Mr. Clichê

9 Capítulo 9


Elisabeta acordou achando que estava doente. Sua cabeça pesava e ela sentia como se um caminhão havia passado por cima dela. Então ela se forçou a levantar, pois precisava de água. Mas antes de levantar, precisava abrir os olhos. Relutantemente, ela encarou a baixa luminosidade que vinha da janela, através da cortina. Achou estranho, de primeira. Ela nunca fechava a cortina. primeiro, porque a luz do sol era o seu principal despertador, e agora, por causa do Darcy. Darcy! Ela estava se sentando quando vários trechos da noite anterior começaram a pipocar em sua cabeça. Elisabeta gemeu. Meu Deus do céu, as coisas que ela tinha dito! Precisava de água. E café. não tinha como pensar em nada da noite anterior sem água, café e talvez um pão doce de açúcar e canela, da Lud. En então ela viu que havia uma jarra de água e um copo ao lado da cama. Ela nunca deixava água do lado da cama. Quando era criança derrubou água no colchão e suas irmãs espalharam na escola que ela tinha feito xixi na cama. Ela levantou e viu que havia um bilhete:

“Espero que você tenha dormido bem. Tenho remédio para ressaca se precisar. E quando estiver devidamente sóbria, nós poderemos enfim realizar esse seu fetiche musical.

Beijos e lambidas,

Darcy.”

Então mais um flash lhe veio a mente.

— Meu Deus do Céu! Eu lambi o Darcy! — Elisabeta se jogou de volta na cama e então, começou a rir.

Ela tomou um banho, para tirar o cheiro de bebida, mas ainda estava com uma cara de quem tinha tomado um bar inteiro. Desceu e descobriu que o café havia acabado, então respirou fundo, passou um pouco de maquiagem para esconder as olheiras, pegou seu óculos de sol e foi para o café da Lud.

Elisa não trabalhava nos sábados. Manu e uma amiga, Lia, tomavam conta do café. Ela chegou e se jogou no banquinho do balcão, apoiou o rosto na mão e esperou uma das meninas ir atendê-la.

— Parece que a noite foi realmente boa. Você está ainda pior que a Lud. — Manu riu.

— Se você quiser um conselho dos mais velhos: não beba tequila. — Manu gargalhou. — Quero um café. Do grande. E pão de canela. Onde a Lud está?

— No escritório. Você pode ver que só temos hoje as coisas do freezer. Ela não fez nada novo.

— E eu achei que estava mal.

— Você está. — Ela deu língua para a menina, que pegou o café e os pãezinhos. — Fiquei sabendo que Darcy dedicou uma música para um alguém misterioso, é verdade? — Veio então a mente de Elisabeta, aquele momento específico. Ela sorriu.

— Sim. Você sabia que ele cantava? — Elisabeta tomou um gole do café.

— Claro! Tem na página do Bar do Olegário, no facebook. Mas nunca vi ao vivo. — Ela suspirou. — Não vejo a hora de completar vinte anos.

— Vinte? — Elisa perguntou intrigada com aquele comentário aleatório. — Você pode ir ao bar com dezoito.

— Mas o Darcy nunca sai com ninguém com menos de vinte. Aquele homem é o meu sonho de consumo. — Ela suspirou. — Não sei como você e a Lud conseguem ser amigas dele. Eu não acerto nem meu nome quando ele fala comigo. Se ele falasse comigo o que fala com você, Deus sabe, que minha calcinha dissolveria.

— Manuela! — Elisabeta repreendeu. — Deus, ele tem idade para ser… Seu tio! Um pai adolescente!

— Ele é só quatorze anos mais velho que eu, Elisa. E além do mais, nossos signos combinam. — Elisabeta balançou a cabeça, desistindo.

— Eu vou para o escritório da Lud. E você, vê se mantém essa sua calcinha inteira.

Manu deu de ombros e Ela foi até os quartinhos do fundos. Ludmilla queimava incensos, segurando uma grande xícara de chá. Seu cabelo estava preso num coque e ela parecia cansada.

— Bom dia. — Elisa entrou e sorriu. Ludmilla sorriu de volta.

— Elisa! Eu já ia te ligar. Meu pai saiu bem cedo com os meninos para São João do Lago, para pescar. Mamãe disse que só devolve eles amanhã. Desculpa. Meus pais são meio loucos. — Ludmilla fez uma careta. Elisa suspirou.

— Tudo bem. Ele vai se divertir. — Elisa se jogou na cadeira. — Para ser honesta fico aliviada. Estou numa ressaca horrível. Posso só me esconder em casa e comer besteira na cama.

— Nem me fala minha amiga. Depois que você foi embora, eu e a Mariko cantamos umas cinco músicas seguidas da Rita Lee. Toda vez que alguém tentava subir, a Mariko ameaçava jogar o microfone na cabeça. O Januário precisou me tirar no palco a força. Tem vídeos hilários na página do bar. — Mas então o sorriso dela mudou. — Mas me diga! Valeu a pena? O Darcy superou suas expectativas?

— Na verdade, ele superou todas elas. — Elisa deu uma mordida no pão. Lud sentou na mesa e arregalou os olhos. Elisa riu. — Eu jamais esperei que ele seria um cavalheiro. Foi o que ele foi: um perfeito cavalheiro. — Lud inclinou a cabeça de lado. — Não aconteceu nada, Lud.

— Mas, como? Por quê? Você me disse que ia devorá-lo com uma colher de sobremesa.

— Disse? — Ela não se lembrava disso.

— Sim, quando ele começou a cantar. — Lud parecia divertida. — Inclusive você deixou na mesa todos os guardanapos com os números dos rapazes. Eu guardei, pois sou uma excelente amiga. — Elisa fez uma careta ao se lembrar daquilo. Ela tinha esquecido de como era ser cortejada. Aquilo fez bem para ela. — Mas me conte! O que aconteceu?

— Bom, eu claramente estava fora de mim. — Lud riu. — Sério. Lud, eu literalmente passei a mão no Darcy. — Ludmilla passou a gargalhar. — Ele foi… Gentil. Me levou para casa, me fez vestir uma roupa confortável e disse que não dormiria comigo naquele estado. Por mais que eu tivesse sido insistente.

— Eu não estou surpresa. É o Darcy, afinal de contas.

— Mas… — Elisa tentou contra argumentar. Mas Ludmilla tinha razão. Darcy nunca tinha dado motivos para ela duvidar de seu caráter. — Mas eu queria tanto! — Ela confessou.

— E porque vocês só não transam de uma vez?

— Porque o joguinho é divertido. E a gente sabe que isso não vai acontecer de novo, então…

— Você realmente acredita nisso? Que vai ser uma única vez?

— Foi o que decidimos. Nós temos uma ótima relação, e amizades coloridas sempre acabam em desastre.

— Ou em casamento. — Ludmilla deu de ombro.

— Ou seja: desastre. — Ludmilla sorriu.

— Eu só quero deixar bem claro, que se isso acabar no altar, eu vou contar essa história no meu brinde de madrinha.

— Claro. — Elisabeta acabou seu pão. — Bem, agora eu vou para casa, fazer uma faxina, e quem sabe, ver um filme que não seja em animação.

— Ou, quem sabe, você não pode protagonizar um filme com seu vizinho…

— Lud!

— Está bem, está bem! É que vocês já estão me dando nos nervos. Baita chove não molha...

Elisa voltou para casa, andando sem muita pressa. As pessoas a cumprimentavam no caminho, como sempre. Ninguém parecia ligar para o fato dela ter bebido demais, dançando com metade da cidade. Uma voz na sua cabeça lhe disse:

— Viu só? Você se divertiu por uma noite e o mundo não implodiu. — Então ela levantou as mãos pro alto. — Você está livre, Elisa, livre!

Então, Elisa foi para casa. Não sabia muito o que fazer com o tempo livre. Sempre se dedicava a ser mãe em primeiro lugar. Resolveu que daria uma boa faxina na casa, depois leria seu livro com uma taça de vinho. Então ele pôs uma música para tocar, e começou a arrumar a casa, despreocupadamente. Até que seu celular passou a vibrar insistentemente, atrapalhando a música.

“Bom dia, vizinha. Acordou animada”

“Você está bem? Fiquei preocupado ontem.”

“Onde está o Tom? Não gostariam de dar um mergulho comigo?” — Ele mandou uma foto dele na piscina, sem camisa, e de óculos escuros. Elisabeta salivou um pouco.

“Tom está em São João do Lago com o pai de Lud e o Joca. Foram pescar. Só volta amanhã a tarde.”

“Quer dizer que você está sozinha?”

“Sim.”

“Não que vir me fazer companhia? Posso tocar para você.” — Darcy mandou uma foto do violão, encostado na mesa que fica perto da piscina. ELisa riu. A essa altura já havia se lembrado da noite inteira, e tudo que tinha dito.

“ Estou fazendo uma faxina. Coisas que adultos fazem, você sabe.”

“ Sabe o que mais adultos fazem?”— Ele mandou logo em seguida o vídeo de um gatinho lambendo o outro. Elisabeta começou a rir.

“Você está se achando demais hoje. Gostaria de deixar claro que por mais que eu realmente tenha uma queda por músicos, bateristas são minha cripitonita.”

“Bom, foi me dito noite passada que eu sou, como é mesmo? Ah sim, muito gostoso. Acho que posso me achar um pouquinho.”— Elisa revirou os olhos, mas ainda riu. Outra mensagem veio em seguida.

“A vantagem dos guitarristas em relação aos bateristas, é que nós somos mais habilidosos com os dedos.”

“Como faz algum tempo desde que saí com um baterista, eu vou precisar fazer um teste, para comparar. Conhece algum baterista que estaria disposto a sair comigo?”

“Baterista, não. Mas eu gostaria. Tem planos para esse noite? Poderíamos ir a Morro Alto. Ainda te devo um jantar.”

“Hoje?”

“Podemos aproveitar que o Tom não está. Fazer um programinha de adulto.” — Ela mordeu a língua. Uma parte do seu cérebro dizia que ela não deveria ir. Uma coisa era fazer um jogo de sedução com seu vizinho. Outra era ir num encontro. Encontros são românticos por natureza.

— Mas que bobagem, Elisa! Pareceu até a Jane falando. Não precisa ser romântico. Apenas dois amigos, saindo. Comendo.

“Você paga.”— Ela enviou antes que pudesse mudar de ideia.

“Esteja pronta as seis.”— Ele respondeu. Então Elisabeta terminou de arrumar a casa e ficou pensando no que deveria vestir para um encontro com Darcy.

Por volta das quatro, ela mandou uma mensagem para ele. Precisava saber se iriam só jantar mesmo. O que iriam fazer. Estava começando a ficar nervosa. O que era ridículo, visto que ela jantava com Darcy pelo menos três vezes na semana. Ele respondeu pouco tempo depois.

“O que acha de irmos ao cinema? Faz tempo que não vou e tem algumas coisas legais em cartaz.”

“Desde que não seja animação…” — Ela respondeu. Cinema era bom. Cinema era ótimo. Eles não precisariam conversar no cinema. E se ela se lembrava bem, o cinema era um ótimo lugar para outras coisas também. Ela se lembrou da noite passada, da sensação de ter os seus músculos rígidos sob os seus dedos e desejou mais. Desejou poder tocar Darcy por inteiro. Desejou que ele a tocasse. E sob essa perspectiva, ela tomou banho, se depilou e escolheu uma de suas novas lingeries que haviam sido compradas pensando nele.

Seis horas em ponto, sua campainha tocou. Elisabeta se amaldiçoou por não ter nenhuma jaqueta de couro. Como andaria de moto sem uma jaqueta de couro? E não querendo cometer o erro de parecer formal demais — o que era um problema. O seu casamento exigiu que ela mudasse seu guarda-roupa. Todas as suas roupas mais arrumadas eram formais de mais. — ela optou pelo simples. Um calça escura, uma blusa listrada. Sua jaqueta jeans da época da faculdade. Desceu e encontrou Darcy como ela esperava: jaqueta de couro, sorriso presunçoso.

— Você é está espetacular.

— Eu estou bem simples.

— Você é espetacular. — Ele sorriu e entregou um capacete a ela. — Planejei a nossa noite. Consegui fazer reservas um restaurante muito bom. Mas para isso, você precisa me prometer que vai se comportar quando estivermos na estrada. — Ele deu um sorrisinho de lado a ela, que a fez ficar vermelha.

— Preciso lhe agradecer, antes de ir. — Ele parou, perto da moto.

— Por quê?

— Bem, por ter me trazido para casa em segurança antes que eu subisse no balcão e fizesse um stripper. — Ele levantou uma sobrancelha. — Aconteceu uma vez.

— Se eu soubesse dessa possibilidade, jamais teria te levado para casa em segurança. — Ele sorriu, mas ela sabia que não era verdade.

— E obrigada por não ter feito nada ontem. Mesmo que eu me lembre de tudo que aconteceu, eu estava…

— Bêbada? Não sei com que tipo de caras você saiu no passado, Elisa, mas eu tenho alguns princípios. Além do mais, você implorou ontem, então o jogo acabou. Vou reclamar meu prêmio. — Então ela avançou para cima de Elisa. E ela congelou. Durou apenas um milisegundo, mas ela soube que ele percebeu. porque Darcy soltou o braço dela instantaneamente. Maldito reflexo. Ele a olhou, seus olhos, naquela tarde, pareciam mais verdes que azuis, e ela sentiu ele vasculhava sua alma. Ela conseguia ver todas as perguntas e suposições de Darcy, então ela mudou de assunto.

— Quem disse que você ganhou? Ontem não valeu. Eu não estava em posses de minhas faculdades mentais.

— Não havia essa cláusula na nossa aposta.

— Você sabe tanto que é verdade, que não fez nada. Não tem essa de prêmio nenhum. A bola ainda está rolando.

— Então quer dizer que a senhora se aproveita de mim, eu sou bulinado, apalpado e até lambido e não ganhei nada com isso? — Elisa sorriu e bateu na bunda dele.

— Como não? Você ganhou um encontro comigo.

Então ela montou e passou os braços em volta dele. Apenas para provocá-lo, ela passou a mão no tórax dele. Ele olhou para trás, a viseira do capacete ainda levantada, ela pode ver os seus olhos franzidos, em desaprovação. Então ela riu, e passou suas mãos em volta dele e segurou firme. Ele balançou a cabeça, rindo também, e deu a partida.

Ela já tinha andado de moto uma vez, mas não se lembrava direito. Era uma sensação incrível. Libertadora. Ela abriu a sua viseira, para sentir o vento em seu rosto e então soltou os braços que estava em volta de Darcy e os abriu. Ela estava feliz. Nem se lembrava da última vez que pudesse ter dito isso. Talvez antes do câncer de Lídia. É claro, que tiveram momentos felizes em sua vida. O nascimento do seu filho. Seus primeiro passos, suas primeiras palavras. Mas não conseguia se lembrar a última vez que esteve feliz. Estava tudo certo na sua vida. Tinha um trabalho decente, Thomas estava indo bem, estava feliz. Tinha bons amigos e tinha o Darcy. Só faltava uma coisa para que ela estivesse completamente satisfeita e feliz, era a sua família. Mas por hora, ela estava feliz com o que tinha. Darcy estacionou em frente ao cinema,e mandou que ela escolhesse o filme, enquanto ele iria ao banheiro. Ela se deu conta que não sabia que tipo de filme ele gostava. Sempre viam filmes infantis com o Thomas. Então ela comprou dois ingressos para um filme policial. Ele era um, então deveria gostar, certo? Ele apareceu, momentos depois, com um balde de pipoca, dois refrigerantes e balinhas.

— Eu sei, eu sei. Minha irmã diz que eu tenho paladar infantil. O que você escolheu para gente? — Ele olhou o nome do ingresso na mão dela. — A tocaia?

— Reparei que não sabia que tipo de filme você gostava. Então eu escolhi um policial. — Ele tentou reprimir uma careta. — O que foi?

— Eu gosto de todos os filmes, policiais nem tanto.

— Mas você é policial!

— Eu sou delegado. E justamente por isso. Ou os policiais são otários, comendo rosquinha, ou eles são sujos, ou eles são inúteis.

— Nem Sete Pecados?

— Talvez esse seja o único.

— E séries policiais?

— Gosto de CSI, apesar de não ser assim que funciona na vida real. — Eles caminharam até a entrada. — Achei que você iria escolher Paixão além da Vida. — Ela o olhou indignada.

— Só porque eu sou uma garota?

— Não, porque estamos em um encontro.

— Já disse que não quero que se apaixone por mim. — Darcy revirou os olhos.

— Não sei porque. Daríamos um ótimo casal. — Ele empurrou ela de leve, e ela jogou uma pipoca nele. — Mas tudo bem, não estou te pedindo em namoro, Elisa. Só estou te levando no cinema.

E eles se sentaram nas poltronas do fundo. Elisabeta foi prevenida. Se algo acontecesse, as cadeiras do fundo eram as melhores. Mas Darcy não fez nenhum avanço. Ele reclamou o filme inteiro. Em um determinado momento, ele passou o braço ao redor de Elisa, e ficou ali, casualmente. Elisabeta ficou tensa nos primeiros momentos, mas então o Darcy voltou a reclamar de como o policial era retratado, e ela relaxou. Mas Estava ciente dele. O peso do braço dele no seu ombro. O cheiro amadeirado de seu perfume. O tamborilar dos dedos nele no seu braço, ou quando ele brincava com uma mecha de cabelo. Quando eles saíram do cinema, ele casualmente, segurou a sua mão.

— O que achou do filme? — Ele perguntou, mas sua cabeça ainda estava nos dedos dele no seu. Você está fazendo grandes coisas disso. É só um encontro.

— Se eu for completamente honesta, achei chato. — Ele concordou com a cabeça. — Mas não por isso. Você é sempre tão comportado num cinema assim?

— O que você queria que eu fizesse? — Ele levantou uma sobrancelha.

— Se eu tiver que dizer tudo que eu quero que você faça, já vi que vai ser mais sem graça do que eu espero.

— Você espera que seja sem graça? — Ele começou a acariciar a mão dela.

— Estou tentando diminuir minhas expectativas. Depois de ser rejeitada duas vezes, ou você não se interessa tanto por mim, ou talvez tenha algum problema de performance. — Ela deu de ombro, provocando. — De todo modo, minhas expectativas estão lá embaixo. Tinha esperanças que o cinema fosse levantá-las, mas… — Ela suspirou dramaticamente.

Darcy parou na porta do cinema. E então saiu puxando ela pelo braço, até que eles tivessem nos fundos. Os fundos do cinema davam para um beco vazio, e o sol já tinha se despedido daquele dia. Então Darcy a encostou na parede. Elisa riu. Mas sentiu que não deveria. Ele estava sério. Seus olhos sempre tão claros, na penumbra pareciam escuros. Então ele colou seu corpo no dela, e encostou os lábios em sua clavícula. As mãos dele também passaram pela lateral de seu corpo, de forma rápida, brusca. Ele inspirou, e roçou a barba em seu pescoço. Elisa suspirou. Ela sentiu sua pernas amolecerem. Darcy se encostou mais nela, de forma que ela pudesse sentir sua ereção. Ela precisava daquele homem. Já havia ultrapassado a questão do desejo. Era necessidade. Então suas mãos foram para jaqueta, de modo que pudesse tirá-la, mas ele segurou seus dois pulsos com uma única mão. Com a boca a no seu pescoço, ele subiu, a lambendo da mesma forma que ela fez na noite passada. Ele parou no seu ouvido e antes de morder seu lóbulo, ele falou.

— Não. — E prendeu as mãos dela acima da cabeça. Sua outra mão a tocou, por cima da roupa, em todas as partes que eram sensíveis a ela. Como se ele tivesse recebido um manual para o seu corpo. — Elisa, Elisa. Você pode dizer o que quiser sobre a gente. Que é um jogo perigoso. Que não deveríamos. Ou que deveríamos agora. Mas que será tedioso? Eu acho que não.

— Darcy… — Ela só queria tocá-lo. Ou que ele a penetrasse de uma vez. mas ele continuou ali, a tocando, enquanto a barba dele roçava seu pescoço.

— Implore, Elisa. — Ele sussurrou no pescoço dela. — Você só vai ter que me responder uma perguntinha.

— Não. — Ela conseguiu dizer, entre sussurro. — Detesto perder.

— Mas você estaria mesmo perdendo?

— Não…- Ela gemeu. Ele riu. — Quer dizer, sim!- E Então ele intensificou as carícias.

— Pelo menos reitre o que disse. — Ele parou abruptamente e ela voltou seu olhar para ele. Os olhos de Darcy estavam claros novamente. Havia divertimento neles. E alguma outra coisa, com intensidade.

— Jamais seria tedioso entre a gente. — Ele soltou os braços dela. Elisabeta ainda tentava concentrar a respiração.

— Ótimo. Agora vamos, ou iremos perder a reserva.

— Você vai me deixar assim? Incompleta? — Ela não tinha chegado lá, mas faltava tão pouco.

— Ontem eu também tive que terminar sozinho. Nos considero quites agora. — Mas segurou a mão dela de novo.

— Você é mau. — Mas dessa vez, ela segurou a mão dele de volta.

No jantar, ele contou sobre a faculdade, sobre os pais, a mãe professora de música, o pai fazendeiro. Os avós ingleses. Ela perguntou sobre Charlotte, e ele falou que ela iria para casa no final do mês, e Elisa ficou feliz. Ouvia tanto sobre ela que era como se ela o conhecesse. Darcy falou da fazenda da família e Elisa contou que passou a primeira a infância em sítio, sobre seu cavalo Tornado. Falou sobre o pai, que era professor de uma escola rural, e depois se mudou para uma cidade de porte médio, onde dava aula numa pequena faculdade local. E sua mãe, que era costureira, mas parou quando Lídia ficou doente. Ele perguntou que tipo de câncer Lídia teve, e se ela estava bem agora. Elisa disse que sim, e abriu uma foto da irmã para ele. Darcy brincou, dizendo que Elisa era irmã deia, e ela o chutou por baixo da mesa. E quando eles voltaram para o Vale naquela noite, Elisa estava com a cabeça apoiada nas costas de Darcy. Tinha dito tanto para ele que não deveria se apaixonar por ela, mas talvez ela devesse começar a dizer para si mesma. Aquela noite tinha sido… Achava que nunca tivera uma noite assim. Darcy mexia com ela. E se ela fosse ser honesta, talvez mais do que fisicamente.

Thomas voltou no domingo a tarde, queimado de sol e com um milhão de histórias. Ele pediu para ir na casa do Darcy, contar tudo a ele, e ela deixou. Já não se importava se ele saísse, desde que ficasse na rua. Não desativou o sistema de segurança, mas parou de checar todos os dias as filmagens. Rômulo tinha razão, ela estava segura ali. Então Darcy saiu com ele de moto. Foi quando ela viu que ele tinha comprado um capacete infantil para o filho. Eles voltaram meia hora depois, com cortes de cabelo iguais. Thomas parecia não caber em si,e Darcy apenas ria, para o menino. Ele gostava da atenção que recebia de Tom, e Elisa sentiu aquilo no fundo do seu estômago.

Duas noites depois, Darcy fez um churrasco com Januário na casa dele, e Thomas e Joca estavam correndo de um lado para o outro. Acabaram chamando o filho de Mariko, Otto, e a mesma se convidou para participar. Darcy jogou Elisa na piscina. Ela precisou se trocar no quarto de Charlotte, mas deixou sua calcinha em cima da cama dele. Darcy respondeu com uma foto do Rony cheirando a calcinha dela, e ela teve uma crise de riso. Mas naquela noite, ele apareceu de cueca na janela. E agora que ela já tinha sentido Darcy, a ansiedade para vê-lo era ainda maior. Então naquela noite de quinta-feira, enquanto Darcy estava sentado no chão da sala, montando um quebra-cabeça do homem de ferro com o Tom, Elisa cogitava só implorar. Uma pergunta, o que custava? Talvez ele fosse fazer alguma pergunta pessoal e pervertida. Mas ela precisava logo transar com ele. Porque em momentos como aquele, em que ele estava ali, tão concentrado em uma brincadeira com o filho dela, que cada dia que passava parecia estar ficando mais parecido com ele… Em momentos como aquela, ela vacilava. Ela desejava que eles pudessem ser mais. Que ela pudesse ficar com ele, de verdade. Que eles pudessem ser uma família. Ela viu quando os dois trocaram um olhar.

— Mamãe, você sabia que sábado vai ter uma feira de adoção na praça? — Ela tomou um gole de suco.

— Ah é? Por que? Você quer que eu te coloque para adoção? — Ela viu o olhar de Darcy nela. Ele sorria para ela de uma forma… tenra.

— Não, mamãe. É uma feira de adoção de animais.

— Humm.

— E eu estive pensando… Eu sempre quis um cachorro!

— Thomas…

— Por favor mãe! Eu juro que vou cuidar dele. Eu vou dar banho e levar para passear com o Darcy e o Rony. E o Darcy prometeu que vai me ajudar a treinar ele, não é Darcy?

— Você está metido nisso?! — Elisabeta fuzilou ele com os olhos, mas antes que ele pudesse responder, uma batida insistente começou na porta.

— Elisa? Elisa! Elisa você está aí? — Era a voz do Rômulo. Ela correu para a porta, e ele entrou de vez, assim que ela abriu. Ele parecia preocupado e a abraçou forte, sem dizer nada. Elisa ficou mortificada. Darcy e Thomas provavelmente estavam os observando. — Meu Deus, Elisa! Eu estava morto de preocupação! Tem dois dias que você não dá notícias, sequer recebe as mensagens. Eu liguei tantas vezes para o seu celular, achei que…

— Rômulo! — Thomas havia levantado e corrido até eles. Rômulo pegou Tom no colo.

— Tom, meu garoto! Como você está? — Ele bagunçou o cabelo.

— Rômulo, você precisa conhecer o Darcy! — Thomas disse, ainda sorrindo no colo de Rômulo. Ele desceu e saiu puxando o Rômulo na direção de Darcy, que já estava em pé. Elisa apenas seguiu eles, e ficou parada ali.

— Ah, o famoso Darcy. — Rômulo deu o seu sorriso amistoso de sempre e estendeu a mão. — É um prazer conhecer você. Imagino que seja a razão da Elisa ter sumido. — Ele olhou dela, para Darcy. Darcy sorriu e apertou a mão de Rômulo.

— Muito prazer, Darcy Williamson.

— Darcy me jogou na piscina, e molhou meu celular. Ele está no conserto, mas o Carlão demora vidas para consertar qualquer coisa aqui.

— Rômulo, a gente está montando um quebra-cabeça, você quer brincar com a gente? — Mas antes que Rômulo pudesse responder, a porta de Elisa mais uma vez foi irrompida. Dessa vez por uma moça magra, de cabelos e olhos negros. E ela estava furiosa.

— Rômulo Tibúrcio! Como você pôde? Como ousa e trair assim? Eu te amava! Nós íamos nos casar!

— Cecília?! — Elisa e Rômulo disseram ao mesmo tempo. Cecília finalmente parou e olhou para a mulher com quem ela acreditava que Rômulo tivesse uma família secreta.

— Tia Ceci! — Thomas levantou novamente e se jogou nas pernas de Cecília, a abraçando.

— Tom? Elisa? O que está acontecendo aqui? O que vocês estão fazendo aqui?

Elisabeta ficou petrificada. Ela olhou para a irmã, para o filho grudado em suas pernas, sorridente. Olhou para Rômulo, embasbacado,e por fim, para Darcy, que parecia ao mesmo tempo, entretido e impassível. Como diria sua mãe, a vaca tinha ido para o brejo.

Notas finais
Será que vamos finalmente descobrir o segredo de Elisa? Não perca, nos próximos capítulos. kkkkk