai contra ele, Thomas acaba tendo uma resposta violenta. Antes eu conseguia controlar, mas agora até a minha autoridade ele tem desafiado. — Elisabeta levou a mão ao rosto. — No recreio, uma menina se recusou a deixar ele brincar com o tablet dela e ele a empurrou. Ela caiu e cortou o lábio.

Elisabeta suspirou.

— Eu não sei o que dizer. Eu tenho reparado que ele vinha desafiando minha autoridade nas pequenas coisas, mas nunca tinha feito nada demais. Eu não fazia ideia.

— Esse tipo de comportamento normalmente reflete algo acontecendo em casa… — A diretora olhou para ela com desconfiança.

— Nós nos mudamos para cá tem poucos meses. Acha que pode ser isso?

— Ele perdeu o pai também, certo? — A professora perguntou. — Isso pode acontecer em casos de luto.

— Nós recomendamos a senhora levá-lo num psicólogo infantil. — A diretora abriu a gaveta e tirou alguns cartões. — Esses são profissionais em Monte Alto, infelizmente não temos nenhum aqui. Queremos que Thomas evolua e amadureça. Mas não toleraremos violência.

— Não, claro. Com toda razão. — Elisabeta pegou os cartões. O que mais poderia fazer? — Esse aqui é o meu celular. — Ela anotou num papel. — Caso algo aconteça. Eu irei conversar com ele. Eu sinto muito. Mesmo.

Ela se despediu da professora e da diretora e o encontrou sentado ali, com a mochila do lado e os pés balançando na cadeira.

— Vamos. Nós dois vamos ter uma conversa séria em casa.

Elisabeta foi o caminho até em casa calada. Não sabia o que fazer. Como agir. Queria ligar para Jane, ela teria uma resposta. Mas Thomas andava ao lado dela, saltitando, como se nada tivesse acontecido. Ela sempre evitava brigar com ele. Por tudo que eles passaram, talvez ela tivesse superprotegido o filho. E mimado ele. Precisaria ser dura. Talvez colocá-lo de castigo? É, um castigo seria bom. Sem tv e computador por uma semana. Elisabeta achou razoável. Chegou em casa confiante. Thomas entrou e já foi jogando a mochila no sofá e ligando a TV.

— Não senhor. — Elisabeta foi até lá e a desligou. Ele protestou. — Eu e você precisamos conversar. Thomas adotou a postura que ela viu na escola. Ele fechou a cara e cruzou os braços.- Sabe o que a sua professora e a diretora me disseram hoje? Que você empurrou uma coleguinha. Isso é verdade? — Ele deu de ombros. — Quer me dizer por que você fez isso?

— Ela disse que não ia deixar eu brincar com o tablet dela. Que meninos são burros.

— E então você a empurrou? — Ele concordou com a cabeça. — E por que você achou que era o certo a se fazer?

— Sei lá, eu fiquei com raiva.

— Tom, olhe para mim. É normal sentir raiva. Mas você não pode descontar nos outros. Não é aceitável, nunca. Está me entendendo? — Ele fez que sim com a cabeça.. — Você não pode levantar a mão para ninguém. Não é assim que se resolve as coisas. Você conversa com as pessoas. Quando se sentir frustrado, chateado, triste. Fale. Você me entendeu? — Ele fez que sim com a cabeça, novamente. — Ótimo. Amanhã você irá se desculpar com sua colega. Vamos passar na Lud e você irá levar um cookie, e pedirá desculpas.

— Está bem. Eu posso ver tv agora?

— Não. Você precisa aprender que suas ações tem consequências. Você não verá tv nem mexerá no computador por uma semana. É o seu castigo.

E então ela viu ele se transformar. Thomas ficou de pé e a encarou, depois foi até a tv e a ligou. Ela suspirou, foi até lá, e tirou a tv da tomada.

— Tom, você não entendeu? Sem tv e sem computador. Sete dias. — Então ele gritou. E esperneou.

— Eu odeio você! Odeio! Eu quero meu pai! — Ele foi até Elisa e tentou tomar o controle da tv.

— Thomas… — Ela pôs o controle numa prateleira alta da sala, e ele voltou a gritar.

— Bruxa! Horrorosa! Eu odeio você! — E então ele a xingou. — Vagabunda!

— THOMAS! — Elisabeta ergueu a voz. — Para o seu quarto! Agora!

Então ele fez a última coisa que ela esperava. Pegou um dos antigos enfeites de louça de sua avó e jogou contra ela. Ele errou por pouco mas Elisabeta ficou sem reação. Então ele subiu as escadas, batendo o pé. Ela escutou a porta bater. Ela ficou parada na sala por alguns minutos e então foi até o jardim. Precisava de ar. Precisava pensar. Ela apoiou o rosto entre as mãos e começou a chorar. Não sabe quanto tempo ficou lá, daquela maneira, até Darcy parar no portão.

— Elisabeta? Aconteceu alguma coisa? — Ela levantou a cabeça e fungou. Seria impossível negar. Provavelmente estava toda inchada. Ela fez um gesto para ele entrar e ele passou pelo portão. Ela tinha até esquecido de trancar. Ele se sentou ao lado dela, nos degraus da varanda. — O que foi?

— Ah, Darcy, O Tom. Ele… Eu nunca o vi assim. Eu não sei o que fazer. Tenho medo de estar fazendo tudo errado. Não quero que ele se torne.... Esse tipo de pessoa. Que tipo de homem ele vai ser?

— Calma. Me explica tudo direito. — E então ela contou para ele da reunião na escola, da conversa, do resultado dela.

— E então ele atirou um elefante de louça em mim! Ele poderia ter me machucado, Darcy. Eu não sei o que fazer.

— Ele está desafiando sua autoridade.

— Ele está desafiando todas as autoridades.

— O que você não pode fazer é ceder. Mantenha-se firme. Deixa ele dar um chilique.

— Mas que sinto que não adiantou de nada. Que ele não entendeu a gravidade da situação. — Darcy parou e pensou.

— Eu tive uma ideia. E se eu falar com ele?

— Você?

— Como delegado. Levar ele na delegacia. Explicar o que acontece quando as pessoas não seguem as regras, agridem a mãe.

— Eu acho radical demais. Não quero traumatizá-lo. — Darcy deu de ombros. — Mas talvez se você só falasse com ele? Ele te idolatra, sabe? Já falou algumas vezes que quando crescer quer ser delegado também. — Darcy sorriu. Ele se levantou e deu a mão para Elisa, que se levantou também.

— Lá em cima?

— Sim.

— Vamos. — E Darcy subiu as escadas, olhando para tudo no caminho. Elisa nunca tinha o deixado entrar na sua casa e agora ela parecia pequena demais, para ele. A escada era estreita, então ela ia atrás dele. Ele parou na porta do seu quarto. — Aqui?

— Não, esse é o meu. — Ele deu um sorriso de lado para ela, mas não disse nada. Elisabeta apontou para a porta da frente. Darcy abriu.

— Thomas? — Ele estava deitado na cama, e levantou de vez quando Darcy entrou. — Nós precisamos conversar, de homem para homem.

Darcy entrou, mas Elisa não. Ela ficou do lado de fora ouvindo enquanto Darcy fala para Thomas que um homem de verdade jamais levantava a voz para uma mulher, o que dirá jogar algo nela. Falou sobre respeito e responsabilidade. E falou que acreditava que ele era um homem bom, e não um homem mau. E que homens bons, de verdade, assumiam os erros e as consequências do que faziam. Darcy falou que estava decepcionado com ele, e ela ouviu o muxoxo do filho. Elisabeta não resistiu e olhou para o quarto. Darcy estava de joelhos, enquanto falava tudo aquilo. Thomas estava sentado na cama e sorvia tudo. Ele balançava a cabeça, concordando com tudo que Darcy dizia. Era quase um feitiço. Elisabeta tentou não ficar chateada porque seu filho parecia não respeitar sua autoridade, mas respeitava a de um estranho. Bom, Darcy não era exatamente um estranho. E então eles dois saíram do quarto de mãos dadas.

— Thomas tem algo a lhe dizer. — Darcy falou, olhando para o menino.

— Desculpa, mamãe. Foi errado jogar aquele elefante em você. Eu não vou fazer de novo. Eu quero ser um homem de verdade. — Ele olhou para mãe, e depois para o Darcy.

— Tudo bem. Eu te desculpo. Mas você ainda está de castigo. — Ele olhou para o Darcy e para Elisabeta. Darcy assentiu com a cabeça, e Thomas imitou o gesto. Ela achou engraçado.

— Agora que tenho que ir. — Darcy falou.- Estou com fome e minha geladeira resolveu estragar. Perdi todos os jantares da semana. — Ele olhou para Tom. — Espero que o senhor cumpra o que combinamos. — Thomas assentiu com a cabeça.

— Você não quer jantar conosco? — Elisa se viu falando antes de pensar. — Posso cozinhar para três.